DIÁRIO DA ITÁLIA 4

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicília

 

A vedete Carmen Veronica e uma amiga de palco (acho que era Consuelo Leandro) saíram rebolando sossegadas por Copacabana no dia 31 de março de 1964 a caminho do salão de beleza. O Rio estava deserto, nem uma alma nas ruas, com exceção dos tanques de Guerra e soldados armados que patrulhavam a área – dia do golpe, ou da Revolução, como mais tarde ensinariam os livros de história da minha infância. O soldado esticou o fuzil na cara das duas beldades. “Daqui não passa”. Carmen se indignou com aquela voz molenga, irresistível: “Mas como não passa? Estamos indo fazer o pé e a mão”. “Ordens do comando, senhoritas”. Ela encarou: “E o senhor quer que a gente fique com os calcanhares rachados?”

Lembrei dessa história porque ontem, no passeio rápido com a Zara, minha labradora, as ruas aqui na Sicilia desertas como manda a quarentena, vi na calçada uma lixa de pés. Para polir calcanhares rachados. Uma pequena amostra arqueológica de que a humanidade, essa escondida, está ainda por aí. Fiquei imaginando quem perdeu o objeto – seria uma mãe correndo com a sacola de compras para voltar para casa e fazer o almoço? Uma garota entediada que vai passar esmalte enquanto tá grudada no celular? Uma drag queen aprisionada na quitinete? Quem perdeu, ficou sem, porque além de todas as lojas fechadas, os supermercados não vendem mais esses itens. As prateleiras de cosméticos e produtos de beleza estão agora separadas com fitas de isolar a área em filme policial. “Ordens do governo. Não são itens essenciais, senhora”, me explica o moço do caixa.

Não, não são, concordei. Estamos forçados a viver, sem a leveza do conceito, a filosofia do Balu do Mogli – “somente o necessário, o extraordinário é que é demais”. E com tamanha gravidade no mundo, homens no comando vão perder tempo pensando se alguém pode se preocupar em amaciar os pés, passar um batom, retocar a raiz dos cabelos? Há os que acreditam que essencial, mesmo, é a economia, estúpido!, muito mais do que as vidas dos que não produzem tanto quanto eles gostariam. Os que só veem a mão de Deus, e quer algo mais imprescindível? Nesses tempos de cativeiro, já é luxo ter um amor para dar as mãos, geladeira cheia e TV – o singelo ideal de felicidade de um amigo carioca quando me confidenciou, anos atrás, sobre sua incompreensão das inquietações femininas (“ela diz que a vida não pode ser só isso, mas se eu tô com ela, o Flamengo ganhou, o que falta?”).

E assim o significado de essencial para cada um vai pegando mais forte ou mais leve, sofrendo pequenas mutações, como o vírus que nos tirou os abraços, as mãos dadas, os empregos, as discussões e risadas nas mesas de bar. Levou junto tantas coisas nem tão importantes e cutucou indagações mais profundas: será que não podemos viver com menos? Bom, basta uma olhada nas estatísticas que mostram que um terço do mundo não tem nem água encanada que esse papo de less is morefica meio ridículo de óbvio. Mas também é verdade que até na escassez absoluta todo mundo precisa de uns devaneios. Uma cachacinha que seja, uma música, uma flor no cabelo, botar um pano legal, uns adjetivos para o corpo e para o espírito.

Na adolescência, eu era fascinada por uma mendiga que morava no caixa eletrônico perto da minha casa e vasculhava o lixo da rua catando restos de batom, blush, sombra, para dar um toque no visual. Sempre me encantei de ver que nos países em guerra as pessoas dão um jeito de continuar a diversão, inventam festas no porão, se arrumam como dá e vão dançar, promovem concurso de miss, como naquela canção do U2, Miss Sarajevo. Na atual guerra contra o vírus, talvez a fita que isolou a área da beleza no mercado isole ainda mais a gente do que imaginamos. Nos proíbe a fantasia. Pode ter efeitos imprevisíveis. Minha dentista uma vez me descreveu tudo o que fazia para estar sempre bonita. Depilava os braços, o cabelo precisava de tinta a cada 10 dias, na pele usava procedimentos x e y, então me olhou bem firme e pediu: “Olha, se um dia eu naufragar, ou ficar perdida dias na mata, por favor, não me resgatem”.

Faltou contar o que aconteceu com nossas vedetes, Carmen e Consuelo: o soldado, talvez besta diante do argumento, ou um sábio que compreende a natureza humana, deixou as duas passarem. Na volta, elas jogaram beijos para ele, felizes com as unhas feitas e os calcanhares polidos.

DIARIO DA ITALIA 3

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicília

 

24/3: Tem de ter projeto. A brasileira que mora em Turim enfatiza o tom para nos ensinar como devemos enfrentar a quarentena, num dos inúmeros videos que brotam nas redes sociais. De uns anos para cá, todo mundo em vídeo, texto, áudio, dá conselho, dica, lição edificante. E para ser feliz todo mundo tem de ter projeto. Essa frase sempre me deixou com a pulga. Os que não tem, como eu neste e em alguns momentos da vida, estão condenados a vagar tentando catar um naco do sentido da existência e vão morrer na praia.
Agora que eu achava que, como o planeta prendeu a respiração, talvez fosse hora de simplesmente parar e cultivar a arte de não fazer nada, também não pode. Quem já falava em palestras, TEDx, cursos, e até aquela sua prima de voz mole que exibia a sabedoria em pílulas — “Deus não quer preguiçoso em sua obra”– hoje aparece maquiado e penteado on line, apontando o dedo da eficiência para cigarras sem destino.
Não me refiro, claro, à urgencia em ajudar os outros, colaborar em campanhas, oferecer solidariedade ao vizinho, fazer todo o possível para minimizar as imensas dores dessa pandemia, tudo mais essencial do que nunca. Mas a essa obsessão em ser coach na vida. Cadê aquela preguiça boa do Caymmi?
Quando eu estava na faculdade de jornalismo, o professor mais pop da turma resolveu perguntar, só para ver no que ia dar, se ter objetivo era algo imprescindível. Seria possível viver sem objetivo, só viver? O pau comeu, a classe rachou – quer dizer, a classe inteira contra dois: eu e o Sergio Crusco, que argumentávamos, meio Rita Lee, que viver pelado num eterno domingo não era impossível. Podia ser umas. Esculachados, terminamos a aula entendendo que não iríamos muito longe. Não fomos mesmo, mas tivemos umas ideias legais por aí e os bem sucedidos também sofreram umas cambalhotas.
Não, não tenho nenhum projeto no momento, senhora. E descubro feliz que justo agora no isolamento estou ocupadíssima fazendo uma das coisas que mais amo: batendo papo. Desde que se anunciou a pandemia, e aqui na Itália a coisa tomou proporções inimagináveis, amigos que antes não conseguiam parar me ligam para saber como estou, como é esse negócio de lockdown, e junto vem fofoca, risada, afeto. Gente com quem não falava há muito tempo, aquela conversa à toa como se a gente estivesse pensando em voz alta. Fico horas no celular, pernas para cima, e quando vejo já é hora do jantar. Vou indo pra cozinha, antes faço um carinho na cachorra, ganho um beijo do marido, saio na varanda para ver o mar. Lá fora tá lindo e assustador, mas apreciar o instante aqui dentro, tão espontâneo, pode ser bom.
PS: a foto é a capa de um.livro que editei em 2008.

DIARIO DA ITALIA 2

Umas observações aqui da quarentena na Sicilia

 

 

 

19/3: “Jaspion” , disse minha filha, rindo, ao me ver hoje pronta para sair com a Zara. Uma dorzinha de garganta e a notícia triste sobre o aumento de mortes aqui na Italia me fizeram botar máscara, luvas e sair paramentada como outros poucos donos de cães que vi na rua. Os cachorros, felizes, continuam se cumprimentando efusivamente, colando focinhos, cheirando e abanando rabos, enquanto nós , humanos apavorados com o vírus, mantemos distância, esticando as coleiras, mal nos falamos, coração apertado entre a incerteza e aquela inveja de poder escancarar afeto e trocar uma ideia com alguém da sua espécie. Num flashback, me veio a cena de quando, aos 20 aninhos , me vesti de Jaspion com os.amigos para animar uma festa infantil em Campinas. Éramos uns 10 Jaspions e Changemen apertados na Kombi velha pipocando pela Anhanguera. A Kombi quebrou, saímos para empurrar metidos naquelas roupas e capacetes, os caminhoneiros buzinando e berrando “Força JASPION!”. “Dá-lhe Changeman! ” Meu único pavor então era fazer xixi no macacão emprestado porque não conseguia parar de rir. De volta à vida real, os cães se separam, cada um segue seu caminho com o respectivo pet, e a Jaspion aqui tem de voltar para casa com a Zara e ficar quietinha, que o máximo de aventura agora é se manter firme. Viver tá mais perigoso. Mas acho que sempre podemos resgatar umas gargalhadas.

 

22/3: Pequenas ternuras: flores dos pequenos produtores rurais daqui da Sicília; bolo de chocolate que fiz junto com minha filha por whats app; chorar com o vídeo mais lindo de cantoria da janela (são muitos, eu sei, mas esse é demais), ler histórias que transbordam solidariedade, ganhar beijos e palavras doces dos amigos do outro lado do oceano, dançar na sala ouvindo Hang On In There. Pequenas ternuras é uma crônica do meu ídolo Paulo Mendes Campos, lista de simples gestos cotidianos que, sem a gente perceber, nos unem na Terra. Pessoalmente não me sinto mal no isolamento, fico de boa em casa, anos como frila, meses aqui longe de todos. Mas não consigo ficar indiferente a tanta dor no mundo. Hoje foram 793 mortos aqui na Itália. No Brasil, os pobres, como sempre, continuam abandonados à própria sorte. Pensei também nos muitos que sofrem de pânico, ansiedade, depressão, nas famílias em que ficar em casa significa dor, violência, choro, desespero. E me vem a lembrança de outra crônica do PMC, Receita de Domingo, sobre um domingo solar e feliz até se cair na real: “O mundo devia, mas não é composto de domingos. Então, como uma espada, surgir da nossa felicidade burguesa e particular uma dor viril e irritada. Para que os dias da semana não nos repartam em uma existência de egoísmos “.

 

 

 

DIÁRIO DA ITÁLIA 1

Pequenas observações aqui na quarentena na Sicilia

 

 

 

 

 

 

18/3: Nas ruas desertas aqui na Sicília, de dia a policia faz a ronda repetindo o slogan: Io resto a casa; à noite os agentes sanitários borrifam desinfetante. Estamos tranquilos, mas como adoro um script, me sinto num filme de sci-fi . Já em Barcelona, onde minha Nina mora, o clima tá igual, ninguém sai, ninguém sabe o que será, mas o roteiro é mais passional. A vizinha dela pega o megafone e berra na varanda: ESTOY ABURRIDA! Mais um dia de quarentena europeia, amigos.

 

13/3: Só pode sair de casa com autorização — eu tenho uma autorização viva, a Zara, que precisa sair para as necessidades e para uma caminhada rápida. Só eu e ela nas ruas totalmente desertas ontem à noite. Um silencio de templo, quebrado pelo som dos homens paramentados como Ghostbusters que borrifam liquido desinfetante pela cidade fechada. Me sinto num filme tipo Chernobyl. Hoje o sol está bom, o mar tá lindo, as flores desabrocham. O cartaz na loja fechada diz: “Viva l’amore, viva la vita” . Uma mulher sorridente debaixo do sol grita em italiano para mim e para a Zara do.outro lado da rua: ” os cães salvam a gente. Nunca essa frase foi tão verdadeira “. Me abro em.sorriso e aceno, concordando. O.sol está bom. E la nave va. Segue a quarentena.

 

11/3: A saúde é o bem mais importante, avisa com calor siciliano o cartaz na.porta da loja fechada sem data ainda para reabrir. Várias lojas fechadas, muitos cartazes, uns mais sucintos, outros mais extensos. Restaurantes não abrem à noite, nos mercados e farmácias só entra uma pessoa por vez e fica a fila na rua. Ah, as ruas de mármore lindas e sempre cheias de gente nessa cidade à beira mar que escolhi morar estão vazias. Alguns passam de máscara. O mar continua lindo, hoje o dia foi ensolarado, mas há tristeza no ar.

 

9/3 : Sempre sonhei em viver numa ilha — aquela coisa de não ser apenas geografia, mas um estado de espírito, um lugar para onde se pode fugir. Hoje que vivo numa, a Sicília, acabo de saber que estamos ilhados em todos os sentidos. Primeiro ministro que havia fechado só as fronteiras do norte da Itália agora baixou a portaria geral. Como diria o Luis Fernando Veríssimo numa crônica que adoro, Pôquer Interminável, em que todos os personagens não param o jogo por nada, “Ninguém sai, ninguém sai “. Vamos ver se aqui fica no blefe e a coisa é mais light (espero) ou se esse negócio se prolonga. Minha aposta é sempre no otimismo. Por enquanto, ninguém sai, ninguém sai.

 

 

 

PERFIL ADRIANA CARRANCA

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Por Cristina Ramalho

 

Ela devia ter uns quatro anos e passeava feliz da vida de sainha curta e mãos dadas com os pais pelas ruas de Santos, onde nasceu, quando viu, do outro lado da calçada, uma mulher careca em surto, faca na mão, berrando do terraço de casa. Uma pequena multidão se acotovelava para ver, dava para ouvir os gritos dos passantes: “Louca! Pega! Mata!” Então a polícia chegou. Bateram muito nela.

Quarenta anos depois, ao contar agora essa história, Adriana Carranca não se lembra dos detalhes, mas não esqueceu as expressões nos rostos das pessoas. Muito menos a expressão no rosto da mulher.

“Cheguei em casa chorando, eu era muito pequena, e perguntava porque eu não era como ela, porque não tinha aquela raiva, porque falavam dela assim, porque batiam nela”. Poderia ter um caminhão de hipóteses para tantos porquês, mas não demorou muito até intuir que o jeito de chegar nas respostas era um só: ir atrás dos outros. Escutar. E, quem sabe, entender. A menina que fugia para espiar como viviam as crianças do orfanato lá da rua de trás virou jornalista e escritora premiada, menção honrosa no Prêmio Esso, duas vezes vencedora do Líbero Badaró, colunista dos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo.

Jogou um pano legal por cima dos cabelos e correu pelos países muçulmanos, foi à faixa de Gaza, à Síria, à África, ao Irã, ao Paquistão. Escreveu reportagens e livros sobre o cotidiano dos refugiados, tolerância religiosa, a vida no Afeganistão ou o tanto que a gente desconhece a respeito das mulheres muçulmanas. Um dia falou de Ronaldo e Kaká e conseguiu rasgar um sorriso na cara fechada do Mulá Abdul, um líder do Talibã, e ele acabou lhe dando uma entrevista.

Agora, fama de dar autógrafos, ser reconhecida na praia por crianças de sorvete na mão, entrevistada na TV, convidada para debater na Flipinha (versão infantil da Flip) com alunos das escolas de Paraty, Adriana ganhou ao escrever sobre uma outra menina inconformada e cheia de porquês. Malala Yousafzai, a paquistanesa de etnia pashtun que aos 11 anos começou a escrever um blog sobre a invasão de guerrilheiros talibãs na sua região, aos 14 sofreu um atentado por lutar pelo direito de toda garota de ir para a escola, e aos 17, em 2014, se tornou a mais jovem ganhadora do Prêmio Nobel da Paz. Não por acaso, Adriana fez questão de contar sua história em livro infantil, o lindo Malala, a menina que queria ir para a escola (Ed. Companhia das Letrinhas).

“Se a gente tem de mudar algo no mundo, a gente vai mudar pelas crianças, porque os adultos já têm muitas cascas, muitos preconceitos, passaram por várias coisas. A criança é aberta. Se desde pequena ela não enxergar a diferença, ela vai ter outro olhar para a menina de rua, vai crescer com outro olhar para o mundo”, ela me diz no camarim do MuBE (Museu da Escultura, em São Paulo), onde participou de um debate do canal GNT sobre igualdade.

Quando escreve para a garotada, faz de um jeito tão claro e sensível como é sua conversa: franca, voz doce, olhar firme. Mas escolhe temas de arrepiar os cabelos daqueles pais que ainda teimam em falar com os filhos no diminutivo. Em Malala tocou na intolerância, explicou o que é o Talibã, descreveu de um jeito tão descomplicado o atentado a bala.

No próximo livro, para crianças bem pequenas que ainda não lêem sozinhas, vai tratar da igualdade de gêneros. É sua primeira ficção: O menino e o espelho mágico, para uma coleção de livros digitais do Itaú Cultural. Fala de um principezinho entediado no reino azul que acaba escapando dali e conhecendo uma menina do reino rosa, e dali para frente as cores se misturam e bacana mesmo é viver todos os tons do arco-íris.

Mal botou o ponto final nessa história, só deu tempo de conversar comigo, correr para arrumar a mala e enfiar o passaporte na bolsa. Adriana foi passar uma temporada entrevistando crianças refugiadas de vários países, e também velhos que foram crianças durante o Holocausto ( “Quero juntar as gerações porque uma tem muito o que ensinar para a outra”) para outro livro, uma grande reportagem para leitores na faixa dos 12, 13 anos.

Foi com Malala que ela inaugurou esse estilo reportagem infanto-juvenil. Traz um punhado de detalhes e muita informação, tudo descrito com tanta leveza e um quê de contos de fada, porque o cenário onde a garota nasceu e cresceu, o Vale do Swat, encravado nas montanhas entre o Paquistão e o Afeganistão, não parece coisa desse mundo. Um lugar de reis, rainhas, príncipes e princesas de verdade, vilões com nomes exóticos, guerreiros herdeiros de Gengis Khan que até hoje mantêm tradições milenares, como sentar de cócoras – eles não acreditam em cadeiras – e esconder as mulheres como parte valiosa do seu patrimônio.

Em outubro de 2012, dias depois do atentado contra Malala, Adriana atravessara mar e montanhas para entender essa região bombardeada, sem eletricidade (só algumas horas de gerador por dia), sem água encanada, de onde brotou aquela menina luminosa. Espiou a casa simples de Malala. O seu quarto. Conheceu as amigas, como a Kainat e a Shazia, garotas espertas, fãs do Harry Potter e da série Crepúsculo, igualmente corajosas e baleadas no mesmo ataque. Foi à escola, fez umas compras no mercadinho, conversou com um príncipe e com o médico. Hospedou-se na casa do tradutor Sana e sua amável família pashtun, tomou o café da manhã com leite tirado de uma cabra delivery e o pão feito na hora no forno a lenha. À noite, todo mundo se sentava ao redor do fogareiro para ouvir as histórias do avô.

Tirando o detalhe da cabra, e de um ou outro hábito dessa turma que vive quase da mesma forma há dois mil anos, não era uma casa tão diferente do chalé de madeira onde morava a sua própria família em Santos. Avô, avó, tio, tia-avó, dois primos, todo mundo morando junto. Mezzo italiana, mezzo portuguesa, uma gente trabalhadeira, afetuosa. Dinheiro, quase nenhum. O avô de Adriana gostava de se sentar no primeiro degrau da escada, ela no terceiro, e ele perguntava: “Para onde a senhora quer viajar?” Ela respondia qualquer coisa e embarcavam num ônibus imaginário. Passava as tardes fazendo macarrão com a avó italiana ou jogando tômbola na casa da avó portuguesa que mal sabia escrever e pedia para a neta caprichar numas cartas para os artistas de rádio.

Adriana entrevistou Malala ao vivo e em cores na Europa, e conheceu seu pai, Ziauddin Yousafzai, dono da escola no Swat que insistia que as meninas continuassem estudando. Ziauddin se orgulhava do interesse da filha primogênita pelos livros, ensinava quatro idiomas às alunas, ainda que respeitasse as normas dos pashtuns – escola, só até a primeira menstruação, quando as moças têm de ajustar o foco da existência para o casamento. Quando Malala era pequena, ele lia poesias para ela antes de dormir.

A vida vem em ondas como o mar e, na hora, Adriana lembrou-se do Norberto, seu pai, que do lado de cá do oceano lia com ela nas noites quentes um fascículo por semana de uma enciclopédia de capa vermelha e repetia, com ênfase: “Antes de tudo, estude. É o que importa. Só pense em se casar depois”.

De algum jeito, ela e Malala pertenciam ao mesmo território.

Na verdade, nem precisava ter saído de Santos para aprender que do Paquistão ao Oiapoque, de Nova Iorque a Nova Iguaçu, somos todos muito mais iguais do que acreditamos. Quando ela era aluna bolsista do colégio Objetivo, encantou-se com um professor de artes, Renato Di Renzo, e se ofereceu para ser voluntária no famoso projeto de inclusão social criado por ele na cidade, o Tamtam, que começou como intervenção no então hospital psiquiátrico Anchieta e cresceu, transformando a vida dos pacientes e de quem mais chegasse. Renato lhe revelou algo muito maior e fundamental do que a importância de aceitar as diferenças. Mostrou que não era nem para se enxergar as diferenças (“Ele me perguntava: você se acha muito normal? Conhece gente normal? Gente normal toma remédio? Bebe?”) .

Ele fazia teatro com o improvável, como uma bailarina que dançava com os braços porque não tinha as pernas e um Romeu que esquecia as falas para sua Julieta. “Ele dizia: lidem com isso. Meu melhor ator tem amnésia”. A solução do grupo veio rápido: Romeu montava um cavalo falante que servia de ponto – falas garantidas, sucesso total. “Nunca comentei sobre isso, acho que o Renato nem sabe, mas ele foi responsável por muito do que eu sou”.

Inevitável que, como jornalista, Adriana sempre se engajasse na cobertura dos assuntos ligados aos direitos humanos. PCC, favelas, Fundação Casa eram o seu cotidiano no Estadão. Acabou fazendo mestrado em Políticas Sociais e Desenvolvimento em Londres, na London School of Economics, e foi correspondente na ONU, em Nova York, pesquisadora na Universidade de Oxford e integrou um projeto de reportagem internacional da Universidade Johns Hopkins de Washington. É do tipo aplicada: pesquisa muito, se prepara demais, tenta se proteger ao máximo contra os muitos riscos – seja o de escapar de uma zona de ataque ou do vexame de não fazer algo nos trinques. Para escrever Malala, por exemplo, entrou num curso de literatura infantil.

Mas no que interessa, o coração da matéria, está sua imensa capacidade de chegar junto. Adriana não julga. Desaparece, se veste como os locais, se esconde numa burca quando é preciso, fica morando nas casas de famílias, mais observa do que pergunta. A resposta dos entrevistados também volta – quase sempre – limpa, direta, no tom. E traz belezas inesperadas.

No Irã, ela mal desembarcou no país viu passar um táxi com o letreiro Women`s taxi. Anotou o telefone. A motorista que foi pegá-la contou, orgulhosa: casou-se obrigada aos 15, teve dois filhos, odiava o marido e queria o divórcio. Como no Irã só homens podem pedir o divórcio, a moça infernizou o sujeito até ele sucumbir e separar-se dela. Filhos ficaram com ele – é a lei. Ela uniu-se a outras moças, aprendeu a dirigir, montou a cooperativa que tem 900 táxis, juntou dinheiro, comprou os filhos de volta e dirigia toda pimpona, ganhando seu sustento. Essa e outras mulheres de fibra, donas dos seus narizes e muito politizadas, estão no livro O Irã sob o Chador (ed. Globo) que Adriana escreveu com a amiga Márcia Camargos. Foi finalista do Prêmio Jabuti de 2011.

Na faixa de Gaza Adriana quis conhecer uma deputada do Hamas, uma mulher pequena, jovem, 34 anos, que simplesmente comanda 100 homens. Foi recebida no escritório, a mulher era uma mocinha de calça jeans e camiseta, sem véu. Adriana conseguiu ir até sua casa. Viu mulheres comuns, sofridas, gente como a gente, um bairro muito pobre. No quintal apertado, filhos brincando com foguetes e armas de brinquedo. Ganhava o jogo quem matasse mais israelenses.

Surpreendeu-se muito, no Afeganistão, como o povo era amável, ingênuo, mais de 80% de analfabetos, um país que enfrentou ao longo da história sucessivas guerras e no meio daquela secura do deserto os homens cultivam rosas, muitas rosas, lindas. Escreveu 11 perfis de personagens contando a guerra do ponto de vista dos afegãos, 10 anos depois do 11/9 e da consequente invasão americana no país – formam o seu livro O Afeganistão depois do Talibã (ed. Civilização Brasileira).

E apuros, não teve? Ôpa! Na Síria, viu um carro estacionado na frente de um prédio oficial e sentiu o coração disparar. Insistiu para entrar logo no prédio, e assim que passou a porta, como previra, o furgão explodiu, matando, entre outros, seu tradutor curdo que tinha ficado do lado de fora. No Afeganistão foi assistir a um jogo, uma espécie de polo medieval, o tradutor saiu uns minutos e homens com fuzis Kalashnikov começaram a cutucá-la. Adriana, de burca, sem saber falar uma palavra, congelou de pavor. “Pensei: fui sequestrada”. Dali a pouco reaparece o tradutor esbaforido, que tomou uma dura dos sujeitos armados: que tipo de cavalheiro era ele que não arrumou uma cadeira para a estrangeira se sentar? “Eles só estavam me tratando bem”, ela ri. No Vale do Swat, descobriu só na noite em que chegou que o irmão do seu tradutor era um guerrilheiro talibã. Felizmente, já estava preso.

O marido, Jacyr (conheceram-se nos Estados Unidos, em 1995, ele estava lá estudando engenharia, e estão casados há 10 anos), diz que o coração aperta, mas entendeu que o melhor jeito de segurar Adriana é deixa-la ir. Já dona Terezinha, a mãe, ainda não dorme enquanto a filha não telefona.

Mas como ela própria escreve na abertura do seu Malala, “os jornalistas, como as crianças, adoram fazer tudo o que é proibido”. E é esse seu olhar de criança que vai atrás dos porquês de cada um. “Eu imagino sempre as pessoas como bebês, não sei explicar. As pessoas não nascem vilões, um talibã já foi um bebê. Não quer dizer que eu aceito quem ele seja, mas me ajuda a saber de onde vem a maldade, ou os valores que ele tem. Em algum momento aquele bebê deixou de ser como os outros. O que aconteceu? A gente precisa conhecer sua história. Até para nos proteger”.

Os guerrilheiros talibãs, ela explica, foram meninos tirados, na década de 1980 – ou doados – , ainda bem pequenos, das famílias afegãs muito pobres para estudar nas escolas religiosas, as madrassas. Continuaram analfabetos, mas foram treinados para guerrear contra os soviéticos, e decoraram o Alcorão em árabe (“eles não sabem falar árabe, decoram aquilo e repetem, não sabem o que está escrito”). Criados longe das mães e de qualquer garota. Só demonstram afeto entre homens. Fazem sexo com os meninos. Mulheres, só para a reprodução. “Como queremos que eles respeitem as mulheres?“, Adriana se pergunta.

“Por isso que eu sempre digo: o amor tem de vir antes. Temos de começar desde pequenos a aceitar os outros. Durante muito tempo eu sonhei em ter uma ONG de amizades, porque quando a amizade vem antes da guerra, o sentimento ajuda a relevar o conflito. Depois não adianta”.

Bem que ela tenta. Numa tarde quente como o diabo, conversando com rapazes do Hamas na faixa de Gaza, meninos armados de 17 anos, Adriana comentou: “Vocês têm tanto em comum com os meninos do outro lado. Acho que se aceitassem sentar numa mesa e tomar umas cervejas juntos ia ficar tudo resolvido”. Eles fecharam as caras: “Não podemos beber”.

Malala já declarou, num conhecido discurso na ONU, que sua vozinha lá do Paquistão foi capaz de subverter as coisas: “Uma criança, um professor, um livro, uma caneta, podem mudar o mundo”. A santista Adriana sugere a versão praiana: o bate-papo de cervejinha na mão, uma alegria real. Como deve ser a vida. Se algum dia o mistério do entendimento vai se resolver, nem os deuses sabem. Mas umas meninas como essas, felizmente, sempre hão de pintar por aí.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

KENGO KUMA VALOR

 

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Por Cristina Ramalho

A primeira ideia de Brasil do arquiteto japonês Kengo Kuma veio, como acontece com tantos estrangeiros, da música. Domingo, cinco da tarde, hora de tomar um chá e sintonizar a rádio J Wave para ouvir o programa Saúde Saudade, do DJ e produtor Jin Nakahara, que sabe tudo de MPB e suingue e toca, há muitos anos, o fino da bossa para os ouvintes em Tóquio. “Quem me falou sobre o programa do Nakahara foi meu velho amigo Sakamoto”, conta Kuma de Tóquio, por telefone, ao Valor. O arquiteto se deliciou com a leveza da música brasileira. Adorou Tom Jobim.

Kengo Kuma, 62, está entre os grandes arquitetos do mundo, hoje. Ryuichi Sakamoto, 64, você já sabe, mas não custa repetir: músico, ator, compositor, é um dos maiores artistas japoneses vivos. O encontro desses dois amigos que são a cara do Japão contemporâneo deu samba também no sentido figurado: Kuma e Sakamoto lançaram, em 2015, uma versão de um antigo jogo japonês de montar, o tsumiki, espécie de Lego em madeira. O arquiteto desenhou um bloco em formato de V, com aberturas nas pontas, e mil e uma possibilidades de criação: pássaros, casas, bonecos, um avião, o universo. Sakamoto, que tem uma ONG que atua em reflorestamento, a More Trees, colaborou fornecendo a madeira certificada.

Meses antes de lançar o jogo no mercado, Kuma e sua equipe montaram um pavilhão temporário de tsumikis gigantes na Tokyo Design Week, e crianças e adultos se esbaldaram. Mostrou que assim como os budistas acreditam que há um Deus no interior de todo ser humano, Kuma aposta que dentro de cada um de nós – por que não? — mora um arquiteto.

O tsumiki é um sambinha feito numa nota só da qual dá para se compor o que quiser. É também uma consequência do que Kuma mais gosta de fazer: juntar tradição e inovação. Pegar como base o lado mais clássico do Japão (o jogo original tinha ainda formas circulares, cúbicas, mas ele optou por usar só as triangulares) para enxugar as ideias e propor um jeito novo, lúdico, de construir a vida. Economia de espaço, materiais naturais, lirismo matemático. A beleza que é a simplicidade.

Tudo se encaixa.

Nos projetos arquitetônicos de Kuma, a madeira é tramada por experimentados artesãos, como um grande jogo de montar, formando estruturas de desenhos delicados, belos, que embalam os prédios, escondem/revelam a luz, deixam espaços vazios, proporcionam imagens poéticas como nuvens no céu. Caso da Sunny Hills, uma loja de bolos que Kuma projetou em Tóquio, casa pequena, que se tornou ponto turístico: as réguas finas de madeira, encaixadas em ângulo de 30 graus, dão um efeito de três dimensões. Um quê de conto de fadas.

É com essa filosofia tsumiki de enxergar o mundo que o arquiteto está chegando ao Brasil. Ele assina o projeto da Japan House, em São Paulo, um espaço previsto para inaugurar em 2017 e que pretende aprofundar as relações dos dois países nas artes, no business, e apresentar a contemporaneidade do Japão que nós, ocidentais, ainda pouco conhecemos (veja box). “O projeto tem de mostrar na sua arquitetura a essência da cultura japonesa e dialogar com a cultura brasileira”, Kuma explica. Criou uma estrutura de réguas de madeira trabalhadas por artesãos japoneses que conversa com uma parede de cobogós, os típicos elementos vazados da arquitetura brasileira modernista. A luz entra pelos espaços, formando desenhos, calma de templo em plena avenida Paulista.

“Vamos ter um jardim zen, com muito bambu, que é uma madeira tão japonesa e também tão brasileira”. Dentro do prédio de três andares, painéis deslizantes – chamados de fusumas – podem funcionar como paredes que se recolhem, abrindo espaços, ou fecham, dependendo da necessidade do momento. Afinal, esse é um projeto que nasce para celebrar a convivência.

Para acompanhar o andamento da obra, Kuma veio a São Paulo “umas seis, sete vezes”. Achou a cidade excitante, aberta a novas culturas, impressionou-se com o tamanho da imigração japonesa por aqui. Ele e sua equipe ensinaram artesãos brasileiros a trançar a madeira e, como sempre, Kuma se empolgou com a possibilidade de abrir o compasso, aprender algo novo. “Os brasileiros não têm uma cultura forte da hierarquia como nós, japoneses, e penso que evitar a hierarquia é muito importante, tento fazer isso no meu cotidiano”, ele diz. Trabalha com muitos jovens no seu escritório em Tóquio, o Kengo Kuma & Associates, uma equipe de mais de 40 pessoas. “Gente mais jovem me estimula demais”.

Ele criou um método de trabalho que chama de “humble method” (método da humildade). É o comedimento em ouvir o outro, trocar ideias, a cortesia oriental. Mas sobretudo é o comedimento na própria arquitetura – que ela deixe que a natureza fale. “A arquitetura deve ser uma moldura da natureza”, diz Kuma, que aprofundou mais ainda esse conceito depois de grandes acidentes naturais, como o tsunami e o terremoto no Japão. Não apenas usa os materiais naturais – argila, bambu, pedra, madeira – como busca integrar seus projetos aos lugares onde eles estão. Um estilo muito influenciado pelo amor ao seu ídolo de menino, o modernista Frank Lloyd Wright ( da arquitetura limpa integrada à natureza), e apurado pelo sentido de espaços vazios da arquitetura japonesa tradicional.

Quando criança, década de 1960, Kuma morava numa casa japonesa dos anos 1920, de madeira, com janelas e portas de papel, e morria de vergonha. “Meus amigos moravam em prédios de concreto, iguais aos americanos. Eu detestava a minha casa. Mas com o tempo fui percebendo que me sentia muito mais acolhido lá, que o concreto não me fazia sentir bem”. Quis trabalhar com isso, fazer casas, talvez. Mas o que definiu mesmo sua carreira foi entrar no Estádio Nacional de mãos dadas com o pai, nas Olimpíadas de Tóquio, em 1964. Tinha dez anos. E ficou de queixo caído com aquela imensa estrutura de concreto. Gostou mais ainda quando viu o arquiteto do estádio, Kenzo Tange, falando na TV. A Ásia vivia o boom da modernidade do concreto, grandes construções.

A vida vem em ondas como o mar e não é que Kuma foi escalado para projetar o estádio da segunda Olimpíada de Tóquio, em 2020? “Resolvi que vou criar o oposto: um estádio com muita madeira. Quero falar de harmonia, e a Ásia está voltada para a sustentabilidade, a criatividade, é outro momento”. Ele veio com a delegação japonesa assistir as Olimpíadas do Rio. “Achei tudo bonito”.

Como bom japonês, Kuma faz poesia ao mesmo tempo tão zen e tão high tech. No pavilhão do Buda, um templo em Touyoura, usou a mais moderna tecnologia do aço e o cobriu com barro, um deslumbre de leveza. Numa casa em Nagano, cortou as pedras externas em fatias finíssimas e criou ilusões com as luzes, um tipo diferente de transparência. Inventou uma casa de chá inflável no Museu de Artes Aplicadas de Frankfurt, tecnologia quase espacial combinada com ritual japonês. Fez prédios, museus na China, Inglaterra, França, está criando o projeto do museu V&A na cidade de Dundee, na Escócia, ganhou um sem número de prêmios. Tem um laboratório de pesquisas, o Kuma Lab, onde estuda sustentabilidade e novo uso de materiais.

A cada dia, diz, ele quer ser mais simples. “O arquiteto tem de ser um sushiman: fazer o máximo com o mínimo de elementos”. Tanto faz se em obras grandes ou pequenas, como ele cita num texto que escreveu comparando a arquitetura à literatura e citando seu escritor favorito, Haruki Murakami: “Murakami diz que escrever um conto ajuda a sintetizar e a buscar por algo que ele pode desenvolver num romance. Para mim, fazer uma casa de chá é como escrever um pequeno conto”. É ter aquele poder de síntese como numa canção bossa nova.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A falsa Marilyn Monroe e o verdadeiro Manhattan

Por Cristina Ramalho

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Em Quanto Mais Quente Melhor (1959), Marilyn Monroe improvisa um Manhattan durante a viagem de trem, com a bolsa de água quente como coqueteleira

O trabalho parecia moleza: botar uma peruca loira, fazer a pinta perto da boca, se apertar no vestido justo. Fani só precisava caprichar na vozinha rouca, tímida-sexy, levar o bolo até a casa do aniversariante, tocar a campainha e, quando ele abrisse a porta, a cereja do presente seria ela cantar, como a verdadeira Marilyn Monroe para John Kennedy, um sussurrante Happy birthday to you. Cachê: duzentos reais.

Quem teve a ideia foi a Adelita, namorada do aniversariante. Tinha essa fantasia: celebrar o aniversário do amado com uma surpresa hollywoodiana. Mas não se atreveria a ser a estrela – sempre de bege ou preto e branco, sempre a eficiente do escritório, com aquele rosto redondo, nariz de ursinho, não ia colar. Adelita achou o telefone de uma agência de telegramas animados. Ligou. Pediu uma Marilyn e um saxofonista.

– Então, além da Marilyn, eu quero um moço tocando o parabéns no sax. Uma cena de filme mesmo.

– Claro, querida. O sonho é seu, a gente realiza, respondeu a moça da agência.

Tudo certo. Manhã de sábado, Fani, apertada no vestido e tentando não entortar o salto do sapato um número menor, já se aprumava perto da porta. O moço do sax, terninho barato, ao lado. A namorada não se aguentava de ansiedade.

– Olha, eu vou me esconder atrás daquela árvore, ai, quero só espiar a cara de surpresa dele.

Fani achou graça. Queria ganhar prêmios no teatro, sabia de cor as peças do Antunes Filho, mas trabalho é trabalho. E bem que gostava da ideia de ser a Marilyn por 15 minutos. Era uma romântica. Achava da maior ternura fazer os telegramas animados e ver a reação das pessoas.

Tocou a campainha. Nada. Tocou de novo. Nada. Tensão no ar. A namorada começou a roer as unhas. “Toca outra vez”, sussurrou lá da árvore. Pééé. Péééé. Um sujeito meio gordo, descalço e só de cuecas, atendeu a porta. A cara dele não era boa. Fani arranhou a garganta, esticou o bolo em que se lia “Meu amor, my love, mon chéri”, e começou, sibilante: “Happy birthday to you…” O sax acompanhava.

– Mas que merda é essa? – disse o sujeito amassado de sono.  “Happy birthday, Mr. Taborda”, cantou a Marilyn, açúcar na voz. Então surgiram, por cima dos ombros do Taborda, as mãos de longas unhas vermelhas. Uma moça só de calcinha estava atrás dele. – O que foi, meu bem? , perguntou a das unhas.

– Te-le-gra-ma a-ni-ma-do da Adelita! – entoou a Marilyn a toda velocidade. O moço do sax, antevendo a tragédia, foi saindo, pé ante pé, a música soando cada vez mais longe. Adelita saiu chorando detrás da árvore.

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Marilyn, the real one, cantando Happy Birthday para o presidente americano John F. Kennedy em 1962

– Que que é isso, Adelita? gritou o Taborda. Fani deixou o bolo no chão e abriu caminho. Adelita avançou: “Seu canalha! Preparo a maior surpresa para você e você tá com outra”!

Fani pensou rápido e esticou as mãos: – São duzentos reais. O Taborda gritava cada vez mais alto. Adelita tentou pegar a só-de-calcinha pelos cabelos. Não se ouvia mais a música. O sujeito do sax já tinha desaparecido.

– São duzentos reais, insistia a Marilyn, que a essa altura já tinha arrancado os sapatos e só pensava em correr dali. Mas não ia perder os duzentinhos. Um gritava daqui, outra berrava mais alto, Adelita soluçava, Fani aproveitou o momento de fraqueza, ajudou a coitada da namorada abrir a bolsa, pegou seus duzentos, mais cem para o cara do sax, e se mandou.

Já que estava de Marilyn, que terminasse o dia com elegância cinematográfica. Calçou os sapatos de novo, foi até o bar de um hotel bacana ali perto, realizou um desejo: pediu um Manhattan. Era a bebida que a Marilyn Monroe, no papel de Sugar, improvisou no trem em Quanto Mais Quente Melhor, na cena em que o Jack Lemmon vestido de mulher aparecia com uma garrafa de bourbon. Fani não era Marilyn, Jack não era mulher, o Taborda não era o homem que Adelita imaginava. Mas o Manhattan, bem real, estava uma delícia.

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