PERFIL ADRIANA CARRANCA

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Por Cristina Ramalho

 

Ela devia ter uns quatro anos e passeava feliz da vida de sainha curta e mãos dadas com os pais pelas ruas de Santos, onde nasceu, quando viu, do outro lado da calçada, uma mulher careca em surto, faca na mão, berrando do terraço de casa. Uma pequena multidão se acotovelava para ver, dava para ouvir os gritos dos passantes: “Louca! Pega! Mata!” Então a polícia chegou. Bateram muito nela.

Quarenta anos depois, ao contar agora essa história, Adriana Carranca não se lembra dos detalhes, mas não esqueceu as expressões nos rostos das pessoas. Muito menos a expressão no rosto da mulher.

“Cheguei em casa chorando, eu era muito pequena, e perguntava porque eu não era como ela, porque não tinha aquela raiva, porque falavam dela assim, porque batiam nela”. Poderia ter um caminhão de hipóteses para tantos porquês, mas não demorou muito até intuir que o jeito de chegar nas respostas era um só: ir atrás dos outros. Escutar. E, quem sabe, entender. A menina que fugia para espiar como viviam as crianças do orfanato lá da rua de trás virou jornalista e escritora premiada, menção honrosa no Prêmio Esso, duas vezes vencedora do Líbero Badaró, colunista dos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo.

Jogou um pano legal por cima dos cabelos e correu pelos países muçulmanos, foi à faixa de Gaza, à Síria, à África, ao Irã, ao Paquistão. Escreveu reportagens e livros sobre o cotidiano dos refugiados, tolerância religiosa, a vida no Afeganistão ou o tanto que a gente desconhece a respeito das mulheres muçulmanas. Um dia falou de Ronaldo e Kaká e conseguiu rasgar um sorriso na cara fechada do Mulá Abdul, um líder do Talibã, e ele acabou lhe dando uma entrevista.

Agora, fama de dar autógrafos, ser reconhecida na praia por crianças de sorvete na mão, entrevistada na TV, convidada para debater na Flipinha (versão infantil da Flip) com alunos das escolas de Paraty, Adriana ganhou ao escrever sobre uma outra menina inconformada e cheia de porquês. Malala Yousafzai, a paquistanesa de etnia pashtun que aos 11 anos começou a escrever um blog sobre a invasão de guerrilheiros talibãs na sua região, aos 14 sofreu um atentado por lutar pelo direito de toda garota de ir para a escola, e aos 17, em 2014, se tornou a mais jovem ganhadora do Prêmio Nobel da Paz. Não por acaso, Adriana fez questão de contar sua história em livro infantil, o lindo Malala, a menina que queria ir para a escola (Ed. Companhia das Letrinhas).

“Se a gente tem de mudar algo no mundo, a gente vai mudar pelas crianças, porque os adultos já têm muitas cascas, muitos preconceitos, passaram por várias coisas. A criança é aberta. Se desde pequena ela não enxergar a diferença, ela vai ter outro olhar para a menina de rua, vai crescer com outro olhar para o mundo”, ela me diz no camarim do MuBE (Museu da Escultura, em São Paulo), onde participou de um debate do canal GNT sobre igualdade.

Quando escreve para a garotada, faz de um jeito tão claro e sensível como é sua conversa: franca, voz doce, olhar firme. Mas escolhe temas de arrepiar os cabelos daqueles pais que ainda teimam em falar com os filhos no diminutivo. Em Malala tocou na intolerância, explicou o que é o Talibã, descreveu de um jeito tão descomplicado o atentado a bala.

No próximo livro, para crianças bem pequenas que ainda não lêem sozinhas, vai tratar da igualdade de gêneros. É sua primeira ficção: O menino e o espelho mágico, para uma coleção de livros digitais do Itaú Cultural. Fala de um principezinho entediado no reino azul que acaba escapando dali e conhecendo uma menina do reino rosa, e dali para frente as cores se misturam e bacana mesmo é viver todos os tons do arco-íris.

Mal botou o ponto final nessa história, só deu tempo de conversar comigo, correr para arrumar a mala e enfiar o passaporte na bolsa. Adriana foi passar uma temporada entrevistando crianças refugiadas de vários países, e também velhos que foram crianças durante o Holocausto ( “Quero juntar as gerações porque uma tem muito o que ensinar para a outra”) para outro livro, uma grande reportagem para leitores na faixa dos 12, 13 anos.

Foi com Malala que ela inaugurou esse estilo reportagem infanto-juvenil. Traz um punhado de detalhes e muita informação, tudo descrito com tanta leveza e um quê de contos de fada, porque o cenário onde a garota nasceu e cresceu, o Vale do Swat, encravado nas montanhas entre o Paquistão e o Afeganistão, não parece coisa desse mundo. Um lugar de reis, rainhas, príncipes e princesas de verdade, vilões com nomes exóticos, guerreiros herdeiros de Gengis Khan que até hoje mantêm tradições milenares, como sentar de cócoras – eles não acreditam em cadeiras – e esconder as mulheres como parte valiosa do seu patrimônio.

Em outubro de 2012, dias depois do atentado contra Malala, Adriana atravessara mar e montanhas para entender essa região bombardeada, sem eletricidade (só algumas horas de gerador por dia), sem água encanada, de onde brotou aquela menina luminosa. Espiou a casa simples de Malala. O seu quarto. Conheceu as amigas, como a Kainat e a Shazia, garotas espertas, fãs do Harry Potter e da série Crepúsculo, igualmente corajosas e baleadas no mesmo ataque. Foi à escola, fez umas compras no mercadinho, conversou com um príncipe e com o médico. Hospedou-se na casa do tradutor Sana e sua amável família pashtun, tomou o café da manhã com leite tirado de uma cabra delivery e o pão feito na hora no forno a lenha. À noite, todo mundo se sentava ao redor do fogareiro para ouvir as histórias do avô.

Tirando o detalhe da cabra, e de um ou outro hábito dessa turma que vive quase da mesma forma há dois mil anos, não era uma casa tão diferente do chalé de madeira onde morava a sua própria família em Santos. Avô, avó, tio, tia-avó, dois primos, todo mundo morando junto. Mezzo italiana, mezzo portuguesa, uma gente trabalhadeira, afetuosa. Dinheiro, quase nenhum. O avô de Adriana gostava de se sentar no primeiro degrau da escada, ela no terceiro, e ele perguntava: “Para onde a senhora quer viajar?” Ela respondia qualquer coisa e embarcavam num ônibus imaginário. Passava as tardes fazendo macarrão com a avó italiana ou jogando tômbola na casa da avó portuguesa que mal sabia escrever e pedia para a neta caprichar numas cartas para os artistas de rádio.

Adriana entrevistou Malala ao vivo e em cores na Europa, e conheceu seu pai, Ziauddin Yousafzai, dono da escola no Swat que insistia que as meninas continuassem estudando. Ziauddin se orgulhava do interesse da filha primogênita pelos livros, ensinava quatro idiomas às alunas, ainda que respeitasse as normas dos pashtuns – escola, só até a primeira menstruação, quando as moças têm de ajustar o foco da existência para o casamento. Quando Malala era pequena, ele lia poesias para ela antes de dormir.

A vida vem em ondas como o mar e, na hora, Adriana lembrou-se do Norberto, seu pai, que do lado de cá do oceano lia com ela nas noites quentes um fascículo por semana de uma enciclopédia de capa vermelha e repetia, com ênfase: “Antes de tudo, estude. É o que importa. Só pense em se casar depois”.

De algum jeito, ela e Malala pertenciam ao mesmo território.

Na verdade, nem precisava ter saído de Santos para aprender que do Paquistão ao Oiapoque, de Nova Iorque a Nova Iguaçu, somos todos muito mais iguais do que acreditamos. Quando ela era aluna bolsista do colégio Objetivo, encantou-se com um professor de artes, Renato Di Renzo, e se ofereceu para ser voluntária no famoso projeto de inclusão social criado por ele na cidade, o Tamtam, que começou como intervenção no então hospital psiquiátrico Anchieta e cresceu, transformando a vida dos pacientes e de quem mais chegasse. Renato lhe revelou algo muito maior e fundamental do que a importância de aceitar as diferenças. Mostrou que não era nem para se enxergar as diferenças (“Ele me perguntava: você se acha muito normal? Conhece gente normal? Gente normal toma remédio? Bebe?”) .

Ele fazia teatro com o improvável, como uma bailarina que dançava com os braços porque não tinha as pernas e um Romeu que esquecia as falas para sua Julieta. “Ele dizia: lidem com isso. Meu melhor ator tem amnésia”. A solução do grupo veio rápido: Romeu montava um cavalo falante que servia de ponto – falas garantidas, sucesso total. “Nunca comentei sobre isso, acho que o Renato nem sabe, mas ele foi responsável por muito do que eu sou”.

Inevitável que, como jornalista, Adriana sempre se engajasse na cobertura dos assuntos ligados aos direitos humanos. PCC, favelas, Fundação Casa eram o seu cotidiano no Estadão. Acabou fazendo mestrado em Políticas Sociais e Desenvolvimento em Londres, na London School of Economics, e foi correspondente na ONU, em Nova York, pesquisadora na Universidade de Oxford e integrou um projeto de reportagem internacional da Universidade Johns Hopkins de Washington. É do tipo aplicada: pesquisa muito, se prepara demais, tenta se proteger ao máximo contra os muitos riscos – seja o de escapar de uma zona de ataque ou do vexame de não fazer algo nos trinques. Para escrever Malala, por exemplo, entrou num curso de literatura infantil.

Mas no que interessa, o coração da matéria, está sua imensa capacidade de chegar junto. Adriana não julga. Desaparece, se veste como os locais, se esconde numa burca quando é preciso, fica morando nas casas de famílias, mais observa do que pergunta. A resposta dos entrevistados também volta – quase sempre – limpa, direta, no tom. E traz belezas inesperadas.

No Irã, ela mal desembarcou no país viu passar um táxi com o letreiro Women`s taxi. Anotou o telefone. A motorista que foi pegá-la contou, orgulhosa: casou-se obrigada aos 15, teve dois filhos, odiava o marido e queria o divórcio. Como no Irã só homens podem pedir o divórcio, a moça infernizou o sujeito até ele sucumbir e separar-se dela. Filhos ficaram com ele – é a lei. Ela uniu-se a outras moças, aprendeu a dirigir, montou a cooperativa que tem 900 táxis, juntou dinheiro, comprou os filhos de volta e dirigia toda pimpona, ganhando seu sustento. Essa e outras mulheres de fibra, donas dos seus narizes e muito politizadas, estão no livro O Irã sob o Chador (ed. Globo) que Adriana escreveu com a amiga Márcia Camargos. Foi finalista do Prêmio Jabuti de 2011.

Na faixa de Gaza Adriana quis conhecer uma deputada do Hamas, uma mulher pequena, jovem, 34 anos, que simplesmente comanda 100 homens. Foi recebida no escritório, a mulher era uma mocinha de calça jeans e camiseta, sem véu. Adriana conseguiu ir até sua casa. Viu mulheres comuns, sofridas, gente como a gente, um bairro muito pobre. No quintal apertado, filhos brincando com foguetes e armas de brinquedo. Ganhava o jogo quem matasse mais israelenses.

Surpreendeu-se muito, no Afeganistão, como o povo era amável, ingênuo, mais de 80% de analfabetos, um país que enfrentou ao longo da história sucessivas guerras e no meio daquela secura do deserto os homens cultivam rosas, muitas rosas, lindas. Escreveu 11 perfis de personagens contando a guerra do ponto de vista dos afegãos, 10 anos depois do 11/9 e da consequente invasão americana no país – formam o seu livro O Afeganistão depois do Talibã (ed. Civilização Brasileira).

E apuros, não teve? Ôpa! Na Síria, viu um carro estacionado na frente de um prédio oficial e sentiu o coração disparar. Insistiu para entrar logo no prédio, e assim que passou a porta, como previra, o furgão explodiu, matando, entre outros, seu tradutor curdo que tinha ficado do lado de fora. No Afeganistão foi assistir a um jogo, uma espécie de polo medieval, o tradutor saiu uns minutos e homens com fuzis Kalashnikov começaram a cutucá-la. Adriana, de burca, sem saber falar uma palavra, congelou de pavor. “Pensei: fui sequestrada”. Dali a pouco reaparece o tradutor esbaforido, que tomou uma dura dos sujeitos armados: que tipo de cavalheiro era ele que não arrumou uma cadeira para a estrangeira se sentar? “Eles só estavam me tratando bem”, ela ri. No Vale do Swat, descobriu só na noite em que chegou que o irmão do seu tradutor era um guerrilheiro talibã. Felizmente, já estava preso.

O marido, Jacyr (conheceram-se nos Estados Unidos, em 1995, ele estava lá estudando engenharia, e estão casados há 10 anos), diz que o coração aperta, mas entendeu que o melhor jeito de segurar Adriana é deixa-la ir. Já dona Terezinha, a mãe, ainda não dorme enquanto a filha não telefona.

Mas como ela própria escreve na abertura do seu Malala, “os jornalistas, como as crianças, adoram fazer tudo o que é proibido”. E é esse seu olhar de criança que vai atrás dos porquês de cada um. “Eu imagino sempre as pessoas como bebês, não sei explicar. As pessoas não nascem vilões, um talibã já foi um bebê. Não quer dizer que eu aceito quem ele seja, mas me ajuda a saber de onde vem a maldade, ou os valores que ele tem. Em algum momento aquele bebê deixou de ser como os outros. O que aconteceu? A gente precisa conhecer sua história. Até para nos proteger”.

Os guerrilheiros talibãs, ela explica, foram meninos tirados, na década de 1980 – ou doados – , ainda bem pequenos, das famílias afegãs muito pobres para estudar nas escolas religiosas, as madrassas. Continuaram analfabetos, mas foram treinados para guerrear contra os soviéticos, e decoraram o Alcorão em árabe (“eles não sabem falar árabe, decoram aquilo e repetem, não sabem o que está escrito”). Criados longe das mães e de qualquer garota. Só demonstram afeto entre homens. Fazem sexo com os meninos. Mulheres, só para a reprodução. “Como queremos que eles respeitem as mulheres?“, Adriana se pergunta.

“Por isso que eu sempre digo: o amor tem de vir antes. Temos de começar desde pequenos a aceitar os outros. Durante muito tempo eu sonhei em ter uma ONG de amizades, porque quando a amizade vem antes da guerra, o sentimento ajuda a relevar o conflito. Depois não adianta”.

Bem que ela tenta. Numa tarde quente como o diabo, conversando com rapazes do Hamas na faixa de Gaza, meninos armados de 17 anos, Adriana comentou: “Vocês têm tanto em comum com os meninos do outro lado. Acho que se aceitassem sentar numa mesa e tomar umas cervejas juntos ia ficar tudo resolvido”. Eles fecharam as caras: “Não podemos beber”.

Malala já declarou, num conhecido discurso na ONU, que sua vozinha lá do Paquistão foi capaz de subverter as coisas: “Uma criança, um professor, um livro, uma caneta, podem mudar o mundo”. A santista Adriana sugere a versão praiana: o bate-papo de cervejinha na mão, uma alegria real. Como deve ser a vida. Se algum dia o mistério do entendimento vai se resolver, nem os deuses sabem. Mas umas meninas como essas, felizmente, sempre hão de pintar por aí.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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KENGO KUMA VALOR

 

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Por Cristina Ramalho

A primeira ideia de Brasil do arquiteto japonês Kengo Kuma veio, como acontece com tantos estrangeiros, da música. Domingo, cinco da tarde, hora de tomar um chá e sintonizar a rádio J Wave para ouvir o programa Saúde Saudade, do DJ e produtor Jin Nakahara, que sabe tudo de MPB e suingue e toca, há muitos anos, o fino da bossa para os ouvintes em Tóquio. “Quem me falou sobre o programa do Nakahara foi meu velho amigo Sakamoto”, conta Kuma de Tóquio, por telefone, ao Valor. O arquiteto se deliciou com a leveza da música brasileira. Adorou Tom Jobim.

Kengo Kuma, 62, está entre os grandes arquitetos do mundo, hoje. Ryuichi Sakamoto, 64, você já sabe, mas não custa repetir: músico, ator, compositor, é um dos maiores artistas japoneses vivos. O encontro desses dois amigos que são a cara do Japão contemporâneo deu samba também no sentido figurado: Kuma e Sakamoto lançaram, em 2015, uma versão de um antigo jogo japonês de montar, o tsumiki, espécie de Lego em madeira. O arquiteto desenhou um bloco em formato de V, com aberturas nas pontas, e mil e uma possibilidades de criação: pássaros, casas, bonecos, um avião, o universo. Sakamoto, que tem uma ONG que atua em reflorestamento, a More Trees, colaborou fornecendo a madeira certificada.

Meses antes de lançar o jogo no mercado, Kuma e sua equipe montaram um pavilhão temporário de tsumikis gigantes na Tokyo Design Week, e crianças e adultos se esbaldaram. Mostrou que assim como os budistas acreditam que há um Deus no interior de todo ser humano, Kuma aposta que dentro de cada um de nós – por que não? — mora um arquiteto.

O tsumiki é um sambinha feito numa nota só da qual dá para se compor o que quiser. É também uma consequência do que Kuma mais gosta de fazer: juntar tradição e inovação. Pegar como base o lado mais clássico do Japão (o jogo original tinha ainda formas circulares, cúbicas, mas ele optou por usar só as triangulares) para enxugar as ideias e propor um jeito novo, lúdico, de construir a vida. Economia de espaço, materiais naturais, lirismo matemático. A beleza que é a simplicidade.

Tudo se encaixa.

Nos projetos arquitetônicos de Kuma, a madeira é tramada por experimentados artesãos, como um grande jogo de montar, formando estruturas de desenhos delicados, belos, que embalam os prédios, escondem/revelam a luz, deixam espaços vazios, proporcionam imagens poéticas como nuvens no céu. Caso da Sunny Hills, uma loja de bolos que Kuma projetou em Tóquio, casa pequena, que se tornou ponto turístico: as réguas finas de madeira, encaixadas em ângulo de 30 graus, dão um efeito de três dimensões. Um quê de conto de fadas.

É com essa filosofia tsumiki de enxergar o mundo que o arquiteto está chegando ao Brasil. Ele assina o projeto da Japan House, em São Paulo, um espaço previsto para inaugurar em 2017 e que pretende aprofundar as relações dos dois países nas artes, no business, e apresentar a contemporaneidade do Japão que nós, ocidentais, ainda pouco conhecemos (veja box). “O projeto tem de mostrar na sua arquitetura a essência da cultura japonesa e dialogar com a cultura brasileira”, Kuma explica. Criou uma estrutura de réguas de madeira trabalhadas por artesãos japoneses que conversa com uma parede de cobogós, os típicos elementos vazados da arquitetura brasileira modernista. A luz entra pelos espaços, formando desenhos, calma de templo em plena avenida Paulista.

“Vamos ter um jardim zen, com muito bambu, que é uma madeira tão japonesa e também tão brasileira”. Dentro do prédio de três andares, painéis deslizantes – chamados de fusumas – podem funcionar como paredes que se recolhem, abrindo espaços, ou fecham, dependendo da necessidade do momento. Afinal, esse é um projeto que nasce para celebrar a convivência.

Para acompanhar o andamento da obra, Kuma veio a São Paulo “umas seis, sete vezes”. Achou a cidade excitante, aberta a novas culturas, impressionou-se com o tamanho da imigração japonesa por aqui. Ele e sua equipe ensinaram artesãos brasileiros a trançar a madeira e, como sempre, Kuma se empolgou com a possibilidade de abrir o compasso, aprender algo novo. “Os brasileiros não têm uma cultura forte da hierarquia como nós, japoneses, e penso que evitar a hierarquia é muito importante, tento fazer isso no meu cotidiano”, ele diz. Trabalha com muitos jovens no seu escritório em Tóquio, o Kengo Kuma & Associates, uma equipe de mais de 40 pessoas. “Gente mais jovem me estimula demais”.

Ele criou um método de trabalho que chama de “humble method” (método da humildade). É o comedimento em ouvir o outro, trocar ideias, a cortesia oriental. Mas sobretudo é o comedimento na própria arquitetura – que ela deixe que a natureza fale. “A arquitetura deve ser uma moldura da natureza”, diz Kuma, que aprofundou mais ainda esse conceito depois de grandes acidentes naturais, como o tsunami e o terremoto no Japão. Não apenas usa os materiais naturais – argila, bambu, pedra, madeira – como busca integrar seus projetos aos lugares onde eles estão. Um estilo muito influenciado pelo amor ao seu ídolo de menino, o modernista Frank Lloyd Wright ( da arquitetura limpa integrada à natureza), e apurado pelo sentido de espaços vazios da arquitetura japonesa tradicional.

Quando criança, década de 1960, Kuma morava numa casa japonesa dos anos 1920, de madeira, com janelas e portas de papel, e morria de vergonha. “Meus amigos moravam em prédios de concreto, iguais aos americanos. Eu detestava a minha casa. Mas com o tempo fui percebendo que me sentia muito mais acolhido lá, que o concreto não me fazia sentir bem”. Quis trabalhar com isso, fazer casas, talvez. Mas o que definiu mesmo sua carreira foi entrar no Estádio Nacional de mãos dadas com o pai, nas Olimpíadas de Tóquio, em 1964. Tinha dez anos. E ficou de queixo caído com aquela imensa estrutura de concreto. Gostou mais ainda quando viu o arquiteto do estádio, Kenzo Tange, falando na TV. A Ásia vivia o boom da modernidade do concreto, grandes construções.

A vida vem em ondas como o mar e não é que Kuma foi escalado para projetar o estádio da segunda Olimpíada de Tóquio, em 2020? “Resolvi que vou criar o oposto: um estádio com muita madeira. Quero falar de harmonia, e a Ásia está voltada para a sustentabilidade, a criatividade, é outro momento”. Ele veio com a delegação japonesa assistir as Olimpíadas do Rio. “Achei tudo bonito”.

Como bom japonês, Kuma faz poesia ao mesmo tempo tão zen e tão high tech. No pavilhão do Buda, um templo em Touyoura, usou a mais moderna tecnologia do aço e o cobriu com barro, um deslumbre de leveza. Numa casa em Nagano, cortou as pedras externas em fatias finíssimas e criou ilusões com as luzes, um tipo diferente de transparência. Inventou uma casa de chá inflável no Museu de Artes Aplicadas de Frankfurt, tecnologia quase espacial combinada com ritual japonês. Fez prédios, museus na China, Inglaterra, França, está criando o projeto do museu V&A na cidade de Dundee, na Escócia, ganhou um sem número de prêmios. Tem um laboratório de pesquisas, o Kuma Lab, onde estuda sustentabilidade e novo uso de materiais.

A cada dia, diz, ele quer ser mais simples. “O arquiteto tem de ser um sushiman: fazer o máximo com o mínimo de elementos”. Tanto faz se em obras grandes ou pequenas, como ele cita num texto que escreveu comparando a arquitetura à literatura e citando seu escritor favorito, Haruki Murakami: “Murakami diz que escrever um conto ajuda a sintetizar e a buscar por algo que ele pode desenvolver num romance. Para mim, fazer uma casa de chá é como escrever um pequeno conto”. É ter aquele poder de síntese como numa canção bossa nova.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A falsa Marilyn Monroe e o verdadeiro Manhattan

Por Cristina Ramalho

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Em Quanto Mais Quente Melhor (1959), Marilyn Monroe improvisa um Manhattan durante a viagem de trem, com a bolsa de água quente como coqueteleira

O trabalho parecia moleza: botar uma peruca loira, fazer a pinta perto da boca, se apertar no vestido justo. Fani só precisava caprichar na vozinha rouca, tímida-sexy, levar o bolo até a casa do aniversariante, tocar a campainha e, quando ele abrisse a porta, a cereja do presente seria ela cantar, como a verdadeira Marilyn Monroe para John Kennedy, um sussurrante Happy birthday to you. Cachê: duzentos reais.

Quem teve a ideia foi a Adelita, namorada do aniversariante. Tinha essa fantasia: celebrar o aniversário do amado com uma surpresa hollywoodiana. Mas não se atreveria a ser a estrela – sempre de bege ou preto e branco, sempre a eficiente do escritório, com aquele rosto redondo, nariz de ursinho, não ia colar. Adelita achou o telefone de uma agência de telegramas animados. Ligou. Pediu uma Marilyn e um saxofonista.

– Então, além da Marilyn, eu quero um moço tocando o parabéns no sax. Uma cena de filme mesmo.

– Claro, querida. O sonho é seu, a gente realiza, respondeu a moça da agência.

Tudo certo. Manhã de sábado, Fani, apertada no vestido e tentando não entortar o salto do sapato um número menor, já se aprumava perto da porta. O moço do sax, terninho barato, ao lado. A namorada não se aguentava de ansiedade.

– Olha, eu vou me esconder atrás daquela árvore, ai, quero só espiar a cara de surpresa dele.

Fani achou graça. Queria ganhar prêmios no teatro, sabia de cor as peças do Antunes Filho, mas trabalho é trabalho. E bem que gostava da ideia de ser a Marilyn por 15 minutos. Era uma romântica. Achava da maior ternura fazer os telegramas animados e ver a reação das pessoas.

Tocou a campainha. Nada. Tocou de novo. Nada. Tensão no ar. A namorada começou a roer as unhas. “Toca outra vez”, sussurrou lá da árvore. Pééé. Péééé. Um sujeito meio gordo, descalço e só de cuecas, atendeu a porta. A cara dele não era boa. Fani arranhou a garganta, esticou o bolo em que se lia “Meu amor, my love, mon chéri”, e começou, sibilante: “Happy birthday to you…” O sax acompanhava.

– Mas que merda é essa? – disse o sujeito amassado de sono.  “Happy birthday, Mr. Taborda”, cantou a Marilyn, açúcar na voz. Então surgiram, por cima dos ombros do Taborda, as mãos de longas unhas vermelhas. Uma moça só de calcinha estava atrás dele. – O que foi, meu bem? , perguntou a das unhas.

– Te-le-gra-ma a-ni-ma-do da Adelita! – entoou a Marilyn a toda velocidade. O moço do sax, antevendo a tragédia, foi saindo, pé ante pé, a música soando cada vez mais longe. Adelita saiu chorando detrás da árvore.

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Marilyn, the real one, cantando Happy Birthday para o presidente americano John F. Kennedy em 1962

– Que que é isso, Adelita? gritou o Taborda. Fani deixou o bolo no chão e abriu caminho. Adelita avançou: “Seu canalha! Preparo a maior surpresa para você e você tá com outra”!

Fani pensou rápido e esticou as mãos: – São duzentos reais. O Taborda gritava cada vez mais alto. Adelita tentou pegar a só-de-calcinha pelos cabelos. Não se ouvia mais a música. O sujeito do sax já tinha desaparecido.

– São duzentos reais, insistia a Marilyn, que a essa altura já tinha arrancado os sapatos e só pensava em correr dali. Mas não ia perder os duzentinhos. Um gritava daqui, outra berrava mais alto, Adelita soluçava, Fani aproveitou o momento de fraqueza, ajudou a coitada da namorada abrir a bolsa, pegou seus duzentos, mais cem para o cara do sax, e se mandou.

Já que estava de Marilyn, que terminasse o dia com elegância cinematográfica. Calçou os sapatos de novo, foi até o bar de um hotel bacana ali perto, realizou um desejo: pediu um Manhattan. Era a bebida que a Marilyn Monroe, no papel de Sugar, improvisou no trem em Quanto Mais Quente Melhor, na cena em que o Jack Lemmon vestido de mulher aparecia com uma garrafa de bourbon. Fani não era Marilyn, Jack não era mulher, o Taborda não era o homem que Adelita imaginava. Mas o Manhattan, bem real, estava uma delícia.

À mesa com Willem Dafoe

 

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Por Cristina Ramalho

 

Uma vez o diretor grego Theo Angelopoulos estava instruindo o ator americano Willem Dafoe como queria que ele fizesse uma cena. Angelopoulos não falava inglês, mas os dois se entendiam em italiano. Era a filmagem da Trilogia II: A poeira do tempo, 2008.

O grego sério, um tipo careca, de óculos, nariz talhado, caminhava de lá para cá, explicando:

_ Você vem por aqui, e daí faz assim, e cosí… Então sentou-se, olhou firme para o ator e soltou, enérgico, uma única frase em inglês:

_ And then … You cry!

Chorar? Dafoe não achava que era preciso, mas tudo bem, se era a vontade do diretor, assim seria. O grego insistia nisso.

Então veio o pior. Angelopoulos bateu palmas e gritou para a equipe:

_ Saiam todos! Dez minutos para o ator se concentrar!

Dafoe gelou. Já se sentia pronto para rodar, era o momento certo, que fizessem a cena logo. E agora?

_ Theo, volta aqui, volta todo mundo!

O ator contou essa história, imitando os gestos e o sotacão grego do homem, num encontro com estudantes de cinema da The Modern School Film, em Nova Iorque. “Aquilo me botou uma pressão, eu não queria nada, só queria filmar”, falou, expressão perplexa. Para quê complicar?

Repetiu tudo isso, rindo, nesta conversa com o Valor, a pedidos da repórter. Estávamos jantando no restaurante Skye, no hotel Unique, em São Paulo, na véspera de sua entrevista coletiva para apresentar Meu amigo hindu, que estreou ontem, 3 de março, filme estrelado por ele e dirigido por Hector Babenco.

Tanto para os alunos lá em Nova Iorque quanto diante do couvert, agora, Dafoe quis demonstrar que atuar, para ele, é simplesmente mergulhar na cena e seguir em frente. Porque Willem Dafoe, 60 anos, mais de 40 de carreira nos palcos, 108 filmes, papéis que vão do Duende Verde do Homem Aranha ao inesquecível sargento Elias de Platoon, do psicanalista no tenso Anticristo de Lars von Triers ao próprio Cristo de Scorsese e o Pasolini de Abel Ferrara, gosta mesmo de desaparecer. Livrar-se da tentação de analisar. Ser como uma tela em branco, e que o diretor tire dele o melhor.

_ Não fico pensando se meu estilo é esse ou aquele, é preciso fazer e pronto, a coisa tem de acontecer de um jeito ou de outro.

Dafoe não teoriza.

_ Não lembro qual escritor noir disse isso, mas é mais ou menos assim: quando você está desorientado, sem saber como continuar, tenha um cara com uma arma na mão abrindo a porta.

A frase real é de Raymond Chandler (“When in doubt, have a man come through a door with a gun in his hand”).

As histórias, o jeito despachado que ele conta, sua adesão natural ao momento. Uma simplicidade que em Willem Dafoe parece ser sua forma de enxergar a vida. O diretor quis desse jeito? Ok, o filme é dele. É para dar entrevista? Então o ator chega na hora, é gentil, aceita sentar mais para lá para o fotógrafo acertar a luz. Fãs no restaurante querem fotos? Pois não. Trata todo mundo bem, faz piada com sua pouca altura – sim, Dafoe é baixinho – e volta rápido para a mesa, focado para a conversa. Só pede, com delicadeza, para trocar de lugar por causa do forte ar condicionado. A hostess do Skye propõe desligar o aparelho. Tudo certo.

Ele está um pouco gripado e quer apenas água sem gás e, por enquanto, uma sopa de legumes de entrada. A assessora de imprensa, Claudia Sabbagk, também vai de sopa e escolhe um refrigerante. Mais águas, ceviche e polvo provençal como entradas para repórter e fotógrafo. De vez em quando, o garçom passa com uma cesta de pãezinhos quentes para abastecer o couvert. Dafoe pega um pãozinho multigrãos. Faz um barulho danado no restaurante, já está cheio, então estamos sentados bem pertinho um do outro para podermos conversar.

Antes da primeira pergunta, ele quer saber o que esta repórter achou do filme. Resposta: “A brincadeira é assim: quem faz as perguntas sou eu, você responde”. Ele ri.

O filme conta uma história inspirada no próprio Babenco: a do cineasta Diego Fairman, homem que descobre um linfoma e tem de lidar com a morte à espreita e a vida depois disso. Dafoe foi compondo sua atuação como muitas vezes costuma fazer: a partir da transformação física do personagem. Ele, que já é magro, vegetariano, e pratica yoga ashtanga há anos, teve de virar quase um faquir para perder 9 quilos.

_ Reduzi muito as porções, cortei o álcool, raspei a cabeça, as cenas foram em boa parte num hospital. Tudo isso vai ajudando a entrar no personagem, ele vai tomando conta.

_ Achou mais difícil interpretar um personagem inspirado em alguém que não apenas é real e está vivo, mas aqui, no caso, foi o seu chefe?

_ Não, isso não influenciou. Babenco tinha muito claro o que pretendia, mas de vez em quando queria que eu criasse o “meu” Diego. Na verdade palpitei muito pouco, e nem sempre acertava (risos). Por exemplo, nas provas de roupas. Ele nunca concordava com o que eu escolhia, dizia “Jamais eu usaria isso se fosse o Diego”. E escolhia outra. Tudo bem, não sou ligado em roupas, o Babenco entende, é todo elegante, presta atenção no que a gente veste — fala, meio gozador, sobre o cineasta, de quem é amigo há anos.

Já o cenário o ator conhecia bem: de pequeno, meio a contragosto, Dafoe ia seguindo o pai médico no trabalho pelos corredores do hospital e assistindo suturas, vendo injeções, observando pacientes. O que não estava previsto é que, uma semana depois de começar as filmagens aqui no Brasil, o ator receberia a notícia que seu pai havia morrido. _Ele estava bem velho, 97 anos, era natural que isso fosse acontecer logo. Mas realmente me afetou, e de alguma forma influenciou no meu trabalho. Meu pai era um homem muito esforçado e foi ficando mais doce com o tempo, sabe? Nossa relação foi ficando outra.

Três anos antes, sua mãe tinha falecido aos 90. Estavam morando na Flórida.

Os Dafoe eram uma típica família da pequena Appleton, Wisconsin, na América dourada dos anos 1950, com jantar farto à mesa, filhos educados, a felicidade tinindo nos eletrodomésticos, móveis de pés palito e firmes valores de vida. Quer dizer, sua biografia era para ter sido assim. Só que o pai, William, e a mãe, Muriel, enfermeira, trabalhavam juntos e nunca estavam em casa.

_Éramos oito filhos, cada um tinha um horário, a gente não conseguia jantar todos juntos e aquele roteiro idealizado pelo meu pai não deu muito certo.

Ele teve sorte: foi o sétimo da prole, quando Dr. Dafoe já não tinha tempo e paciência para ser rígido como foi com o primogênito, que não escapou de ser médico também. O pequeno Willem cresceu mimado por cinco irmãs, e elas lhe ensinaram umas coisas fundamentais da vida: corriam pela casa com um pênis desenhado em papelão pregado na calcinha e contavam piadas sujas.

Família classe média, trabalhadora, liberal, falava-se de tudo, e de política (“Wisconsin era um estado engajado, Milwaukee tinha sindicatos fortes, era bem socialista”, diz), mas para arrumar sua própria turma Dafoe começou a fazer teatro aos 17 anos. Gostou, e aos 18 entrou na faculdade de teatro Wisconsin, em Milwaukee. “Nem escreve isso, porque ninguém nunca ouviu falar”, ele brinca. Não terminou. Foi para a Europa em turnê com o grupo de vanguarda Theatre X, de Milwaukee. Na volta, se mandou para Nova Iorque.

Chegou numa cidade em ebulição, meados da década de 1970, quando era só dar uma voltinha no quarteirão e esbarrar com o Scorsese dirigindo De Niro e Harvey Keitel em Caminhos Perigosos, ou caminhar até a Factory de Andy Warhol para espiar a turma que circulava por lá: Truman Capote, Nico, Velvet Underground. Era uma Nova Iorque violenta, mas falava-se sobre arte conceitual, Philip Glass, John Cage, dança contemporânea, os aluguéis eram possíveis, bastava raspar o reboco de algum armazém para brotar um estúdio. Qualquer tema servia de estímulo para se fazer o que desse na telha. E o que aquela galera colorida que chegava de todos os lugares do país e do mundo menos precisava era de estímulo.

_ Eu tinha uma visão romântica de Nova Iorque, não gostei logo de cara. Fiquei sacudido com o que vi, era muita energia, as pessoas viviam cada dia como se fosse o último da vida delas. Aprendi um bocado.

Mais tarde sofreria com a perda de vários amigos que morreriam de Aids durante os anos 1980 e 90.

Mas com 20 anos, em 1975, um Dafoe cheio de ideias frescas era o mais jovem dos fundadores do The Wooster Group, dirigido por Elizabeth LeCompte, com quem ele acabaria se casando. O grupo, que ocupou um antigo armazém no SoHo também usado pelo pessoal do Fluxus (famoso movimento de arte que teve nomes como Yoko Ono, Joseph Buys e Nam June Paik), existe até hoje, e atualmente usa bastante tecnologia na linguagem. “É interessante, mas não é muito meu estilo”. Dafoe saiu de lá em 2005, mesmo ano em que conheceu, em Roma, sua atual mulher, a cineasta italiana Giada Colagrande.

_ Trabalhar numa companhia de teatro tão experimental e por 30 anos foi incrível, mas também limitador porque a gente tem de se dedicar tanto a ela que não há tempo para fazer outros espetáculos.

O fato de atuar nesse esquema explica seu jeito topa-tudo. Companhia teatral é sinônimo de trabalho artesanal, coletivo, ou seja, botar a mão na massa, de um toquezinho na iluminação à martelada no prego. Até Jack, seu único filho, hoje com 32 anos, cresceu nas coxias mas também entrou no palco, fez de tudo ao lado de pai e mãe.

_Acho que ele ficou cheio disso, porque virou advogado.

_ Como você é como pai?

_ Como uma mãe, hahaha! Sabe o que é, a mãe dele sempre foi workaholic demais.

As performances do Wooster sempre se misturaram com dança, e os atores se relacionavam com grandes mestres da dança contemporânea, como Merce Cunningham, Martha Graham, Pina Bausch. Dafoe se considera um dançarino, um pouco pelas piruetas no palco, e muito pelo conceito de atuação quase orgânico, de se colocar no próprio espaço e não refletir mais. Apenas seguir no ritmo.

_ Quando faço um espetáculo, termino a sessão com a sensação boa, aquele cansaço do dever cumprido. É como arar a terra, um trabalho físico, concreto, que se completa ali, na hora.

Surge o garçom, discreto, cardápio nas mãos. Quer saber o que vamos pedir como pratos. Decidimos repetir as entradas. Willem pede o polvo provençal com batata rústica, todos (com exceção da assessora, que pede um prato principal, o filet mignon ao molho de foie gras) acompanham, o garçom sugere uma porção dupla para cada um, os pratos são pequeninos. Que venham os polvos duplos.

No cinema ele começou no desastre de crítica e bilheteria que foi o filme O Portal do Paraíso (1981), de Michael Cimino. Desastre pessoal para Dafoe também, porque ele riu alto de uma piada durante o ajuste de iluminação, Cimino não achou a menor graça e lascou um “está demitido”. Cinco anos e uns filmes depois, ele se tornaria um astro ao fazer o sensível Sgto. Elias de Platoon (1986), de Oliver Stone. Não parou mais.

_ Faço grandes filmes, desses que dão bilheteria, para chamar a atenção para meus filmes pequenos.

Com aquela voz grave, o rosto fora do padrão hollywoodiano e o gosto por se atirar sem olhar, logo ganhou o coração dos cineastas mais autorais, mais doidos, mais intensos. Abel Ferrara (“Pasolini foi um filme sem script, intenso, criativo”), Lars von Triers (“Adoro o Lars, a gente se entende muito bem, e ele gosta de mudar constantemente”), Martin Scorsese, Wes Anderson, Spike Lee…

No teatro, fez espetáculos com outro gênio denso, Bob Wilson (“Já o Bob mantém sempre o mesmo estilo”), como a ópera experimental Vida e Morte de Marina Abramovic, em que ele, maquiado e de cabelos vermelhos, canta e faz diversos papéis ao lado da artista rainha da performance, numa visão poética sobre a vida dela. Ou a peça A Velha, ao lado de Mikhail Baryshinikov, montada em São Paulo em 2014. Foi durante essa turnê paulistana que sentou com Babenco, checou a agenda e topou fazer Meu amigo hindu.

Dafoe trabalha muito. Tem cinco filmes prontos para estrear em breve. Está fazendo mais um – projeto ainda em segredo – com sua mulher. Conheceram-se na rua, em Roma, apresentados por amigos comuns. Um dia, no impulso, ele a pediu em casamento durante o almoço, ela disse sim, ligaram para a Prefeitura e ouviram que, se chegassem em até duas horas, poderiam marcar o casório para o dia seguinte. Correram para lá e estão há quase 11 anos juntos. Escreveram o filme Before it had a name (Antes tinha um nome), drama romântico que Giada dirigiu e ambos atuaram sobre uma jovem italiana que vai a Nova Iorque. O filme abriu o Festival de Veneza de 2005 e foi relançado em DVD com o título The Black Widow (A viúva negra). “Ajudei no roteiro porque na época minha mulher não escrevia bem em inglês, mas não gosto de escrever. Não tenho o que dizer, porque quando penso uma história ela já se completa na minha cabeça, não vejo porquê contar”.

Giada é 20 anos mais jovem que ele e adora o Brasil (para onde já vieram algumas vezes) – mas não pôde vir dessa vez. Quando pequena, sua casa vivia cheia de artistas, amigos da mãe dela, que tocavam e cantavam bossa nova, uma alegria com cara de verão que ficou na sua memória. A italiana ainda busca patrocínio para um filme que pretende rodar em breve no Brasil, chamado Trópico.

O casal passou o réveillon retrasado no Rio com Seu Jorge, amigo chegado de Dafoe desde que eles fizeram o filme A vida marinha com Steve Zissou (2004). “Adoro a sogra dele, a mãe da Mariana, ela é cool, você conhece? “

O garçom retira os pratos. Sobremesa? Dafoe dispensa. “Não sou de doces”. Pede um chá, acompanhando a assessora. Creme brulée de milho com pipoca com chocolate e cheese cake de limão siciliano com sorvete de tangerina para repórter e fotógrafo. Falamos de comida, sabores preferidos, ele diz que gosta de cozinhar de vez em quando, de cuidar da casa, lavar a louça.

_ Gosto de fazer essas coisas simples, acho que ajudam a gente a meditar.

Hoje, vivendo mais em Roma do que em Nova Iorque, sai a pé para comprar umas coisas nas mercearias ao redor do seu pedaço, a Piazza Vittorio. Adora caminhar pelas cidades. Já Los Angeles não é a sua praia.

_ Vou, vejo meus amigos, é legal, mas Hollywood não tem a ver comigo. Em Nova Iorque posso ligar para um amigo e falar “vamos tomar um drinque” e ele vai. Em Los Angeles tenho de marcar com antecedência, o cara vai checar a agenda com os assessores, tudo é complicado.

O jantar está chegando ao fim, pedimos a conta. Dafoe confessa que às vezes acha que devia se calar e nunca mais dar entrevistas. Por quê? “Não me acho tão articulado, e também já me senti traído às vezes”. Será que tem recado aí, terá a repórter perguntado algo que não devia? “Não, não, é um receio meu. Acho melhor as pessoas não saberem de tudo. Assistir a um filme sem saber se aquele ator é rico, ou pobre, ou hetero ou gay. Se eu ler numa entrevista, por exemplo, que um ator gosta do Donald Trump, não quero mais ver nenhum filme dele”. E dá risada.

_ Mas você se expressa de tantas formas, não pensa em dirigir um filme?

_ De jeito nenhum. Quero estar no meio da brincadeira, não quero ficar olhando como os outros estão brincando. A verdade é que no fim das contas não importa a carreira que a gente escolhe, o mais importante são as pessoas para mim. Trabalhar com gente, é disso que eu mais gosto.

Ele se despede com um abraço afetuoso. Chegou há um dia, na manhã seguinte tem coletiva, fotos, todo o ritual de astro que parece não combinar com esse sujeito que diz, de alma sossegada, “Nunca sou a primeira escolha para os papéis, e tudo bem”. Mas o ator vai encarar papel real inédito agora: acaba de ser avô. “O bebê se chama Tom”, conta, e abre um sorriso de quem está num momento certo da vida. É só seguir em frente. Para quê complicar?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O WIT DE ARACY DE ALMEIDA

A genial Aracy de Almeida voltou às bocas com o livro de Eduardo Logullo, contando suas melhores histórias. Quase todas vividas diante de uma cervejinha preta. Ou de muitas outras bebidas…

Por Cristina Ramalho

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“Vai levar 10 mangos pela cara de pau”

Os que já passaram dos 40 lembram dela como a jurada implacável do Programa de Calouros do Silvio Santos, roupas absurdas, óculos gigantes de mãe complexa. Sujeito que desafinasse ela não perdoava. E tinha cacife para isso: a cantora Aracy nunca desafinou nos inúmeros sambas que gravou, um repertório repleto de Noel Rosa, claro, e de tantos outros grandes: Ary Barroso, Custódio Mesquita, Ismael Silva, Ciro de Souza. Paulinho da Viola diz que ela era a melhor cantora do Brasil.
Quando o calouro não escorregava nas notas, e sim na imagem, a jurada também não perdoava, mesmo que desse boa nota: “Esse rapaz, um rapaz bonito! Canta bem. Meu filho, eu vou te pedir um favor: troca de calças, tá bom? Tão largas demais. Tá tudo badalando”. Diante de uma candidata que não acertava uma e era dona de uma bunda descomunal, soltou essa: “Tu não canta nada, minha filha. Mas vai levar 500 pratas pelo calibre da jaca”.

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Propaganda de 1940 da cerveja Cascatinha, a preferida de Noel Rosa, parceiro de Aracy em muitas esbórnias pelas tabernas do Rio

Ela própria tinha outro trunfo além da voz afinadíssima: os peitos mais bonitos do Rio, eleitos nos dourados anos 1950, segundo relatos verídicos. Mas Aracy nem precisava levantar a blusa para embasbacar qualquer pessoa: bastava falar com aquela voz anasalada, as gírias inacreditáveis (“O mingau anda grosso”; “Eu tô nas bocas”), as tiradas certeiras, uma Dorothy Parker tropical. Enquanto Dorothy soltava o wit lá na mesa redonda do hotel Algonquin, cercada pela fina flor dos escritores, nossa Aracy fazia o mesmo, com mais verve ainda e em companhias desse naipe para cima: Noel, Ary, Mario de Andrade, Antônio Maria, Sergio Porto, Ataulfo Alves. Papo regado a cervejas pretas. De preferência na mesa da Taberna da Glória, que tinha um contrafilé com fritas sensacional. Ela e Noel também amavam a cerveja Cascatinha, um clássico dos anos 1930. Logo se entenderam: ele amou sua voz e compôs sambas divinos para ela; ela sacou de cara a personalidade do amigo: “Ele não era um monstro, mas o queixo dele era meio fajuto, sabe?, então era tímido”.

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Aracy jovenzinha, ensaiando os sambas de Noel

Era uma vida animada. Para Wilson Batista, ela contou a história de Amélia, uma mulher que existiu de fato, Ataulfo Alves ouviu, e nasceu assim “Amélia é que era mulher de verdade”, de Mario Lago e Ataulfo; um dia Kid Pepe encostou uma faca enorme na barriga de Aracy para ela gravar sua música “O que tem Iaiá”. “Eu gravei, compadre, com a faca na barriga e tudo”. Na boate Vogue, Aracy saiu no tapa com a amiga Linda Batista (“A gente entornava um pouco. E aquilo de bêbado não tem dono, sabe?”). Carmen Miranda, assim que chegava ao Rio, telefonava para Aracy para aprender gírias novas. Várias dessas histórias estão compiladas no delicioso livro Aracy de Almeida Não Tem Tradução, de Eduardo Logullo. Outras tantas, bem, basta citar o nome dela que alguém lembra de alguma ainda não contada.

Hoje “a madrugada não tá dando pedal”, e Aracy não está mais nas bocas. Morreu em 1988, aos 73 anos. Já mais velha, quando deixou de tomar a “bomba” (cachaça com limão), esqueceu o passado e deixou a sábia lição que registramos aqui para os amantes do Dringue: “Eu tinha uma coisa: eu bebia, mas o fino. Só tomava uísque escocês, vinho estrangeiro, aquelas coisas… e champanhe. Foi no tempo do Ibrahim Sued, que inventou aquele negócio de champanhota. Fui muito grã-fina”.

 

À MESA COM ANDY SUMMERS

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Por Cristina Ramalho

Por trás daquela cara de inglês típico do guitarrista Andy Summers se esconde uma alma carioca da fase dourada do Rio, ali pelo início dos anos 60. Não é só porque ele gravou o DVD United Kingdom of Ipanema com Roberto Menescal, ou porque compôs uma bossa nova nos seus tempos do Police que virou hit, Roxanne. Desde o dia em 1959 quando, aos 17 anos, Summers assistiu Orfeu do Carnaval no cinema de Bournemouth, cidade onde cresceu, a música brasileira abriu um sol no coração do inglês. “Luiz Bonfá, Tom Jobim”, ele repete, sotaque britânico, os autores da trilha do filme. As canções, a história, aquele país exótico chamado Brasil, tudo era sua praia.

Summers era um garoto de gostos modernos como eram aqueles rapazes mais velhos de Ipanema que estavam lançando uma música com tanto charme, tanto suingue. Poderia ter sido amigo de Tom, Bôscoli, do próprio Menescal, do Vinícius, e tomar umas no Jangadeiro, acenar para a Nara Leão, ouvir um som no Beco das Garrafas. Assunto não iria faltar. Falariam das mesmas coisas que ele adorava: o jazz, o cinema europeu, os retratos em preto e branco, o interesse por poesia e artes plásticas, e, claro, umas garotas. Com Tom Jobim, o bate-papo de chope na mão seria sobre um ídolo em comum: Villa-Lobos. “Toco Villa-Lobos sempre, posso tocar todos os dias”, Summers diz.

Mas o jovem inglês não veio para Ipanema. Atravessou o mar para ancorar em outras praias: as da Califórnia. Estudou música em Los Angeles, formou-se na California State University na década de 1970, e aliás é na Califórnia que vive hoje. O que ele ainda não sabia é que o amor por Villa-Lobos e pela bossa nova seria responsável por um dos encontros fundamentais da sua vida. Foi sobre o compositor brasileiro que Summers conversou, em Londres, no dia em que conheceu outro músico inglês e descobriu uma alma gêmea musical: o baixista Sting.

“Sting amava Villa-Lobos, assim que a gente se conheceu fomos tocando a música dele, de Bach, e jazz, e falamos de bossa nova, um olhava para o outro e yeah!, imediatamente tivemos uma conexão. Sabe, é essa a razão do sucesso do Police: nós três (eles e o baterista norte americano Stewart Copeland) tínhamos muito conhecimento musical, sabíamos de música clássica, viemos de outras bandas, era um outro background. Somos músicos, não apenas roqueiros”, Summers explica nesse almoço com a reportagem do Valor, no elegante restaurante Piselli, nos Jardins, horas antes de ele embarcar para Belo Horizonte, última cidade da turnê que vinha fazendo com o baixista Rodrigo Santos, do Barão Vermelho, um dos seus muitos amigos brasileiros.

Já estava animado de rever a amiga Fernanda Takai (com quem fez o álbum Fundamental, em 2012), ouvir Milton Nascimento e visitar Inhotim. “Levei um bom tempo para entender Minas Gerais, é tão diferente do Rio”, ele diz, totalmente em casa no nosso país tropical. Mais de 50 anos depois daquela tarde vendo o Orfeu do Carnaval, Summers é hoje um cidadão half Brazilian, vem para cá quase todos os anos, tocou com o Gil, escutou samba de Noel Rosa, acha o som do Pixinguinha “uma alegria”. Só falta aprender português e batucar um sambinha na caixa de fósforo.

Pouco antes do almoço, enquanto esperávamos na mesinha junto ao bar, a assessora de imprensa havia advertido que ele não queria falar sobre o The Police, a banda que durou apenas seis anos, de 1978 até 1984, vendeu mais de 50 milhões de discos e foi responsável por trazer arranjos inovadores, sofisticados, um toque de improviso jazzístico e de frescor para o rock inglês, então dominado pela cena punk. E pelas canções que boa parte do mundo sabe de cor: Every breath you take, Every little thing she does is magic, De Do Do Do De Da Da Da, e muitas, muitas outras. O tema só foi entrar na conversa depois da sobremesa, na hora do cafezinho. Summers tomava um cappuccino enquanto contava sobre suas influências, de quais artistas ele gostava quando jovem, e, bem, como não falar do Police? “Sting, Stewart, eu, nós realmente criamos um som muito especial, bordamos a música com texturas, como uma tapeçaria”, explica, trançando as mãos para reforçar o toque poético. “Começamos como punks mais por causa de Stewart e porque naquela época, em Londres, todo mundo tinha de ser punk”.

Mais detalhes sobre a vida de rock star Summers deixa para quem quiser ler a sua autobiografia, One Train Later, lançada em 2006 (o título se refere a “o encontro” que realmente mudou sua trajetória para sempre: no trem em que conheceu Stewart Copeland), e agora traduzida para o português, em edição da Ed. Neutra. Ele participou há pouco de uma tarde de autógrafos do livro na Livraria da Travessa, no Leblon. Com prefácio de The Edge, do U2, é uma história prá lá de intensa, e ser um dos maiores guitarristas do mundo é só um pedaço dela. Já começa quente: a mãe de Summers era uma cigana bonita chamada Red que trabalhava em uma fábrica de bombas durante a guerra. O pai, da Força Aérea. Andy Summers nasceu num trailer no acampamento cigano, em frente uma mulher com as mãos cobertas de anéis prevendo seu futuro no tarô enquanto ele dava a primeira mamada.

Do livro, naturalmente, saiu um filme: o documentário Can`t Stand Losing You: Surviving The Police, de 2012, dirigido pelo americano Andy Grieve. Traz imagens dos tempos psicodélicos, quando Summers tocava na banda The Animals, até o sucesso absoluto e a dissolução do Police. E a volta dos três para apenas uma turnê, mais de 20 anos depois, a famosa Reunion Tour, em 2007. Tudo com muitas fotos de Summers. Em uma cena profética, ele e Sting, cabeludos e com cara de moleques, estão dando uma entrevista e Sting, brincando, diz: “Nós vamos fazer isso para sempre?” Summers responde: “Não está no nosso contrato”.

Turnê e lançamento do livro são boas razões para ele ter vindo novamente ao Brasil, mas a principal, em São Paulo, foi a exposição das suas fotografias, chamada Del Mondo, que inaugurou a galeria Leica, em Higienópolis, e fica em cartaz até 5 de outubro. O nome é autoexplicativo: uma série de 42 fotos que Summers vem tirando por cidades do mundo todo, desde 1978, em turnês ou não. Foi no dia seguinte à abertura que almoçamos.

Éramos seis à mesa: Luiz Marinho, da galeria Leica; Luiz Paulo Assunção, seu agente há 20 anos, que também trabalha com Roberto Menescal; Silvia Balady, assessora de imprensa; Luiz Ushirobira, o fotógrafo, e esta repórter. Fazia um calor danado. Summers chegou atrasado, meio ansioso – estava antes dando uma entrevista para a TV – e, mal sentou, resolveu que não queria ser fotografado durante o almoço. Dali a pouco, mais relax diante do couvert e de um peixe defumado de entrada, abriu a guarda e um sorrisão quando a conversa começou pelo seu amor pela fotografia.

_ Algumas das suas fotos me lembraram o trabalho do japonês Daido Moriyama (o pai da fotografia de rua no Japão, faz um uso bem particular do preto e branco).

__ Sim, sim, Daido. Falo pouco dele porque pouca gente o conhece. Eu o admiro demais, é um dos meus grandes ídolos. Sabe que eu estava num workshop de fotografia em Tóquio, uns anos atrás, e me apresentaram o Daido. Ele não falava inglês, conversamos com um tradutor, e era muito gentil. Fomos todos jantar num restaurante em Shinjuku, depois nos despedimos, eu estava tão feliz que virei a rua, peguei a câmera e fui tirando fotos. Ele fez o mesmo, vindo do outro lado. Na esquina, esbarramos um nas costas do outro e gritamos Ahhh!!!, uma comédia”, ele conta, rindo.

Assim como Daido, Summers sai com a câmera por aí, à noite, registrando instantes de beleza, solidão, isolamento. Atento ao espontâneo. Faz isso quase como um espião, sem ser percebido. “Entro num ônibus, ou estou na calçada, no bar, boto a câmera aqui (simula o gesto, como se ela estivesse debaixo do seu braço), viro, disfarço, me escondo”. Invisível que retratou um japonês largado no trem, um garçom carregando a bandeja cheia de pratos como se carregasse o peso do mundo, um velho oriental na barraca de quinquilharias. Em várias imagens não se vê os rostos: é o detalhe da mulher acendendo o cigarro, ou a garota de costas segurando o disco de Elvis. Um clima em PB que lembra as telas em cores densas de Edward Hopper.

Ele já tirava fotos desde menino, na Inglaterra, quando, aos 14 anos, trabalhou num antigo resort em Dorset onde haviam morado Mary Shelley e Robert Louis Stevenson, fotografando na praia os turistas de sorrisos posados e sorvete na mão. Naquele tempo nem ligava para a câmera. Queria as moedas. Porque no fim do dia, abria a mochila e tirava dela um catálogo de guitarras Gibson, com fotos de grandes guitarristas – e sonhava com o momento em que pusesse as mãos em uma.

Só comprou sua primeira Leica em 1978, durante uma turnê do Police, e foi retratando os passos da banda, os fãs, os hoteis, as limousines, Sting fazendo a barba, e também pessoas anônimas, prédios, ruas, estradas, revelando uma America com profunda melancolia, olhar muito inspirado pelo trabalho do genial fotógrafo suíço Robert Frank. Publicou dois livros de fotos das tours com o Police: Throb, em 1983, e I’ll be watching you: Inside The Police, em 2007 (com fotos de 1980 a 1983).

“Fotografei muito a América na década de 1980, e hoje revendo as fotos fico chocado, parecem muito velhas, um passado distante. O que eu fiz é o documento de uma época que não existe mais. Não tinha Starbucks, não tinha ninguém com Iphone. Aquela América acabou”, ele conta. A geração de Summers cresceu sonhando em botar o pé na estrada como Jack Kerouac e curtir a vida adoidado feito os beatniks. Anos mais tarde, já famoso, Summers conheceria pessoalmente o mito William Burroughs. Foi convidado para compor a trilha do filme Junkie (baseado no livro do escritor beat), que não aconteceu.

_ O que achou do Burroughs?

_ Um cadáver. Ele não abriu a boca nenhuma vez. (faz uma cara engraçadíssima de velho decrépito)

Allen Ginsberg, o papa dos poetas beats, também não lhe causou boa impressão. “Arrogante demais”.

Estamos falando por um tempão, o restante da mesa já nos olha com fome e quer pedir os pratos. Summers pergunta um pouco sobre o que tem, dizemos que o Piselli tem culinária internacional, mas é um restaurante italiano, as massas são a atração. “O que tem de pasta?” O garçom traz o cardápio em inglês, todos palpitamos sobre os pratos, ele acaba escolhendo o ravioletti di formaggio boursin al pomodoro e basílico. Para a repórter, pesce al forno con zucchine. Os demais vão de ravioli di brie e pere alle erbe, filetto di manzo al gorgonzola e pere al vino tino, spaghetti al frutto di mare. Nada de álcool. Águas e cocas para todos.

Se a música abriu a estrada, ele aproveitou para descobrir o mundo. Fazendo fotos ou simplesmente conversando onde chega, quer sempre aprender sobre os lugares, pergunta da política, tenta entender a cultura, se entrosa com os locais e dali a pouco já é brother, tocando junto ou comendo com os novos amigos. “Não acho graça em ficar trancado no hotel vendo TV, não quero ser ignorante”.

No Paraguai, por exemplo, convidado para o festival de música Encuentros de Alma, em homenagem ao grande violonista paraguaio Augustin Barrios, de quem é fã, Summers escreveu um ensaio/ entrevista emocionado sobre a música de Barrios relacionada à história política do país. Era 2004, época das eleições, e ele descrevia a sensação de estar num país ainda tentando se reconstruir quinze anos depois do fim da ditadura de Stroessner. Na China, há pouco, Summers conheceu um chinês que acabou levando o músico para comer na casa de amigos — “Uns motoristas de caminhão, gente boa”. Mostra agora no seu Ipad, na mesa, as fotos que tirou deles, durante o jantar, trabalhadores risonhos numa casinha simples em uma pequena cidade chinesa, ninguém tinha a menor ideia de quem ele era.

O ravioletti estava bom, diz, depois de comer com gosto. Sobremesas? Todo mundo na mesa sugere opções, o creme brulée do restaurante é conhecido, saboroso, Summers fica em dúvida. E o pudim de chocolate com café? O garçom, gentil, vai e volta várias vezes para atender nossas mudanças de ideia. Pedimos três sobremesas (dois creme brulées e um pudim) para todos. Summers titubeia, mas acaba dispensando a dele. Abre de novo o Ipad para mostrar “uma coisa maravilhosa”. São fotos de uma orquestra chinesa de músicos na faixa dos 80, 90 anos, tocando instrumentos medievais. Um deles tem uma expressão como se estivesse no céu, de tão encantado. “A música tem uma força”.

A primeira vez que Summers sentiu isso foi aos 13 anos, quando ligou a TV e viu o guitarrista Eddie Cochran empunhando uma Gibson. “Foi um momento de epifania, um tóing saltou da tela e inundou a sala de blues e sexo”, ele escreveu na abertura do seu livro de ensaios Light Strings (2004). A música deu todo o sentido para uma existência que não era moleza.

É que por trás daquela vida de super roqueiro típico de Andy Summers, que já vendeu guitarra para Eric Clapton, se entupiu de cogumelos alucinógenos, em Bali, com o amigo John Belushi, foi ovacionado em estádios, sempre colecionando garotas de todos os cantos do planeta, também se esconde uma outra alma, introspectiva, melancólica, solitária. Uma angústia que vem dos mares frios. A infância na cidade litorânea de Bournemouth foi difícil, período internado com o irmão em orfanato, os tempos de falta de grana e de perspectiva, a eterna necessidade de se expressar. Ele escreve, gosta de autores densos, em particular os russos “Dostoievsky, Tolstoi, Tchecov, sempre releio”; pinta, há muitos anos, e se identifica com o intenso expressionismo alemão.

Nasceu mesmo para ser músico, diz. “Achava que seria músico de jazz, ouvia sem parar Wes Montgomery, Thelonious Monk, Chet Baker, Miles Davis”. Hoje se abre para todo tipo de encontro. “Sou capaz de tocar tudo, tenho essa curiosidade intensa”. Ganhou um sem número de prêmios também em carreira solo. Quando trabalha em seu estúdio, um prédio de grandes janelas diante do mar de Venice, fica imerso por horas. “Sou disciplinado, focado”. O estúdio já pertenceu a Madonna e ao pintor Basquiat. Summers acha graça quando conto que o filme que abriu Basquiat para a música foi também Orfeu do Carnaval.

Comemos as sobremesas, ele pega a colher para provar um teco do creme brulée, pede um cappuccino. Luiz Paulo, seu agente, comenta que estão atrasados para pegar o avião. Summers começa a contar do seu mais recente disco (“É uma síntese de vários sons que gosto, tem muitas texturas, é meio experimental, mas acessível”), aí fala das suas influências, e do Police, e vai se animando. E agora a música toma de vez a conversa, é a sua praia, poderíamos começar outra entrevista, de tanto assunto. Mas está na hora. Ele se levanta, dá um abraço apertado e se despede como se a gente fosse se encontrar de novo, qualquer dia desses. Bom, daqui a pouco Summers deve estar de volta ao Brasil, tomando um ar fresco, pedindo outro chope, tocando mais uma com seus novos amigos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

À mesa com Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes – Valor Econômico

Por Cristina Ramalho                                        Foto divulgação/ site Arnaldo Antunes

 

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Paulo Mendes Campos já escreveu em crônica que ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba. E, quando a gente vai ver, não é que ele parece mesmo um pincel de barba?

É com esse frescor que Arnaldo Antunes parece enxergar o mundo. Das situações mais comuns, do varejo da vida, ele aponta o inesperado. Faz a gente ver o que não via. Tudo pode ser um pincel de barba. As letras das suas canções tão elaboradas e talvez por isso mesmo tão simples, com olhar de criança (“Saiba: todo mundo foi neném/ Einstein, Freud e Platão também…quem tem grana e quem não tem / Saiba: todo mundo teve medo/ mesmo que seja segredo”, em Saiba). As que subvertem a ordem das coisas (“Cinema assiste, cena vê, cor enxerga” em Imagem). E, claro, as frases de criança mesmo, como as do seu caçula, o Tomé, anotadas pelo Arnaldo pai quando o filho tinha 3 anos (“Só mais um outro último, tá? Eu quero muitos últimos”) e compiladas no livro As frases de Tomé ao 3 anos.

 Arnaldo tem aquela rara capacidade de olhar as coisas como se fosse pela primeira vez. Nas horas de folga das turnês, enquanto os músicos cochilavam no hotel, ou em São Paulo, fazendo algo que adora – caminhar pela rua –, ele pegava a câmera e saía por aí fotografando placas de rua, cartazes, dizeres curiosos. Voltava para casa com um arsenal de “mega”, “here”, “horário” “selfservice”, em inglês, português, anúncios espalhados por São Paulo e pelas cidades que já conheceu. Foi juntando tudo por mais de 20 anos, depois trabalhou um bocado no computador, digitalizando imagens, usando animação em stopmotion, e criou mosaicos em caixas com dizeres, formando jogos gráficos, explorando a semântica. O resultado (e mais telas, cartazes com palavras em redemoinhos, ou sobrepostas, formando desenhos e multiplicando significados) pode ser visto na exposição Palavra em Movimento, em cartaz no Centro Cultural Correios, em São Paulo, até o final de agosto.

Caminhar, para ele, é o melhor modo de ajeitar as ideias. Quando não tira foto, sai com um bloquinho e caneta, ou um gravador pequeno (“Hoje em dia tem o celular, né, que facilitou isso”, diz) e vai acumulando anotações esparsas, flashes que podem render um poema ou uma letra e é bom não esquecer. Guarda no bolso, chega em casa e bota na gaveta, dali a pouco revê, ajeita, afina, vai dando forma. Reescreve, reescreve, corta, enxuga, corta só mais um pouquinho, até chegar no mistério da simplicidade. Há poucos meses deu uma olhada nos últimos textos, viu que tinha uns fios condutores ali, temas como morte, tempo, relógio, achou que daria mais um livro (já publicou mais de 20 e ganhou dois Jabutis, em 1993 pelo livro As Coisas – desenhado por sua filha Rosa aos 3 anos —, e em 2004 pelo livro Et Eu Tu). Acabou de lançar Agora aqui ninguém precisa de si, pela Companhia das Letras.

“Sou obsessivo com o processo, faço muitos rascunhos, é disso que sai o resultado. Mas criação, para mim, é sempre algo prazeroso, mesmo se falar de dor. O prazer de criar é tanto que até redime a dor”, diz um Arnaldo sorridente logo no começo dessa conversa com o Valor, um almoço sem pressa, domingo de sol bom.

Foi caminhando que ele veio nos encontrar, a rua cheia de gente colorida, famílias com crianças, ele sozinho no passo firme, vestido com jeans, camisa, um paletó que lhe dá um ar de homem sério. Mas, com aquele corte de cabelo Joãozinho e a cara curiosa, se estivesse de calças curtas ficaria igual a menino de foto de Cartier-Bresson.

Arnaldo escolheu um dos restaurantes que mais gosta – o Nou, em Pinheiros – porque, diz, é legal, comida boa, fica bem perto da sua casa e tem um dos melhores sucos de tomate da cidade (“Eu e o Braz, meu filho, temos mania de fazer ranking de suco de tomate, saímos pela cidade atrás dos melhores “). É um lugar agradável, jardinzinho no fundo, onde sentamos na mesa lá no canto. Ele pede, claro, o suco de tomate, água com gás para ele, sem gás para a repórter.

Além da exposição e do livro, Arnaldo prepara novo disco pelo seu selo, Rosa Celeste, agora em fase de mixagem e com lançamento previsto para setembro, primeiro show já marcado em Brasília. A produção é assinada por Kassin, terá convidados (como de hábito nos seus discos) e boa parte das canções inéditas foi composta numa viagem recente. Tirou o semestre passado para um período sabático, foi a Nova York, Itália e Índia. Inaugurou-se um mundo. “Na Índia é tudo tão intenso, as cores, os cheiros, a espiritualidade”. É ligado nas coisas do espírito? “Olha, não acredito nem desacredito, mas acho legal. Às vezes vou a uma mãe de santo, ela já jogou búzios para mim”.

A Índia foi muito inspiradora. “Escrevi umas seis canções do disco. Nas férias é quando mais componho”. Música é seu ganha-pão, como ele respondeu um dia, entrevistado por crianças, para uma menina que queria saber como ele tinha tantos empregos.

O brinquedo essencial desse homem de 53 anos, torcedor do Santos, é a palavra. É como uma bola. Arnaldo toca a palavra com intimidade, vira pra cá, manda pra lá, passa para mais alguém que está no jogo. Chuta a sintaxe para o alto e faz seus poemas gráficos, a limpidez de pensamento, a arquitetura precisa, e umas curvas não previstas pela geometria. Às vezes chama os amigos, aquela alegria de montar um time, músicas brotam quase tão espontâneas quanto as risadas, e subir no palco para um show é uma sensação indescritível. Como entrar em campo e levantar a torcida.

“Adoro fazer show, acho que só faço disco para poder fazer show, me dá uma energia aquela troca com o público”, ele se empolga. “Sempre é divertido, na época dos Titãs a gente também ria muito, teve fases que convivi mais com eles do que com a minha família”.

Família. Quarto filho de uma prole de sete, Arnaldo se acostumou desde cedo a viver em grupo. “Adoro casa cheia. Minha casa sempre foi assim, meus irmãos, os amigos deles, eu dormia no quarto com meu irmão, adorava aquela bagunça. Minha casa hoje é assim também. Meus quatro filhos (Rosa, 26; Celeste, 21; Braz, 18, e Tomé, 13, todos do casamento com Zaba Moureau), o filho da minha mulher (Marcia Xavier – os dois são casados, mas vivem em casas separadas), quando nos juntamos é uma delícia”. Acha muito bom ser pai. “Cada filho é de um jeito, tem um que você tem de empurrar um pouco, outro deixar mais solto. Aprendo até mais com eles do que eles comigo”.

Vamos a um flashback da sua infância e adolescência, na hora do almoço todo mundo passando o pãozinho no molho da travessa, e um repertório musical para tudo que é gosto. A mãe de Arnaldo curtia Caymmi. Um dos irmãos aumentava o volume para escutar Yes, Emerson, Lake & Palmer, o fino do rock progressivo. Beatles, sambas, Jovem Guarda, Lamartine Babo, os irmãos trocavam discos, havia um piano na sala, cabiam todos os sons. Na hora do passeio, a trilha do carro tinha de ser música erudita, o pai só ouvia a rádio Cultura. Arnaldo via aquilo e tirava as muitas lições possíveis. Aprendeu violão. Lembra-se de assistir fascinado, pela TV, os grandes festivais de música. “Mutantes, Macalé, Maria Alcina, Gil”. Entrou em Letras, na USP, mudou-se para o Rio, fez um ano de PUC, voltou para São Paulo, foi fazer parte da Banda Performática do artista plástico Aguilar, acabou largando a faculdade. Reencontrou amigos do Colégio Equipe, como o Paulo Miklos, e em 1982 fizeram uma banda, os Titãs do Iê-iê. Quando viu, já era pop.

A garçonete interrompe o papo trazendo duas entradas da casa: bolinhos de arroz, bem saborosos, e uma bela porção de bruschettas. “Acho que não é aqui, não pedimos”. “Mandaram para vocês”. Ôpa, claro! Ao ouvir que Luiz, o fotógrafo, costuma pedir o mesmo que o entrevistado, para fazer a foto do prato, Arnaldo, gentil, já vai perguntando antes de escolher algo do cardápio: “Hummm… Você tem alguma restrição alimentar?”. Risos. Ele pede uma truta ao molho de alcaparras, amêndoas e passas. Robalo ao molho de açafrão com saladinha e risoto de grãos para a repórter.

“Nunca entendi gente que fala ‘só gosto de samba’, ou que só gosta de rock”, ele comenta, enquanto saboreia uma bruscheta de cogumelos. Há pouco tempo, quando participou de dois episódios do ótimo documentário André Midani—Do Vinil ao Download, sobre a vida e a obra do grande produtor André Midani, Arnaldo se emocionou demais por estar na roda de violão com Gilberto Gil e Jorge Benjor, lembrando e cantando ao vivo, ali, as faixas do disco Gil e Jorge (1975), um dos seus favoritos de todos os tempos. “Quase furei esse disco de tanto ouvir, e sempre que ouço de novo fico contente”. Em cena, Arnaldo aparece derretido, cara de fã, ouvindo e às vezes cantando junto, Marisa Monte acompanhando, a faixa Filhos de Gandhi. Dali a pouco emendam, felizes, com O Homem da Gravata Florida, de Jorge Benjor, depois Xica da Silva.

“O Jorge é o cara que introduziu a poesia modernista na música popular brasileira. É o verso livre, ele faz caber tudo, qualquer palavra cabe na música dele”, fala Arnaldo no documentário. Tiveram direção durante a gravação ou aquilo foi mesmo um papo espontâneo? “O Andrucha (Waddington) era o diretor, mas nos deixou soltos, lembrando histórias, o papo foi fluindo, gente interessada e interessante, aquele clima que você vê na tela”.

O primeiro disco que ele comprou, adolescente que juntava dinheiro por um mês e corria até a loja Hi-fi, no Shopping Iguatemi, foi Transa, de Caetano Veloso. Depois Chuck Berry, Rolling Stones… Voltava para casa andando devagar, abraçado aos LPs, a música dizendo as coisas que ele não sabia dizer. “Toda canção popular é um eu coletivo, a gente pega para a gente aquele sentimento, principalmente na adolescência”.

“Sou de uma geração aberta, que cresceu embalada pelo Tropicalismo”. Quando morava em frente à PUC, assistia de graça os shows no Tuca, e foi lá que viu, de queixo caído, Rosa dos Ventos, de Maria Bethânia. Saía nas ruas nas passeatas políticas, todos de mãos dadas (“Era muito emocionante, a gente tomava umas bombas de gás lacrimogêneo, o povo das janelas jogava papel picado”), mas nunca se engajou em grupo nenhum. Não era a dele.

Chegam os pratos. São bonitos, coloridos. Arnaldo vai cortar o peixe, para um pouco, começa a falar sobre a política atual .“A gente vive uma época de muita intolerância (no seu novo livro há um verso que chama a atenção pela imagem da indiferença e da diferença social: “Do hall do seu palácio humilha o moço/ e gargantilha o sol no seu pescoço”). Eu cresci durante a Guerra Fria e, quando teve a queda do muro de Berlim, achei que ia ser algo libertário”, diz ele. “E não foi. Hoje ainda vemos esse reacionarismo assustador, seja do estado islâmico, da volta da Ku Klux Klan, seja aqui no Brasil, com a bancada evangélica se juntando com a bancada da bala, e o Collor também”. Votou na Marina, no segundo turno não votou em ninguém.

“Achei as campanhas da Dilma e do Aécio muito truculentas, tudo horrível, preferi anular o meu voto. Agora, a Dilma foi eleita, vamos deixar a mulher governar. Respeito todas as opiniões, todas as religiões, mas fico muito chocado com essa maneira velha de se fazer política. Ninguém tá pensando no bem comum, no que é bom para a nação, e é para isso que os políticos são eleitos. Mas todos só pensam no poder, partidos fazem alianças sem o mínimo de coerência com a sua postura”.

Dá outra garfada no peixe. Esse artista que domina a palavra acredita que o mais importante é mudar a linguagem política. “Vejo pouca gente com um discurso renovador, só alguns oásis, não só de honestidade, mas na forma de pensar, na linguagem, como o Marcelo Freixo e a Marina”, fala Arnaldo.

Como se sabe, ele é versado em mudanças. Depois de dez anos de Titãs, por que não uma carreira solo? Em 1993 fez Nome, disco e show tão diferentes do rock dançante de Sonífera Ilha e tantos hits. Nem todo mundo entendeu aquele moço fazendo onomatopeias com as palavras, virando tudo de ponta cabeça, de mãos dadas com a matemática do concretismo. Moderno demais. “Foi quase um começar do zero, plateias pequenas, tudo diferente, um aprendizado. Mas eu não queria ser hermético. Sempre quis ser pop”.

Bom, suas composições acabaram ganhando o coração de muitos cantores brasileiros e internacionais, da italiana Ornella Vanoni à baiana Daniela Mercury, e foi de discos infantis à música para edição do Bhagavad Gita, trilhas para filmes, para o grupo Corpo, para o programa Um Pé de Quê da Regina Casé, para o Castelo Rá-Tim-Bum. Em 2002, 2003, ele conheceu o sucesso estrondoso com o projeto Tribalistas (com Carlinhos Brown e Marisa Monte). Naquela época, difícil quem não soubesse as letras do disco. Crianças de dois aninhos tiravam a chupeta para cantar Já sei namorar. E ele foi parar em Portugal, na Áustria, na China, no Mali. “O Edgar Scandurra e eu fomos tocar com o Toumani Diabaté, em Bamako, foi uma experiência sensacional, emocionante, duas músicas tão diferentes, duas culturas tão diferentes”.

A cada disco ele chama artistas novos, que depois vão voar também: Marcelo Jeneci, o baterista Curumim, o Ortinho, tanta gente. Arnaldo vai esculpindo, refinando, o poder de síntese embalando o trabalho de artesão paciente. Como se fosse um Niemeyer que deita poesia com traços levíssimos, dois rabiscos mostram uma cidade inteira.

Esse enorme à vontade com todos os sons, todas as letras, ganhou do músico David Byrne um belo texto, prefácio do livro Doblo/ Duplo, de 1999: “Um dicionário não julga quem o consulta… Arnaldo tem um pouco daquela qualidade característica do dicionário. A qualidade de uma criança muito sofisticada, que nos pede para prestar atenção em expressões vocais, imagens, sons, textos às vezes simples e às vezes complexos… e pede que recebamos essas coisas com profunda inocência, porque aquela inocência é muito mais ameaçadora do que qualquer sofisticação. E também dá mais prazer”.

Pedimos a conta. “Legal aqui, né? Você gostou?, ele pergunta sobre o restaurante. Quer dividir a despesa e, quando ouve que é convidado pelo jornal, propõe: “Então quero te levar para tomar um café e comer a sobremesa, um mil folhas numa doceria ótima, aqui nessa rua mesmo. Por minha conta”. Topado. Caminhamos um pouco, atravessamos a rua, a doceria, Confeitaria Dama, está cheia. Ele pede o mil folhas, eu escolho outro doce, ele parte um pedaço do dele e bota no meu prato. “Não é uma delícia?” Segue para o caixa. Volta sorrindo. “A moça do caixa foi uma fofa, não quis cobrar, disse que é minha fã”, fala espantado. Nos despedimos, ele agradece com gentileza (“Adorei conversar”). O sol está bom.

Pouco antes de ir embora, ao explicar porque gosta tanto do raciocínio das crianças, Arnaldo havia citado um verso do Oswald de Andrade: “Aprendi com meu filho de dez anos que a poesia é ver as coisas que eu nunca vi”. Tudo pode ser um pincel de barba.

 

 

 

 

 

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