O DESIGN BRASILEIRO – VALOR ECONÔMICO

 

Cristina Ramalho Julia Krantz

 

José Zanine Caldas, um dos maiores designers brasileiros da história, um dia anunciou para a mulher que ia vender o sítio do casal, em Brasília. “Ué, por quê?”, ela quis saber. “Acharam pepitas de ouro lá. Vai dar uma tremenda dor de cabeça”. Quem conta essa é o filho, Zanini de Zanine, que adora lembrar o desapego do pai, e herdou dele a mania de levar a vida perto da natureza e, sim, o talento para o desenho. Mezzo italiano, mezzo mulato, autodidata, Zanine pai fazia casas e móveis deslumbrantes em madeira, mas gostava era de se meter na mata, saber dos índios, era um sujeito desligado dos adjetivos. Só foi receber reconhecimento do IAB (Instituto de Arquitetos Brasileiros) em 1991, aos 72 anos, depois que ganhou da Academia Francesa de Arquitetura o título “Notório Saber”.

Ele faleceria dez anos depois, e talvez se surpreendesse ao ver que hoje quem teve a sorte de comprar uma das suas peças maciças pode fazer uma pequena fortuna vendendo-a nas casas de leilão da Europa e dos Estados Unidos. Já Zanini com i, seu filho, é no momento um dos nomes mais cintilantes do design contemporâneo brasileiro. Aos 33 anos, coleciona uma listinha respeitável de prêmios. Só em 2010 faturou o IDEA Brasil na categoria inovação, o primeiro lugar em mobiliário no Museu da Casa Brasileira, e o IDEA Brasil Ouro com seu irresistível cavalinho para crianças. E atravessou o mar. Lançou a linha Doïzdesign na semana de design em Nova York, mostrou peças em Milão e já apresentou uma linha de mobiliário infantil em Londres. Outro dia mesmo, na revista inglesa Wallpaper, o genial Sergio Rodrigues apontou “o Zanininho” como seu sucessor.

“No tempo do meu pai, brasileiro era meio metido a besta, tudo o que vinha de fora era mais valorizado, ou então o que era brasileiro só era devidamente reconhecido depois que fizesse sucesso lá fora. Hoje não tenho do que reclamar. Clientes finais, lojistas, grandes marcas, revistas nacionais e internacionais reconhecem e valorizam o desenho brasileiro. Estamos vendo um cenário muito bom”, diz Zanini. Como ele, nomes como Julia Krantz, Alfio Lisi, Jader Almeida e, num estilo bem mais conceitual, Rodrigo Almeida e Domingos Tótora, são alguns dos muitos da nova geração que faz mobília com cara e pinta de brasileira, e chama a atenção do resto do mundo. Essa gente bronzeada está mostrando o seu valor, acontecendo e virando manchetes internacionais.

Olhe o Domingos Tótora, por exemplo. Tem aquela mesma simplicidade e generosidade do Zanine Caldas, a ponto de morar até hoje na sua Maria da Fé, cidadezinha aconchegada nos confins de Minas Gerais, e não dar sinais de querer sair dali. É lá que cria móveis impensáveis de uma pasta de papelão triturado que ele inventou, e deita poesia nas curvas sensuais, líricas, em bancos e cadeiras que parecem flutuar de tão levinhas. Acabou de ser indicado ao Oscar do design, o Brit Insurance Design Award, concorrendo com nomões do mundo inteiro com o seu Banco Solo. Perdeu para a cadeira Branca, da Itália, mas sua peça está em exposição até agosto no Design Museum de Londres. E se a gente por aqui ainda não o conhece direito, a imprensa internacional se derrama em elogios para ele.

O trabalho de Domingos entra numa categoria além do mobiliário – é o design arte, quase escultura, peças exclusivas, coisa de atrair colecionadores, galeristas. Um caminho aberto pelos irmãos Campana, que há vinte anos vêm tirando mobília do improvável, com um novo jeito de pensar, totalmente brasileiro, em peças únicas. Para os poucos que podem torrar verba em charme.

Os Campana, Pelés do design, reverenciados no mundo inteiro, são os homenageados da primeira Design São Paulo, uma inédita e ambiciosa feira de design contemporâneo que vai acontecer na OCA, no Parque Ibirapuera, junto com a próxima SP Fashion Week (de 8 a 14 de junho no Pavilhão da Bienal). Iniciativa de Paulo Borges, e de Waldick Jatobá, diretor de um banco de investimentos luso-brasileiro. “A nossa ideia é trazer galeristas, promover seminários, expor peças exclusivas de design contemporâneo. Este é o momento”, fala Jatobá. Há mais duas sócias: Lidia Goldenstein e Kátia Avilez, e a curadoria do evento vem assinada por Maria Helena Estrada, diretora da revista Arc Design.

Jatobá, ele próprio um colecionador de arte e design, anteviu, esperto, que há um belo filão nessa área luxuosa, de mãos dadas com o mercado de arte contemporânea. Se Beatriz Milhazes, Adriana Varejão, Ernesto Neto já vendem muito bem lá fora, assim como Vik Muniz, que foi parar até no Oscar (com o documentário Lixo Extraordinário), por que não os designers que trabalham na fronteira com a arte? A ideia, claro, é expandir a comercialização das obras, vender a marca Brasil, investindo na chamada economia criativa. O molde da Design São Paulo segue a Miami Design, que também tem em Basil, na Suíça.

Na sequencia do evento vai surgir, por exemplo, a primeira galeria especializada só em design de São Paulo: uma junção da galeria Baró (inaugurada no ano passado na Barra Funda pela espanhola Maria Baró) com o Coletivo Amor de Madre. “São Paulo não tem uma galeria só de design, como existem tantas em Paris, Nova York, Amsterdã”, diz ele.

A Design São Paulo promete trazer o singular, vender o sonho, o-que-só-um-privilegiado-pode-ter.  É a identidade de quem faz carimbando a identidade de quem compra, porque cada móvel é único. Como as peças de Domingos Tótora, e também de Rodrigo Almeida, um paulista que conseguiu aloprar ainda mais com os materiais, frescor embalado na memória afetiva, a cara do Brasil. Bom, foi pupilo dos Campana.

“O Rodrigo já participou do workshop de verão que damos anualmente na França. Desde o início, ele não parecia um aluno, e sim um mestre. Sua maturidade projetual me intrigou, e fez com que eu me perguntasse o que ele estava fazendo ali, o que alguém com o talento dele poderia aprender”, derrete-se Humberto Campana. Fernando completa: “Ele é um exemplar seguidor dos nossos conceitos de brasilidade, reciclagem e visão atenta de parcelas da sociedade ainda não tocadas pela globalização. Mesmo usando o “streetwear” como projeto de mobiliário, ele consegue redefinir códigos visuais que ainda não foram atingidos pela pasteurização atual”.

Ele trança cordas coloridas e faz uma espécie de trono africano. Ou mistura materiais nada nobres, o plástico, o nylon, amarra com fitas, junta mochilas numa espécie de totem espacial, subverte os formatos. Também inventa luminárias com tênis, ou mistura numa resina conchas que a mãe catou na praia e daí vira uma mesa. Muito mais do que a beleza, Rodrigo quer é nos cutucar. Você não sabe se aquilo que parece cadeira é escultura ou dá para sentar. A ideia é essa mesma. No design arte, o velho mantra da forma e função provoca bocejos. O que vale é o conceito – se conseguir se sentar no conceito, você está no lucro.

“Não penso em móveis para reproduzir, se bem que até faço algumas peças para o mercado, mas o meu lance é mais perto da escultura. Minhas peças vão envelhecer, pode dar uma estragadinha no material, mas isso faz parte da vida da peça. Quando é um produto de uso, a pessoa troca o tecido, vai ao tapeceiro, tem uma outra relação com o objeto ”, fala Rodrigo, que não vende em lojas. Tem uma, uma só peça na tradicional Dpot, loja especializada em design brasileiro.

A Dpot é um retrato da história do Brasil em design, e embora apresente mais os clássicos para salas de fina estirpe, como Sergio Rodrigues, aposta em muita gente nova, e vez por outra traz exposições de móveis para balançar o coreto, mudar nosso foco ao ver a sala de estar. Coisas da curadora Baba Vacaro, também designer e estudiosa do tema (talvez você já tenha escutado sua voz, falando de design em spots na rádio Eldorado). “Muitos estrangeiros vêm aqui e se encantam com as peças, reconhecem um suingue, uma bossa brasileira mesmo nos móveis de madeira, mais clean”, diz Baba.

Na listinha dos nomes que brilham no cenário, ela cita Alfio Lisi, Jader Almeida, Silvio Romero. Baba acredita no conforto emocional do design brasileiro, “a mistura do popular e do erudito, passado e presente, as sensações do café com pão de queijo, a memória do quintal”. O design brasileiro está na moda? “O Brasil, historicamente, está na moda, isso é um reflexo, como acontece com a música, com a arte, com a cultura em geral”, fala a curadora.

Sim, é a marca Brasil falando para o mundo. Lula apareceu na capa da The Economist e na boca de Obama como o cara, Dilma virou manchete, e taí a Gisele, e o Seu Jorge, o Fernando Meirelles, o Neymar, as Havaianas. O design veio nessa onda.

Se a gente for ver bem, vivemos um repeteco histórico de outro grande momento dos nossos traços. Vamos dar uma espiadela no passado: o mobiliário brasileiro grudou na memória internacional nos dourados 50 e 60. Quando nomes como Zanine Caldas, Sergio Rodrigues, o português naturalizado Joaquim Tenreiro, Geraldo de Barros e tantos outros mostraram que yes, nós tínhamos design, e trabalhavam duro, só que ninguém levava a sério esse negócio de marketing pessoal. Era uma turma generosa, que criava obras de arte com jacarandá e espírito livre para as pessoas papearem mais confortáveis, chope na mão.

O Brasil de então tinha um quê de leveza, de abraçar quem chega, era a cara da poltrona Mole feita por Sergio em 1957. E os estrangeiros logo se esparramariam por ela. A Mole venceu em 1961 o Concurso Internacional do Móvel em Cantu, na Itália, derrotando 437 peças de 27 países. Fez tanto sucesso que virou Sheriff Chair e nela se recostaram bumbuns ilustres, da rainha Elizabeth e o presidente John Kennedy até o papa Pio XII.

Mas o que se desenhava, na época, era um novo Brasil. Tínhamos a bossa-nova de Tom e João, o suingue de Garrincha e Pelé nos deu a taça de 1958, e JK assobiava para os investidores gringos e abria os braços para o mercado internacional. Niemeyer esparramou suas curvas no pensamento modernista de Le Corbusier e refletia, nos seus traços levíssimos, a impaciência com o tempo presente.

Cinquenta anos depois, as curvas continuam traduzindo um certo jeito de ser brasileiro, exuberante, alegre, grato à vida. Isso na forma e na filosofia. Pode ser nos bancos de Domingos Tótora, que trabalha com a comunidade local e ensina a cada artesão uma técnica de rara beleza. Ou nos incríveis móveis de madeira de Júlia Krantz. Essa paulistana formada na FAU faz peças delicadíssimas. Sofás arredondados, em ripas curvadas que escorregam, saborosamente, e convidam ao aconchego. Ela vai somando folhas de madeira laminada, ou contorcendo as peças, numa técnica artesanal que recria formatos de troncos em 12 tipos de madeira. Encantou estrangeiros, e vende para Holanda, Alemanha, Bulgária, saiu citada até em livro na China. “Quero entender o comportamento da madeira, ela que me revela o que pode ser como peça”, diz Julia, que cria objetos com cara indígena, surpresa nessa moça tão alta e loira. Zanine Caldas teria adorado.

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