Um clássico regado a outro

Boteco/ homem/ futebol combinam com rabo de galo, a bebida tradicional dos balcões de fórmica, que hoje tá virando chique. Aqui ela acompanha a narrativa de jogo com final romântico

Por Cristina Ramalho

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O sujeito sentado no banco alto arregaça as mangas da camisa, puxa um pouquinho as calças para cima, dá uma geral no bar. Batuca de leve a mão no balcão de fórmica vermelha.

– Ô campeão, vê aí dois rabos de galo! Ao lado dele, no balcão, o amigo sorridente, bonachão, uma cara de gordinho da escola, é o ouvinte. O primeiro se apruma no banco, copo na mão, dá um trago na bebida – ahhh – arranha a garganta e começa.

“Então, não sei se você se lembra, mas aquele dia — 14 de janeiro de 2000! (emposta a voz na data como se fosse um locutor de rádio) — estava quente como o diabo. A Mariza, a minha mulher, lembra dela? A Mariza queria ir à praia, paulista no Rio, já viu, e à noite jantar. Eu só pensava no nosso Coringão com o Vasco, que tinha combinado de ver com um pessoal. A torcida toda já devia estar lotando o Maracanã e a Mariza, ali, me dando bronca porque eu ia saindo, nem liguei que ia rolar um jantar lá na Barra, com aqueles amigos dela, gente que eu nunca confiei, umas mulheres que só davam risadinhas, e um carioca de cabelo espetado que falava pirrê de batata, fazendo biquinho para parecer francês. Mariza achava o homem do pirrê o fino. Parece que ele sabia de vinhos e, quando ia provar, dava uma fechadinha nos olhos e uma mordidinha na beira da taça, para derreter a mulherada. Ah, de matar! Eu para mim acho que mulher que cai em golpe da mordidinha na taça já nem deve ser levada em consideração. (o gordinho acha a maior graça)

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A discussão esquentou, a Mariza toda arrumada gritando na rua que nem nas nossas férias eu ligava para ela, eu olhava o relógio, o coração saindo pela boca: o jogo, meu Deus, e eu ia perder a final Corinthians e Vasco, o mundial da Fifa, quê isso? Mariza correu atrás de mim, eu subi no primeiro ônibus sem nem olhar se era via túnel velho ou túnel novo. (o gordinho já está vermelho de tanto rir) Desci uns três pontos depois, peguei um táxi, o calor era de matar, e no túnel, ah, parece que um cara tinha sido  atropelado e o trânsito parou. No rádio o locutor anunciava Corinthians e Vasco se aquecendo.

O calor no táxi, o relógio, meu ingresso molhando na mão suada, eu ia ter um infarto, já via a Mariza gritando comigo no hospital que eu era capaz mesmo de fazer de tudo para estragar o jantar dela com a turma do homem do pirrê. A essa altura já não dava mais para achar meus amigos lá no estádio, eu teria de assistir o jogo sozinho.

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O motorista acabou me deixando na entrada da torcida do Vasco. O portão fechado. (o gordinho faz uma careta de pânico). O jogo já ia começar, de fora eu escutava a torcida, os gritos, as ôlas. Implorei para o guarda do estádio, a barriga caindo fora da bermuda, o olhar de desprezo, aquele sotaque. ‘Vai dar, não, meirrmão’. A torcida urrava lá dentro. Daí eu vi aquele major aposentado que morou em São Paulo, lembra? (o gordinho faz um não com a cabeça e um sinal com a mão pedindo outro rabo de galo) Aquele vascaíno que andava com um palito de dente na boca e dizia que o Romário era muito melhor que o Pelé. O homem já estava abrindo um sorriso com o palito, para a gozação com a minha cara, quando entendeu meu desespero. Mandou me liberar. Meu coração saltou de novo – eu devia minha vida a um vascaíno!

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O jogo ficou no 0 a 0… Trinta minutos de prorrogação. 0 a 0! Eu ia morrer. (o gordinho, cada vez mais animado, resolve falar: “Eu lembro, nossa, fomos pros pênaltis”) Rincón marcou o primeiro. Romário empatou. O Dida segurou um, 3 a 2, aquele calor, o suspense insuportável, eu sem poder torcer pelo Corinthians no meio do pessoal do Vasco, comecei a passar mal. Fui ficando tonto, o coração acelerou, o peito doía, o calor, não vi mais nada… Escutei, de longe, que o Marcelinho perdeu o nosso gol. (o gordinho já tá no terceiro copo e solta um shuu!) Acordei na ambulância, o médico falou que eu tive um negócio, assim, um princípio de infarto. Eu só pensava no jogo. Quem ganhou o jogo, quem é o campeão do mundo? ‘O Corinthians’, disse o doutor. ‘O Edmundo perdeu o pênalti, o Dida segurou’, ouvi uma voz de mulher. Ah, quase tive um infarto só de alegria, esqueci o calor, a dor no peito, o que eu ia escutar da Mariza na volta…

Então, não sei se você se lembra da Maria Carolina, aquela que eu namorei no colégio. Soube que tinha virado enfermeira, disseram que ela havia mudado de cidade, e agora ela estava lá, no Maracanã, dando plantão. A mão que me segurou, delicada, era dela, da Maria Carolina, corintiana como eu. A voz que me falou o resultado, era dela, da Maria Carolina, minha primeira namorada. Não sei por que, a primeira coisa que perguntei foi: ‘Você casou?’. ‘Não’, ela me sorriu com aquele mesmo sorriso de menina. Pois é, vamos casar, quero te dar o convite. O quê? A Mariza? Você não lembra? Da última vez que eu ouvi falar, saiu no tapa numa festa porque o sujeito do pirrê, o fino, tava mordendo a taça de vinho para uma outra, parece que era pernambucana… (ele se vira para o balcão) Ô campeão, vê mais um rabo de galo aí!”

*publicado no Dringue.com

 

Estás bor-ra-cho!

A narrativa de amor de uma paraguaia com um caubói americano temperada por um Old Fashioned

Por Cristina Ramalho (publicado também no Dringue.com)

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“Vai um dringue?”, pergunta JR Ewing, o patriarca de Dallas

Foi no Paraguai. Eu estava em um cassino dentro do resort de um americano, figurão do tipo caubói. Ele andava pelos corredores, entre as máquinas de caça-níqueis e umas loiras em todos os tons da química, um JR Ewing com chapelão e tudo, saído direto do seriado Dallas. Alto, muito alto. Alguém me soprou no ouvido que a baixinha lá atrás, uma versão mignon de Joan Collins (eu sei, eu sei, Joan era do Dinastia, mas um casal desses ocupa dois seriados) equilibrada sobre plataformas de Carmen Miranda, é a sua esposa. Ela cintila: cílios imensos, roupa de paetês, a cintura apertada. As mãos têm pedras faiscando em todos os dedos, unhas vermelhas de dar medo. Somos apresentadas.

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Mulher sozinha em férias

Uma cantada regada a um bom Pisco Sauer – e muita história para contar para os amigos

Por Cristina Ramalho (publicado também no Dringue.com )

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Cary Grant, bom de lábia, passa uma cantada em Grace Kelly em Ladrão de Casaca (1955)

Sempre me lembro da história de uma amiga carioca que aproveitou a folga para passar uns dias na Bahia enquanto o marido, com trabalho acumulado, teve de ficar no Rio. Muito bonitinha, ela caminhava pelas areias baianas quando um sujeito do pedaço, malemolente, sem camisa, foi chegando, o olhar pidão, aquele papinho-gentileza-com-a-turista. Ofereceu-se para ser um guia, falou das maravilhas locais, a natureza,” já viu o pôr do sol daqui?” e coisa e tal, até que abriu o sorriso alvo e tascou a cantada: “Moça tão bonita, sozinha, não pode. Com você eu caso!”

Ela agradeceu, explicou que já era casada. “Ôxi, cadê o marido?” “Não pôde vir”. Ele examinou a carioca de alto a baixo e não conteve a frase, o sotaque arrastado: “Mas é muuuita confiança”.

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Independência

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Cansada da vida dura, morando com os pais, trabalhando tanto, a mocinha do interior se vira pra prima, Volúnia, e conta seu sonho, o sotaque carregado: “Ai, Volúnia, queria tanto morar sozinha, ser independente, chegar em casa, acender um cigarro, tomar um dringue”. Meu amigo Sergio Crusco e eu ouvimos essa história verídica, e desde então nunca mais falamos drinque. É dringue e pronto. Assim batizamos nosso novo blog, que fala de bebidas, suas histórias, traz umas músicas que combinam, dicas de barmen e tal. Para uma estreia festiva, abrimos com champanhe. Tomara que vcs curtam. Aqui vai o dringue.com Cheers! http://dringue.com/2015/03/06/vem-romance-ai/

NINA PANDOLFO

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As cores da delicadeza – revista Florense

Por Cristina Ramalho

 

Nelson Rodrigues escreveu um dia que o diretor de teatro Zé Celso Martinez Corrêa, sempre querendo ser maldito, botou o elenco pelado no palco, xingou a burguesada toda e, para sua surpresa, a plateia achou uma graça. Ele foi aplaudido de pé. Nelson deitou veneno na sua coluna no jornal: “Zé Celso foi visto tentando pular do Viaduto do Chá, gritando ‘eu fracassei, eu fracassei’ “.

Lembrei dessa história quando a artista Nina Pandolfo me contou que pintou em Munique, em 2005, um grafite sombrio, agressivo, denunciando os abusos na guerra do Iraque, e mal botou o pincel no chão a primeira coisa que ouviu foi: “Oh, so cute!”(Que fofo!). Nina amuou. Ninguém entendeu. Fracassou, fracassou. Bom, a semelhança com a piada sobre o Zé Celso acaba aqui. Nina de fato deu seu recado na pintura. Os que acharam uma fofura é porque simplesmente não prestaram atenção.

Sim, aquelas na parede alemã eram suas meninas de olhos grandes, lindas, ar de doçura, um quê de sonho. Mas bastava chegar mais perto só para ver: uma tinha o braço amputado. A outra, um roxo no lugar do olho. O menino, sem perna, se equilibrava na muleta. Estavam cercados por arame farpado. Lá no fundo, tanques de guerra em chamas. Colados no chão, soldadinhos de chumbo. E, o que é mais uma marca das artes de Nina, dentro dos olhos era possível enxergar outras cenas: máscaras de Mickeys como máscaras de terroristas armados. “Eu estava mesmo com muita raiva das guerras, dos abusos de poder, da incompreensão”, fala Nina nessa conversa em seu ateliê. Sossegou quando um amigo lhe disse que era claro que o grafite estava muito bom, forte, e os rostinhos de boneca acentuavam o tom chocante da coisa.

Talvez os espectadores tenham enxergado apenas a beleza porque as pinturas de Nina despertam o nosso lado mais suave. A cara da autora, no sentido literal: aqueles olhos imensos das suas personagens não são, como muita gente pensa, inspirados nos mangás japoneses. São os olhões da própria Nina. Os gatos que sempre aparecem nas telas e grafites são seus gatos Rakim (que se aboleta nos ombros da dona como se fosse uma estola de pele e fica ali por horas, enquanto ela pinta e depois se dá conta das dores nas costas) e Monalisa, a tímida. Em breve, a nova cachorra Mia, uma jack russell branca e marrom que corre animada pelo ateliê, vai brilhar em quadro.

E os jardins, as flores, as joaninhas, os longos cabelos, detalhes cheios de cor que se esparramam pelas obras e fazem a gente abrir um sorriso são também os traços da sua personalidade. A pronta sensibilidade para as coisas do afeto.

É o jeito de ver a vida de Carina Arsenio, 37 anos, voz de menina, tipo mignon, que assina Nina (Pandolfo é o sobrenome do ex-marido Otávio, um dos geniais grafiteiros de Os Gêmeos), e pinta todos os dias, como quem cozinha diariamente no capricho para as pessoas que ama. “Se eu estou mal, ou triste, eu não pinto de jeito nenhum. Quando a minha avó morreu, eu nem conseguia pegar no pincel, e tinha três dias para finalizar as telas para uma exposição. Aí foquei no lado bom: ela estava com 102 anos, não sofreu, foi parando, morreu de velhice. Só assim pintei”. Nina não teoriza.

Ela é sorridente, gentil, parece tão espontânea. Fala da avó, das telas, dos bichos, das irmãs do mesmo jeito – e com a mesma importância – que conta sobre suas exposições em galerias na Inglaterra, Alemanha, Suécia, França, Grécia, Índia, Estados Unidos, os elogios de curadores e críticos internacionais, os dias em que pintou com Os Gêmeos e mais o grafiteiro Nunca um castelo na Escócia, o jantar em que o cineasta Win Wenders comentou sobre os grafites dela em Wuppertal. Ou que vai de ônibus para a rua 25 de março, no centro, comprar o material de trabalho (“ Pra quê ir de carro e pagar estacionamento?”) e volta de táxi. “Ah, venho carregada de sacolas”.

Caçula de cinco irmãs, Nina nasceu em Tupã, interior de São Paulo, e aos cinco meses veio com a família para a capital, bairro Vila Gustavo, zona norte da cidade. Cresceu numa casa com um jardim que ela achava enorme (“E não era tão grande, né, o jardim da mãe?”, ela pergunta agora para a irmã, Sibeli, dez anos mais velha, sua assessora/ secretária/ faz-tudo), brincava escondida com as bonecas, entre as duas árvores de hibisco. Jogava vôlei na rua com as amigas até a hora da mãe chamar para o jantar. Olhava as válvulas na parte de trás dos televisores que o pai, técnico em eletrônica, consertava na oficina, e enxergava prédios, imaginava cidades inteiras, o pensamento lá no fundo. Quando a irmã mais velha se casou, Nina sonhou ser estilista de vestido de noivas.

Só pensava em desenhar. Teria futuro? A mãe, sábia, lhe disse para seguir o que gostasse que daria certo. “Eu me inscrevi na oficina cultural da Água Fria (bairro de São Paulo) e fazia todos os cursos que apareciam”. Alguém chegou lá para ensinar grafite. “Era a época em que se fazia grafite com estêncil, como os do Vallauri (Alex, precursor dos grafites em São Paulo, espalhava botas e a personagem Rainha do Frango Assado pelas paredes e postes da cidade). Eu fui ampliando os desenhos nos quadradinhos, mas achei que era muito melhor fazer direto na parede. Saí da aula”. Aos 15 anos, matriculou-se para estudar arte no Colégio Técnico Carlos de Campos, no Brás, e conheceu uns meninos que vinham do universo hip-hop e pintavam com spray. Eram Os Gêmeos. Era irresistível. Um deles, o Otávio, deu a ela o primeiro livro sobre grafite, foi chegando mais perto e não demorou a virar marido.

Inaugurou-se um mundo. Nina vestia – como faz até hoje quando sai para grafitar – um macacão “que não marca o corpo”, levava um sanduíche na mochila e esquecia da vida. Única garota entre os marmanjos (Os Gêmeos, Speto, Nunca, Onesto, os grandes nomes do grafite brasileiro), carregava latas, escadas, misturava-se bem com eles, e descobriu que o seu mundo interior, tão rico, fazia todo o sentido no mundo lá fora, na rua, para quem quisesse ver. Suas meninas sensuais, melancólicas, delicadas, se espalharam em paredes da rua 23 de Maio, do Cambuci, do centro, da Vila Mariana. As pessoas adoravam. Os convites não demoraram a aparecer, e no começo dos anos 2000 Nina e Os Gêmeos partiram para colorir o planeta.

Em Cuba, Nina pintava uma parede junto com um muralista local, ele nos pincéis, ela no spray. Emocionou-se com uma mulher que chegou de mãos dadas com a filha, as duas maravilhadas. “Não era só pelo desenho. Elas nunca tinham visto uma lata spray de nada, nem de desodorante, e de repente uma coisa tão banal para a gente era mágico para elas. Isso me tocou demais”. Os cubanos pediam: pinta a minha casa. E a minha. A minha é a da esquina! “Pintei até à noite, as casas da rua inteira, fiquei exausta, e feliz. No Brasil não costumo fazer isso, porque muita gente que pode pagar pelo trabalho de um artista pede a pintura de graça, meio na malandragem, não gosto”. Mas numa favela em São Paulo foi pintando de bom grado, pelo prazer de alegrar o cenário. Uma moradora de um dos barracos achou que ela devia estar cansada, o dia inteiro em pé, tão magrinha, e a convidou para almoçar. Dividiram o único bife.

Num dia de 2007 Nina recebeu o convite de um jovem lorde escocês para pintar o castelo Kelburn, da sua família. Era um projeto cultural bancado por empresas amigas do nobre, e a pintura ficaria exposta por três anos, um acordo feito com o pessoal do patrimônio histórico. O escocês avisou que havia convidado mais dois grafiteiros: a dupla Os Gêmeos e um outro, chamado Nunca. “Achei que os trabalhos de vocês parecem combinar. Você se importaria de dividir o espaço?” Nina ri. “Ele não sabia que eu era casada com o Otávio e que o Nunca é um dos nossos melhores amigos, foi coincidência!”

O trabalho era um conto de fadas. Eles usavam uma espécie de andaime elétrico para alcançar as torres, e lá do alto viram que mais abaixo no terreno havia um laguinho lindo, e o laguinho virou desenho. “Fomos incorporando a paisagem na pintura, mudando o projeto a cada coisa que a gente via, e tudo foi dando certo”. Até que o lorde confessou que seu pai, o conde de Glasgow, odiava grafite e eles tinham de terminar tudo antes dele voltar de viagem. Tarde demais. O conde chegou. Nina e os rapazes mal engoliram o glup!, quando o conde, fascinado, sacou a câmera e saiu registrando cada traço. “Que maravilha! Isso é arte pura!”. Gostou tanto que entrou com o pedido de tombamento da pintura na secretaria local.

Na Alemanha, em Wuppertal, Nina trabalhou em 2006 para um projeto da Red Bull que levou artistas do mundo inteiro para intervenções na cidade, de surpresa, sem autorização. Acompanhada de um morador local, que serviria de intérprete caso a polícia chegasse, ela passeava para escolher onde grafitar. Pulou uma cerca, viu um túnel escuro, úmido, abandonado. “O que era aqui? “ O alemão respondeu: “Um túnel que levava os judeus para os campos de extermínio”. “Então é aqui que eu vou pintar”. Com tochas como única iluminação, ela desenhou pelo túnel inteiro. Lá na saída, Os Gêmeos grafitaram também. Na entrada, uma artista japonesa deixou sua marca. A população da cidade não viu. O túnel continua fechado até hoje.

Tempos depois, num jantar na casa de Leon Cakoff (já falecido, criador da Mostra de Cinema de SP), o cineasta Win Wenders é apresentado para Nina e conta que filmou uma das cenas do seu documentário Pina (sobre a bailarina Pina Bausch, que era de Wuppertal) num túnel abandonado que ele encontrou, todo grafitado. “Tudo lindo”, falou Wenders. Nina sorriu. “Fui eu que pintei”.

Grécia, pouco antes dos Jogos Olímpicos: Nina impressionou-se com o desmatamento no país. Grafitou meninas árvores, cabelos de flores, galhos queimados, uma versão pop/feminina do Frans Krajcberg.

Embora pareça que ela tenha começado no grafite e depois tentado as telas, o que aconteceu foi o contrário. Quando conheceu Os Gêmeos, Nina já pintava quadros – sua primeira exposição em galeria foi numa coletiva, em 1998 –, e aos quadros voltou, já famosa pela street art. Desde 2008 é artista da Galeria Leme, em São Paulo, onde fez há pouco uma exposição muito elogiada, Serendipidade, com telas e esculturas criadas ao acaso que depois de prontas conversavam bem entre si. “Cada exposição eu monto de um jeito. Já fiz inspirada por contrastes dos sentidos, doce/ amargo, ácido/picante. Já fiz telas sequenciais, que de certa forma contavam uma história”.

Diz que leva em média nove meses para fazer um quadro e, aproveitando o clichê da metáfora, encara cada um como se fosse um filho. Tinha tanto ciúme das obras que não deixava seus assistentes (agora está com duas, a Dani e a Fernanda) assistirem em coisa alguma. “Precisei fazer terapia para aprender a delegar. Elas me ajudam, fazem o fundo da tela, por exemplo – só nisso economizo uns 3 meses de trabalho – mas antes, quando ia ensinar, já pegava o pincel e eu mesma fazia. Ficava esgotada”. Quando fez seu livro, Nina, editado pela Masterbooks (a editora da apresentadora de TV Eliana Michaelichen, fã de Nina), ela criou umas cinco versões antes de chegar ao resultado final.

Acaba não guardando os quadros, porque suas exposições vendem tudo, pedidos se acumulam. Está tentando montar o seu acervo. “Não sei dizer não, então quando me pressionam para vender empurro a minha irmã para resolver”. Tem pra já duas exposições: uma na Galeria Leme, outra na Inglaterra, onde é agenciada também. Agora foi convidada para uma grande mostra itinerante num museu brasileiro, mas ainda não pode dizer qual. É disputada por colecionadores e seu valor de mercado só cresce. Ficou rica? Prefere dizer que não mudou. “Ah, sou a mesma, não sou consumista, minha melhor amiga é a mesma desde os meus 15 anos, gosto de ir para a casa dos meus pais nos finais de semana”.

Na mesa do ateliê tem um bolo de cenoura quentinho e café para nós, fotógrafo e repórter. Observo os desenhos pregados num mural – parecem uma versão infantil das telas, e têm dedicatória, a letrinha escorregando: “Para a tia Nina”. Nina sorri. “A minha sobrinha desenha muito bem, é a filha da Sibeli”. E emenda: “Sabia que meus primeiros desenhos na vida eu fiz depois de ler uns poemas da minha irmã?” Sibeli, orgulhosa, corre para abrir o livro de Nina e mostra uma tela da exposição Desafiando Sonhos, de 2010. São quatro meninas juntinhas, coloridas, uma alegria real. “Somos nós, as quatro irmãs, mas a Nina não quis nos dizer qual é qual”. O título da obra: Amores Iguais. Não dá para evitar. O que Nina desperta na gente é a delicadeza.

 

 

 

NAS NUVENS

Quando eu saí fora da realidade pilotando (mesmo) esse charmoso aviãozinho. Nas fotos, estou com o meu instrutor, o Faria, e com a fotógrafa Marcela Beltrão.

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Por Cristina Ramalho

Ah, Amelia Earhart pode ter sido mais ousada, mas olha eu pilotando um aviãozinho lindo, vermelho, o céu de brigadeiro, sobrevoando montanhas, o mar, furando nuvens… Vou te contar: visto do alto, com um manche nas mãos, o mundo ganha graça nova.

O convite era para realizar um sonho. A Jazz Side, empresa disposta a realizar os sonhos desde que você pague o tamanho da sua imaginação, já levou um sujeito para surfar na Indonésia com o Kelly Slater, fotografou uma mulher sem problemas de auto-estima para a Playboy ( e o marido espalhou pela casa a sua coelhinha particular em painéis de 1,70m de altura e chamou os amigos para ver) e agora me propunha. Eu, jornalista, aceitaria sonhar para eles?

Dias depois, recebo uma caixa com um papiro dentro, marcando o horário, e um pin de piloto. Me acendi na hora. Na quarta, 8h30 da manhã, Pedro, um dos donos da Jazz Side, e seu motorista, Josildo, vieram buscar a fotógrafa Marcela Beltrão e eu. Na véspera, fizemos as piadinhas habituais: se morrermos é porque a pauta caiu, hahaha, mas no dia, ao menos para mim, o clima era de alegria absoluta. Fomos de carro até Jundiaí, onde fica a escola de pilotagem Air Training, dentro de um aeródromo. Quem nos recebeu foi o dono da escola, o instrutor Faria, e ali, diante do seu physique du role de tio da escola, já senti que a história ia ser ajuizada demais. Faria começou me dando aulas de teoremas, o que significa vento resultante, porque as pequenas asas traseiras são essenciais ao equilíbrio, e soltou uma frase: “Até um macaco aprende a voar. A diferença é que o bom piloto sabe o porquê das coisas”.

Cocei a cabeça.

Hora de conhecer o avião. Um Cirrus SR22, monomotor. Vermelho, tinindo, um chuchu que custa US$ 500 mil e, caso a coisa vire pesadelo, vem com um paraquedas que segura o avião inteiro. Fiz cara de esperta enquanto checávamos, juntos, combustível, asas, entrada e saída de ar.

Veio a primeira dose de realidade: eu não sentaria à esquerda, como comandante. Fui à direita no banco do co-piloto. “Você terá os mesmos comandos que eu, pode pilotar sozinha daí. Mas sentar aqui, só quem tem matrícula e fez exame médico, que a legislação não permite”, falou o tio Faria. Amuei. Desde quando sonho tem lei?

Segunda dose real: aquela história de fugir dos bandidos ligando o avião e dando tchauzinho não rola. As telas são muitas, o computador vem cheio de informações, surgem montes de números, gráficos, pedidos, e Faria tinha de clicar OK em item por item de segurança. Demorou para sair do lugar. Enquanto isso, fui aprendendo sobre mapas, o que significa a barrinha verde na tela ao lado do aviãozinho branco, onde acionar o paraquedas. Então…

“Ecolimaeco pede permissão, rota Jundiái, através de Jari até Ubatuba”. Ôba. Na decolagem pouco enxergamos à frente, o nariz do avião para cima. Dali a pouco, avião no céu, o manche é meu. Não é em U, igual aos jatos. É um joystick, muuuito sensível. Ouvi o comando: “Vire suavemente à direita”. É prá já. Juro, mal mexi o polegar e o avião virou. Ôpa. Ouvi um gemido lá atrás, onde estavam a Marcela e o Pedro, meus bravos passageiros. Toquei para a esquerda. O avião aprumou. Ah, fácil. Mas acho que o Faria me olhou com pena.

Então meu dia cintilou. Um sol danado lá fora, eu estava pilotando sozinha, atravessei uma nuvem fofinha, era como um floco gigante de algodão. Sonho puro. Furar nuvens, lá embaixo o marzão turquesa, eu tão feliz quanto quem devia estar nas lanchas incríveis que avistei de cima. Tio Faria me chamou para a real: “O avião está descendo rápido, sobe mais um pouco. Agora desce mais um pouquinho”. Minha mão escorregou, acho que o avião desceu um pouquinho mais. Deu um salto, acho. Ôpa, desculpem. Marcela soltou um grito, olhei para trás, ela e Pedro estavam brancos. Pedro pediu, educadíssimo: “Por favor, não fale ôpa. Imagine um cirurgião falando ôpa enquanto corta o paciente”. Ah, tá.

Na hora da aterrissagem, Faria assumiu. Descemos na minúscula pista do aeroporto de Ubatuba, fizemos a curva para subir de novo. Voltei ao manche. “Pode subir”. Decolei um avião! E realizei outro sonho de criança: falei no microfone com a torre. Faria mandou repetir: “Ecolimaeco cruzando para o portão 2 Quebec a 4500 pés”. Cruzes, um monte de gente respondeu fazendo perguntas. Faria entrou na linha.

Mais um pouco e aterrissamos firmes, seguros. Marcela continuava bem branca. Um vôo de uma hora e meia, 350 km/hora, 7500 pés de altitude. E tenho história para contar. Não dei loopings, nem caí na selva, cara de perdida e só de camiseta, mas por uns instantes, lá nas nuvens, tive aquela sensação de infância que a vida é de graça. Um sonho bom.

 

O cinema e a praia

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Cinco dias de cinema à beira-mar – matéria para o VALOR

Por Cristina Ramalho

Sábado, terceiro dia da mostra de cinema em São Miguel do Gostoso. A tela fica ao ar livre, plateia de pé na areia, bem diante do mar. Durante a projeção de Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, o público está acompanhando o drama dos personagens que sofrem em Ceilândia, cidade satélite de Brasília, quando estrelas cadentes cortam o céu de soneto de Gostoso. Espectadores olham para cima, um ou outro cutuca o vizinho de cadeira, sorrisos se abrem, como se as estrelas, as de verdade, tivessem um papel na trama. E por um instante São Miguel do Gostoso virou a Macondo mágica do Gabriel Garcia Marquez.

De 13 a 18 de novembro essa encantadora cidadezinha de praias lindas e bons ventos para o kitesurf, a 1h30 de Natal, RN, recebeu a Segunda Mostra de Cinema de Gostoso, criada e organizada pelo diretor Eugenio Puppo e seu assistente Matheus Sundfeld, da Heco Produções, junto com o Coletivo de Direitos Humanos, Ecologia, Cultura e Cidadania da comunidade local. Cinco dias, 62 filmes brasileiros recentíssimos, debates com realizadores e jornalistas de várias cidades, uma programação matinal só para crianças, à noite o cinema com telão impecável, som de primeira e 640 cadeiras, curadoria elogiada pelos convidados, patrocínio da Cosern, toda uma estrutura que surpreendeu os convidados.

Mas o que faz dessa mostra algo tão especial é sua natureza arejada. A praia, aqui, é muito mais do que o cenário. É um personagem ativo, com enredo, humor, psicologia. Pescadores e moradores se misturam aos turistas, entram e saem como se chegassem para tomar um sol, posam com a família para fotos na frente do cartaz da mostra, crianças passam correndo, todo mundo se conhece, a conversa fiada de cervejinha na mão.

Não há ingressos: na entrada, o público recebe cédulas de votação, e dá uma nota de 1 a 5 para cada filme. As cadeiras são de plástico, dessas de praia, e se a sessão lota, basta se esticar na areia. Uns falam alto, dão risada, emitem opinião no meio como se estivessem na sala de casa, vendo TV, e na real é isso mesmo. A grande maioria dessa turma nunca tinha ido ao cinema na vida.

O que não impediu os gostosenses de mergulharem nas histórias. No documentário Abraço de Maré, um curta do potiguar Victor Ciriaco, uma mulher conta como é estar casada com o pescador, a falta de vergonha dele, passando faceiro com moça mais nova diante dela, também a falta de dinheiro de todo dia, a vida nem sempre moleza numa casinha à beira d’água. Na plateia, mulheres reais se reconhecem no ato, riem alto, comentam dos próprios maridos como se conversassem ao vivo com a moça da tela.

Domingo à noite, exibição do longa A História da Eternidade, do pernambucano Camilo Cavalcante, um retrato de um sertão estilizado, clima de fábula, história densa. De repente veio a cena de uma avó ardendo em desejo pelo neto, outra da sobrinha arrancando a roupa para se deitar com o tio, e na plateia um sujeito meio grande levantou-se irado. Aquilo era demais. Anunciou em bom som, o sotaque carregado: “Esse filme é todo er-ra-do!”. Saiu, seguido por mais uma meia dúzia de indignados.

Teve também o silêncio envolvente, quando o script falou direto ao coração da plateia. Como durante a exibição do filme que o público escolheria como o vencedor da mostra, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro. Não se ouvia um “ a “ entre os mais de mil espectadores que se espalharam pela areia, ou em pé lá no fundo. No final, com o gesto revelador da última cena, o público aplaudiu animado, cúmplice. Angelo Ravazi, produtor de cinema de São Paulo que levou os filmes De Castigo (de Helena Ungaretti), Hospedeira (de Rita Carelli), A Era de Ouro (de Miguel Antunes Ramos e Leonardo Mouramateus) e A Revolução do Ano (de Diogo Faggiano), escreveu mais tarde na página do facebook da mostra que esse foi um dos momentos memoráveis do evento. “Me deu um pouco de esperança nesses tempos tão zoados”, disse.

É o povo de Gostoso descobrindo o cinema – e esticando o olho para o mundo além do marzão ali na porta. Taí a intenção principal de Eugenio Puppo. “Estamos formando o olhar do cinema aqui, e mais do que isso, o olhar da cidadania”, diz ele. É também um projeto maior: com verba captada via lei estadual Câmara Cascudo, Puppo e Sundfeld criaram uma turma de alunos de linguagem audiovisual ali em Gostoso. Um curso de três anos, ministrado por professores de São Paulo e de outras cidades, que dão módulos de roteiro, produção, filmagem, edição para 50 alunos recrutados numa seleção entre 270 candidatos.

Quando começaram esse projeto, no ano passado, Puppo e Matheus rodaram as estradinhas de terra da região num carro alugado, convidando os jovens de assentamentos de sem-terra, dos povoados próximos, a aprender o que é e como se faz cinema.

“Eu progredi muito com o curso, quero progredir mais, me passa um monte de ideias na cabeça e agora eu sei que posso escrever, fazer aquelas ideias virarem histórias”, fala o magrinho Leonardo Maximiano, 24 anos, morador do assentamento Novo Horizonte, entusiasmado com tantos outros horizontes que antevê nas aulas. Leonardo e seus colegas de curso estão no coletivo Nós do Audiovisual. Assinam dois curtas exibidos na mostra, o documentário Promessas e o bem feito Nas Lonas, ficção que os meninos filmaram na feira de Gostoso.

“Cinema é o que eu amo fazer. Eu fico na dúvida entre cinema e jornalismo, mas acho que cinema me toca mais, e também penso em ser atriz de teatro”, diz a bonita Rosângela Modesto, 16 anos, sete irmãos, pais que nunca saíram dali. Ério, compenetrado, acredita que foi selecionado porque sempre teve interesse na linguagem audiovisual. Os outros dão risada, sacaneiam, “você nem sabia o que era isso”. Raiane, Mércia, José Edivan, Everton, alguns que nasceram antes da luz elétrica chegar por essas bandas, contam que agora olham tudo de outro jeito – “A gente vê uma cena na TV e já sabe onde está a câmera, como foi filmada, se aquilo tá legal”–, assistem clássicos nas aulas, O Nascimento de Uma Nação, de Griffith, ou o Cidadão Kane, do Welles.

“Existe um mercado de trabalho real para essa moçada. O mercado que mais cresce hoje é o audiovisual, e eles aqui mesmo em Gostoso podem fazer vídeos para pousadas, para a prefeitura, para as empresas, para a companhia de energia eólica”, diz Puppo.

Por enquanto, os garotos assistem o resultado das aulas na tela grande da mostra. Os seus curtas Promessas e Entre Lonas foram exibidos no dia do encerramento. Amigos e parentes apontam no meio da sessão: “Olha lá a Rosangela”. “Olha a Mércia! “ . Clima de euforia. Puppo e Matheus anunciam os vencedores da mostra e chamam realizadores para o palco. Convidados com rostos bronzeados e vestindo bermudas elogiam a curadoria do evento, a beleza da cidade, as peixadas da Maristela, todo mundo deslumbrado com esse festival de astral tão leve, ensolarado.

Joaquim Castro, diretor do documentário Dominguinhos, vencedor como menção honrosa, recebe o prêmio com o filho Ernesto no colo, e agradece no microfone ao seu Chico, o pipoqueiro de Gostoso. “Ele vende pipoca a R$ 1, isso é uma maravilha, isso não existe”. Faz um vento danado. Hora de tomar uma caipirinha.

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