JULIA KRANTZ – revista Serafina

PERFIL JULIA KRANTZ publicado na serafina

Cristina Ramalho

Mãe psicóloga, pai psiquiatra, e Julia achou mais fácil entender o comportamento das árvores. Foi mexer com madeira, aprender a identificar de onde vem e como reage cada espécie, e assim transformar pedaços de troncos numa mobília ou escultura para trazer beleza à paisagem humana. “Eu sempre gostei de trabalhar com as mãos, de criar”, diz Julia Krantz, 43, designer de móveis orgânicos, lindos, as formas tão leves e ao mesmo tempo tão sólidas, uma espécie de tradução do seu próprio jeito de ser. Delicada, ela fala em tom baixo, pausado, se abre docemente em sorrisos. Forte, o seu lado alemão aparece na seriedade com que encara o ofício. Júlia não se acanha de carregar pedações de madeira, mexer em serra, coordenar os homens que tentam protegê-la do trabalho pesado. “É engraçado, são poucas as mulheres marceneiras, então tem um cavalheirismo aqui na marcenaria, o pessoal tenta me preservar de fazer força. E é bacana isso”, ela sorri.

A madeira foi uma opção já na FAU-USP, onde cursou arquitetura, mas de certa forma andava na cachola de Julia desde pequena. Aos 10 anos, desenhou uma cama com degraus, igualzinha à que viu John Lennon se deitando no Help, o filme dos Beatles. “Ele descia uns degraus, a cama ficava abaixo do solo. Como eu morava em apartamento, não dava para rebaixar o piso, então inventei uma cama com um tablado onde eu subia e depois descia nela”, conta. A mãe, alemã viajada que gostava de decorar a casa criando climas aconchegantes (“ela botava uns abajures nos chão, luzes indiretas, mudava as coisas de lugar, aproveitava peças, coloria”, lembra Julia) deu a maior força e encomendou o projeto. Coube à infância teatral fazer o resto: Julia e a irmã Gabriela brincavam de atrizes, criavam cenários, botavam pipa no teto, podiam fazer o que bem quisessem para sair da sem-gracice real. Na faculdade, Julia e uma amiga ganhavam um dinheirinho criando as maquetes para os trabalhos dos colegas, e no terceiro ano ela inventou uma cadeira, Tripé, seu passaporte para um mundo novo. O dos móveis.

Sofás arredondados, em ripas curvadas, deitando poesia à la Oscar Niemeyer nas formas que escorregam, sinuosas, e convidam ao aconchego. São os bancos que ela batizou de Bigorna, feitos em sucupira. Mesmo que você não seja do tipo que folheia revistas de decoração, já deve ter visto essas peças no SESC Pinheiros, e se perguntado quem fez coisa tão bonita para a gente se sentar e ficar à vontade. Se folhear revistas, já viu Julia, discretamente gloriosa nas páginas da Wallpaper, posando como revelação do design brasileiro, com o aval do prestigiado mestre Hugo França. Hugo e Julia se complementam à la yin e yang. Ele deixa a natureza falar por si: pega, por exemplo, um pedaço de tronco e enxerga mobília no improvável. Quase não interfere, bota um tampo de vidro e cria uma mesa sensacional. Ela segue o caminho inverso: vai somando folhas de madeira laminada, ou contorcendo as peças, numa delicadíssima técnica artesanal que recria formatos de troncos em 12 tipos de madeira. “Julia é um contraponto ao que faço. Nossos trabalhos se correspondem muito, e gosto disso”, disse Hugo.

Julia abriu sua marcenaria há dez anos, parou por dois para morar na Holanda acompanhando o marido, executivo de uma multinacional. Ali, o trocadilho é irresistível, entrou em parafuso. Não sabia mais que caminho tomar. Queria continuar trabalhando com madeira, estava cada vez mais mergulhada na preservação da natureza, mas faltava algo para dar formas precisas aos seus desejos. Então, na volta, foi conhecer Morito Ebine, um japonês que admirava à distância pelo raciocínio, o poder de síntese em móveis lindos. Julia virou o gafanhoto do mestre Kung Fu. Ela arruma o português ruim de Morito nos textos fundamentais que ele cria sobre a arte marceneira. Ele ensinou Julia que, ao contrário do que ela pensava, não era para olhar uma madeira e pensar na peça. Era preciso entender o comportamento da madeira, e deixar que ela revelasse o que poderia ser. Juntos, estão escrevendo um livro técnico sobre marcenaria (“vamos ensinar desde tipos de encaixe até coisas mais profundas sobre madeira”). Juntos, passam horas conversando em Santo Antônio do Pinhal, onde ele vive e ela e o marido compraram o sítio ao lado, os três filhos correndo do lado com a cachorra, a bernaise Lucy.

Assim vão surgindo a cadeira Suave, a mesa Baum, a chaise Baleia, uma série orgânica que ela batizou de Água, além das peças utilitárias, maciças, e das customizadas, feitas sob encomenda. Há um não-sei-quê indígena nos desenhos das peças, surpresa nessa moça tão alta e loira. “Minha madrasta, que é antropóloga, me disse isso também”. A psicologia pode explicar só de voltar aos desejos da infância. Quando a mãe, viajando na Alemanha, ligou para saber se as filhas queriam fantasias, Julia recusou a de fadinha. Queria ser Robin Hood. Sua alma é da floresta.

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