RITA LOBO – revista Mais

Entrevista Cristina Ramalho foto Romulo Fialdini

Comida de alma, para a chef Rita Lobo, é o matzá, um pãozinho sem fermento típico do Pessach judaico, que vem em formato de bolas numa canja, desmancha na boca, adjetivo para o corpo e o espírito. Mezzo judia húngara (por parte de mãe), mezzo brasileira, Rita sempre adorou uma massa. E se aproximou do judaísmo, como em quase tudo na vida, pela comida. Mas a alma de Rita transbordou mesmo quando viu sua filha, a pequena Dora, 6 aninhos, devorando as bolinhas de matzá da canja com prazer de festa. “Foi demais ver que ela adorou de cara, sem saber o que era aquilo, teve a mesma reação que eu”, conta Rita, sorriso de orgulho.

Comida de alma, aliás, é uma definição que a colunista Nina Horta usa no seu irresistível livro Não é Sopa para aqueles pratos que confortam, ajudam a partilhar certa intimidade com as mágoas, como o purê de batatas ou o macarrão cabelo de anjo, mole, na manteiga. Nina é uma das maiores ídolas de Rita Lobo. Então Rita a convidou para uma entrevista que ela fazia na Casa do Saber, dentro de uma série batizada de Grandes Comilões,em novembro passado. “A Nina foi, mas não respondeu nada, ela só mudava de assunto”, diverte-se Rita. Olha só a resposta da Nina: “Rita Lobo me convidou para uma entrevista na Casa do Saber. Ela está cada vez mais inteligente e linda, ótima como entrevistadora, mas não havia jeito de evitar o desastre. Em público me dá amnésia, branco, o desconfiômetro pifa e o politicamente correto vai pro brejo. Esqueço nomes dos livros e de seus autores. Como dizer que gosto de pão com manteiga e jabuticaba¿”, defende-se a colunista.

Rita, claro, entendeu. Comida não é para explicar ou vir com legendas. É para morder e grudar na memória, de preferência acompanhada de momento bom. Porque Rita Lobo, 36 anos, bonita, segura, um ar de quem sempre sabe o que vai fazer, mãe de duas crianças (tem também o Gabriel, de 9), é defensora da comida que conforta. Ou no mínimo que te deixa mais forte para pensar bem outras coisas. Esqueça aquela frescura de comfort food, finger foods ou qualquer inglesice para dar significado ao simples. Rita vai para a cozinha fritar um bife com sinceridade. E em seguida – aí vem a melhor parte – come com todo o prazer. Não admira que o seu site Panelinha, com receitas e passo a passo de tudo o que você e eu sonhamos em preparar num minutinho, tenha dado tão certo. Está há dez anos no ar, tem imenso fã-clube, inspirou diversos livros, e o último, Panelinha – receitas que funcionam (Editora Senac), já está na segunda edição. São pratos pensados para a vida real. “Para quem tem filhos pequenos e precisa resolver a equação diária do almoço e jantar. Ou quem quer chegar em casa e comer uma coisa gostosa, possível de fazer”, ela define.

Só de olhar o apartamento dela, cozinha aberta para a sala, um punhado de obras de arte desde o corredor, livros com jeito de que foram muito lidos, sofazões, almofadas, fica claro que aconchego é a palavra chave aqui. Fosse uma marca, uma empresa, Rita viria anunciada com os valores capricho\ desejo\ alegria\ educação. Ela é gozadora, conta histórias imitando sotaques e, que delícia, sabe rir de si mesma. E tem uma missão: educar o nosso paladar. Bote aí verduras, quinoa, frutas, pouco óleo, mas tudo saboroso, com graça, charme, manteiga, chocolate. Nada diet. O segredo está na dose. Equilíbrio, como em tantos quesitos da vida, é essencial também goela abaixo. Rita aprendeu a se alimentar, ela diz, quando virou mãe. “Eu sempre gostei de comer, mas quando tive filho fui entendendo os sabores, os temperos, e aumentou muito o meu prazer”. Hoje não aguenta tanto açúcar. “Adoro doces portugueses, mas quando como um quindim já acho demais”.

A descoberta das mil e uma possibilidades do apetite floresceu, como é clássico nas biografias de chef, na infância. Rita seguia a cozinheira, Zete, que fazia umas panquecas sensacionais, enquanto sua mãe, filha de mãe húngara e pai violonista (Antonio Rago, o avô de Rita, compôs mais de 400 canções, e foi dos primeiros a tocar violão elétrico), moderna, antropóloga, saía com os livros debaixo do braço. Os homens da casa (o pai, engenheiro, e mais dois irmãos, Rita é a do meio) também não eram do tipo de botar avental. A refeição, porém, sempre exigiu respeito. Não se podia atrasar na mesa, bagunçar o jantar.

Aos 15, um par de olhos azuis prontos para a glória, ela virou modelo. “Eu viajei muito, morei no Japão, e adorava ir ao supermercado, descobrir o que tinha, provar as comidas”, conta, subvertendo o clichê da relação dolorosa com a comida dessas meninas que não são liberadas para pesar acima dos 50 quilos. No Japão apaixonou-se pelo moti, um bolinho de arroz que vira massa, é enrolado em alga e refogado no shoyo (“é maravilhoso!”). Aos 20, fez curso de chef em Nova York na Peter Kumps School of Cooking Arts e… Sim, Rita engordou. “Aumentei uns dez quilos, porque eu queria provar tudo o que via”.

Ali ficou, por uns tempos, na casa de Carla Pernambuco, a premiada chef do Carlota e que acaba de abrir o Las Chicas. “A Rita é engraçada, ótima companhia, e sempre foi calma, na dela, gostava de ficar em casa. Eu que a arrastava para passear em Nova York. Depois com o tempo fomos perdendo o contato, mas acho ótima a proposta do Panelinha, adoro o trabalho dela. Estou esperando o jantar que ela me prometeu”, diz Carla. Rita também teve um restaurante por três anos (1997 a 2000), o Oriental, de comida tailandesa e do sudeste asiático, junto com a sócia e amiga eterna Patricia Li (hoje dona de bufê), que ficava num flat paulistano.

Rita ainda escreveu um tempinho na Folha de S. Paulo e sempre se readaptou a novas brisas, como confirma um dos seus melhores amigos, o arquiteto Arthur de Matos Casas. “Na vida e na cozinha a gente tem que saber fazer de um limão uma fantástica limonada… A Rita sabe e ensina; uma pessoa alegre, inteligente como poucas, que inventa e se reinventa a todo momento. Somos amigos desde o tempo em que ela percebeu que era possível estar modelo e não ser modelo (ela modelou dos 15 aos 18 anos)… acho que por ter admirado essa percepção numa menina tão nova e nada boba nos aproximamos e nos tornamos amigos inseparáveis. Hoje é uma referência no mundo da gastronomia como todos sabem e uma mãe exemplar que só os amigos próximos conhecem”, diz Arthur.

Outro amigo, Matinas Suzuki, também via nela sabedoria demais para ficar só no fogão. E sugeriu que ela começasse o Panelinha, em 2000. Assim ela deixou o restaurante, porque queria ficar mesmo só com o site, que lhe toma um tempão diário.

Um mundo novo inaugurou-se. Com a comida, a sua escrita, de um jeito tão espontâneo quanto quebrar um ovo, sal e pimenta, torrar um pãozinho e se regalar. Então alguém leu, mostrou para uma amiga, que abriu um sorriso e se reconheceu, docemente, nas pequenas histórias que Rita escreve no blog, e os leitores foram chegando, chegando. Alguns posts falam sobre a comida em si, outros sobre a vida, o que, se a gente for ver bem, é tudo a mesma coisa. “Cozinhar, para mim, é a confirmação de que a vida é maior, mais forte, que ela segue em frente, apesar dos nossos erros… cozinhar deixa o corpo vivo, a mente livre e tem gosto de vitória”, Rita respondeu em crônica a um e-mail da Carolina Fernandes, uma leitora que lhe emocionou.

No site tem nutricionista, dicas de saúde, um especial sobre TPM, e respostas às dúvidas que podem nos levar ao fracasso. “O bolo solou, e agora?” ou “Que carne eu uso para o rosbife¿”. Rita responde aos e-mails, e abriu espaço para uma comunidade, onde um monte de gente posta receitas e vira colaborador.

O site gera um milhão e meio de page views mensais. São leitores de São Paulo (28%, apareceu numa pesquisa), Rio (15%), mas também do Brasil inteiro e de Portugal. Todo mundo falando a mesma língua, a da comida, que mesmo com sabores típicos, idiossincrasias pessoais e culturais, é da alma universal. Se a gente for ver bem, comida é como música, capaz de fazer sentido para qualquer pessoa, não importa o lugar ou o idioma. É abrir a roda e fazer um som, ou botar na mesa o prato, e está feito o convite espontâneo que todo mundo entende. Rita, a neta do violonista Rago, vai nessa toada. É só tomar um pilequinho que ela sai cantando alto, feliz, os hits do Rod Stewart dos anos 70. “Quando fui ao show dele gritei até I love you”, confessa. Soltou a franga. E a alma.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. João Paulo garcia
    set 19, 2016 @ 20:07:28

    Meu Deus !

    Responder

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