MOACYR SCLIAR

ENTREVISTA MOACYR SCLIAR – publicada em 2007 na revista Diálogo Médico (foto Neco Varella/Folhapress)

Por Cristina Ramalho

Assim, tá na cara, são dois Moacyr Scliar que se apresentam para o mundo. Tem o Moacyr Scliar médico, sanitarista, com um elogiadíssimo currículo na saúde pública e como professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E tem o Moacyr Scliar escritor, 80 livros publicados, muito aplaudido pela crítica e o público, colunista há 15 anos do jornal Folha de S. Paulo, ocupante desde 2003 da cadeira nº 31 da Academia Brasileira de Letras. O duplo é parte da sua vida desde sempre: Filho de judeus russos, ele cresceu, como todo filho de imigrantes, ouvindo um idioma, comendo umas comidas e seguindo os rituais dentro de casa, e quando saía na rua era tudo diferente. Escreveu um livro sobre essa dualidade, O Centauro no Jardim, no qual usa a imagem metade cavalo/ metade homem para simbolizar a condição de judeu errante. De tão preciso, o livro figura numa lista do National Yiddish Book Center, nos Estados Unidos, dos cem melhores livros judaicos dos últimos 200 anos.

Olhando mais de pertinho, são tantos e divertidos os Moacyr Scliar que se revelam para o mundo. O gaúcho que fala tu o tempo todo, amigo de Luís Fernando Veríssimo, com quem fundou o MSN (Movimento dos Sem Netos, quebrado agora com o nascimento da neta de Veríssimo). O homem que já foi de trocar de namorada como quem troca de camisa, e é capaz de falar comovido da sensibilidade feminina de Clarice Lispector e orgulhoso do fiel casamento de décadas com Judith, mãe de seu único filho, Beto. O sujeito leve que adora humor judaico e se ressente, como leitor, da falta de riso na literatura brasileira. O otimista que enxerga um Brasil cada vez melhor na saúde e na democracia. O cidadão que puxa um fio da natureza humana tanto no papo da esquina quanto na leitura da Bíblia, sua fonte de inspiração para inúmeros livros, e seu exemplo do poder de síntese das histórias de todos nós.

“A dualidade para o escritor é uma fonte de estímulo. Quanto mais identidades nós temos, mais superfície de contatos a gente tem com outras pessoas”, diz Scliar, 71, nesta doce entrevista à Diálogo Médico, no lobby de um hotelem São Paulo, para onde veio, claro, com dupla função: participar do lançamento de um livro coletivo para a Bienal de São Paulo e dar uma palestra sobre saúde pública. Enquanto isso, ele redige no momento biografias de grandes sanitaristas (do brasileiro Oswaldo Cruz ao húngaro Semelweiss) e continua atento à paisagem humana para sua coluna, ou outros livros. Então um dia desses você lê o que o Moacyr Scliar escreve, abre um sorrisão e reconhece: mais uma vez, uma história dele tem qualquer coisa da sua.

DM – Vamos começar pelo seu trabalho no jornal. Na sua coluna na Folha, você parte de uma notícia do dia para criar uma crônica, uma ficção. Como é a seleção dos temas?

Moacyr Scliar — Essa coluna foi uma idéia da Folha, uma iniciativa insólita na imprensa e até na literatura, porque feita de modo sistemático. Quando fui convidado, já faz 15 anos, a idéia era a de que uma equipe de quatro escritores se revezasse. Os outros três desistiram no primeiro ou segundo mês. E eu, de lá para cá, fui aperfeiçoando o método. No começo eles me mandavam notícias, em geral da página policial. Mas eu queria notícias que me emocionassem, que revelassem aspectos mais desconhecidos da natureza humana. Hoje eu escolho, mas não tenho regras. Meu maior problema é que tenho sempre notícias a mais, é duro escolher uma só.

Fazer a coluna ajuda na hora de escrever livros?

Com certeza. Aprendi muito com o jornalismo, com o poder de síntese. Como escritor, não me importava com o tamanho do texto. Agora, em relação aos temas, sejam as notícias de jornal ou as histórias que tu ouve na rua, eles são fatores desencadeantes da ficção, sim, mas a munição de um escritor é interna, sempre.

Você nunca deixou de ser médico, e escreve muito, já fez 80 livros. Como dá para levar 2 coisas tão absorventes ao mesmo tempo?

Tá cheio de médicos que escrevem: Guimarães Rosa, Pedro Nava, Anton Tchecov… Nunca vi um conflito nessas atividades, pelo contrário. Dá para aprender muito de literatura na medicina, e vice-versa. Um livro como O Alienista, do Machado de Assis, ensina mais do que muitos manuais médicos. Agora, para dar conta de tudo, o lazer tem de ser sacrificado. Eu não sabia o que era fim de semana, feriado, férias, noites, hora do almoço… O curioso é que no meu caso a medicina não era um jeito de ganhar o sustento. Eu poderia viver de literatura. Mas amo as duas coisas. Também estou aposentado como médico sanitarista, mas continuo ligado a grupos do Ministério da Saúde e continuo escrevendo sobre saúde.

Primeiro, fale da medicina. Porque você escolheu a saúde pública?

Essa área é uma causa, mobiliza a pessoa. Tu passa do microcosmo, que é a doença no paciente, para o macrocosmo, a doença na sociedade, tu trata do corpo social. Quando fui convidado para ser sanitarista, o diretor do hospital, amigo meu, já era idoso e me aconselhou: “Vai ser uma desgraça para ti, saúde pública é uma verdadeira cachaça, depois que tu te mete nisso não sai mais”. Eu não me arrependi, mas ele estava certo. O grande problema desse trabalho é que fica na fronteira da medicina e da política.

Você não seguiu para a política, mas trabalhou em secretaria de saúde. Ia para a rua, para a periferia? E o que acha hoje da saúde pública, do caso da dengue, por exemplo?

Não dá para tu fazer saúde pública sem ir para esses lugares, mesmo como professor eu pegava meus alunos e ia para morro, ia ver posto de saúde. Não tenho perfil para a política, não seria filiado a um partido. Mas acho que a saúde pública no Brasil, desde que me formei, em 1962, melhorou incrivelmente. Se é ruim com o SUS, seria muito pior sem, tudo melhorou. A dengue era uma epidemia anunciada, não viram isso. Mas o Brasil hoje tem programa da AIDS, o médico da família, muita coisa boa. Curioso é que as pessoas só reclamam quando a situação está melhor, quando está ruim fica todo mundo na apatia, reclamar é sinal que está bom. Na verdade, o Brasil progrediu muito, socialmente, economicamente, politicamente…

Agora, a literatura. Você sempre diz que sua família lhe influenciou, seu pai foi um grande contador de histórias, sua mãe lia muito. E os amigos? Você conviveu com uma geração literária?

Meus pais liam muito, minha família é grande, com muita gente de destaque na arte, na cultura. Tenho um primo, Carlos Scliar, grande artista plástico. A Esther Scliar, minha prima, era compositora, deu aulas para o Edu Lobo, para um monte de gente. E eu convivi com escritores que me serviram de exemplo. O Érico Veríssimo era muito acessível. O Luis Fernando é um grande amigo. Tenho uma convivência muito boa com escritores do Sul. E sou muito amigo do Rubem Fonseca, no Rio. Minha geração literária é a de Ignácio de Loyola Brandão, em São Paulo, do Ivan Ângelo, que escreveu A Festa, nos anos 60. Fazer literatura era muito político, era defender a liberdade de expressão.

Você acompanha a literatura brasileira de hoje?

Tento acompanhar, mas não dá para ver tudo. A minha geração era muito politizada, e a anterior à minha era regionalista. Jorge Amado, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz, todos regionalistas. O regionalismo sumiu. O Brasil agora não é mais rural, é um país urbano. Ser escritor era ser de esquerda, o Jorge Amado era do Partido Comunista, os editores também… Isso também acabou. O precursor dessa mudança foi o Rubem Fonseca. A grande inovação dele foi mostrar que, ao contrário do que a minha geração pensava, a violência não é só da luta de classes. A gente vê traficante matando gente do universo dele. Ele não vai assaltar o banqueiro, ele não vai fazer distribuição de renda, hoje é a versão mais selvagem do capitalismo… Então acho que o grande tema da literatura urbana, hoje, é a violência. Tem também o papel da mulher na literatura, importantíssimo, e a precursora foi a Clarice Lispector.

Você e ela eram amigos? Vocês vêm de uma existência do frio, ela ucraniana, você de família russa, ambos judeus…

Conheci bem a Clarice, sim, tínhamos coisasem comum. Elaera considerada alienada, intimista, desligada. Depois que as pessoas perceberam que sua literatura era importantíssima, falava da opressão feminina. Ela era muito angustiada, como escritora foi notável, como ser humano, sofria muito. Precisava ser amparada, ajudada.

Você escreveu sobre a cultura judaica em ensaios, em livros como A mulher que escreveu a Bíblia, ou no humor presente em tantos textos. Fale mais sobre isso.

Tenho um fascínio pela Bíblia, ninguém sabe quem a escreveu, e certamente não foi essa mulher de quem falei (risos). A Bíblia é muito interessante, porque ao mesmo tempo que traz preceitos morais, relatos da condição humana, é um modelo eterno para qualquer escritor. Um jornalismo exemplar de concisão, de objetividade. Se quando tu lê textos de 20 ou 30 anos te parecem velhos, veja que o texto da Bíblia, com 2, 3 mil anos, é atual. Na verdade, sou fascinado pela cultura judaica, pelo humor judaico, uma forma inteligente de resistência. É um humor auto-irônico, meio filosófico, meio amargo, os judeus sempre estiveram na crista da onda na história, mas pagaram um preço. E têm esse humor que não ataca ninguém, é o humor do Woody Allen, em que a pessoa ri de si mesmo.

Você, pessoalmente, é bem-humorado no dia a dia?

Sou.  E também não entendo literatura mal-humorada. Para mobilizar os leitores, a literatura tem de ter humor, emoção e ensinar alguma coisa. A minha geração teve um lado brilhante, de humor político: o Stanislaw Ponte Preta, os cronistas mineiros e cariocas, o Luís Fernando Veríssimo. Mas hoje o humor na literatura brasileira é mais escrachado. Uma vez participei de uma feira de livros de Buenos Aires e um famoso professor de literatura me deixou boquiaberto quando disse: “Não entendo como um país tão alegre tem uma literatura tão triste”. E ele tinha razão.

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