GAROTAS DE BERLIM – revista MAG!

BERLIN GIRLS

Por Cristina Ramalho

 

Só podia ser coisa do demônio aquela mulher que descia no palco do cabaré Anjo Azul, em Berlim, o ar petulante de quem conhece bem onde mora o pecado de cada um. Lola-lola, a diabinha em questão, esticava o par de pernas prontas para a glória, as meias de seda preta, a voz rascante anunciando o tamanho da encrenca: “Sou feita para o amor da cabeça aos pés”. Bastou essa cena no filme O Anjo Azul, de Josef von Sternberg, para começar uma revolução. O filme foi um marco do expressionismo nas telas, quando o mundo se acostumava à era da industrialização e tentava engolir o crack da bolsa de 1929 e umas mudanças que não estavam nos planos. E aquela atriz capaz de fazer homem de bem largar a família era Marlene Dietrich.

Marlene, nascida em Berlim em 1901, daria a partida para uma nova mulher no século 20: a que só faz o que quer. Quando escravizou os olhares dos homens como Lola-lola, já era atriz e cantora, tinha sido casada e tido uma filha. Daí em diante, não parou de inventar a si mesma, a começar pelo nome. Criou Marlene das iniciais do seu nome real, Marie Magdalene, e como sobrenome escolheu Dietrich, que em alemão significa chave falsa. Foi uma das primeiras mulheres a vestir calças compridas, ali pela década de 30 (bom, em Paris tinha Coco Chanel, mas essa não conta, também era da pá virada). Marlene também foi a primeira a dizer em voz alta o que pensava sobre o nazismo, apoiando os americanos até na frente de batalha e dando um tchauzinho para o Hitler quando ele tentou convencê-la a voltar para Berlim. E, principalmente, foi a pioneira de uma longa e linda linhagem de Marlenes Dietrichs.

Mirando-se no seu exemplo, várias garotas de Berlim – ou alemãs que acabaram em Berlim de alguma forma, de Nadja Auermann a Pina Bausch, de Leni Riefenstahl a Ute Lemper são fortes, intensas, donas dos narizes, longe do clichê de mulher fria e distante que a gente imagina olhando daqui da terra dos rebolados. Tem muito de Dietrich em Nina Hagen, Nico, Sasha Waltz, Uschi Obermaier e outras tantas moças que protagonizaram um novo jeito de ser, mudando regras, fazendo arte, mostrando o corpo de um jeito assim tão espontâneo, falando o que desse na telha. Ou simplesmente deixando o mundo de queixo caído com suas curvas. Pense só numa beldade internacional, e há grandes chances dela ter passaporte germânico: Nastassja Kinski, Elke Sommer, Hannah Schygulla, Claudia Schiffer

Alemãs podem, sim, ser mulheres em chamas, como mostrou Gudrun Landgrebe, que nos anos 80 acendeu o fósforo da fantasia masculina no filme Uma mulher em fogo. Agora pense nos homens alemães. Tirante um tenista ou nadador, o Schumacher, uns cineastas mais cultos, alguém se lembra de sujeito germânico de esquentar a conversa¿ No quesito galã, nada que nos tire o fôlego. A Alemanha power celebrity, a gente pode ver, é delas.

 

 

Made in German

 

Quando a Madonna, que já copiou a diva no visual de cabelos platinados e sobrancelhas finíssimas, muda a cada disco de roupa, de estilo, e proclama, nariz empinado, que a gente tem de transar com quem bem entende, está só repetindo o que Dona Marlene fazia, soltinha da silva, 70 anos atrás. Marlene Dietrich se reinventou a vida inteira, na moda e na disposição libidinosa: botou cinta-liga, e depois, quando a esperavam de longo e estola de pele, saía por aí de smoking. Na hora que a aceitaram de smoking, circulou de uniforme militar. Liberou as fantasias. Cada vez mais rica, bonita, irônica, malvada, disposta a deixar a rapaziada indócil. Ela nos ensinou que não era preciso mais se curvar a um homem, embora eles fossem sempre bem-vindos. E como vieram: o cineasta Jean Gabin, o escritor Ernest Hemingway, o cantor Maurice Chevalier e, anos mais tarde, um bem mais jovem, o compositor galã Burt Bacharach, estão na lista dourada de namorados da Dietrich. Que incluiu também moças – entre elas, a Greta Garbo.

Para entender de onde vem tanta personalidade, vamos dar uma espiadela na história. Vem de longe o poder das alemãs. Deve ser a cerveja: durante séculos apenas as mulheres, a quem se atribuíam poderes sobrenaturais, podiam fabricar cerveja na Alemanha… Talvez embalada na cevada desde a mamadeira, a princesa Teresa da Baviera, zoóloga, botânica, etnóloga, engajou-se na política e batalhou um bocado pela causa feminina no final do século 19, dando um nobre pontapé inicial para os direitos das mulheres germânicas. Depois, com o país fervendo durante a República de Weimar, ali na década de 20, Berlim antecipando as tendências da filosofia, da arquitetura, das artes, as moças foram começando a ter umas idéias. Dietrich, esperta, só botou mais pimenta no einsbein: era possível ser tudo isso, sim, e também gostosa.

Mesmo entre suas contemporâneas, ela não estava exatamente sozinha na cidade: havia Leni Riefenstahl, nascida em 1902. Igualmente linda, Leni também sabia dançar, trabalhou como atriz de cinema e queria morrer só de pensar na mediocridade ao redor. Em compensação, enquanto Marlene assumiu-se antinazista, Leni foi a responsável pela propaganda do Terceiro Reich. Virou cineasta, e das boas, criando uma nova estética no cinema, inovando enquadramentos, na luz etc. Seu trabalho mais famoso, o filme Olympia, celebrava os Jogos Olímpicos de 36, na Alemanha, e a beleza dos corpos arianos. Bocas maldosas diziam que Hitler andou ciscando pelo corpinho enxuto da própria Leni, o que ela negou a vida inteira.

O melhor, porém, é que como boa alemã, ela não se deixou dobrar. Foi presa num campo de concentração francês, quando saiu não conseguiu trabalho por sua ideologia, e só calaria a boca dos críticos nos anos 70, após publicar dois belos livros sobre os negros do Sudão (quer coisa mais anti-nazista¿). Lá no Sudão Leni ainda sobreviveu, no ano 2000 (com quase 100 anos), a uma queda de helicóptero. Sem contar que, depois dos 80 anos, ela aprendeu fotografia submarina e em 2002, no seu centésimo aniversário, lançou um documentário sobre a vida nos mares. Vai ser alemã assim na China!

Com essa determinação toda, não demorou muito para as alemãs saírem exportando o sotaque e a mania de não dar satisfações. No Brasil, por exemplo, a primeira mulher a ir à praia usando um duas-peças foi Miriam Etz, linda (para variar), que inventou um biquíni de lã e saiu para tomar sol no Arpoador, em 1937. Os cariocas que se cutucavam para ver ainda não sabiam, mas as alemãzinhas já estavam acostumadas às praias de nudismo e para elas mostrar o corpo, como dizem as garotas que hoje saem na Playboy, era “muito natural”.

Foi a naturalidade (além de um corpo mágico) que derreteu corações o grande trunfo de Elke Sommer, no início dos anos 60. Espécie de Brigitte Bardot germânica, loira, boquinha de beijo, ela estourou como pin-up, saiu na Playboy, fez um punhado de filmes e Hollywood se apaixonou por ela. Depois de Elke, a beleza inacreditável de Uschi Obermaier estampou o primeiro nu em capa de revista. Uschi era símbolo da geração 68: militante política, ela propagava o comunismo e com o primeiro namorado, Rainer Langhans, falava abertamente de sexo, amor livre, maconha. Dizem que o casal inspirou as estripulias estéticas e ideológicas de John e Yoko. Uschi e Rainer organizaram festivais pela causa política, convidaram Jimi Hendrix e os Rolling Stones e ela virou a groupie mais famosa da época: namorou Jimi, Mick Jagger e teve um caso quente com Keith Richards. Uschi ainda tocou maracas numa banda, casou-se com um milionário, e eles compraram um ônibus e viajaram o mundo. Ele acabou morrendo num acidente de moto, ela hoje mora em Los Angeles, onde é joalheira. Sua história virou filme (Eight Miles High) baseado na sua biografia, High Times.

Quase na mesma época outra alemã parava as bandas de rock, os estúdios, a vizinhança: Nico. Se você é desses que acha que sua vida daria um livro, devia antes dar uma espiada na vida dela. Vamos contar telegraficamente só os fatos mais relevantes: Na infância, com a mãe e o avô, Nico fugiu da Alemanha onde seu pai foi morto em um campo de concentração. Aos 15, ela virou modelo em Paris. Dali a pouco estava em Roma, onde Fellini, encantado, lhe ofereceu um papel em La Dolce Vita, em 59. No ano seguinte,em Nova York, Nico estudou interpretação no Lee Strasberg studio, na classe de Marilyn Monroe. Gravou um disco com Serge Gainsbourg, conheceu os Stones, namorou e teve um filho de Alain Delon. Daí Bob Dylan fez um disco para ela, apresentou Nico para Andy Warhol, ela cantou com The Velvet Underground por um ano, então seguiu carreira solo. Fez todo tipo de experimentação musical com sua voz estranha, rouca, e então, aos 50 anos, depois de limpa das drogas, Nico está saudável e saltitante, andando de bicicleta em Ibiza, quando leva um tombo. E assim morreu de um tombo de bicicleta, sem ninguém diagnosticar direito o que de fato aconteceu.

Difícil superar a Nico, espécie de Forrest Gump chique dos anos 60 (a mulher estava mesmo em todas). Mas em loucura e coragem para chutar o microfone, Nina Hagen está bem no score. No palco, carismática, coberta de maquiagem, ela foi a musa dos punks e roqueiros góticos nos anos 80, e do nosso brasileiríssimo Supla, que compôs para Nina, então sua namoradinha, o hit Garota de Berlim. Pouca gente sabe, mas Nina começou cantando ópera, daí os berros de tamanho alcance…

Aliás, a década de 80 nos apresentou um punhado de alemãs incríveis. Tinha Hannah Schygulla, uma loira bonita, densa, apaixonada, ótima atriz. Hannah nasceu na Polônia ocupada durante a Segunda Guerra Mundial, que na ocasião era considerada território alemão. Musa do cineasta Rainer Werner Fassbinder, fez mais de 20 filmes com ele, como O Casamento de Maria Braun e a série Berlin Alexanderplatz. Tinha Marianne Sagebrecht, gordinha cult de filmes como Bagdá Café e Sugarbaby. E a musa maior dos anos 80, o primeiro delírio dos homens quarentões de hoje, era Nastassja Kinski. Será que havia alguém mais bonita naquela década? Aos 15 anos, quando fez Tess (de Roman Polanski, com quem teve um affair) ou no auge da fama, em O fundo do coração, de Coppola, ou arrepiando o irmão Malcon McDowell em A Marca da Pantera, Nastassja fazia qualquer absurdo em cena transbordar de sentido. Fora dela também não achava graça no convencional: casou com o produtor Ibrahim Moussa, sujeito de bigode, barriga e gorda conta bancária; em seguida, amou o bem mais velho (e muito interessante) produtor Quincy Jones, com quem teve uma filha. Fez uns filmes meio sem-graça, continua linda.

Acontece que mulher linda, feito mistério na música de Gil, sempre há de pintar por aí – e não muito depois, duas modelos made in German viraram as cabeças de fotógrafos, editores de moda, Don Juans: a primeira foi Nadja Auermann, com seus inacreditáveis 1,20m de perna, o rosto anguloso, meio dentuça, um jeito aristocrático e underground ao mesmo tempo. Aí veio Claudia Schiffer, certinha em todos os ângulos. Ao contrário das esquálidas garotas que só agradavam a quem sabe diferenciar um Dolce do Gabbana, um Alaia do Saint-Laurent, Schiffer trouxe as curvas de volta – e não houve homem que não botasse os olhos nela. Inclusive o mágico David Copperfield, que por ela quase sumiu do mapa. Schiffer casou-se com outro felizardo, é mãe e também continua linda…

Saltitando por outra raia, mais criativa, olhe as incríveis dançarinas e coreógrafas alemãs. Elas são sedutoras de outra cepa: quebraram tabus, anunciaram novos jeitos de ser e pensar. Pina Bausch, genial, é conhecida como “o principal produto alemão de exportação”. É, sem exagero, uma das ou a maior coreógrafa do século 20 – a que enxerga dança em cada gesto do cotidiano. Feito budista que acredita que dentro de cada um existe Deus, Pina aposta que em cada um de nós mora um Nureyev. Seu jeito de coreografar, classificado como dança teatro, é muito mais do que isso: é uma aula de comportamento, de tirar movimento do improvável. Pina, que só se veste de preto, adora ficar nos bastidores da vida e espiar os outros, mania que tem desde menina. Filha do dono de um restaurante, ela se escondia debaixo das mesas para olhar a vida dos outros: assim faz dança do amor, da dor, do bate-papo da esquina. Pina só faz o que lhe dá na telha. Assim sua companhia, em Wuppertal, ganhou os principais prêmios das artes do mundo inteiro.

A receita para inventar uma dança só dela, Sasha Waltz  também descobriu a seu modo. Sasha nasceu em 1963, estudou com os grandes mestres de Amsterdã, Nova York, e ao se olhar no espelho, enxergou sua geração. Botou então no palco uma dança belíssima, vigorosa, muito além da tradição do teatro dança. Suas peças falam de política, violência física e psíquica, disputa entre os sexos, do erotismo… Sasha dirige em Berlim o teatro Schaubühne, e em 2000 apresentou um espetáculo que sacudiu a poeira de qualquer convenção: Korper (Corpo), uma trilogia que fala de sexo, do espírito, da existência humana. Uma alemã revolucionária em tudo que bota o dedo. Como Ute Lemper.

Nascida também em 63, filha de um banqueiro e de uma cantora de ópera, Ute é a síntese da alemã moderna, criativa, e fora dos padrões. Estudou música em Berlim, morou em várias cidades, e aos 15 anos, dona de uma beleza exótica e algo de diva dark, ela já subia nos palquinhos de esfumaçados clubes de jazz. Aos 16, entrou na banda punk The Panamá Drive Band e pouco depois virou atriz, encenando peças de Fassbinder, Tchecov, e brilhando no musical Cats. Foi Peter Pan em um musical. E, como alemã da gema, cantou muito Kurt Weill em teatros mundo afora, em discos, mas também dançou com a companhia de balé de Maurice Béjart, cantou no Scala de Milão, gravou Nick Cave, Elvis Costello, Tom Waits, pintou belos quadros. Ainda fez cinema, e você vai se lembrar dela: é Alberta, que aparece nua na cena final de Pret-a-Porter, o filme devastador sobre a moda, feito por Robert Altman.

Como Marlene Dietrich, Ute é loira, sobrancelhas finas, rosto anguloso, um ar de mistério, como se a qualquer momento fosse soltar a observação mais cortante e inteligente do planeta. Como Marlene, Ute foi Lola em Anjo Azul, só que numa versão teatral em Berlim, em 92. E sem a mesma sorte: a crítica de então torceu o nariz para a montagem e acusou Ute injustamente de não ser bonita o suficiente. Arrasada, ela se mandou para Paris, Londres e Nova York, onde se casou com um americano e teve dois filhos. Ute teve de deixar Berlim para ganhar aplausos e ser reconhecida mundialmente – Marlene passou por isso também. Como uma alemã que sabe das coisas, Ute, independência a cada cruzada de pernas, nunca parou de se reinventar.

BOX> ANGELA MERKEL

A mulher de todos

Não admira que o país, hoje, seja comandado por uma loira de cabelo nas ventas: a premiê Ângela Merkel. Sua trajetória mostra do que é capaz: nascida em 1954, em Hamburgo, filha de um pastor luterano, Ângela Dorothea Merkel passou a maior parte da vida na Alemanha socialista. Entre prédios cinzentos e moços branquelos de gola rolê, ela cresceu estudando física, militou pela unificação alemã, casou-se com um físico (Ulrich Merkel, de quem pegou o sobrenome), separou-se, casou-se de novo com um químico (Joachim Sauer). Não teve filhos, mas a carreira ostenta um bocado de títulos: foi Ministra da Mulher e da Juventude, e depois Ministra do Meio Ambiente, tudo no governo de Helmut Kohl. Mandando num monte de homens, foi a primeira mulher a presidir seu partido, o Democrata-Cristão, e a primeira chanceler alemã. Ela se mantém no centro em questões polêmicas como aborto e homossexualidade, e defende reformas na economia. Não é exatamente liberal: é contra a entrada da Turquia na União Européia e apoiou com gosto a invasão americana no Iraque.

Inteligente, poderosa, conseguiu o raro feito, como mulher, de dirigir um país tão forte quanto a Alemanha. Vamos admitir: Ângela Merkel está mais próxima do nosso imaginário de mulher alemã, feminista, dura na queda, com aquele não-sei-quê de enfermeira prestes a mandar a gente calar a boca. E a gente obedece.

 

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