MARIETA SEVERO – VALOR

 

marieta-severo-560-div Marieta, a empreendedora

Por Cristina Ramalho

Foi em 1979, quando produziu pela primeira vez uma peça de teatro (No Natal A Gente Vem Te Buscar, de Naum Alves de Souza), que Marieta Severo sentiu aquele gostinho bom de ser mesmo a dona da história. Teve um dia, no ensaio, em que ela olhou para um prego e abriu um sorrisão pela dádiva. Porque até o prego, naquele teatro, tinha o dedo dela. Ela que ajudou a escolher. Ela que correu atrás do dinheiro para comprar. “Eu olhava o prego do cenário e pensava: gente, eu que viabilizei esse prego. Esse programa é desse jeito, a direção de arte, a cara toda da peça tem um olhar meu, o que eu aposto, o que eu não aposto”, fala Marieta. Dali em diante seu nome apareceria como produtora em quase todos os espetáculos nos quais brilhou e brilha como atriz.

Sozinha, Marieta produziu A Estrela do Lar, de Mauro Rasi; Cenas de Outono, de Yukio Mishima; Um Beijo, Um Abraço, Um Aperto de Mão, de Naum Alves de Souza. Com a amiga e sócia Andrea Beltrão assinou a produção do hit A Dona da História, de João Falcão. Ao lado de Marco Nanini e do produtor Fernando Libonati montou grandes sucessos como Quem Tem Medo de Virginia Woolf , de Edward Albee, e Os Solitários, de Nicky Silver. E várias outras. “Engraçado, eu nunca fiz a conta de tudo o que produzi”, ela diz.

A princípio era tudo na base do bom senso: umas noções de aritmética, a simplicidade cartesiana e um cadernão para anotar o que entrava, o que saía, o que faltava pagar. Marieta é boa administradora de si mesma (“Sempre fui pé no chão”), foi aprendendo a ser cada vez mais organizada, e ficar na mesa da sala até às 3h da manhã de caneta na mão conferindo notas e continhas lhe parecia uma extensão natural do seu amor ao teatro. Montar uma peça era mais ou menos como abrir um pequeno negócio: juntava-se um dinheirinho, chamava-se um punhado de amigos atores e, se faltasse verba, pedia-se empréstimo ao banco. A bilheteria pagava os salários e de vez em quando até dava lucro. As peças ficavam longas temporadas em cartaz.

“Depois virou outra coisa. Os espetáculos se sofisticaram. A bilheteria hoje não dá conta de pagar as despesas, os profissionais ganham mais, a relação do custo do ingresso com o custo de vida ficou defasada, tudo mudou, temos de usar as leis de incentivo, o trabalho de produção está bem mais complexo. A prestação de contas do patrocínio também é minuciosa, e é justo que seja assim, afinal, é dinheiro público”. Marieta rapidinho guardou o cadernão, vestiu um tailleur legal e saiu, sorridente, à cata de patrocinadores para seus espetáculos. A atriz foi fazendo um sucesso maior que o outro, também no papel real de executiva.

“Mas aí é o tal negócio: você está num lugar e quer outro”, ela explica. Em 2002, eis Marieta ao lado de Marco Nanini na premiada montagem Os Solitários, direção de Felipe Hirsch. Casa cheia – ou melhor, cheíssima. A temporada da peça em São Paulo era no gigantesco Teatro Alfa, os atores falando em microfones para a plateia lotada de duas mil pessoas. “Não é que eu não estivesse gostando, imagine, foi maravilhoso, mas sentia muita falta de um teatro pequeno, da relação epidérmica com a plateia, não queria fazer teatro com microfone”. Comentou isso com a amiga, comadre, parceira de A Grande Família Andrea Beltrão. Não seria bacana se elas pudessem ter seu próprio palco? No dia seguinte Andrea, que é muito prática, já estava no telefone, com os classificados na mão. No outro, o diretor Aderbal Freire Filho, o namorado de Marieta, lembrou que ao passar por Botafogo viu uma placa de vende-se num casarão lá, quem sabe? Marieta e Andrea correram para ver. O casarão estava meio caindo aos pedaços, tinha sofrido um incêndio. Mas era um deslumbre construído em 1927.

Elas rasparam a poupança, compraram o imóvel, reformaram tudinho, restauraram a fachada (“Com restaurador mesmo, historiador dando aval”), e nos fundos aproveitaram um galpão para fazer os camarins. Em 2004 nasceria o teatro Poeira, com a estreia da peça Sonata de Outono, de Ingmar Bergman, protagonizada pela intrépida dupla e dirigida por Aderbal. Endereço: Rua São João Batista, 104. Proprietárias: Marieta Severo e Andrea Beltrão. Curador de programação: Aderbal Freire Filho.

Falar do Poeira é, para ela, coisa rara em entrevistas, mas um dos seus temas prediletos. Marieta se ajeita na cadeira do bistrô Le Vin, na alameda Tietê, nos Jardins, a uma quadra do seu apartamento paulistano, para conversar com a reportagem do Valor. Vem de uma maratona de encontros com repórteres sobre a peça Incêndios, de Wajdi Mouawad, que ela estrela (e produz, claro) agora em temporada em São Paulo, no teatro Faap. Então, quando ouve que o foco do nosso papo, hoje, é o seu teatro, ela cintila.

“O Poeira nasceu para ser um espaço de experimentação. A gente não queria um teatro só para ter um teatro, tipo um teatro no shopping com o meu nome. Nada contra, mas eu queria um lugar de utilidade artística, um celeiro”. O conceito, aqui, é o risco. “Acho que o selo Poeira é um selo de qualidade artística”, fala Marieta, orgulhosa.

A marca foi se desenhando, além da seleção das montagens, na grade de programação: surgiu primeiro o projeto Ponte Aérea, uma espécie de workshop ministrado por diretores de companhias teatrais, gente que tem seu próprio espaço e conta como funciona, como José Celso Martinez Corrêa, do Oficina, de São Paulo (“Ele foi o primeiro, falou quatro horas seguidas, uma usina de ideias”), o Chico Pelúcio do Grupo Galpão, de Belo Horizonte, o Paulo Flores, da Terreira da Tribo, de Porto Alegre, e muitos outros.

Aí veio o Puente, uma versão do Ponte Aérea que traz artistas de outros países como o cenógrafo português José Manuel Castanheira ou a atriz mexicana Teresina Bueno para discorrerem sobre o seu trabalho. Tem também o programa Espaço Residente, em que um diretor de teatro fica ali com um grupo por 3 meses desenvolvendo uma ideia, um projeto, sem o compromisso que aquilo vire uma peça mesmo. Amir Haddad foi o primeiro. “Ele tinha um sonho, o de desconstruir o Anjo Negro, do Nelson Rodrigues. Chamou um grupo de atores e ficou lá, trabalhando. Não importa se aquilo dá ou não em alguma coisa. Depois teve o Enrique Diaz, que trabalhou textos de Tchecov ”. Projetos menores ocupam o Espaço Visitante, algo semelhante, mas de duração mais curta: um mês. É uma espécie de oficina, aberta a quem quiser, e os participantes ganham no final diploma e tudo, como num curso. Quer ver Marieta feliz? É só ela ouvir de algum ator jovem que ele foi formado pelo Poeira.

Ela, Andrea e Aderbal escolhem juntos os artistas convidados para esses projetos. “Por exemplo, chamei o Ruy Guerra para dar residência sobre cinema, ele é um mestre, um teórico, tem uma cultura cinematográfica profunda, o espírito crítico muito apurado”. A BR Petrobras entra com a verba para tudo isso acontecer. “Essa verba fundamental da Petrobras dá para pagar os projetos, e também o Encontros Teóricos (programa de conferências que une teatro e pensamento). Pagamos quem ministra os cursos, como o Amir, ou o Ruy, e ainda sobra um dinheirinho que cobre os salários do porteiro e da pessoa da limpeza”. O restante sai do bolso das duas sócias.

“Todo mês a gente bota dinheiro nosso, uns R$ 40 mil mensais. Nunca teve um mês em que cada uma não desembolsou pelo menos R$ 10 mil”. Mesmo com o Poeirinha (o segundo teatro das moças, aberto em 2008 no prédio de uma antiga oficina mecânica ao lado do Poeira)? “Principalmente com o Poeirinha. O prejuízo aumentou”, ela ri. A estrutura dos dois teatros é bem enxuta. Sete funcionários: dois na administração, dois porteiros, a bilheteira, a moça da limpeza e a pessoa que toma conta do bar. Diz Marieta que o bar, que já foi arrendado e hoje é dela e de Andrea, é a única coisa que dá um lucrinho no empreendimento.

Olhando de fora, a impressão pode ser outra: Poeira e Poeirinha vivem cheios, e peça que estreia ali vira sinônimo de bem sucedida. São sempre espetáculos que não foram montados antes, mas como toda regra só existe para ser quebrada, Ricardo III , na versão solo com Gustavo Gasparini, que já lotou outros espaços, fez há pouco temporada no Poeirinha. A frequência animada nos dois teatros levantou, literalmente, a poeira e sacudiu até o estado de espírito do quarteirão em volta. O boteco pé-sujo da esquina ganhou um belo tapa no visual (“O dono nos disse que não podia continuar com o bar como estava, com um teatro tão bacana do lado”), as senhoras vizinhas vieram elogiar e a rua, antes lúgubre, que dava medo de ir à noite, se iluminou.

Marieta também se iluminou – como se fosse possível ser ainda mais luminosa do que é. Não cabe em si com a alegria tamanha que é o Poeira na sua história. “É um bálsamo para a alma, um projeto de vida. Toda vez que entro lá eu respiro fundo”. Ela mal podia imaginar que aos 57 anos (quando inaugurou o teatro, há dez anos) redescobriria tantas novidades no seu ofício. “A sensação é de estar plena com a minha profissão de atriz. Agora a relação que eu tenho com a cultura teatral é outra”. Na real, ter um teatro já esteve nos seus planos uns 30 anos atrás, quando seu amigo Mauricio Sette, cenógrafo, estava na Fundição Progresso e queria montar um teatro no prédio ao lado. “Cheguei a ter a planta desse teatro, acredita?”. A coisa não vingou. “Sou organizada, mas não planejo. Não tenho a mais pálida ideia do que vou fazer. As coisas vão acontecendo”.

Às vezes é do jeito que menos se espera: toda a madeira usada para a construção do teatro, por exemplo, foi doada por um empresário do Pará, da empresa Cikel, que não pediu nada em troca, nem o nome nos créditos. “Nunca nos encontramos com ele, mas ele soube por reportagens que estávamos fazendo um teatro e quis colaborar. Nosso teatro foi preparado para a dança, o palco feito com a madeira mais incrível, que ele doou”. Outros tantos parceiros na montagem do teatro aparecem em marcas no site do Poeira, e cada um colaborou com permutas, descontos etc

Talvez tudo pareça fluir tão bem porque o Poeira tem a cara dela: aberta ao novo, agregadora da turma, sempre pronta para dar espaço e conversar também sobre os temas mais sérios e profundos. Marieta Severo, prestes a completar 68 anos, é de uma geração de grupos. O Opinião. O Arena. O Oficina. “Eu achava que o fazer teatral era em grupo, sempre busquei isso a vida inteira, mesmo não sendo de uma companhia teatral”.

Fez suas peças com parceiros de anos: Roda Viva, com o Chico. Os muitos espetáculos com o Nanini, com a Andrea Beltrão, com o namorido Aderbal Freire Filho. Viveu isso nos 14 anos de A Grande Família. No Poeira, ninguém decide nada sozinho. Falam pela Internet o tempo todo. Quando o tema é dinheiro, ou questões mais práticas, o menino Aderbal não entra. É papo das sócias. Na hora de falar da programação, conteúdo, linguagens, convidados, o trio se junta.

“Acho muito melhor trabalhar com amigos, com quem gosto, não piso em ovos. O omelete já está pronto”, brinca, enquanto comenta como às vezes é difícil começar um trabalho com quem não se conhece, acertar as convenções sociais, quebrar as barreiras, conhecer o terreno. “Andrea e Aderbal não me entendem errado, a gente já começa um trabalho lá adiante. E o trabalho se alimenta desse conhecimento muito grande que a gente tem um do outro. O outro que vai te tocar em lugares muito mais profundos”.

A conversa envereda para o significado do coletivo. A importância de enxergar o outro. E a política. “De todas as questões de um governo, a que mais me toca é a da desigualdade social. Sempre ouvi a história de que é preciso fazer o bolo crescer para depois dividir, mas o Governo não dividia esse bolo nunca. Por isso acho tão importante o olhar para o social, o Bolsa Família, isso é uma conquista importantíssima que ninguém pode voltar atrás. Tenho a maior admiração pela Marina, mas vou votar na Dilma. Sempre votei no Lula, acho que foi um grande presidente, que teve milhares de erros, sim, mas valorizo o que foi feito pelo PT sobre a questão da desigualdade”.

E a cultura? “Acho que não existe no país uma real consciência do que é a cultura para um país, é o que nos dá nosso caráter, nossa personalidade. No governo do PT existiram ganhos, especialmente na periferia, que conseguiu instrumentos para se manifestar. Mas é pouco. Bom, em todo governo nós, artistas, somos chamados na última hora, ou nem isso”.

Marieta sorri. Tem uma visão otimista do país. “Acho que de 20 anos para cá vivemos saltos interessantíssimos”. Só que o tempo passa depressa e agora ela precisa correr para o teatro Faap para encarnar a trágica Nawal, uma mulher do Oriente Médio que vive os horrores da guerra. Marieta, a atenta ao outro, dedicou o espetáculo Incêndios a Zuzu Angel. Antes de sair, dá um abraço e agradece pela oportunidade de falar tanto sobre o seu teatro.

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