RONALDO FRAGA

“Nossa, já fui longe demais” (Ronaldo Fraga)

Entrevista a Cristina Ramalho

É um dia de sol bom, década de 70, em Belo Horizonte. Uma plateia ao redor do muro da casa, enquanto Ronaldo, 5 anos, grudava-se na perna da mãe, Luzia, o cheiro do sabão no tanque, nas roupas estendidas, o orgulho de ser filho da cantora que fazia a vizinhança largar a família para ir lá ouvir. Lupicínio, Dalva de Oliveira, Caymmi, todo um repertório no quintal aprendido junto com uma colega da fábrica de tecidos, Clara Nunes. Clara foi para os palcos, para a TV, o Brasil decorou suas músicas. Luzia se casou e teve cinco filhos: José Roney, Robson, Rosilene, Ronaldo e Rodrigo.

Em menos de dois anos, Luzia teve câncer e morreu. A casa escureceu. Até esqueceram o Ronaldo um dia na escola. O pai dele, um homem forte que apagava a luz para não ser visto aos prantos, morreria dois anos depois, no mesmo 2 de novembro, dia de Finados. Os cinco filhos se uniram e se criaram sozinhos, sem adultos. “Mas sempre tinha uma tia, uma vizinha para olhar”, fala Ronaldo. A tia Maria, gaga, fazia cena em velórios de gente famosa para arrumar namorados. A tia Pombinha gostava de batonzão vermelho, à la Carmen Miranda. E tem o tio Agenor, que jura que namorou com a Pequena Notável. Dessa genealogia brotaria Ronaldo Fraga, carregando uma coleção de histórias que poderiam render filmes, músicas, romances ou peças de teatro. Renderam tudo isso em roupas. Ronaldo virou estilista.

Levou para as passarelas a mãe, o quintal, o Lupicínio, o Drummond das leituras de menino, a loja de tecidos em que trabalhava. Até a parentada, já num de seus primeiros desfiles, Álbum de Família (tem quem acha que é Nelson Rodrigues, mas aquelas figuras são inspiradas nos Fraga), e sempre nas memórias afetivas que saltam em cada coleção. Seus desfiles, esperadíssimos nos invernos e verões da São Paulo Fashion Week, vêm com enredo e personagens, como se as roupas tivessem vida própria. Muitos levaram a audiência às lágrimas, como aquele em homenagem a Zuzu Angel, ou o Giz, com velhos de cabelos brancos no lugar de Giseles.

Ronaldo Fraga, 43, culto, viajado, tem contado também a China, o mundo, a dança de Pina Bausch. A roupa, tão elaborada, é detalhe. Nesta entrevista bem-humorada ao Outlook, ele mostra que moda é como novela, samba, é tema de palpites na rua. São os amores de todo brasileiro.

Outlook – Pedro Lourenço (estilista) estreou em Paris há pouco, outros brasileiros já brilharam lá, já saíram. Você pensou alguma vez em carreira internacional?
Ronaldo Fraga – Eu nunca pretendi nada, muito menos ir lá para fora. Olha, quando eu ganhei um concurso promovido pela Santista, em 1990, foi a primeira vez que andei de avião. Eu tinha 22 para 23 anos. Foram dois anos de eliminatórias, um concurso demorado, os organizadores receberam dois mil projetos. Na época não tinha fax, e-mail, nada, e eu recebi um telegrama: “Você foi selecionado entre os 500”. E aí passavam um outro tema para eu bolar uma nova coleção e continuar no concurso. Pensei: “Nossa, cheguei aqui, andei de avião, já está bom demais”. Depois chegamos a 50 selecionados, e por uma semana ficamos confinados num apart hotel em São Paulo, das 9h às 18h, trabalhando.

Para ler a entrevista completa, clique no link: OTLK_26_01-ABRIL-2010_1;26-32

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