DIÁRIO DA ITALIA 10

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicilia

5/6: A convivência e suas consequências. Faz anos li um livro excelente sobre os bastidores de Hollywood, A Cidade das Redes, e nunca esqueci o drama de Gene Tierney, estrela da década de 40 e na minha lista das mulheres mais lindas do cinema. Grávida, ela contraiu rubéola, o que fez com que sua filha nascesse surda, cega e com outras sequelas. Gene não suportou a culpa. Veio o efeito dominó: afundou na depressão, tomou eletrochoques, tentou o suicídio, a carreira foi para o espaço, ela teve de trabalhar como balconista de loja. Anos depois, numa volta por cima, a atriz estava num evento em sua homenagem quando uma fã chegou junto, senhora amorosa, e lhe disse, açúcar na voz: “Gene, sempre te adorei. Lembra quando você estava numa campanha para ajudar os soldados na Guerra? Fugi do hospital e fui lá te dar um beijo”. A fã estava internada com rubéola. Gene estava grávida. Quando escutou a história, desmaiou.

Àquela altura, o que fazer com a sem noção? Foi só um beijo.

Nesta semana em Marsala comemoramos que a região de Trapani, onde estamos, na Sicilia, já estava há 28 dias sem nenhum novo caso de coronavírus. Deu nos jornais: a primeira região de toda a Itália a sair da pandemia. Mal se passaram três dias e um estudante siciliano que mora no Norte do país foi diagnosticado aqui depois de rodar pela cidade, ver os amigos, tomar umas no bar. Apertado pelo interrogatório medico, confessou que já tinha feito um teste porque devia estar contaminado, mas não quis esperar o resultado. Sabe como é, saudades da família, da turma, de olhar o mar.

Agora, o que fazer com o sujeito? Botar num castigo vintage, diante da lousa, escrevendo “sou irresponsável”, “sou irresponsável”, milhares de vezes?

certo que todo mundo já escorregou várias vezes na vida, mas provocar o tombo dos outros muda a casca de banana de patamar. Deveria ser simples invocar a coerência, aquela qualidade que achamos pouco sexy nos outros quando somos nós que pisamos na bola. O“você gostaria que o seu colega fizesse isso com você?” para nos avisar que estamos passando do limite. E justo quando é mais necessária, a primeira coisa a sair de cena é a coerência.

Sujeito fura o isolamento dizendo que não aguenta ficar longe dos amigos, impossível ser feliz sozinho. Então, sabendo que talvez esteja assintomático ou que no caminho pode pegar o vírus, sai felizão de casa para contaminar esses amigos que ele não consegue viver sem. A mesma pessoa que tem tanto apego a viver em grupo é a primeira a reivindicar o direito à liberdade individual, esse conceito sempre lembrado com veemência na hora de passar na frente dos outros, falar a frase agressiva, subir o muro para tapar o sol do vizinho.

A pandemia está escancarando, para quem nunca quis enxergar, as abissais injustiças sociais no planeta. Se a gente der um zoom, vai notar que ela nos mostra detalhes que preferíamos não ver na convivência diária. E vem o dilema de como exercer a diplomacia no seu pedaço: ser ou não ser fiscal da vida dos outros, quando a nossa também está na jogada?

O poeta Ferreira Gullar dizia que a crase não foi feita para humilhar ninguém. Mas nem todo mundo gosta de ouvir que falta ou sobra crase na frase. Regras de saúde também não foram feitas para humilhar ninguém, e podem botar a gente num beco das relações humanas. Devemos apontar o dedo na cara da amiga sempre tão gentil mas que não usa a máscara de jeito nenhum? Dar uma de X-9 e ligar para a polícia porque o vizinho está com 15 amigos no apartamento? Gritar com a mãe ou avó porque ela deu uma fugidinha até o mercado? Ela pode chorar e retrucar que antes disso você ficava dias sem telefonar, sem aparecer, que história é essa de agora vir com sermão. Se não fazemos nada, somos cúmplices. Ou não dormimos pelos próximos três meses de raiva dos egoístas.

A pós quarentena, que começa a arejar um pouco as coisas, traz novas saias justas. Uma amiga que se isolou no campo, na França, abriu a porta para o vizinho que passou só para se despedir, ia voltar para Paris. Na hora do tchau ele se empolgou e tascou um beijo na bochecha dela. Congelada, ela não sabia se dava uma dura ou corria para passar álcool gel. No laboratório, o italiano gordinho está de máscaras, luvas, espeta a seringa no meu braço e com a outra mão tira a máscara do nariz, esfrega o rosto suado (“tá calor”) e vem botar o algodão para cobrir a picada. Digo o quê?

Assim, balançando entre a hipocondria, a solidariedade e o e daí?, o jeito de seguir no mundo parece ser cada um cuidar o melhor de si e botar a mão na consciência, aquela voz interior que nos avisa que alguém pode estar olhando, como dizia o escritor H.L. Mencken. Aos poucos talvez a ciência dê conta do vírus, se a situação melhora esquecemos a bronca que tínhamos dos inconsequentes e dali a pouco tá todo mundo ocupado demais pensando em outras coisas. A coerência a gente deixa para depois.

DIÁRIO DA ITÁLIA 9

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicília

19/5: Querer saber ou não das coisas. Tem uma história sensacional que o Ziraldo conta de quando era menino e, lá pros lados de Caratinga, onde nasceu, existia um areal que era visto bem de longe, depois de um vale. Os meninos apertavam os olhos para enxergar aquele espaço que parecia infinito, podia ser um oceano. Um dia ele comentou com um amigo sobre o areal, o outro menino teimou: não é um areal, é um rio. “É um areal, todo mundo sabe”. “É um rio”. “Quer apostar?”. Correram até lá, chegaram esbaforidos. Ziraldo, que estava certo, apanhou na mão um punhado de areia e atirou, vitorioso, no amigo. “Olha aqui, ó, areia”. E o menino, incurvável diante da evidência: “’Não me molha, desgraçado”.

Teimosia, a nossa ou a alheia, é velha como o mundo, e bota uma pimenta boa nuns debates, ou naquela conversa de língua enrolada na mesa do bar. No final é capaz dos brigões não cederem, uns podem nunca mais se falar, ou vão sair abraçados cantando Se todos fossem iguais a você. Acontece que os cabeças dura cresceram e se multiplicaram por bilhões, tomaram as redes sociais e daí as ruas, as famílias, o planeta. E feito aqueles zumbis em filme, quando a gente bobeia somos nós a revirar os olhos e perder a capacidade de análise. Não importa o tema. Nem se o argumento vem embalado com elegância, lógica cartesiana, citação de especialista, ou você próprio é o diplomado que estuda o assunto há anos. O interlocutor prefere morrer seco com areia goela abaixo do que aceitar que foi maus, é verdade, não tinha pensado nisso, desta vez estava errado. Não era um rio.

No areal da vez, o coronavírus, com sua intrincada rede de temas, política, economia, cloroquina, abre-ou-fecha-o-comércio, racismo, desigualdade, egoísmo, máscara, não-é-tudo-isso-que-falam, e-se-fosse-alguém-da-sua-família, todas fortes razões para aprendermos a prestar mais atenção nos outros, os rios da discórdia correm cada vez mais caudalosos. Estamos em guerra. Pode ser aqui na Itália, em que a discussão faz parte da alma, ou até na China, onde parece que esqueceram o Confucio e andam estressadíssimos. O Brasil tem agravante disfarçado de jeitinho. Fulano torce o assunto, arruma uma desculpa, chuta o raciocínio como se fosse uma bola. Para fazer você ter vontade de tirar a calça e pisar em cima, tem aquele que ataca, lança um absurdo, e depois, apertado pelos fatos, apenas solta um kkkk e ainda sai comemorando, crente que foi gol.

Comum também é o tipo pavão, que finge conhecimento e fala “veja bem”, prometendo a nova informação que vai mudar tudo. Enrola e não diz nada. É como aquele sujeito de sapato bicolor que na gafieira tirou a Rita, minha antiga cabeleireira, para dançar. Ela ficou assanhadíssima, esse tinha cara de quem sabe o riscado. Ele dançava bem comunzinho, mas no meio da música anunciou, confiante: “Segura!” Ela se aprumou, firmou a coluna, “agora o homem vai me pegar no colo, me rodar, jogar para cima”, e … nada. Dali a pouco ele repetiu: “Se-gu-ra”, a Rita de novo se ajeitou, à espera do grande rodopio. Nada.

Se estão indo embora a diplomacia, as tiradas espirituosas, o interesse pelo diálogo, o que cresce na Internet é o fervor. Na vida muita gente ama, muita gente reza, muita gente batalha. Nas redes todo mundo ama, reza, batalha, paga seus impostos com fervor, e faz questão de deixar isso claro com uma violência inimaginável. E tem a desconfiança. Ah, nada é por acaso. A amiga fofa da adolescência, que toma chá numa caneca estampada com a frase do Ferreira Gullar (Não quero ter razão, quero ser feliz), dispara complexas teorias da conspiração e, se alguém mostra, com o fino da ciência, que aquilo não faz sentido, ela rebate: “Você está chipado, é isso, trabalha para eles (leia-se as organizações que querem dominar o mundo)”.

Eric Hobsbawn, grande historiador inglês, me disse numa entrevista (muito antes das redes sociais) que nunca tantas pessoas estudaram e foram à universidade, mas isso não fez novos gênios ou seres humanos melhores. Não é, de jeito nenhum, o caso de defender a ignorância, mas de pensar que sabedoria é também olhar para outros lados.

Em hebraico existe a lenda da Laila, nome que significa noite, uma espécie de feiticeira, me conta minha amiga Andi. Assim que um óvulo é fecundado aqui na Terra, Laila acende uma luz e entra na barriga da mãe, assoprando todo o conhecimento, todas as comédias e tragédias para o bebê que vai nascer. Na hora do parto, quando o bebê chora, Laila faz shhh! E põe o dedo no lábio do recém nascido. Então ele esquece tudo o que aprendeu no ventre e durante tantos momentos da vida sua lição vai ser voltar para dentro e recordar, e aí que estaria a graça da existência. Parece difícil.

Talvez a gente só precise se lembrar de algo mais simples, qualquer coisa do nosso cotidiano mesmo que gostávamos tanto de fazer, e que por algum motivo, quem sabe teimosia nossa, deixamos para lá. Assim, mais leves com algumas redescobertas, tentamos seguir em frente. Alguns de nós sabem lutar com força, outros no passinho miúdo já sacam tudo, e todos, por bem ou mal, sempre nos ensinam. Porque o mundo continua, os malvados não vão aprender nunca, e a gente espera que pelo menos eles se estrepem no final. Mas nem isso dá para ter certeza.

DIÁRIO DA ITALIA 8

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicília

5/5: Sobre cada um no seu quadrado. Não faz muito tempo. Eu estava numa legítima milonga em Buenos Aires. Um legítimo portenho me tirou para dançar. Cintilei.

— Não sei bem os passos, você me ensina?

— No sabes bailar el tango?

— Sou brasileira, mas danço tudo, aprendo rápido. Me ensina uns passos que eu pego – falei toda sorridente, aquele clichê tropical de achar que basta a boa lábia para quebrar o gelo.

— No. Así no se puede.

E o portenho, na faixa dos 30 anos, bonito mesmo com o cabelão juba penteado para trás, foi me levando de volta para a minha cadeira. Estávamos no meio do salão ainda meio vazio, todo mundo olhando, e aquele homem de camisa aberta no peito ia me devolver para a cadeira. Que que é isso? De jeito nenhum, Gardelón. A mão que estava na minha cintura tinha subido para o meio das costas, sutilmente me empurrando. 

Apelei. Agarrei no braço dele e murmurei, entredentes: “Por favor, me deixa tentar”. “Tango es un tema serio”, ele me disse, apontando a cadeira. “Tem nada a ver isso aí. Eu pago. Te pago 20 pesos, mas não vou ser devolvida”. O tempo passando e nós naquela situação ridícula. Ele continuava me empurrando, eu empurrava de volta. Quase enterrei as unhas no braço dele. No fim ele dançou comigo. Na sua testa estava escrito “mujer loca”, mas uma música, ao menos, ele dançou. 

Pode até pintar uns constrangimentos (esse aconteceu mesmo), mas dançar, para mim, sempre foi a alegria real. Um jeito Tony Manero de enxergar algum sentido da vida no sábado à noite – ou fugir dela, já que encarar a realidade nunca foi o meu forte. Desde menina, quando entro numa pista não saio nunca mais. Não é preciso um par, nem uns goles a mais, embora tudo isso seja bem vindo. Mexer o corpo, se deixar levar pela música, dar um gritinho interno quando toca aquela favorita. É a celebração. As inquietações, por uns minutinhos ou horas, ficam para trás.

É a melhor desforra. Nesta quarentena em que estamos vendo tanta dor e dúvida, dançar abre o sol naquele instante negro do meu dia em que, depois de ler as noticias e sentir um desejo incontrolável de matar os sem caráter, resolvo seguir o Nereu do Trio Mocotó, que cantava, derramando malícia no pandeiro e na voz rouca: “Extravasa, extravasa”. O jeito é extravasar na varanda, com a porta fechada para o marido, grudado no computador, não reclamar do som. Não há preguiça maior do que a desses chatos que vivem dando conselhos, mas vou me atrever aqui a uma sugestão: quando a alma estiver pegando fogo, em vez de ir chorar na cama que é lugar quente, experimente botar um som e sacolejar até as últimas consequências. 

Ou, se a ideia é se aprimorar, aproveite que esta pandemia é a era da autossuficiência e já estamos colados no youtube aprendendo a pintar o cabelo, fazer arroz soltinho, cortar a franja, e sintonize numa aula de dança. Pode se agarrar apaixonadamente a uma vassoura, pegar a cadeira para se apoiar na hora da voltinha, até subir nela `a la Liza Minelli. Life is not a cabaret agora, meu chapa, mas na vida mascarada em que estamos, por que não liberar uns sonhos? 

Lá fora é preciso manter a distância de no mínimo um metro e meio do outro, jamais expor bocas e narizes, e fico pensando se vamos voltar logo para a deliciosa farra de uma pista lotada, ou para a delicadeza do dois para lá, dois para cá, os corpos coladinhos, o calor anunciando sensações que a gente não consegue dizer. Se estamos tão autossuficientes, desaprenderemos a lição que é dançar junto, essa metáfora óbvia da existência? Da importância de se adaptar ao outro, entender a cadência, o suingue levando a vida. Uma aula de convivência, como me explicou anos atrás, com seus erres de sotaque italiano, a Dona Madalena, uma senhora de uns 70 e muitos anos que se maquiava com longos cílios postiços, botava o salto 15, ajeitava a peruca platinada e todo sábado se acabava no baile: “Filha, eu não complico: você samba, eu sambo. Você rrumba, eu rrumbo”.

E como fica a dança do acasalamento? Tudo bem que já vem mudando faz tempo, os Tinders dispensaram a lenga lenga do “você vem sempre aqui?”, mas na pista sempre existiu o ritual da troca de olhares e sorrisinhos com o drinque na mão, o chega junto, mão na mão, o enrosco gostoso. Agora que é cada um no seu quadrado, até na praia a sedução está ameaçada de extinção. Nas previsões de futuro próximo que os sujeitos estão se arriscando a fazer, vieram com uma ideia de no verão cada pessoa ficar exposta ao sol em gaiolas transparentes de plexiglass para ninguém se aproximar. Se aqui na Itália, que tem praias com cercadinhos (os lidos), a ideia já é de jerico, imagino no Rio, onde revelar o corpo é o convite imediato para o vizinho oferecer te besuntar de creme, ou combinar o samba para a noite, como seria? Vai acabar a inspiração para canções, novidades de comportamento, para novos ritmos dançantes. Não sou apocalíptica, mas agora que acabaram com o biscoito Globo, pressinto que vão levar também uns rituais do planeta. 

Sim, sucedem muitas coisas. O verão talvez não seja o mesmo, os romances também não, mas as músicas continuam aí, embalando a gente, salvando uns instantes, e nos nossos quadrados vamos resistir dançando. Neste mundo em que não podemos mais respirar sem sentir medo, lembro do Manuel Bandeira, que passou anos sofrendo do pulmão e escreveu que, se não dá para tentar mais nada na vida, a única coisa a fazer é tocar um tango argentino. 


	

DIÁRIO DA ITÁLIA 7

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicília

 

21/4: Sobre gaiolas grandes e pequenas. Enquanto boa parte do planeta está engaiolada em casa, turistas estavam esta semana trancafiados num navio de cruzeiro ancorado no mar quase em frente ao trecho onde moro, em Marsala. Virou assunto. Aqui no verão, no tempo em que a vida era leve e solta, era uma cidade de barcos de pescador, o centro de kitesurf, mas não rota de cruzeiro. Aqueles naviozões que anunciam champanhe e risadinhas com o capitão, spa e cascata de camarão no bufê, sempre pararam na cidade vizinha, Trapani. O jornal conta que o Costa Deliziosa traz 1814 passageiros mais 898 tripulantes. Zarparam de Veneza, em 5 de janeiro, para uma despreocupada volta ao mundo em três meses e meio. Pela data, a turma já saiu correndo risco, mas àquela altura ninguém atinou que o vírus que estava lá na China também teria a mesma ideia – e com muito mais velocidade.

O Deliziosa estava indo bem – o roteiro incluía Peru, Chile, ilha de Páscoa, uma pitada de Gauguin em Bora Bora, depois Nova Zelândia. Daí para o Oriente, fazendo uma volta para o pessoal ver a África, mergulhar e tomar um sorvetinho nas ilhas Seychelles e Mauricio. Há mais de um mês deixou de ser delícia: com as fronteiras fechadas, todos os portos de Austrália a Malta recusaram dar permissão para o navio atracar. E os turistas, italianos, espanhóis, americanos, ficaram a ver a terra de longe. Trotes da pandemia: quem tem quase 4 meses para esbanjar verba na água, com cozinheiro bom a bordo e passaporte de primeiro mundo, de repente se vê impedido de pisar num país, coisa que só acontecia com barcos de refugiados. Ao redor, a incógnita. Tudo é mar, imenso, inesperado.

Fico pensando nesses cidadãos presos num navio iguais aos personagens trancados na diligência em filme de faroeste do John Ford, tendo de conviver enquanto os índios, os inimigos, estão lá fora à espreita. Dá para imaginar: diálogos puxados num molho filosófico, uns tantos no desespero, uns mudos, outros tentando tirar lição de vida. Sempre tem os que representam cada tipo do mundo, o rico ambicioso, a exibida, alguém que viajou para esquecer a dor de perder um amor, o ex-gordinho da escola que se autoproclama o líder e vai tomando decisões. Dos conflitos ou das frases amenas emergem pedaços do passado de cada um, e assim revelam quem são, o que pensam, porque foram parar ali.

É quando se percebe que o perigo, além do vírus, mora bem ao lado: humanos em restrição costumam desnudar lados que não queríamos ter visto. Se o isolamento já é dureza para quem está em casa com a família, terreno conhecido, ainda que com rusgas e dramas, pense o que seja isolar-se com mais de mil que mal se conhecem e de repente não podem mais dar uma desanuviada no próximo porto. Tudo bem que o navio é grande, existe a opção de se enfurnar na cabine, ou escorregar feito peixe dos chatos, mas os dias passam, o consumo de uísque aumenta, as rodas se formam e logo vêm as dissidências. Os boatos. A piada torta. A disputa do camarão. Daí para a ignorância é um passo.

Eu, que sempre tive horror das férias em turma, quando pintam uns que ninguém conhece, fatalmente chove, não dá para sair da casa e o coitado para quem sempre sobra o trabalho em grupo na classe vai ser o único a encarar a pia de louça, desconfio que não tem Dom Pèrignon que disfarce as reações do varejo da vida. Teve aquela vez em que fiquei à deriva em condições bem mais simplesinhas, numa jangada sem remo, com meu namorado, dois pescadores monossilábicos, mais dois casais de turistas que embarcaram para dividir o custo do passeio com cara de divertido. O mastro quebrou. Da jangada víamos as dunas de Jericoaquara, parecia perto, mas o vento parou e ficamos assim, horas no mar, sem remo, sem comida, olhando desolados para o que seria nosso destino paradisíaco. Vieram as piadas, os palpites infelizes, o instinto assassino. A voz esganiçada de uma das garotas. Se o vento não tivesse voltado, algum de nós ali sairia sem orelha.

Pois no luxuoso Deliziosa a coisa também degringolou. O navio teve permissão para atracar aqui em Marsala porque um passageiro passou mal, não conseguia respirar, e precisou de socorro médico. Uma passageira contou ao jornal que assim que o capitão anunciou o fato, na hora do almoço, sem nem mencionar a palavra coronavírus, todo mundo largou os talheres, levantou da mesa e correu para se trancar na cabine. Ninguém mais se dirigiu a palavra. O roteiro virou suspense: qualquer um podia ser o inimigo. Assim seguiram, nas suas gaiolinhas individuais, as refeições servidas na porta. No fim o coitado não tinha o vírus, o teste deu negativo, o navio já se mandou para Barcelona. Outra passageira postou nas redes sociais um vídeo de gratidão, “o amor e a luz triunfarão”, alívio no ar. Deve ter ficado também um segredo em cada um: aquele sentimento que nada mais será o mesmo depois de escancarada a desconfiança.

Daqui das nossas pequenas gaiolas na terra, a vida também segue estranha. Mas lá fora é primavera, flores brotam espontâneas, e o mar continua imenso, inesperado.

DIÁRIO DA ITÁLIA 6

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicília

 

14/4: Sobre esse negócio de aprender a ser só. Adoro contar a história de uma amiga que aproveitou a folga para passar uns dias na Bahia enquanto o marido, com trabalho acumulado, teve de ficar em casa. Muito bonitinha, ela caminhava pela areia quando do nada um sujeito do pedaço foi chegando, o olhar pidão, aquele papinho-gentileza. Ofereceu-se para ser um guia, “já viu o pôr do sol daqui?”, até que abriu o sorriso alvo e tascou a cantada: “Moça tão bonita, sozinha, não pode. Com você eu caso!” Ela agradeceu, explicou que já era casada. “Ôxi, cadê o marido?” “Não pôde vir”. Ele a examinou de alto a baixo e não se conteve, o sotaque arrastado: “Mas é muuuita confiança”.

Viajar sozinha é uma delícia, faço isso muito, desde a adolescência, mas em algum momento vai aparecer um tipo desse naipe, o recheio do papo tão previsível quanto umas comidas globalizadas: mudam alguns ingredientes, a receita é a mesma. Que se repete sempre se estamos sem ninguém ao lado: em bares, restaurantes, ou em algum cenário bonito que escolhemos para curtir civilizadamente a solidão. A ideia de ficar sozinho não costuma pegar bem por aí, e embora moças sofram muito, muito mais assédio, não é exclusividade feminina a aparição de um chato para fazer companhia quando a gente não quer. É o clichê de homens que fogem de mulheres grudentas. A cena clássica de se sentar num avião ou ônibus e a pessoa ao lado querer fazer amigo. A turma do escritório que vai olhar esquisito se você disser que não tá a fim de almoçar. Isolar-se pode lhe custar o emprego. Bancar a Greta Garbo não é tão fácil, nem aqui nem no Irajá.

Falo de isolamentos pontuais, a necessidade de ficar na sua por uns tempos. Não daqueles solitários ranhetas, o tipo Urtigão de mal com a vida que grunhe monossílabos diante de qualquer sorriso próximo. Também não cabe aqui a seríssima reclusão por depressão, dor profunda, incapacidade de seguir em frente.  Tô pensando naquela saudável vontade que dá às vezes de desaparecer, dar uma de João Gilberto recebendo a comida delivery por detrás da porta, enquanto cantarola o Samba de uma nota só. Há anos cultivo o sonho recorrente, quando a situação aperta, de um dia pegar a bolsinha e sumir – um tchauzinho para o trabalho maçante, o amor que murchou, a vida repetitiva. A solidão como liberdade, aquela maravilha que é não dar satisfação porque não tem ninguém olhando. Botar o disco dos Stones para tocar e sair dançando pelado no quintal, como o sisudo editor Luiz Schwarcz me contou numa entrevista: fez isso quando decidiu largar o emprego.

Essas coisas são complexas. Isolar-se, como quase tudo na vida, só tem graça quando a gente quer. Se os outros nos isolam dói demais. Tenho a memória de adolescente, criatura mais indesejada do planeta, quando meus dentes cresciam dois metros na minha frente, o choro profundo debaixo da coberta. Constatar que ficar mais velha não tirou de vez a coberta. A solidão, em dois palitos, traz a carência, outro perigo, quando uns goles a mais fazem a gente achar graça inimaginável nuns tipos que trazem escrito na testa: vou afundar sua autoestima. Um simples elogio já balança nossas convicções: minha amiga Marina, mulher linda e excelente escritora, ouviu um “largo tudo por você” de um carregador de colchão, suado, mas com umas costas fortes, uma firmeza. Quem sabe?, cogitou. Já enxerguei, animada, virilidade no porteiro gordinho do prédio que me sorria sempre tão simpático. Minha amiga Valéria me advertiu: “Melhor não”.

Agora, obrigados que estamos ao isolamento, mais as dúvidas abissais que vivemos, os efeitos dessa aritmética podem ser devastadores. Uma semana almoçando sozinho e há quem se sente em síndrome de abstinência (isso com a sorte de ter casa, comida, Internet). Entram em cena nos vídeos e lives o alívio da música, as adoráveis carinhas dos amigos no zoom, a tortura de gurus ensinando que na solidão devemos olhar para dentro. Agora? Jura? Não acho tão ruim o isolamento, mas eu não sou exemplo. Estou acostumada a ficar em casa, anos como frila, e tenho o imenso privilégio de apê com varanda e nem estar só: meu amor ao lado e uma cachorra maravilhosa, e falo com minha filha todo dia. Lá fora o marzão turquesa aqui da Sicilia.

No azul lá longe, hoje tem um único barco, um barquinho de pescador, solitário. Não, não vou dizer que seguimos todos no mesmo barco: uns vão de iate, outras embarcações variadas e tantos, tantos, têm de se virar agarrados numa tábua de madeira. Nesse marzão o que temos em comum é que estamos todos à deriva, atados pela incerteza e a saudade de outra vida que foi agora pouco. Isso me deu a tal liberdade do ninguém está olhando: voltei a escrever, coisa que não fazia há anos, porque tá tudo incerto mesmo e assim não me obrigo a fazer direito, um dos meus maiores dramas. Mas invejo o pescador no barquinho. Não sei o que ele pensa, e me inundo de azul e otimismo com a cena: é não ter nada em volta e não sentir falta de coisa alguma. É um estado de espírito. A liberdade absoluta.

DIÁRIO DA ITÁLIA 5

 

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicília

 

6/4: Maria, a filha de uma amiga, fez 6 anos agora na quarentena e teve de se contentar com bolo com pai e mãe e parabéns virtuais dos amiguinhos. Na resposta em vídeo, animadíssima, ela fala numa só frase o que muita gente no planeta, neste momento, vira a noite na cama pensando: “Quando isso passar, minha festa vai ser incrível. Quer dizer, se a Terra ainda existir”.

Não sei dos outros adultos, mas esse duplo existencial de me animar com uma coisa e na mesma hora constatar que tudo pode ir pelos ares a qualquer momento me acompanha há muito tempo. Toda vez que dei uma festa, ou nos lançamentos dos meus livros, voltava a cena: eu menina de banho tomado, cabelo molhado e vestido novo, na porta da festinha, o coração indeciso entre aguardar a chegada dos amigos e antever o fracasso. E se ninguém aparecer? Começo de historia romântica, então, mal entrava na fase do desejo já imaginava a do desdém (do outro, claro, que adoro um drama). Uma vez, numa redação em que trabalhei, havia rumores de demissão em massa e justo na minha editoria o chefe novo estava incumbido da limpeza de cargos. Me chamou na salinha dele e antes de entrar eu já tinha esvaziado minha gaveta, me despedido dos colegas, chorado um pouquinho. Entrei e soube que havia sido promovida. Só consegui responder: “Mas já dei tchau para todo mundo.”

Minha alma infantil tem a mania do exagero e uma certa crença que no fundo vai dar certo. Umas boas risadas me trazem aquele otimismo de quem amanhece chorando e dali a pouco tá chutando a bola pro gol na brincadeira, ou rodopiando na sala com música no último volume. Paulo Mendes Campos dizia que a infância nada mais é do que a sensação que a vida é de graça. Mas em época de pandemia fica tão difícil a espontaneidade para ver alegria em pequenas coisas ganhar do peito pegando fogo.

E voltamos à questão: a Terra, do jeito que conhecemos, ainda vai existir? Seremos outros? Ou assim que sairmos dessa vamos dar festas incríveis como se nada tivesse acontecido? A natureza já está dando umas pistas curiosas de que talvez a gente não faça muita falta no mundo: as fotos mostram golfinhos e cisnes de volta a uma Veneza de águas clarinhas, uma família de patos passeando por Roma sem turistas, javalis dando pinta em Barcelona, os bichos soltos pelas cidades, numa doce revanche, enquanto nós olhamos tudo do cativeiro.

Vi há anos um documentário na TV mostrando uma enchente absurda na África, e todos os animais tiveram de se proteger espremidos numa pequena fatia de terra mais elevada. A cadeia alimentar ali, completinha: leões ao lado de zebras, macacos, tigres, girafas, lebres, hienas, quietos esperando a tempestade passar. Ninguém relava em ninguém. Assim que a água baixou, a bicharada escutou os apitos do destino, o jogo começou e cada um correu para um lado. Hora da caça. Tudo voltou ao estado anterior e, pior, os bichos com mais fome. Leio entrevistas com especialistas em tendências de consumo e comportamento sobre a revenge spending: mal começaram a ser liberados do confinamento, chineses e agora sul-coreanos correram para as lojas e torraram o cartão.

Tudo indica, como sempre acontece depois de tantas guerras, que assim que os apitos anunciarem nossa volta à rotina, a cadeia alimentar humana vai permanecer com seus lugares. Predadores à caça, herbívoros tentando se ajustar conforme o tamanho da criatividade e do bolso, umas espécies dissimuladas no meio se aproveitando da situação e a maioria que sempre esteve por baixo, numa paciente intimidade com as mágoas, vai continuar segurando a pirâmide com seu sofrimento invisível. Olho ao redor aqui na Sicilia, todo mundo tão obediente na quarentena, solidário, ninguém acabou com o papel higiênico do mercado, e hoje dois carros – só dois — estavam na avenida deserta. A moça do carro da frente demorou um pouco para virar a esquina e o senhor mascarado atrás, dono do carro maior, buzinou feito louco, gritou, saiu cantando pneu. Penso no Nazaré, um pintor que andava nas ruas do Rio carregando tintas e cavaletes num carrinho de feira, sorrindo, aquele sorrisão de quem já sabe de tudo, e dizia: “Digo para você: de Nova Iorque a Nova Iguaçu não diferem as pessoas”.

Talvez dê uma louca coletiva e as pessoas sempre tão insatisfeitas com o que fazem troquem de lugar, e quem era vilão vai virar bonzinho e os de coração aberto vão ranger os dentes na disputa do último pedaço de batata. Meu lado criançona, lá no fundo, ainda sonha com um negócio muito mais legal: que essas manifestações lindas de solidariedade que temos visto, as músicas bonitas que surgem, as menores delicadezas, se espalhem e andrá tutto bene, nem que seja para uma meia dúzia. Maria vai ter festa. Só que a menina de cabelo molhado acha difícil ser pequena e explicar tantos mistérios.

 

 

DIÁRIO DA ITÁLIA 4

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicília

 

30/3: A vedete Carmen Veronica e uma amiga de palco (acho que era Consuelo Leandro) saíram rebolando sossegadas por Copacabana no dia 31 de março de 1964 a caminho do salão de beleza. O Rio estava deserto, nem uma alma nas ruas, com exceção dos tanques de Guerra e soldados armados que patrulhavam a área – dia do golpe, ou da Revolução, como mais tarde ensinariam os livros de história da minha infância. O soldado esticou o fuzil na cara das duas beldades. “Daqui não passa”. Carmen se indignou com aquela voz molenga, irresistível: “Mas como não passa? Estamos indo fazer o pé e a mão”. “Ordens do comando, senhoritas”. Ela encarou: “E o senhor quer que a gente fique com os calcanhares rachados?”

Lembrei dessa história porque ontem, no passeio rápido com a Zara, minha labradora, as ruas aqui na Sicilia desertas como manda a quarentena, vi na calçada uma lixa de pés. Para polir calcanhares rachados. Uma pequena amostra arqueológica de que a humanidade, essa escondida, está ainda por aí. Fiquei imaginando quem perdeu o objeto – seria uma mãe correndo com a sacola de compras para voltar para casa e fazer o almoço? Uma garota entediada que vai passar esmalte enquanto tá grudada no celular? Uma drag queen aprisionada na quitinete? Quem perdeu, ficou sem, porque além de todas as lojas fechadas, os supermercados não vendem mais esses itens. As prateleiras de cosméticos e produtos de beleza estão agora separadas com fitas de isolar a área em filme policial. “Ordens do governo. Não são itens essenciais, senhora”, me explica o moço do caixa.

Não, não são, concordei. Estamos forçados a viver, sem a leveza do conceito, a filosofia do Balu do Mogli – “somente o necessário, o extraordinário é que é demais”. E com tamanha gravidade no mundo, homens no comando vão perder tempo pensando se alguém pode se preocupar em amaciar os pés, passar um batom, retocar a raiz dos cabelos? Há os que acreditam que essencial, mesmo, é a economia, estúpido!, muito mais do que as vidas dos que não produzem tanto quanto eles gostariam. Os que só veem a mão de Deus, e quer algo mais imprescindível? Nesses tempos de cativeiro, já é luxo ter um amor para dar as mãos, geladeira cheia e TV – o singelo ideal de felicidade de um amigo carioca quando me confidenciou, anos atrás, sobre sua incompreensão das inquietações femininas (“ela diz que a vida não pode ser só isso, mas se eu tô com ela, o Flamengo ganhou, o que falta?”).

E assim o significado de essencial para cada um vai pegando mais forte ou mais leve, sofrendo pequenas mutações, como o vírus que nos tirou os abraços, as mãos dadas, os empregos, as discussões e risadas nas mesas de bar. Levou junto tantas coisas nem tão importantes e cutucou indagações mais profundas: será que não podemos viver com menos? Bom, basta uma olhada nas estatísticas que mostram que um terço do mundo não tem nem água encanada que esse papo de less is morefica meio ridículo de óbvio. Mas também é verdade que até na escassez absoluta todo mundo precisa de uns devaneios. Uma cachacinha que seja, uma música, uma flor no cabelo, botar um pano legal, uns adjetivos para o corpo e para o espírito.

Na adolescência, eu era fascinada por uma mendiga que morava no caixa eletrônico perto da minha casa e vasculhava o lixo da rua catando restos de batom, blush, sombra, para dar um toque no visual. Sempre me encantei de ver que nos países em guerra as pessoas dão um jeito de continuar a diversão, inventam festas no porão, se arrumam como dá e vão dançar, promovem concurso de miss, como naquela canção do U2, Miss Sarajevo. Na atual guerra contra o vírus, talvez a fita que isolou a área da beleza no mercado isole ainda mais a gente do que imaginamos. Nos proíbe a fantasia. Pode ter efeitos imprevisíveis. Minha dentista uma vez me descreveu tudo o que fazia para estar sempre bonita. Depilava os braços, o cabelo precisava de tinta a cada 10 dias, na pele usava procedimentos x e y, então me olhou bem firme e pediu: “Olha, se um dia eu naufragar, ou ficar perdida dias na mata, por favor, não me resgatem”.

Faltou contar o que aconteceu com nossas vedetes, Carmen e Consuelo: o soldado, talvez besta diante do argumento, ou um sábio que compreende a natureza humana, deixou as duas passarem. Na volta, elas jogaram beijos para ele, felizes com as unhas feitas e os calcanhares polidos.

DIARIO DA ITALIA 3

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicília

 

24/3: Tem de ter projeto. A brasileira que mora em Turim enfatiza o tom para nos ensinar como devemos enfrentar a quarentena, num dos inúmeros videos que brotam nas redes sociais. De uns anos para cá, todo mundo em vídeo, texto, áudio, dá conselho, dica, lição edificante. E para ser feliz todo mundo tem de ter projeto. Essa frase sempre me deixou com a pulga. Os que não tem, como eu neste e em alguns momentos da vida, estão condenados a vagar tentando catar um naco do sentido da existência e vão morrer na praia.
Agora que eu achava que, como o planeta prendeu a respiração, talvez fosse hora de simplesmente parar e cultivar a arte de não fazer nada, também não pode. Quem já falava em palestras, TEDx, cursos, e até aquela sua prima de voz mole que exibia a sabedoria em pílulas — “Deus não quer preguiçoso em sua obra”– hoje aparece maquiado e penteado on line, apontando o dedo da eficiência para cigarras sem destino.
Não me refiro, claro, à urgencia em ajudar os outros, colaborar em campanhas, oferecer solidariedade ao vizinho, fazer todo o possível para minimizar as imensas dores dessa pandemia, tudo mais essencial do que nunca. Mas a essa obsessão em ser coach na vida. Cadê aquela preguiça boa do Caymmi?
Quando eu estava na faculdade de jornalismo, o professor mais pop da turma resolveu perguntar, só para ver no que ia dar, se ter objetivo era algo imprescindível. Seria possível viver sem objetivo, só viver? O pau comeu, a classe rachou – quer dizer, a classe inteira contra dois: eu e o Sergio Crusco, que argumentávamos, meio Rita Lee, que viver pelado num eterno domingo não era impossível. Podia ser umas. Esculachados, terminamos a aula entendendo que não iríamos muito longe. Não fomos mesmo, mas tivemos umas ideias legais por aí e os bem sucedidos também sofreram umas cambalhotas.
Não, não tenho nenhum projeto no momento, senhora. E descubro feliz que justo agora no isolamento estou ocupadíssima fazendo uma das coisas que mais amo: batendo papo. Desde que se anunciou a pandemia, e aqui na Itália a coisa tomou proporções inimagináveis, amigos que antes não conseguiam parar me ligam para saber como estou, como é esse negócio de lockdown, e junto vem fofoca, risada, afeto. Gente com quem não falava há muito tempo, aquela conversa à toa como se a gente estivesse pensando em voz alta. Fico horas no celular, pernas para cima, e quando vejo já é hora do jantar. Vou indo pra cozinha, antes faço um carinho na cachorra, ganho um beijo do marido, saio na varanda para ver o mar. Lá fora tá lindo e assustador, mas apreciar o instante aqui dentro, tão espontâneo, pode ser bom.
PS: a foto é a capa de um.livro que editei em 2008.

DIARIO DA ITALIA 2

Umas observações aqui da quarentena na Sicilia

 

 

 

19/3: “Jaspion” , disse minha filha, rindo, ao me ver hoje pronta para sair com a Zara. Uma dorzinha de garganta e a notícia triste sobre o aumento de mortes aqui na Italia me fizeram botar máscara, luvas e sair paramentada como outros poucos donos de cães que vi na rua. Os cachorros, felizes, continuam se cumprimentando efusivamente, colando focinhos, cheirando e abanando rabos, enquanto nós , humanos apavorados com o vírus, mantemos distância, esticando as coleiras, mal nos falamos, coração apertado entre a incerteza e aquela inveja de poder escancarar afeto e trocar uma ideia com alguém da sua espécie. Num flashback, me veio a cena de quando, aos 20 aninhos , me vesti de Jaspion com os.amigos para animar uma festa infantil em Campinas. Éramos uns 10 Jaspions e Changemen apertados na Kombi velha pipocando pela Anhanguera. A Kombi quebrou, saímos para empurrar metidos naquelas roupas e capacetes, os caminhoneiros buzinando e berrando “Força JASPION!”. “Dá-lhe Changeman! ” Meu único pavor então era fazer xixi no macacão emprestado porque não conseguia parar de rir. De volta à vida real, os cães se separam, cada um segue seu caminho com o respectivo pet, e a Jaspion aqui tem de voltar para casa com a Zara e ficar quietinha, que o máximo de aventura agora é se manter firme. Viver tá mais perigoso. Mas acho que sempre podemos resgatar umas gargalhadas.

 

22/3: Pequenas ternuras: flores dos pequenos produtores rurais daqui da Sicília; bolo de chocolate que fiz junto com minha filha por whats app; chorar com o vídeo mais lindo de cantoria da janela (são muitos, eu sei, mas esse é demais), ler histórias que transbordam solidariedade, ganhar beijos e palavras doces dos amigos do outro lado do oceano, dançar na sala ouvindo Hang On In There. Pequenas ternuras é uma crônica do meu ídolo Paulo Mendes Campos, lista de simples gestos cotidianos que, sem a gente perceber, nos unem na Terra. Pessoalmente não me sinto mal no isolamento, fico de boa em casa, anos como frila, meses aqui longe de todos. Mas não consigo ficar indiferente a tanta dor no mundo. Hoje foram 793 mortos aqui na Itália. No Brasil, os pobres, como sempre, continuam abandonados à própria sorte. Pensei também nos muitos que sofrem de pânico, ansiedade, depressão, nas famílias em que ficar em casa significa dor, violência, choro, desespero. E me vem a lembrança de outra crônica do PMC, Receita de Domingo, sobre um domingo solar e feliz até se cair na real: “O mundo devia, mas não é composto de domingos. Então, como uma espada, surgir da nossa felicidade burguesa e particular uma dor viril e irritada. Para que os dias da semana não nos repartam em uma existência de egoísmos “.

 

 

 

DIÁRIO DA ITÁLIA 1

Pequenas observações aqui na quarentena na Sicilia

 

 

 

 

 

 

18/3: Nas ruas desertas aqui na Sicília, de dia a policia faz a ronda repetindo o slogan: Io resto a casa; à noite os agentes sanitários borrifam desinfetante. Estamos tranquilos, mas como adoro um script, me sinto num filme de sci-fi . Já em Barcelona, onde minha Nina mora, o clima tá igual, ninguém sai, ninguém sabe o que será, mas o roteiro é mais passional. A vizinha dela pega o megafone e berra na varanda: ESTOY ABURRIDA! Mais um dia de quarentena europeia, amigos.

 

13/3: Só pode sair de casa com autorização — eu tenho uma autorização viva, a Zara, que precisa sair para as necessidades e para uma caminhada rápida. Só eu e ela nas ruas totalmente desertas ontem à noite. Um silencio de templo, quebrado pelo som dos homens paramentados como Ghostbusters que borrifam liquido desinfetante pela cidade fechada. Me sinto num filme tipo Chernobyl. Hoje o sol está bom, o mar tá lindo, as flores desabrocham. O cartaz na loja fechada diz: “Viva l’amore, viva la vita” . Uma mulher sorridente debaixo do sol grita em italiano para mim e para a Zara do.outro lado da rua: ” os cães salvam a gente. Nunca essa frase foi tão verdadeira “. Me abro em.sorriso e aceno, concordando. O.sol está bom. E la nave va. Segue a quarentena.

 

11/3: A saúde é o bem mais importante, avisa com calor siciliano o cartaz na.porta da loja fechada sem data ainda para reabrir. Várias lojas fechadas, muitos cartazes, uns mais sucintos, outros mais extensos. Restaurantes não abrem à noite, nos mercados e farmácias só entra uma pessoa por vez e fica a fila na rua. Ah, as ruas de mármore lindas e sempre cheias de gente nessa cidade à beira mar que escolhi morar estão vazias. Alguns passam de máscara. O mar continua lindo, hoje o dia foi ensolarado, mas há tristeza no ar.

 

9/3 : Sempre sonhei em viver numa ilha — aquela coisa de não ser apenas geografia, mas um estado de espírito, um lugar para onde se pode fugir. Hoje que vivo numa, a Sicília, acabo de saber que estamos ilhados em todos os sentidos. Primeiro ministro que havia fechado só as fronteiras do norte da Itália agora baixou a portaria geral. Como diria o Luis Fernando Veríssimo numa crônica que adoro, Pôquer Interminável, em que todos os personagens não param o jogo por nada, “Ninguém sai, ninguém sai “. Vamos ver se aqui fica no blefe e a coisa é mais light (espero) ou se esse negócio se prolonga. Minha aposta é sempre no otimismo. Por enquanto, ninguém sai, ninguém sai.

 

 

 

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