trecho meu livro Aprendi com Minha Mãe (Ronaldo Fraga)

 

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FESTA NO CÉU

(a história de Luzia, mãe de Ronaldo Fraga, é uma das 52 histórias de mãe que conto no meu livro Aprendi com minha mãe)

É um dia de sol bom, década de 70, em Belo Horizonte. Minha mãe está cantarolando enquanto me dá banho. Sinto o perfume do sabonete, posso sentir as mãos dela me enxugando, a toalha correndo rápida no meu corpinho de seis anos e meio. Daqui a pouco vou para a escola, é o meu primeiro ano, e lá da cozinha sobe um cheiro delicioso, o almoço já está pronto. Minha mãe canta, voz linda, enquanto abotoa meu uniforme. Sinto o cheiro da roupa. Estou feliz.

Ela sempre cantou bem. Tão bem quanto a sua melhor amiga de adolescência, a Clara Nunes, que um dia sairia rápido de Belo Horizonte e saltaria para as rádios, TVs, revistas e conversas do Brasil inteiro. Para nós continuaria sendo sempre a Clara, a “amiga da sua mãe, lá da escola, elas trabalharam juntas lá na fábrica de tecidos no Renascença”, me diziam em família, cada vez que ela aparecia na TV. A casa parava, a gente corria para vê-la cantando “O mar serenou quando ela pisou na areia…”. Alguém, alguma tia ou vizinha, vai lembrar do show das duas na igreja do Padre João, primo da Clara. Os vizinhos adoravam ouvir minha mãe cantar. Quando ela lavava roupa, no quintal, juntava a vizinhança toda, quem passasse na rua, para ouvir o repertório de Lupiscínio, Nelson Gonçalves, Noel Rosa. As músicas que tocavam na radiola lá de casa. Ficava aquela platéia ao redor do muro, enquanto eu grudava na perna dela – posso sentir o cheiro do sabão no tanque, das roupas estendidas – orgulhoso da cantora ser minha, a minha mãe.

Cinco filhos: José Roney, Robson, Rosilene, eu e o Rodrigo. Como é o meu primeiro ano na escola, minha mãe vai me preparando para a nova vida. Ela me explica as coisas, conta que vão mudar, estou crescendo. Quando vai me buscar, quer saber o que acho, o que vi, quem conheci. Está me ensinando uma nova etapa. Assim os dias vão passando, mas às vezes ela não vai me buscar. “Sua mãe não está muito bem, hoje você vem comigo” –, outras pessoas me esperam na saída do colégio. Em casa, quieto, observo os cuidados com ela. Trocam seus curativos – ela tem câncer de mama – e eu grudo na perna dela, aninhado. Desenho na perna dela. Minha mãe acha graça. A casa muda de sons e de cheiros.

Um dia ninguém foi me buscar. Então senti um desamparo, uma coisa inexplicável, que nunca mais me abandonou.

Mamãe morreu aos 37 anos, em 2 de novembro de 1973. Cinco dias antes, foi meu aniversário de sete anos, e a preocupação era se eu teria festa. Esqueceram da festa. Como me esqueceram na escola. De longe, eu olhava aquilo tudo. São cenas intactas na minha memória.

Às vezes, quando arrumo meus dois filhos para a escola, me voltam os cheiros, a voz dela, posso sentir minha mãe. Eu me sinto a minha mãe. Tem dias que olho para o meu filho mais velho, o Ludovico, e enxergo nele o mesmo desamparo no olhar, algo dolorido que não se explica, não se sabe o porquê. Sou o filho mais parecido com a minha mãe, e qualquer parente que me encontra se apressa em dizer isso. Tenho suas referências muito fortes. Os afagos de mãe são definitivos. Aprendi isso.

Aprendi que de vez em quando vem um carrossel que gira, carregando momentos mansos e outros nem tanto, ou trazendo os mortos de volta em cada coisa que a gente faz na vida. Desce cedo aprendi que tragédia e comédia trocam de roupa no mesmo lugar. Pouco depois do velório da minha mãe, de repente a minha tia aparece e me diz, orgulhosa, o sotaque mineiro cortando: “Sua mãe estava tão linda no caixão, parecia a Carmem Miranda com aquele batom vermelho, bem passado. Eu mesma passei”. Vida e morte.

Com a morte da minha mãe, o meu pai, um homem forte, de 1,90m, que foi jogador de futebol, se derrubou. Aos domingos, ele colocava na vitrola uns discos de letras doídas, do Nelson Gonçalves cantando tango, e pedia para a gente não acender a luz. Um dia acendemos, distraídos, na volta de um passeio. E nós, pequenos, descobrimos que ele não queria deixar a gente ver suas lágrimas. Papai tinha loucura pela minha mãe e achava que o sorriso dela era igual ao da Regina Duarte. Então aquele homem forte, que trabalhava na rede ferroviária, aquele sujeito másculo, passava nas bancas de jornal e trazia para casa, escondidas num embrulho para que ninguém visse, as revistas de fotonovela como Sétimo Céu, Contigo ou a Amiga, que tivessem fotos da Regina Duarte na capa. É que naquele tempo fotografia era uma coisa muito cara, e quase não tínhamos fotos da minha mãe, só de primeira comunhão, casamento, essas datas.

Assim meu pai forrava o quarto de fotos da Regina Duarte para enxergar minha mãe. Assim o sorriso dela embalava os sonhos dele. Dois anos depois, exatamente no mesmo dia que mamãe, o meu pai morreu. Eu tinha nove anos. Nós, os cinco filhos, decidimos tocar a vida sozinhos, sem adultos.

Meu irmão mais velho faleceu de câncer, há pouco, aos 47 anos. Trouxe-o para ver meu desfile homenageando Drummond, E agora, José?, que fala do carrossel, do imponderável, da nossa memória afetiva e do que não sabemos. Ele chorou o tempo inteiro. Depois que ele morreu, fiz meu desfile Festa no Céu. Misturei morte e infância, flores roxas como as que vemos nos velórios com a fábula da Festa No Céu, dos bichos que voam e têm boca pequena, e ainda coloquei na passarela uma piscina de bolinhas, a infância, a memória. Morte e vida. O carrossel gira. E me volta a cena da minha mãe me vestindo o uniforme, como que se despedisse de mim para uma nova vida. Mas o desamparo, esse fica, por mais que o carrossel gire.

A mãe

Luzia Fraga tinha 16 anos quando via passar, diante da porta da sua casa, aquele garoto jogador de futebol, alto e bonitão. Num dia 7 de setembro, ele vestia terno de linho e se apaixonou por ela. Luzia não deu bola, mas acabaria cedendo. Casaram-se, ele aos 18, ela com 19. Ela morreu em 2 de novembro de 73, de câncer de mama. Dois anos depois, no mesmo dia, ele falecia de complicações do fígado.

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Cássia Simone da S.Reis Fonseca
    abr 19, 2015 @ 17:34:48

    Gostamos da história. Descobrimos que minha mãe é prima segunda de Ronaldo Fraga. A mãe de Ronaldo era sobrinha da minha avó. Minha avó se chamava Jandira, gente lá de Pará de Minas.
    O casamento de Luzia foi no Bairro Sagrada família, com José Fraga.
    Enfim, minha mãe lembrou um monte de histórias…
    Que bacana! Temos alguém genial na família. Sem saber acompanho muito de Ronaldo Fraga. Falando da história da mãe de Ronaldo para minha mãe ,descobrimos tudo. Que emoção! Amo tudo que Ronaldo faz. Poderia merecer um contato dele?
    Ops! Ele deve ser muito ocupado!
    Abraços, Ronaldo.

    Responder

  2. Cássia Simone da S.Reis Fonseca
    abr 21, 2015 @ 14:05:12

    Se quiser fazer contato pode ligar no 31-91662103 ou cassiafonseca@ig.com.br
    Cássia Simone da S.r. fonseca

    Responder

    • crisramalho
      maio 15, 2015 @ 01:14:49

      Oi Cassia

      andei viajando e não checava o blog, vergonha! fiquei feliz de vc ler meus textos sobre o Ronaldo Fraga e ainda contar essa história, que bacana. Acabei de repassar seus contatos para ele. beijos Cris

      Responder

      • Kelly
        jul 27, 2016 @ 12:41:45

        Ola Cris tudo bem me chamo Kelly sou designer de vitrine li agora teu post e estou amando ler a cada artigo que fala sobre Ronaldo Fraga, estou fazendo uma grande pesquisa sobre a vida dela obras e desfiles marcantes e cada um um que vejo, sinto mais vontade de saber mais e mais… Tbm gostaria de um contato dele pra mim seria de grande valia, apesar de saber que o tempo dele e pra lá de corrido.. Mas se possível gostaria muito de um retorno teu.. Que me fizesse ter algum contato com ele ..

      • crisramalho
        jul 30, 2016 @ 18:28:46

        Oi Kelly obrigada. Pegue o email dele: ronaldo@ronaldofraga.com boa sorte bjs

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