À mesa com Willem Dafoe

 

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Por Cristina Ramalho

 

Uma vez o diretor grego Theo Angelopoulos estava instruindo o ator americano Willem Dafoe como queria que ele fizesse uma cena. Angelopoulos não falava inglês, mas os dois se entendiam em italiano. Era a filmagem da Trilogia II: A poeira do tempo, 2008.

O grego sério, um tipo careca, de óculos, nariz talhado, caminhava de lá para cá, explicando:

_ Você vem por aqui, e daí faz assim, e cosí… Então sentou-se, olhou firme para o ator e soltou, enérgico, uma única frase em inglês:

_ And then … You cry!

Chorar? Dafoe não achava que era preciso, mas tudo bem, se era a vontade do diretor, assim seria. O grego insistia nisso.

Então veio o pior. Angelopoulos bateu palmas e gritou para a equipe:

_ Saiam todos! Dez minutos para o ator se concentrar!

Dafoe gelou. Já se sentia pronto para rodar, era o momento certo, que fizessem a cena logo. E agora?

_ Theo, volta aqui, volta todo mundo!

O ator contou essa história, imitando os gestos e o sotacão grego do homem, num encontro com estudantes de cinema da The Modern School Film, em Nova Iorque. “Aquilo me botou uma pressão, eu não queria nada, só queria filmar”, falou, expressão perplexa. Para quê complicar?

Repetiu tudo isso, rindo, nesta conversa com o Valor, a pedidos da repórter. Estávamos jantando no restaurante Skye, no hotel Unique, em São Paulo, na véspera de sua entrevista coletiva para apresentar Meu amigo hindu, que estreou ontem, 3 de março, filme estrelado por ele e dirigido por Hector Babenco.

Tanto para os alunos lá em Nova Iorque quanto diante do couvert, agora, Dafoe quis demonstrar que atuar, para ele, é simplesmente mergulhar na cena e seguir em frente. Porque Willem Dafoe, 60 anos, mais de 40 de carreira nos palcos, 108 filmes, papéis que vão do Duende Verde do Homem Aranha ao inesquecível sargento Elias de Platoon, do psicanalista no tenso Anticristo de Lars von Triers ao próprio Cristo de Scorsese e o Pasolini de Abel Ferrara, gosta mesmo de desaparecer. Livrar-se da tentação de analisar. Ser como uma tela em branco, e que o diretor tire dele o melhor.

_ Não fico pensando se meu estilo é esse ou aquele, é preciso fazer e pronto, a coisa tem de acontecer de um jeito ou de outro.

Dafoe não teoriza.

_ Não lembro qual escritor noir disse isso, mas é mais ou menos assim: quando você está desorientado, sem saber como continuar, tenha um cara com uma arma na mão abrindo a porta.

A frase real é de Raymond Chandler (“When in doubt, have a man come through a door with a gun in his hand”).

As histórias, o jeito despachado que ele conta, sua adesão natural ao momento. Uma simplicidade que em Willem Dafoe parece ser sua forma de enxergar a vida. O diretor quis desse jeito? Ok, o filme é dele. É para dar entrevista? Então o ator chega na hora, é gentil, aceita sentar mais para lá para o fotógrafo acertar a luz. Fãs no restaurante querem fotos? Pois não. Trata todo mundo bem, faz piada com sua pouca altura – sim, Dafoe é baixinho – e volta rápido para a mesa, focado para a conversa. Só pede, com delicadeza, para trocar de lugar por causa do forte ar condicionado. A hostess do Skye propõe desligar o aparelho. Tudo certo.

Ele está um pouco gripado e quer apenas água sem gás e, por enquanto, uma sopa de legumes de entrada. A assessora de imprensa, Claudia Sabbagk, também vai de sopa e escolhe um refrigerante. Mais águas, ceviche e polvo provençal como entradas para repórter e fotógrafo. De vez em quando, o garçom passa com uma cesta de pãezinhos quentes para abastecer o couvert. Dafoe pega um pãozinho multigrãos. Faz um barulho danado no restaurante, já está cheio, então estamos sentados bem pertinho um do outro para podermos conversar.

Antes da primeira pergunta, ele quer saber o que esta repórter achou do filme. Resposta: “A brincadeira é assim: quem faz as perguntas sou eu, você responde”. Ele ri.

O filme conta uma história inspirada no próprio Babenco: a do cineasta Diego Fairman, homem que descobre um linfoma e tem de lidar com a morte à espreita e a vida depois disso. Dafoe foi compondo sua atuação como muitas vezes costuma fazer: a partir da transformação física do personagem. Ele, que já é magro, vegetariano, e pratica yoga ashtanga há anos, teve de virar quase um faquir para perder 9 quilos.

_ Reduzi muito as porções, cortei o álcool, raspei a cabeça, as cenas foram em boa parte num hospital. Tudo isso vai ajudando a entrar no personagem, ele vai tomando conta.

_ Achou mais difícil interpretar um personagem inspirado em alguém que não apenas é real e está vivo, mas aqui, no caso, foi o seu chefe?

_ Não, isso não influenciou. Babenco tinha muito claro o que pretendia, mas de vez em quando queria que eu criasse o “meu” Diego. Na verdade palpitei muito pouco, e nem sempre acertava (risos). Por exemplo, nas provas de roupas. Ele nunca concordava com o que eu escolhia, dizia “Jamais eu usaria isso se fosse o Diego”. E escolhia outra. Tudo bem, não sou ligado em roupas, o Babenco entende, é todo elegante, presta atenção no que a gente veste — fala, meio gozador, sobre o cineasta, de quem é amigo há anos.

Já o cenário o ator conhecia bem: de pequeno, meio a contragosto, Dafoe ia seguindo o pai médico no trabalho pelos corredores do hospital e assistindo suturas, vendo injeções, observando pacientes. O que não estava previsto é que, uma semana depois de começar as filmagens aqui no Brasil, o ator receberia a notícia que seu pai havia morrido. _Ele estava bem velho, 97 anos, era natural que isso fosse acontecer logo. Mas realmente me afetou, e de alguma forma influenciou no meu trabalho. Meu pai era um homem muito esforçado e foi ficando mais doce com o tempo, sabe? Nossa relação foi ficando outra.

Três anos antes, sua mãe tinha falecido aos 90. Estavam morando na Flórida.

Os Dafoe eram uma típica família da pequena Appleton, Wisconsin, na América dourada dos anos 1950, com jantar farto à mesa, filhos educados, a felicidade tinindo nos eletrodomésticos, móveis de pés palito e firmes valores de vida. Quer dizer, sua biografia era para ter sido assim. Só que o pai, William, e a mãe, Muriel, enfermeira, trabalhavam juntos e nunca estavam em casa.

_Éramos oito filhos, cada um tinha um horário, a gente não conseguia jantar todos juntos e aquele roteiro idealizado pelo meu pai não deu muito certo.

Ele teve sorte: foi o sétimo da prole, quando Dr. Dafoe já não tinha tempo e paciência para ser rígido como foi com o primogênito, que não escapou de ser médico também. O pequeno Willem cresceu mimado por cinco irmãs, e elas lhe ensinaram umas coisas fundamentais da vida: corriam pela casa com um pênis desenhado em papelão pregado na calcinha e contavam piadas sujas.

Família classe média, trabalhadora, liberal, falava-se de tudo, e de política (“Wisconsin era um estado engajado, Milwaukee tinha sindicatos fortes, era bem socialista”, diz), mas para arrumar sua própria turma Dafoe começou a fazer teatro aos 17 anos. Gostou, e aos 18 entrou na faculdade de teatro Wisconsin, em Milwaukee. “Nem escreve isso, porque ninguém nunca ouviu falar”, ele brinca. Não terminou. Foi para a Europa em turnê com o grupo de vanguarda Theatre X, de Milwaukee. Na volta, se mandou para Nova Iorque.

Chegou numa cidade em ebulição, meados da década de 1970, quando era só dar uma voltinha no quarteirão e esbarrar com o Scorsese dirigindo De Niro e Harvey Keitel em Caminhos Perigosos, ou caminhar até a Factory de Andy Warhol para espiar a turma que circulava por lá: Truman Capote, Nico, Velvet Underground. Era uma Nova Iorque violenta, mas falava-se sobre arte conceitual, Philip Glass, John Cage, dança contemporânea, os aluguéis eram possíveis, bastava raspar o reboco de algum armazém para brotar um estúdio. Qualquer tema servia de estímulo para se fazer o que desse na telha. E o que aquela galera colorida que chegava de todos os lugares do país e do mundo menos precisava era de estímulo.

_ Eu tinha uma visão romântica de Nova Iorque, não gostei logo de cara. Fiquei sacudido com o que vi, era muita energia, as pessoas viviam cada dia como se fosse o último da vida delas. Aprendi um bocado.

Mais tarde sofreria com a perda de vários amigos que morreriam de Aids durante os anos 1980 e 90.

Mas com 20 anos, em 1975, um Dafoe cheio de ideias frescas era o mais jovem dos fundadores do The Wooster Group, dirigido por Elizabeth LeCompte, com quem ele acabaria se casando. O grupo, que ocupou um antigo armazém no SoHo também usado pelo pessoal do Fluxus (famoso movimento de arte que teve nomes como Yoko Ono, Joseph Buys e Nam June Paik), existe até hoje, e atualmente usa bastante tecnologia na linguagem. “É interessante, mas não é muito meu estilo”. Dafoe saiu de lá em 2005, mesmo ano em que conheceu, em Roma, sua atual mulher, a cineasta italiana Giada Colagrande.

_ Trabalhar numa companhia de teatro tão experimental e por 30 anos foi incrível, mas também limitador porque a gente tem de se dedicar tanto a ela que não há tempo para fazer outros espetáculos.

O fato de atuar nesse esquema explica seu jeito topa-tudo. Companhia teatral é sinônimo de trabalho artesanal, coletivo, ou seja, botar a mão na massa, de um toquezinho na iluminação à martelada no prego. Até Jack, seu único filho, hoje com 32 anos, cresceu nas coxias mas também entrou no palco, fez de tudo ao lado de pai e mãe.

_Acho que ele ficou cheio disso, porque virou advogado.

_ Como você é como pai?

_ Como uma mãe, hahaha! Sabe o que é, a mãe dele sempre foi workaholic demais.

As performances do Wooster sempre se misturaram com dança, e os atores se relacionavam com grandes mestres da dança contemporânea, como Merce Cunningham, Martha Graham, Pina Bausch. Dafoe se considera um dançarino, um pouco pelas piruetas no palco, e muito pelo conceito de atuação quase orgânico, de se colocar no próprio espaço e não refletir mais. Apenas seguir no ritmo.

_ Quando faço um espetáculo, termino a sessão com a sensação boa, aquele cansaço do dever cumprido. É como arar a terra, um trabalho físico, concreto, que se completa ali, na hora.

Surge o garçom, discreto, cardápio nas mãos. Quer saber o que vamos pedir como pratos. Decidimos repetir as entradas. Willem pede o polvo provençal com batata rústica, todos (com exceção da assessora, que pede um prato principal, o filet mignon ao molho de foie gras) acompanham, o garçom sugere uma porção dupla para cada um, os pratos são pequeninos. Que venham os polvos duplos.

No cinema ele começou no desastre de crítica e bilheteria que foi o filme O Portal do Paraíso (1981), de Michael Cimino. Desastre pessoal para Dafoe também, porque ele riu alto de uma piada durante o ajuste de iluminação, Cimino não achou a menor graça e lascou um “está demitido”. Cinco anos e uns filmes depois, ele se tornaria um astro ao fazer o sensível Sgto. Elias de Platoon (1986), de Oliver Stone. Não parou mais.

_ Faço grandes filmes, desses que dão bilheteria, para chamar a atenção para meus filmes pequenos.

Com aquela voz grave, o rosto fora do padrão hollywoodiano e o gosto por se atirar sem olhar, logo ganhou o coração dos cineastas mais autorais, mais doidos, mais intensos. Abel Ferrara (“Pasolini foi um filme sem script, intenso, criativo”), Lars von Triers (“Adoro o Lars, a gente se entende muito bem, e ele gosta de mudar constantemente”), Martin Scorsese, Wes Anderson, Spike Lee…

No teatro, fez espetáculos com outro gênio denso, Bob Wilson (“Já o Bob mantém sempre o mesmo estilo”), como a ópera experimental Vida e Morte de Marina Abramovic, em que ele, maquiado e de cabelos vermelhos, canta e faz diversos papéis ao lado da artista rainha da performance, numa visão poética sobre a vida dela. Ou a peça A Velha, ao lado de Mikhail Baryshinikov, montada em São Paulo em 2014. Foi durante essa turnê paulistana que sentou com Babenco, checou a agenda e topou fazer Meu amigo hindu.

Dafoe trabalha muito. Tem cinco filmes prontos para estrear em breve. Está fazendo mais um – projeto ainda em segredo – com sua mulher. Conheceram-se na rua, em Roma, apresentados por amigos comuns. Um dia, no impulso, ele a pediu em casamento durante o almoço, ela disse sim, ligaram para a Prefeitura e ouviram que, se chegassem em até duas horas, poderiam marcar o casório para o dia seguinte. Correram para lá e estão há quase 11 anos juntos. Escreveram o filme Before it had a name (Antes tinha um nome), drama romântico que Giada dirigiu e ambos atuaram sobre uma jovem italiana que vai a Nova Iorque. O filme abriu o Festival de Veneza de 2005 e foi relançado em DVD com o título The Black Widow (A viúva negra). “Ajudei no roteiro porque na época minha mulher não escrevia bem em inglês, mas não gosto de escrever. Não tenho o que dizer, porque quando penso uma história ela já se completa na minha cabeça, não vejo porquê contar”.

Giada é 20 anos mais jovem que ele e adora o Brasil (para onde já vieram algumas vezes) – mas não pôde vir dessa vez. Quando pequena, sua casa vivia cheia de artistas, amigos da mãe dela, que tocavam e cantavam bossa nova, uma alegria com cara de verão que ficou na sua memória. A italiana ainda busca patrocínio para um filme que pretende rodar em breve no Brasil, chamado Trópico.

O casal passou o réveillon retrasado no Rio com Seu Jorge, amigo chegado de Dafoe desde que eles fizeram o filme A vida marinha com Steve Zissou (2004). “Adoro a sogra dele, a mãe da Mariana, ela é cool, você conhece? “

O garçom retira os pratos. Sobremesa? Dafoe dispensa. “Não sou de doces”. Pede um chá, acompanhando a assessora. Creme brulée de milho com pipoca com chocolate e cheese cake de limão siciliano com sorvete de tangerina para repórter e fotógrafo. Falamos de comida, sabores preferidos, ele diz que gosta de cozinhar de vez em quando, de cuidar da casa, lavar a louça.

_ Gosto de fazer essas coisas simples, acho que ajudam a gente a meditar.

Hoje, vivendo mais em Roma do que em Nova Iorque, sai a pé para comprar umas coisas nas mercearias ao redor do seu pedaço, a Piazza Vittorio. Adora caminhar pelas cidades. Já Los Angeles não é a sua praia.

_ Vou, vejo meus amigos, é legal, mas Hollywood não tem a ver comigo. Em Nova Iorque posso ligar para um amigo e falar “vamos tomar um drinque” e ele vai. Em Los Angeles tenho de marcar com antecedência, o cara vai checar a agenda com os assessores, tudo é complicado.

O jantar está chegando ao fim, pedimos a conta. Dafoe confessa que às vezes acha que devia se calar e nunca mais dar entrevistas. Por quê? “Não me acho tão articulado, e também já me senti traído às vezes”. Será que tem recado aí, terá a repórter perguntado algo que não devia? “Não, não, é um receio meu. Acho melhor as pessoas não saberem de tudo. Assistir a um filme sem saber se aquele ator é rico, ou pobre, ou hetero ou gay. Se eu ler numa entrevista, por exemplo, que um ator gosta do Donald Trump, não quero mais ver nenhum filme dele”. E dá risada.

_ Mas você se expressa de tantas formas, não pensa em dirigir um filme?

_ De jeito nenhum. Quero estar no meio da brincadeira, não quero ficar olhando como os outros estão brincando. A verdade é que no fim das contas não importa a carreira que a gente escolhe, o mais importante são as pessoas para mim. Trabalhar com gente, é disso que eu mais gosto.

Ele se despede com um abraço afetuoso. Chegou há um dia, na manhã seguinte tem coletiva, fotos, todo o ritual de astro que parece não combinar com esse sujeito que diz, de alma sossegada, “Nunca sou a primeira escolha para os papéis, e tudo bem”. Mas o ator vai encarar papel real inédito agora: acaba de ser avô. “O bebê se chama Tom”, conta, e abre um sorriso de quem está num momento certo da vida. É só seguir em frente. Para quê complicar?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A falsa Marilyn Monroe e o verdadeiro Manhattan

Por Cristina Ramalho

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Em Quanto Mais Quente Melhor (1959), Marilyn Monroe improvisa um Manhattan durante a viagem de trem, com a bolsa de água quente como coqueteleira

O trabalho parecia moleza: botar uma peruca loira, fazer a pinta perto da boca, se apertar no vestido justo. Fani só precisava caprichar na vozinha rouca, tímida-sexy, levar o bolo até a casa do aniversariante, tocar a campainha e, quando ele abrisse a porta, a cereja do presente seria ela cantar, como a verdadeira Marilyn Monroe para John Kennedy, um sussurrante Happy birthday to you. Cachê: duzentos reais.

Quem teve a ideia foi a Adelita, namorada do aniversariante. Tinha essa fantasia: celebrar o aniversário do amado com uma surpresa hollywoodiana. Mas não se atreveria a ser a estrela – sempre de bege ou preto e branco, sempre a eficiente do escritório, com aquele rosto redondo, nariz de ursinho, não ia colar. Adelita achou o telefone de uma agência de telegramas animados. Ligou. Pediu uma Marilyn e um saxofonista.

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O Manhattan servido no restaurante português A Bela Sintra, em São Paulo

– Então, além da Marilyn, eu quero um moço tocando o parabéns no sax. Uma cena de filme mesmo.

– Claro, querida. O sonho é seu, a gente realiza, respondeu a moça da agência.

Tudo certo. Manhã de sábado, Fani, apertada no vestido e tentando não entortar o salto do sapato um número menor, já se aprumava perto da porta. O moço do sax, terninho barato, ao lado. A namorada não se aguentava de ansiedade.

– Olha, eu vou me esconder atrás daquela árvore, ai, quero só espiar a cara de surpresa dele.

Fani achou graça. Queria ganhar prêmios no teatro, sabia de cor as peças do Antunes Filho, mas trabalho é trabalho. E bem que gostava da ideia de ser a Marilyn por 15 minutos. Era uma romântica. Achava da maior ternura fazer os telegramas animados e ver a reação das pessoas.

Tocou a campainha. Nada. Tocou de novo. Nada. Tensão no ar. A namorada começou a roer as unhas. “Toca outra vez”, sussurrou lá da árvore. Pééé. Péééé. Um sujeito meio gordo, descalço e só de cuecas, atendeu a porta. A cara dele não era boa. Fani arranhou a garganta, esticou o bolo em que se lia “Meu amor, my love, mon chéri”, e começou, sibilante: “Happy birthday to you…” O sax acompanhava.

– Mas que merda é essa? – disse o sujeito amassado de sono.  “Happy birthday, Mr. Taborda”, cantou a Marilyn, açúcar na voz. Então surgiram, por cima dos ombros do Taborda, as mãos de longas unhas vermelhas. Uma moça só de calcinha estava atrás dele. – O que foi, meu bem? , perguntou a das unhas.

– Te-le-gra-ma a-ni-ma-do da Adelita! – entoou a Marilyn a toda velocidade. O moço do sax, antevendo a tragédia, foi saindo, pé ante pé, a música soando cada vez mais longe. Adelita saiu chorando detrás da árvore.

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Marilyn, the real one, cantando Happy Birthday para o presidente americano John F. Kennedy em 1962

– Que que é isso, Adelita? gritou o Taborda. Fani deixou o bolo no chão e abriu caminho. Adelita avançou: “Seu canalha! Preparo a maior surpresa para você e você tá com outra”!

Fani pensou rápido e esticou as mãos: – São duzentos reais. O Taborda gritava cada vez mais alto. Adelita tentou pegar a só-de-calcinha pelos cabelos. Não se ouvia mais a música. O sujeito do sax já tinha desaparecido.

– São duzentos reais, insistia a Marilyn, que a essa altura já tinha arrancado os sapatos e só pensava em correr dali. Mas não ia perder os duzentinhos. Um gritava daqui, outra berrava mais alto, Adelita soluçava, Fani aproveitou o momento de fraqueza, ajudou a coitada da namorada abrir a bolsa, pegou seus duzentos, mais cem para o cara do sax, e se mandou.

Já que estava de Marilyn, que terminasse o dia com elegância cinematográfica. Calçou os sapatos de novo, foi até o bar de um hotel bacana ali perto, realizou um desejo: pediu um Manhattan. Era a bebida que a Marilyn Monroe, no papel de Sugar, improvisou no trem em Quanto Mais Quente Melhor, na cena em que o Jack Lemmon vestido de mulher aparecia com uma garrafa de bourbon. Fani não era Marilyn, Jack não era mulher, o Taborda não era o homem que Adelita imaginava. Mas o Manhattan, bem real, estava uma delícia.

O WIT DE ARACY DE ALMEIDA

A genial Aracy de Almeida voltou às bocas com o livro de Eduardo Logullo, contando suas melhores histórias. Quase todas vividas diante de uma cervejinha preta. Ou de muitas outras bebidas…

Por Cristina Ramalho

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“Vai levar 10 mangos pela cara de pau”

Os que já passaram dos 40 lembram dela como a jurada implacável do Programa de Calouros do Silvio Santos, roupas absurdas, óculos gigantes de mãe complexa. Sujeito que desafinasse ela não perdoava. E tinha cacife para isso: a cantora Aracy nunca desafinou nos inúmeros sambas que gravou, um repertório repleto de Noel Rosa, claro, e de tantos outros grandes: Ary Barroso, Custódio Mesquita, Ismael Silva, Ciro de Souza. Paulinho da Viola diz que ela era a melhor cantora do Brasil.
Quando o calouro não escorregava nas notas, e sim na imagem, a jurada também não perdoava, mesmo que desse boa nota: “Esse rapaz, um rapaz bonito! Canta bem. Meu filho, eu vou te pedir um favor: troca de calças, tá bom? Tão largas demais. Tá tudo badalando”. Diante de uma candidata que não acertava uma e era dona de uma bunda descomunal, soltou essa: “Tu não canta nada, minha filha. Mas vai levar 500 pratas pelo calibre da jaca”.

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Propaganda de 1940 da cerveja Cascatinha, a preferida de Noel Rosa, parceiro de Aracy em muitas esbórnias pelas tabernas do Rio

Ela própria tinha outro trunfo além da voz afinadíssima: os peitos mais bonitos do Rio, eleitos nos dourados anos 1950, segundo relatos verídicos. Mas Aracy nem precisava levantar a blusa para embasbacar qualquer pessoa: bastava falar com aquela voz anasalada, as gírias inacreditáveis (“O mingau anda grosso”; “Eu tô nas bocas”), as tiradas certeiras, uma Dorothy Parker tropical. Enquanto Dorothy soltava o wit lá na mesa redonda do hotel Algonquin, cercada pela fina flor dos escritores, nossa Aracy fazia o mesmo, com mais verve ainda e em companhias desse naipe para cima: Noel, Ary, Mario de Andrade, Antônio Maria, Sergio Porto, Ataulfo Alves. Papo regado a cervejas pretas. De preferência na mesa da Taberna da Glória, que tinha um contrafilé com fritas sensacional. Ela e Noel também amavam a cerveja Cascatinha, um clássico dos anos 1930. Logo se entenderam: ele amou sua voz e compôs sambas divinos para ela; ela sacou de cara a personalidade do amigo: “Ele não era um monstro, mas o queixo dele era meio fajuto, sabe?, então era tímido”.

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Aracy jovenzinha, ensaiando os sambas de Noel

Era uma vida animada. Para Wilson Batista, ela contou a história de Amélia, uma mulher que existiu de fato, Ataulfo Alves ouviu, e nasceu assim “Amélia é que era mulher de verdade”, de Mario Lago e Ataulfo; um dia Kid Pepe encostou uma faca enorme na barriga de Aracy para ela gravar sua música “O que tem Iaiá”. “Eu gravei, compadre, com a faca na barriga e tudo”. Na boate Vogue, Aracy saiu no tapa com a amiga Linda Batista (“A gente entornava um pouco. E aquilo de bêbado não tem dono, sabe?”). Carmen Miranda, assim que chegava ao Rio, telefonava para Aracy para aprender gírias novas. Várias dessas histórias estão compiladas no delicioso livro Aracy de Almeida Não Tem Tradução, de Eduardo Logullo. Outras tantas, bem, basta citar o nome dela que alguém lembra de alguma ainda não contada.

Hoje “a madrugada não tá dando pedal”, e Aracy não está mais nas bocas. Morreu em 1988, aos 73 anos. Já mais velha, quando deixou de tomar a “bomba” (cachaça com limão), esqueceu o passado e deixou a sábia lição que registramos aqui para os amantes do Dringue: “Eu tinha uma coisa: eu bebia, mas o fino. Só tomava uísque escocês, vinho estrangeiro, aquelas coisas… e champanhe. Foi no tempo do Ibrahim Sued, que inventou aquele negócio de champanhota. Fui muito grã-fina”.

 

À MESA COM ANDY SUMMERS

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Por Cristina Ramalho

Por trás daquela cara de inglês típico do guitarrista Andy Summers se esconde uma alma carioca da fase dourada do Rio, ali pelo início dos anos 60. Não é só porque ele gravou o DVD United Kingdom of Ipanema com Roberto Menescal, ou porque compôs uma bossa nova nos seus tempos do Police que virou hit, Roxanne. Desde o dia em 1959 quando, aos 17 anos, Summers assistiu Orfeu do Carnaval no cinema de Bournemouth, cidade onde cresceu, a música brasileira abriu um sol no coração do inglês. “Luiz Bonfá, Tom Jobim”, ele repete, sotaque britânico, os autores da trilha do filme. As canções, a história, aquele país exótico chamado Brasil, tudo era sua praia.

Summers era um garoto de gostos modernos como eram aqueles rapazes mais velhos de Ipanema que estavam lançando uma música com tanto charme, tanto suingue. Poderia ter sido amigo de Tom, Bôscoli, do próprio Menescal, do Vinícius, e tomar umas no Jangadeiro, acenar para a Nara Leão, ouvir um som no Beco das Garrafas. Assunto não iria faltar. Falariam das mesmas coisas que ele adorava: o jazz, o cinema europeu, os retratos em preto e branco, o interesse por poesia e artes plásticas, e, claro, umas garotas. Com Tom Jobim, o bate-papo de chope na mão seria sobre um ídolo em comum: Villa-Lobos. “Toco Villa-Lobos sempre, posso tocar todos os dias”, Summers diz.

Mas o jovem inglês não veio para Ipanema. Atravessou o mar para ancorar em outras praias: as da Califórnia. Estudou música em Los Angeles, formou-se na California State University na década de 1970, e aliás é na Califórnia que vive hoje. O que ele ainda não sabia é que o amor por Villa-Lobos e pela bossa nova seria responsável por um dos encontros fundamentais da sua vida. Foi sobre o compositor brasileiro que Summers conversou, em Londres, no dia em que conheceu outro músico inglês e descobriu uma alma gêmea musical: o baixista Sting.

“Sting amava Villa-Lobos, assim que a gente se conheceu fomos tocando a música dele, de Bach, e jazz, e falamos de bossa nova, um olhava para o outro e yeah!, imediatamente tivemos uma conexão. Sabe, é essa a razão do sucesso do Police: nós três (eles e o baterista norte americano Stewart Copeland) tínhamos muito conhecimento musical, sabíamos de música clássica, viemos de outras bandas, era um outro background. Somos músicos, não apenas roqueiros”, Summers explica nesse almoço com a reportagem do Valor, no elegante restaurante Piselli, nos Jardins, horas antes de ele embarcar para Belo Horizonte, última cidade da turnê que vinha fazendo com o baixista Rodrigo Santos, do Barão Vermelho, um dos seus muitos amigos brasileiros.

Já estava animado de rever a amiga Fernanda Takai (com quem fez o álbum Fundamental, em 2012), ouvir Milton Nascimento e visitar Inhotim. “Levei um bom tempo para entender Minas Gerais, é tão diferente do Rio”, ele diz, totalmente em casa no nosso país tropical. Mais de 50 anos depois daquela tarde vendo o Orfeu do Carnaval, Summers é hoje um cidadão half Brazilian, vem para cá quase todos os anos, tocou com o Gil, escutou samba de Noel Rosa, acha o som do Pixinguinha “uma alegria”. Só falta aprender português e batucar um sambinha na caixa de fósforo.

Pouco antes do almoço, enquanto esperávamos na mesinha junto ao bar, a assessora de imprensa havia advertido que ele não queria falar sobre o The Police, a banda que durou apenas seis anos, de 1978 até 1984, vendeu mais de 50 milhões de discos e foi responsável por trazer arranjos inovadores, sofisticados, um toque de improviso jazzístico e de frescor para o rock inglês, então dominado pela cena punk. E pelas canções que boa parte do mundo sabe de cor: Every breath you take, Every little thing she does is magic, De Do Do Do De Da Da Da, e muitas, muitas outras. O tema só foi entrar na conversa depois da sobremesa, na hora do cafezinho. Summers tomava um cappuccino enquanto contava sobre suas influências, de quais artistas ele gostava quando jovem, e, bem, como não falar do Police? “Sting, Stewart, eu, nós realmente criamos um som muito especial, bordamos a música com texturas, como uma tapeçaria”, explica, trançando as mãos para reforçar o toque poético. “Começamos como punks mais por causa de Stewart e porque naquela época, em Londres, todo mundo tinha de ser punk”.

Mais detalhes sobre a vida de rock star Summers deixa para quem quiser ler a sua autobiografia, One Train Later, lançada em 2006 (o título se refere a “o encontro” que realmente mudou sua trajetória para sempre: no trem em que conheceu Stewart Copeland), e agora traduzida para o português, em edição da Ed. Neutra. Ele participou há pouco de uma tarde de autógrafos do livro na Livraria da Travessa, no Leblon. Com prefácio de The Edge, do U2, é uma história prá lá de intensa, e ser um dos maiores guitarristas do mundo é só um pedaço dela. Já começa quente: a mãe de Summers era uma cigana bonita chamada Red que trabalhava em uma fábrica de bombas durante a guerra. O pai, da Força Aérea. Andy Summers nasceu num trailer no acampamento cigano, em frente uma mulher com as mãos cobertas de anéis prevendo seu futuro no tarô enquanto ele dava a primeira mamada.

Do livro, naturalmente, saiu um filme: o documentário Can`t Stand Losing You: Surviving The Police, de 2012, dirigido pelo americano Andy Grieve. Traz imagens dos tempos psicodélicos, quando Summers tocava na banda The Animals, até o sucesso absoluto e a dissolução do Police. E a volta dos três para apenas uma turnê, mais de 20 anos depois, a famosa Reunion Tour, em 2007. Tudo com muitas fotos de Summers. Em uma cena profética, ele e Sting, cabeludos e com cara de moleques, estão dando uma entrevista e Sting, brincando, diz: “Nós vamos fazer isso para sempre?” Summers responde: “Não está no nosso contrato”.

Turnê e lançamento do livro são boas razões para ele ter vindo novamente ao Brasil, mas a principal, em São Paulo, foi a exposição das suas fotografias, chamada Del Mondo, que inaugurou a galeria Leica, em Higienópolis, e fica em cartaz até 5 de outubro. O nome é autoexplicativo: uma série de 42 fotos que Summers vem tirando por cidades do mundo todo, desde 1978, em turnês ou não. Foi no dia seguinte à abertura que almoçamos.

Éramos seis à mesa: Luiz Marinho, da galeria Leica; Luiz Paulo Assunção, seu agente há 20 anos, que também trabalha com Roberto Menescal; Silvia Balady, assessora de imprensa; Luiz Ushirobira, o fotógrafo, e esta repórter. Fazia um calor danado. Summers chegou atrasado, meio ansioso – estava antes dando uma entrevista para a TV – e, mal sentou, resolveu que não queria ser fotografado durante o almoço. Dali a pouco, mais relax diante do couvert e de um peixe defumado de entrada, abriu a guarda e um sorrisão quando a conversa começou pelo seu amor pela fotografia.

_ Algumas das suas fotos me lembraram o trabalho do japonês Daido Moriyama (o pai da fotografia de rua no Japão, faz um uso bem particular do preto e branco).

__ Sim, sim, Daido. Falo pouco dele porque pouca gente o conhece. Eu o admiro demais, é um dos meus grandes ídolos. Sabe que eu estava num workshop de fotografia em Tóquio, uns anos atrás, e me apresentaram o Daido. Ele não falava inglês, conversamos com um tradutor, e era muito gentil. Fomos todos jantar num restaurante em Shinjuku, depois nos despedimos, eu estava tão feliz que virei a rua, peguei a câmera e fui tirando fotos. Ele fez o mesmo, vindo do outro lado. Na esquina, esbarramos um nas costas do outro e gritamos Ahhh!!!, uma comédia”, ele conta, rindo.

Assim como Daido, Summers sai com a câmera por aí, à noite, registrando instantes de beleza, solidão, isolamento. Atento ao espontâneo. Faz isso quase como um espião, sem ser percebido. “Entro num ônibus, ou estou na calçada, no bar, boto a câmera aqui (simula o gesto, como se ela estivesse debaixo do seu braço), viro, disfarço, me escondo”. Invisível que retratou um japonês largado no trem, um garçom carregando a bandeja cheia de pratos como se carregasse o peso do mundo, um velho oriental na barraca de quinquilharias. Em várias imagens não se vê os rostos: é o detalhe da mulher acendendo o cigarro, ou a garota de costas segurando o disco de Elvis. Um clima em PB que lembra as telas em cores densas de Edward Hopper.

Ele já tirava fotos desde menino, na Inglaterra, quando, aos 14 anos, trabalhou num antigo resort em Dorset onde haviam morado Mary Shelley e Robert Louis Stevenson, fotografando na praia os turistas de sorrisos posados e sorvete na mão. Naquele tempo nem ligava para a câmera. Queria as moedas. Porque no fim do dia, abria a mochila e tirava dela um catálogo de guitarras Gibson, com fotos de grandes guitarristas – e sonhava com o momento em que pusesse as mãos em uma.

Só comprou sua primeira Leica em 1978, durante uma turnê do Police, e foi retratando os passos da banda, os fãs, os hoteis, as limousines, Sting fazendo a barba, e também pessoas anônimas, prédios, ruas, estradas, revelando uma America com profunda melancolia, olhar muito inspirado pelo trabalho do genial fotógrafo suíço Robert Frank. Publicou dois livros de fotos das tours com o Police: Throb, em 1983, e I’ll be watching you: Inside The Police, em 2007 (com fotos de 1980 a 1983).

“Fotografei muito a América na década de 1980, e hoje revendo as fotos fico chocado, parecem muito velhas, um passado distante. O que eu fiz é o documento de uma época que não existe mais. Não tinha Starbucks, não tinha ninguém com Iphone. Aquela América acabou”, ele conta. A geração de Summers cresceu sonhando em botar o pé na estrada como Jack Kerouac e curtir a vida adoidado feito os beatniks. Anos mais tarde, já famoso, Summers conheceria pessoalmente o mito William Burroughs. Foi convidado para compor a trilha do filme Junkie (baseado no livro do escritor beat), que não aconteceu.

_ O que achou do Burroughs?

_ Um cadáver. Ele não abriu a boca nenhuma vez. (faz uma cara engraçadíssima de velho decrépito)

Allen Ginsberg, o papa dos poetas beats, também não lhe causou boa impressão. “Arrogante demais”.

Estamos falando por um tempão, o restante da mesa já nos olha com fome e quer pedir os pratos. Summers pergunta um pouco sobre o que tem, dizemos que o Piselli tem culinária internacional, mas é um restaurante italiano, as massas são a atração. “O que tem de pasta?” O garçom traz o cardápio em inglês, todos palpitamos sobre os pratos, ele acaba escolhendo o ravioletti di formaggio boursin al pomodoro e basílico. Para a repórter, pesce al forno con zucchine. Os demais vão de ravioli di brie e pere alle erbe, filetto di manzo al gorgonzola e pere al vino tino, spaghetti al frutto di mare. Nada de álcool. Águas e cocas para todos.

Se a música abriu a estrada, ele aproveitou para descobrir o mundo. Fazendo fotos ou simplesmente conversando onde chega, quer sempre aprender sobre os lugares, pergunta da política, tenta entender a cultura, se entrosa com os locais e dali a pouco já é brother, tocando junto ou comendo com os novos amigos. “Não acho graça em ficar trancado no hotel vendo TV, não quero ser ignorante”.

No Paraguai, por exemplo, convidado para o festival de música Encuentros de Alma, em homenagem ao grande violonista paraguaio Augustin Barrios, de quem é fã, Summers escreveu um ensaio/ entrevista emocionado sobre a música de Barrios relacionada à história política do país. Era 2004, época das eleições, e ele descrevia a sensação de estar num país ainda tentando se reconstruir quinze anos depois do fim da ditadura de Stroessner. Na China, há pouco, Summers conheceu um chinês que acabou levando o músico para comer na casa de amigos — “Uns motoristas de caminhão, gente boa”. Mostra agora no seu Ipad, na mesa, as fotos que tirou deles, durante o jantar, trabalhadores risonhos numa casinha simples em uma pequena cidade chinesa, ninguém tinha a menor ideia de quem ele era.

O ravioletti estava bom, diz, depois de comer com gosto. Sobremesas? Todo mundo na mesa sugere opções, o creme brulée do restaurante é conhecido, saboroso, Summers fica em dúvida. E o pudim de chocolate com café? O garçom, gentil, vai e volta várias vezes para atender nossas mudanças de ideia. Pedimos três sobremesas (dois creme brulées e um pudim) para todos. Summers titubeia, mas acaba dispensando a dele. Abre de novo o Ipad para mostrar “uma coisa maravilhosa”. São fotos de uma orquestra chinesa de músicos na faixa dos 80, 90 anos, tocando instrumentos medievais. Um deles tem uma expressão como se estivesse no céu, de tão encantado. “A música tem uma força”.

A primeira vez que Summers sentiu isso foi aos 13 anos, quando ligou a TV e viu o guitarrista Eddie Cochran empunhando uma Gibson. “Foi um momento de epifania, um tóing saltou da tela e inundou a sala de blues e sexo”, ele escreveu na abertura do seu livro de ensaios Light Strings (2004). A música deu todo o sentido para uma existência que não era moleza.

É que por trás daquela vida de super roqueiro típico de Andy Summers, que já vendeu guitarra para Eric Clapton, se entupiu de cogumelos alucinógenos, em Bali, com o amigo John Belushi, foi ovacionado em estádios, sempre colecionando garotas de todos os cantos do planeta, também se esconde uma outra alma, introspectiva, melancólica, solitária. Uma angústia que vem dos mares frios. A infância na cidade litorânea de Bournemouth foi difícil, período internado com o irmão em orfanato, os tempos de falta de grana e de perspectiva, a eterna necessidade de se expressar. Ele escreve, gosta de autores densos, em particular os russos “Dostoievsky, Tolstoi, Tchecov, sempre releio”; pinta, há muitos anos, e se identifica com o intenso expressionismo alemão.

Nasceu mesmo para ser músico, diz. “Achava que seria músico de jazz, ouvia sem parar Wes Montgomery, Thelonious Monk, Chet Baker, Miles Davis”. Hoje se abre para todo tipo de encontro. “Sou capaz de tocar tudo, tenho essa curiosidade intensa”. Ganhou um sem número de prêmios também em carreira solo. Quando trabalha em seu estúdio, um prédio de grandes janelas diante do mar de Venice, fica imerso por horas. “Sou disciplinado, focado”. O estúdio já pertenceu a Madonna e ao pintor Basquiat. Summers acha graça quando conto que o filme que abriu Basquiat para a música foi também Orfeu do Carnaval.

Comemos as sobremesas, ele pega a colher para provar um teco do creme brulée, pede um cappuccino. Luiz Paulo, seu agente, comenta que estão atrasados para pegar o avião. Summers começa a contar do seu mais recente disco (“É uma síntese de vários sons que gosto, tem muitas texturas, é meio experimental, mas acessível”), aí fala das suas influências, e do Police, e vai se animando. E agora a música toma de vez a conversa, é a sua praia, poderíamos começar outra entrevista, de tanto assunto. Mas está na hora. Ele se levanta, dá um abraço apertado e se despede como se a gente fosse se encontrar de novo, qualquer dia desses. Bom, daqui a pouco Summers deve estar de volta ao Brasil, tomando um ar fresco, pedindo outro chope, tocando mais uma com seus novos amigos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O tango, o vinho e uma carreira amorosa

Uma taça de vinho, o sujeito enlaça a moça e começa a deslizar – o tango é uma aula de relacionamento

Por Cristina Ramalho

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A mão do sujeito se estendeu à minha frente. Ele estava me chamando para dançar. Engulo a taça de vinho e me aprumo. Ele, um braço esticado, o outro dando a volta na minha cintura, a perna já em movimento. Cintilei. Olha só, eu na pista de uma legítima milonga em Buenos Aires. Nos braços de um legítimo portenho.

— Não sei bem os passos, você me ensina?

— No sabes bailar el tango?

— Sou brasileira, mas adoro dançar, aprendo rápido. Me ensina uns passos básicos que eu pego – falei toda sorridente, aquele clichê tropical de achar que uma boa lábia é capaz de quebrar o gelo.

— No. Así no se puede.

E o portenho, na faixa dos 30 anos, bonito mesmo com o cabelão juba penteado para trás, foi me levando de volta para a minha cadeira. Estávamos no meio do salão, todo mundo olhando, e aquele homem de camisa aberta no peito ia me devolver para a cadeira. Que que é isso? De jeito nenhum, Gardelón.

Pedi primeiro na base da clemência, enquanto ele ia saindo da pista comigo, a mão que estava na minha cintura tinha subido para o meio das costas, sutilmente me empurrando: — Não vai nem tentar me ensinar? Só para eu ver como é. Ah, vai. Por favor.

— No se puede ensinar así.

Apelei para a força. Agarrei no braço dele e disse, entredentes: “Não vou ser mercadoria devolvida”.

— No. Tango es un tema serio. Por favor – e apontou a cadeira.

— Tem nada a ver isso aí. Eu pago. Te pago 20 pesos, mas não volto para a cadeira. Essa humilhação, não. O tempo passando e nós naquela situação ridícula. Ele continuava me empurrando, eu empurrava de volta. Quase enterrei as unhas no braço dele.— Eu não volto!

E ele dançou comigo. Na sua testa estava escrito “mujer loca”, mas uma música, ao menos, ele dançou.

Cinco anos depois

Lá estou eu na terra de Gardel de novo, apartamento arejado, na Recoleta. Bem perto tem uma escola famosa de tango. Corri para a aula. Vexame igual da outra vez não vou passar.

“La coreografia es como una lucha silenciosa”, ensina a professora argentina, cinturinha de 58 centímetros, bailando pelo piso de madeira como se rodopiar em oito mentalizando “dos por quatro, dos por quatro” fosse a coisa mais natural do mundo. Não é. Observo mais uma vez o passo a passo. Não vou aprender nunca. Foi então que me iluminei: finalmente entendi porque demorei tantos anos para acertar o ritmo com um homem. Sim, é metáfora: me refiro a aprender a lidar com o sexo masculino.

Tivesse sabido essa coreografia antes, eu teria conduzido minha carreira amorosa com muito mais esperteza – e quem sabe enriquecido depois de escrever tudo num livro de autoajuda. No tango a mulher não segue o homem (embora ela finja), nem se deixa levar pendurada nele. Não tem essa de somos um só. Ele puxa, ela segura de volta. A graça toda está na resistência. Nem forte, nem fraca. Firme. É pura física: do jeito que vai, volta. O tango é uma aula de relacionamento.

Hay que tener autoestima, claro. Para entrar em cena com aquela cara seríssima, o corpo ereto, é preciso acreditar. E convencer. Já eu, que sempre achei legal ser levinha e capaz de seguir qualquer par no samba carioca, no forró de Jericoacoara, até no bolero da festa de casamento, sempre rindo, de boa, deixando a personalidade de lado para o sujeito agarrado em mim me levar adiante, bem, eu não podia esperar muito sucesso. Tá explicado.

Mas vamos a uma aula prática. Estamos no La Viruta, calle Armenia, 1366. Pista lotada, loiras em vários tons da química riscam o chão com sapatos de salto altíssimo, abraçadas a senhores altivos. Alguns usam perucas. Obedecem a um curioso código de trânsito, onde abre-se caminho para o casal que rodopia melhor, e ninguém leva esbarrão. É um acordo tácito, como se o jeito de avançar na vida fosse esse mesmo, alternando a vez de quem domina a cena.

Hora de entrar na roda e cavar nosso espaço no ecossistema. Engulo outra taça de vinho. Dois professores – a cinturinha de vespa e um homem de terno e bigodes – dão os comandos iniciais. Mulheres de um lado, homens de outro. Iguais na insegurança da primeira vez. A orquestra vai no clássico, La Cumparsita. “Los pares, formem los pares”. Somos nós. Os homens vêm em nossa direção, mulheres enfileiradas, e cada um vai pegando quem aparece. Mentalizo para vir o melhor (“O vesgo não, vai me dar nervoso”. “O loiro anão não dá, não tô pagando para passar vergonha”).

O que me escolhe é bem apessoado, dei sorte. Só que dá a mão mole. Paciência. Resistência. Tudo que vai, volta. Amoleço um pouco a mão. Professores batem palmas. “Cambien los pares”. Meu próximo é um tipo grande, confiante, me segura, é com esse que eu vou. “Cambien!”. Vem um alto, um baixo, o loiro anão, um rápido, outro incerto, vamos cambiando, rodopiando, eu tentando me adaptar a cada um, sem perder a postura.

Até que chega o par perfeito. Faço o ocho, dos, quatro, esqueço a conta, paro de olhar para o chão para não pisar no pé do homem, estamos sincronizadíssimos. Se eu já não fosse casada, acharia que ele é minha alma gêmea.

Dia seguinte, o marido que não dança nem por decreto quer saber como foi. Conto tudo, quase eufórica. Ah, por que você não dança? Ia ser tão bom. Aí ele diz a frase no tom: “Fico feliz que você dançou, adoro te ver tão feliz”. Tudo que vai, volta. Estamos no mesmo passo. Como deve ser a vida.

À mesa com Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes – Valor Econômico

Por Cristina Ramalho                                        Foto divulgação/ site Arnaldo Antunes

 

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Paulo Mendes Campos já escreveu em crônica que ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba. E, quando a gente vai ver, não é que ele parece mesmo um pincel de barba?

É com esse frescor que Arnaldo Antunes parece enxergar o mundo. Das situações mais comuns, do varejo da vida, ele aponta o inesperado. Faz a gente ver o que não via. Tudo pode ser um pincel de barba. As letras das suas canções tão elaboradas e talvez por isso mesmo tão simples, com olhar de criança (“Saiba: todo mundo foi neném/ Einstein, Freud e Platão também…quem tem grana e quem não tem / Saiba: todo mundo teve medo/ mesmo que seja segredo”, em Saiba). As que subvertem a ordem das coisas (“Cinema assiste, cena vê, cor enxerga” em Imagem). E, claro, as frases de criança mesmo, como as do seu caçula, o Tomé, anotadas pelo Arnaldo pai quando o filho tinha 3 anos (“Só mais um outro último, tá? Eu quero muitos últimos”) e compiladas no livro As frases de Tomé ao 3 anos.

 Arnaldo tem aquela rara capacidade de olhar as coisas como se fosse pela primeira vez. Nas horas de folga das turnês, enquanto os músicos cochilavam no hotel, ou em São Paulo, fazendo algo que adora – caminhar pela rua –, ele pegava a câmera e saía por aí fotografando placas de rua, cartazes, dizeres curiosos. Voltava para casa com um arsenal de “mega”, “here”, “horário” “selfservice”, em inglês, português, anúncios espalhados por São Paulo e pelas cidades que já conheceu. Foi juntando tudo por mais de 20 anos, depois trabalhou um bocado no computador, digitalizando imagens, usando animação em stopmotion, e criou mosaicos em caixas com dizeres, formando jogos gráficos, explorando a semântica. O resultado (e mais telas, cartazes com palavras em redemoinhos, ou sobrepostas, formando desenhos e multiplicando significados) pode ser visto na exposição Palavra em Movimento, em cartaz no Centro Cultural Correios, em São Paulo, até o final de agosto.

Caminhar, para ele, é o melhor modo de ajeitar as ideias. Quando não tira foto, sai com um bloquinho e caneta, ou um gravador pequeno (“Hoje em dia tem o celular, né, que facilitou isso”, diz) e vai acumulando anotações esparsas, flashes que podem render um poema ou uma letra e é bom não esquecer. Guarda no bolso, chega em casa e bota na gaveta, dali a pouco revê, ajeita, afina, vai dando forma. Reescreve, reescreve, corta, enxuga, corta só mais um pouquinho, até chegar no mistério da simplicidade. Há poucos meses deu uma olhada nos últimos textos, viu que tinha uns fios condutores ali, temas como morte, tempo, relógio, achou que daria mais um livro (já publicou mais de 20 e ganhou dois Jabutis, em 1993 pelo livro As Coisas – desenhado por sua filha Rosa aos 3 anos —, e em 2004 pelo livro Et Eu Tu). Acabou de lançar Agora aqui ninguém precisa de si, pela Companhia das Letras.

“Sou obsessivo com o processo, faço muitos rascunhos, é disso que sai o resultado. Mas criação, para mim, é sempre algo prazeroso, mesmo se falar de dor. O prazer de criar é tanto que até redime a dor”, diz um Arnaldo sorridente logo no começo dessa conversa com o Valor, um almoço sem pressa, domingo de sol bom.

Foi caminhando que ele veio nos encontrar, a rua cheia de gente colorida, famílias com crianças, ele sozinho no passo firme, vestido com jeans, camisa, um paletó que lhe dá um ar de homem sério. Mas, com aquele corte de cabelo Joãozinho e a cara curiosa, se estivesse de calças curtas ficaria igual a menino de foto de Cartier-Bresson.

Arnaldo escolheu um dos restaurantes que mais gosta – o Nou, em Pinheiros – porque, diz, é legal, comida boa, fica bem perto da sua casa e tem um dos melhores sucos de tomate da cidade (“Eu e o Braz, meu filho, temos mania de fazer ranking de suco de tomate, saímos pela cidade atrás dos melhores “). É um lugar agradável, jardinzinho no fundo, onde sentamos na mesa lá no canto. Ele pede, claro, o suco de tomate, água com gás para ele, sem gás para a repórter.

Além da exposição e do livro, Arnaldo prepara novo disco pelo seu selo, Rosa Celeste, agora em fase de mixagem e com lançamento previsto para setembro, primeiro show já marcado em Brasília. A produção é assinada por Kassin, terá convidados (como de hábito nos seus discos) e boa parte das canções inéditas foi composta numa viagem recente. Tirou o semestre passado para um período sabático, foi a Nova York, Itália e Índia. Inaugurou-se um mundo. “Na Índia é tudo tão intenso, as cores, os cheiros, a espiritualidade”. É ligado nas coisas do espírito? “Olha, não acredito nem desacredito, mas acho legal. Às vezes vou a uma mãe de santo, ela já jogou búzios para mim”.

A Índia foi muito inspiradora. “Escrevi umas seis canções do disco. Nas férias é quando mais componho”. Música é seu ganha-pão, como ele respondeu um dia, entrevistado por crianças, para uma menina que queria saber como ele tinha tantos empregos.

O brinquedo essencial desse homem de 53 anos, torcedor do Santos, é a palavra. É como uma bola. Arnaldo toca a palavra com intimidade, vira pra cá, manda pra lá, passa para mais alguém que está no jogo. Chuta a sintaxe para o alto e faz seus poemas gráficos, a limpidez de pensamento, a arquitetura precisa, e umas curvas não previstas pela geometria. Às vezes chama os amigos, aquela alegria de montar um time, músicas brotam quase tão espontâneas quanto as risadas, e subir no palco para um show é uma sensação indescritível. Como entrar em campo e levantar a torcida.

“Adoro fazer show, acho que só faço disco para poder fazer show, me dá uma energia aquela troca com o público”, ele se empolga. “Sempre é divertido, na época dos Titãs a gente também ria muito, teve fases que convivi mais com eles do que com a minha família”.

Família. Quarto filho de uma prole de sete, Arnaldo se acostumou desde cedo a viver em grupo. “Adoro casa cheia. Minha casa sempre foi assim, meus irmãos, os amigos deles, eu dormia no quarto com meu irmão, adorava aquela bagunça. Minha casa hoje é assim também. Meus quatro filhos (Rosa, 26; Celeste, 21; Braz, 18, e Tomé, 13, todos do casamento com Zaba Moureau), o filho da minha mulher (Marcia Xavier – os dois são casados, mas vivem em casas separadas), quando nos juntamos é uma delícia”. Acha muito bom ser pai. “Cada filho é de um jeito, tem um que você tem de empurrar um pouco, outro deixar mais solto. Aprendo até mais com eles do que eles comigo”.

Vamos a um flashback da sua infância e adolescência, na hora do almoço todo mundo passando o pãozinho no molho da travessa, e um repertório musical para tudo que é gosto. A mãe de Arnaldo curtia Caymmi. Um dos irmãos aumentava o volume para escutar Yes, Emerson, Lake & Palmer, o fino do rock progressivo. Beatles, sambas, Jovem Guarda, Lamartine Babo, os irmãos trocavam discos, havia um piano na sala, cabiam todos os sons. Na hora do passeio, a trilha do carro tinha de ser música erudita, o pai só ouvia a rádio Cultura. Arnaldo via aquilo e tirava as muitas lições possíveis. Aprendeu violão. Lembra-se de assistir fascinado, pela TV, os grandes festivais de música. “Mutantes, Macalé, Maria Alcina, Gil”. Entrou em Letras, na USP, mudou-se para o Rio, fez um ano de PUC, voltou para São Paulo, foi fazer parte da Banda Performática do artista plástico Aguilar, acabou largando a faculdade. Reencontrou amigos do Colégio Equipe, como o Paulo Miklos, e em 1982 fizeram uma banda, os Titãs do Iê-iê. Quando viu, já era pop.

A garçonete interrompe o papo trazendo duas entradas da casa: bolinhos de arroz, bem saborosos, e uma bela porção de bruschettas. “Acho que não é aqui, não pedimos”. “Mandaram para vocês”. Ôpa, claro! Ao ouvir que Luiz, o fotógrafo, costuma pedir o mesmo que o entrevistado, para fazer a foto do prato, Arnaldo, gentil, já vai perguntando antes de escolher algo do cardápio: “Hummm… Você tem alguma restrição alimentar?”. Risos. Ele pede uma truta ao molho de alcaparras, amêndoas e passas. Robalo ao molho de açafrão com saladinha e risoto de grãos para a repórter.

“Nunca entendi gente que fala ‘só gosto de samba’, ou que só gosta de rock”, ele comenta, enquanto saboreia uma bruscheta de cogumelos. Há pouco tempo, quando participou de dois episódios do ótimo documentário André Midani—Do Vinil ao Download, sobre a vida e a obra do grande produtor André Midani, Arnaldo se emocionou demais por estar na roda de violão com Gilberto Gil e Jorge Benjor, lembrando e cantando ao vivo, ali, as faixas do disco Gil e Jorge (1975), um dos seus favoritos de todos os tempos. “Quase furei esse disco de tanto ouvir, e sempre que ouço de novo fico contente”. Em cena, Arnaldo aparece derretido, cara de fã, ouvindo e às vezes cantando junto, Marisa Monte acompanhando, a faixa Filhos de Gandhi. Dali a pouco emendam, felizes, com O Homem da Gravata Florida, de Jorge Benjor, depois Xica da Silva.

“O Jorge é o cara que introduziu a poesia modernista na música popular brasileira. É o verso livre, ele faz caber tudo, qualquer palavra cabe na música dele”, fala Arnaldo no documentário. Tiveram direção durante a gravação ou aquilo foi mesmo um papo espontâneo? “O Andrucha (Waddington) era o diretor, mas nos deixou soltos, lembrando histórias, o papo foi fluindo, gente interessada e interessante, aquele clima que você vê na tela”.

O primeiro disco que ele comprou, adolescente que juntava dinheiro por um mês e corria até a loja Hi-fi, no Shopping Iguatemi, foi Transa, de Caetano Veloso. Depois Chuck Berry, Rolling Stones… Voltava para casa andando devagar, abraçado aos LPs, a música dizendo as coisas que ele não sabia dizer. “Toda canção popular é um eu coletivo, a gente pega para a gente aquele sentimento, principalmente na adolescência”.

“Sou de uma geração aberta, que cresceu embalada pelo Tropicalismo”. Quando morava em frente à PUC, assistia de graça os shows no Tuca, e foi lá que viu, de queixo caído, Rosa dos Ventos, de Maria Bethânia. Saía nas ruas nas passeatas políticas, todos de mãos dadas (“Era muito emocionante, a gente tomava umas bombas de gás lacrimogêneo, o povo das janelas jogava papel picado”), mas nunca se engajou em grupo nenhum. Não era a dele.

Chegam os pratos. São bonitos, coloridos. Arnaldo vai cortar o peixe, para um pouco, começa a falar sobre a política atual .“A gente vive uma época de muita intolerância (no seu novo livro há um verso que chama a atenção pela imagem da indiferença e da diferença social: “Do hall do seu palácio humilha o moço/ e gargantilha o sol no seu pescoço”). Eu cresci durante a Guerra Fria e, quando teve a queda do muro de Berlim, achei que ia ser algo libertário”, diz ele. “E não foi. Hoje ainda vemos esse reacionarismo assustador, seja do estado islâmico, da volta da Ku Klux Klan, seja aqui no Brasil, com a bancada evangélica se juntando com a bancada da bala, e o Collor também”. Votou na Marina, no segundo turno não votou em ninguém.

“Achei as campanhas da Dilma e do Aécio muito truculentas, tudo horrível, preferi anular o meu voto. Agora, a Dilma foi eleita, vamos deixar a mulher governar. Respeito todas as opiniões, todas as religiões, mas fico muito chocado com essa maneira velha de se fazer política. Ninguém tá pensando no bem comum, no que é bom para a nação, e é para isso que os políticos são eleitos. Mas todos só pensam no poder, partidos fazem alianças sem o mínimo de coerência com a sua postura”.

Dá outra garfada no peixe. Esse artista que domina a palavra acredita que o mais importante é mudar a linguagem política. “Vejo pouca gente com um discurso renovador, só alguns oásis, não só de honestidade, mas na forma de pensar, na linguagem, como o Marcelo Freixo e a Marina”, fala Arnaldo.

Como se sabe, ele é versado em mudanças. Depois de dez anos de Titãs, por que não uma carreira solo? Em 1993 fez Nome, disco e show tão diferentes do rock dançante de Sonífera Ilha e tantos hits. Nem todo mundo entendeu aquele moço fazendo onomatopeias com as palavras, virando tudo de ponta cabeça, de mãos dadas com a matemática do concretismo. Moderno demais. “Foi quase um começar do zero, plateias pequenas, tudo diferente, um aprendizado. Mas eu não queria ser hermético. Sempre quis ser pop”.

Bom, suas composições acabaram ganhando o coração de muitos cantores brasileiros e internacionais, da italiana Ornella Vanoni à baiana Daniela Mercury, e foi de discos infantis à música para edição do Bhagavad Gita, trilhas para filmes, para o grupo Corpo, para o programa Um Pé de Quê da Regina Casé, para o Castelo Rá-Tim-Bum. Em 2002, 2003, ele conheceu o sucesso estrondoso com o projeto Tribalistas (com Carlinhos Brown e Marisa Monte). Naquela época, difícil quem não soubesse as letras do disco. Crianças de dois aninhos tiravam a chupeta para cantar Já sei namorar. E ele foi parar em Portugal, na Áustria, na China, no Mali. “O Edgar Scandurra e eu fomos tocar com o Toumani Diabaté, em Bamako, foi uma experiência sensacional, emocionante, duas músicas tão diferentes, duas culturas tão diferentes”.

A cada disco ele chama artistas novos, que depois vão voar também: Marcelo Jeneci, o baterista Curumim, o Ortinho, tanta gente. Arnaldo vai esculpindo, refinando, o poder de síntese embalando o trabalho de artesão paciente. Como se fosse um Niemeyer que deita poesia com traços levíssimos, dois rabiscos mostram uma cidade inteira.

Esse enorme à vontade com todos os sons, todas as letras, ganhou do músico David Byrne um belo texto, prefácio do livro Doblo/ Duplo, de 1999: “Um dicionário não julga quem o consulta… Arnaldo tem um pouco daquela qualidade característica do dicionário. A qualidade de uma criança muito sofisticada, que nos pede para prestar atenção em expressões vocais, imagens, sons, textos às vezes simples e às vezes complexos… e pede que recebamos essas coisas com profunda inocência, porque aquela inocência é muito mais ameaçadora do que qualquer sofisticação. E também dá mais prazer”.

Pedimos a conta. “Legal aqui, né? Você gostou?, ele pergunta sobre o restaurante. Quer dividir a despesa e, quando ouve que é convidado pelo jornal, propõe: “Então quero te levar para tomar um café e comer a sobremesa, um mil folhas numa doceria ótima, aqui nessa rua mesmo. Por minha conta”. Topado. Caminhamos um pouco, atravessamos a rua, a doceria, Confeitaria Dama, está cheia. Ele pede o mil folhas, eu escolho outro doce, ele parte um pedaço do dele e bota no meu prato. “Não é uma delícia?” Segue para o caixa. Volta sorrindo. “A moça do caixa foi uma fofa, não quis cobrar, disse que é minha fã”, fala espantado. Nos despedimos, ele agradece com gentileza (“Adorei conversar”). O sol está bom.

Pouco antes de ir embora, ao explicar porque gosta tanto do raciocínio das crianças, Arnaldo havia citado um verso do Oswald de Andrade: “Aprendi com meu filho de dez anos que a poesia é ver as coisas que eu nunca vi”. Tudo pode ser um pincel de barba.

 

 

 

 

 

Um clássico regado a outro

Boteco/ homem/ futebol combinam com rabo de galo, a bebida tradicional dos balcões de fórmica, que hoje tá virando chique. Aqui ela acompanha a narrativa de jogo com final romântico

Por Cristina Ramalho

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O sujeito sentado no banco alto arregaça as mangas da camisa, puxa um pouquinho as calças para cima, dá uma geral no bar. Batuca de leve a mão no balcão de fórmica vermelha.

– Ô campeão, vê aí dois rabos de galo! Ao lado dele, no balcão, o amigo sorridente, bonachão, uma cara de gordinho da escola, é o ouvinte. O primeiro se apruma no banco, copo na mão, dá um trago na bebida – ahhh – arranha a garganta e começa.

“Então, não sei se você se lembra, mas aquele dia — 14 de janeiro de 2000! (emposta a voz na data como se fosse um locutor de rádio) — estava quente como o diabo. A Mariza, a minha mulher, lembra dela? A Mariza queria ir à praia, paulista no Rio, já viu, e à noite jantar. Eu só pensava no nosso Coringão com o Vasco, que tinha combinado de ver com um pessoal. A torcida toda já devia estar lotando o Maracanã e a Mariza, ali, me dando bronca porque eu ia saindo, nem liguei que ia rolar um jantar lá na Barra, com aqueles amigos dela, gente que eu nunca confiei, umas mulheres que só davam risadinhas, e um carioca de cabelo espetado que falava pirrê de batata, fazendo biquinho para parecer francês. Mariza achava o homem do pirrê o fino. Parece que ele sabia de vinhos e, quando ia provar, dava uma fechadinha nos olhos e uma mordidinha na beira da taça, para derreter a mulherada. Ah, de matar! Eu para mim acho que mulher que cai em golpe da mordidinha na taça já nem deve ser levada em consideração. (o gordinho acha a maior graça)

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A discussão esquentou, a Mariza toda arrumada gritando na rua que nem nas nossas férias eu ligava para ela, eu olhava o relógio, o coração saindo pela boca: o jogo, meu Deus, e eu ia perder a final Corinthians e Vasco, o mundial da Fifa, quê isso? Mariza correu atrás de mim, eu subi no primeiro ônibus sem nem olhar se era via túnel velho ou túnel novo. (o gordinho já está vermelho de tanto rir) Desci uns três pontos depois, peguei um táxi, o calor era de matar, e no túnel, ah, parece que um cara tinha sido  atropelado e o trânsito parou. No rádio o locutor anunciava Corinthians e Vasco se aquecendo.

O calor no táxi, o relógio, meu ingresso molhando na mão suada, eu ia ter um infarto, já via a Mariza gritando comigo no hospital que eu era capaz mesmo de fazer de tudo para estragar o jantar dela com a turma do homem do pirrê. A essa altura já não dava mais para achar meus amigos lá no estádio, eu teria de assistir o jogo sozinho.

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O motorista acabou me deixando na entrada da torcida do Vasco. O portão fechado. (o gordinho faz uma careta de pânico). O jogo já ia começar, de fora eu escutava a torcida, os gritos, as ôlas. Implorei para o guarda do estádio, a barriga caindo fora da bermuda, o olhar de desprezo, aquele sotaque. ‘Vai dar, não, meirrmão’. A torcida urrava lá dentro. Daí eu vi aquele major aposentado que morou em São Paulo, lembra? (o gordinho faz um não com a cabeça e um sinal com a mão pedindo outro rabo de galo) Aquele vascaíno que andava com um palito de dente na boca e dizia que o Romário era muito melhor que o Pelé. O homem já estava abrindo um sorriso com o palito, para a gozação com a minha cara, quando entendeu meu desespero. Mandou me liberar. Meu coração saltou de novo – eu devia minha vida a um vascaíno!

heitor dos prazeres

O jogo ficou no 0 a 0… Trinta minutos de prorrogação. 0 a 0! Eu ia morrer. (o gordinho, cada vez mais animado, resolve falar: “Eu lembro, nossa, fomos pros pênaltis”) Rincón marcou o primeiro. Romário empatou. O Dida segurou um, 3 a 2, aquele calor, o suspense insuportável, eu sem poder torcer pelo Corinthians no meio do pessoal do Vasco, comecei a passar mal. Fui ficando tonto, o coração acelerou, o peito doía, o calor, não vi mais nada… Escutei, de longe, que o Marcelinho perdeu o nosso gol. (o gordinho já tá no terceiro copo e solta um shuu!) Acordei na ambulância, o médico falou que eu tive um negócio, assim, um princípio de infarto. Eu só pensava no jogo. Quem ganhou o jogo, quem é o campeão do mundo? ‘O Corinthians’, disse o doutor. ‘O Edmundo perdeu o pênalti, o Dida segurou’, ouvi uma voz de mulher. Ah, quase tive um infarto só de alegria, esqueci o calor, a dor no peito, o que eu ia escutar da Mariza na volta…

Então, não sei se você se lembra da Maria Carolina, aquela que eu namorei no colégio. Soube que tinha virado enfermeira, disseram que ela havia mudado de cidade, e agora ela estava lá, no Maracanã, dando plantão. A mão que me segurou, delicada, era dela, da Maria Carolina, corintiana como eu. A voz que me falou o resultado, era dela, da Maria Carolina, minha primeira namorada. Não sei por que, a primeira coisa que perguntei foi: ‘Você casou?’. ‘Não’, ela me sorriu com aquele mesmo sorriso de menina. Pois é, vamos casar, quero te dar o convite. O quê? A Mariza? Você não lembra? Da última vez que eu ouvi falar, saiu no tapa numa festa porque o sujeito do pirrê, o fino, tava mordendo a taça de vinho para uma outra, parece que era pernambucana… (ele se vira para o balcão) Ô campeão, vê mais um rabo de galo aí!”

*publicado no Dringue.com

 

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