NINA PANDOLFO

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As cores da delicadeza – revista Florense

Por Cristina Ramalho

 

Nelson Rodrigues escreveu um dia que o diretor de teatro Zé Celso Martinez Corrêa, sempre querendo ser maldito, botou o elenco pelado no palco, xingou a burguesada toda e, para sua surpresa, a plateia achou uma graça. Ele foi aplaudido de pé. Nelson deitou veneno na sua coluna no jornal: “Zé Celso foi visto tentando pular do Viaduto do Chá, gritando ‘eu fracassei, eu fracassei’ “.

Lembrei dessa história quando a artista Nina Pandolfo me contou que pintou em Munique, em 2005, um grafite sombrio, agressivo, denunciando os abusos na guerra do Iraque, e mal botou o pincel no chão a primeira coisa que ouviu foi: “Oh, so cute!”(Que fofo!). Nina amuou. Ninguém entendeu. Fracassou, fracassou. Bom, a semelhança com a piada sobre o Zé Celso acaba aqui. Nina de fato deu seu recado na pintura. Os que acharam uma fofura é porque simplesmente não prestaram atenção.

Sim, aquelas na parede alemã eram suas meninas de olhos grandes, lindas, ar de doçura, um quê de sonho. Mas bastava chegar mais perto só para ver: uma tinha o braço amputado. A outra, um roxo no lugar do olho. O menino, sem perna, se equilibrava na muleta. Estavam cercados por arame farpado. Lá no fundo, tanques de guerra em chamas. Colados no chão, soldadinhos de chumbo. E, o que é mais uma marca das artes de Nina, dentro dos olhos era possível enxergar outras cenas: máscaras de Mickeys como máscaras de terroristas armados. “Eu estava mesmo com muita raiva das guerras, dos abusos de poder, da incompreensão”, fala Nina nessa conversa em seu ateliê. Sossegou quando um amigo lhe disse que era claro que o grafite estava muito bom, forte, e os rostinhos de boneca acentuavam o tom chocante da coisa.

Talvez os espectadores tenham enxergado apenas a beleza porque as pinturas de Nina despertam o nosso lado mais suave. A cara da autora, no sentido literal: aqueles olhos imensos das suas personagens não são, como muita gente pensa, inspirados nos mangás japoneses. São os olhões da própria Nina. Os gatos que sempre aparecem nas telas e grafites são seus gatos Rakim (que se aboleta nos ombros da dona como se fosse uma estola de pele e fica ali por horas, enquanto ela pinta e depois se dá conta das dores nas costas) e Monalisa, a tímida. Em breve, a nova cachorra Mia, uma jack russell branca e marrom que corre animada pelo ateliê, vai brilhar em quadro.

E os jardins, as flores, as joaninhas, os longos cabelos, detalhes cheios de cor que se esparramam pelas obras e fazem a gente abrir um sorriso são também os traços da sua personalidade. A pronta sensibilidade para as coisas do afeto.

É o jeito de ver a vida de Carina Arsenio, 37 anos, voz de menina, tipo mignon, que assina Nina (Pandolfo é o sobrenome do ex-marido Otávio, um dos geniais grafiteiros de Os Gêmeos), e pinta todos os dias, como quem cozinha diariamente no capricho para as pessoas que ama. “Se eu estou mal, ou triste, eu não pinto de jeito nenhum. Quando a minha avó morreu, eu nem conseguia pegar no pincel, e tinha três dias para finalizar as telas para uma exposição. Aí foquei no lado bom: ela estava com 102 anos, não sofreu, foi parando, morreu de velhice. Só assim pintei”. Nina não teoriza.

Ela é sorridente, gentil, parece tão espontânea. Fala da avó, das telas, dos bichos, das irmãs do mesmo jeito – e com a mesma importância – que conta sobre suas exposições em galerias na Inglaterra, Alemanha, Suécia, França, Grécia, Índia, Estados Unidos, os elogios de curadores e críticos internacionais, os dias em que pintou com Os Gêmeos e mais o grafiteiro Nunca um castelo na Escócia, o jantar em que o cineasta Win Wenders comentou sobre os grafites dela em Wuppertal. Ou que vai de ônibus para a rua 25 de março, no centro, comprar o material de trabalho (“ Pra quê ir de carro e pagar estacionamento?”) e volta de táxi. “Ah, venho carregada de sacolas”.

Caçula de cinco irmãs, Nina nasceu em Tupã, interior de São Paulo, e aos cinco meses veio com a família para a capital, bairro Vila Gustavo, zona norte da cidade. Cresceu numa casa com um jardim que ela achava enorme (“E não era tão grande, né, o jardim da mãe?”, ela pergunta agora para a irmã, Sibeli, dez anos mais velha, sua assessora/ secretária/ faz-tudo), brincava escondida com as bonecas, entre as duas árvores de hibisco. Jogava vôlei na rua com as amigas até a hora da mãe chamar para o jantar. Olhava as válvulas na parte de trás dos televisores que o pai, técnico em eletrônica, consertava na oficina, e enxergava prédios, imaginava cidades inteiras, o pensamento lá no fundo. Quando a irmã mais velha se casou, Nina sonhou ser estilista de vestido de noivas.

Só pensava em desenhar. Teria futuro? A mãe, sábia, lhe disse para seguir o que gostasse que daria certo. “Eu me inscrevi na oficina cultural da Água Fria (bairro de São Paulo) e fazia todos os cursos que apareciam”. Alguém chegou lá para ensinar grafite. “Era a época em que se fazia grafite com estêncil, como os do Vallauri (Alex, precursor dos grafites em São Paulo, espalhava botas e a personagem Rainha do Frango Assado pelas paredes e postes da cidade). Eu fui ampliando os desenhos nos quadradinhos, mas achei que era muito melhor fazer direto na parede. Saí da aula”. Aos 15 anos, matriculou-se para estudar arte no Colégio Técnico Carlos de Campos, no Brás, e conheceu uns meninos que vinham do universo hip-hop e pintavam com spray. Eram Os Gêmeos. Era irresistível. Um deles, o Otávio, deu a ela o primeiro livro sobre grafite, foi chegando mais perto e não demorou a virar marido.

Inaugurou-se um mundo. Nina vestia – como faz até hoje quando sai para grafitar – um macacão “que não marca o corpo”, levava um sanduíche na mochila e esquecia da vida. Única garota entre os marmanjos (Os Gêmeos, Speto, Nunca, Onesto, os grandes nomes do grafite brasileiro), carregava latas, escadas, misturava-se bem com eles, e descobriu que o seu mundo interior, tão rico, fazia todo o sentido no mundo lá fora, na rua, para quem quisesse ver. Suas meninas sensuais, melancólicas, delicadas, se espalharam em paredes da rua 23 de Maio, do Cambuci, do centro, da Vila Mariana. As pessoas adoravam. Os convites não demoraram a aparecer, e no começo dos anos 2000 Nina e Os Gêmeos partiram para colorir o planeta.

Em Cuba, Nina pintava uma parede junto com um muralista local, ele nos pincéis, ela no spray. Emocionou-se com uma mulher que chegou de mãos dadas com a filha, as duas maravilhadas. “Não era só pelo desenho. Elas nunca tinham visto uma lata spray de nada, nem de desodorante, e de repente uma coisa tão banal para a gente era mágico para elas. Isso me tocou demais”. Os cubanos pediam: pinta a minha casa. E a minha. A minha é a da esquina! “Pintei até à noite, as casas da rua inteira, fiquei exausta, e feliz. No Brasil não costumo fazer isso, porque muita gente que pode pagar pelo trabalho de um artista pede a pintura de graça, meio na malandragem, não gosto”. Mas numa favela em São Paulo foi pintando de bom grado, pelo prazer de alegrar o cenário. Uma moradora de um dos barracos achou que ela devia estar cansada, o dia inteiro em pé, tão magrinha, e a convidou para almoçar. Dividiram o único bife.

Num dia de 2007 Nina recebeu o convite de um jovem lorde escocês para pintar o castelo Kelburn, da sua família. Era um projeto cultural bancado por empresas amigas do nobre, e a pintura ficaria exposta por três anos, um acordo feito com o pessoal do patrimônio histórico. O escocês avisou que havia convidado mais dois grafiteiros: a dupla Os Gêmeos e um outro, chamado Nunca. “Achei que os trabalhos de vocês parecem combinar. Você se importaria de dividir o espaço?” Nina ri. “Ele não sabia que eu era casada com o Otávio e que o Nunca é um dos nossos melhores amigos, foi coincidência!”

O trabalho era um conto de fadas. Eles usavam uma espécie de andaime elétrico para alcançar as torres, e lá do alto viram que mais abaixo no terreno havia um laguinho lindo, e o laguinho virou desenho. “Fomos incorporando a paisagem na pintura, mudando o projeto a cada coisa que a gente via, e tudo foi dando certo”. Até que o lorde confessou que seu pai, o conde de Glasgow, odiava grafite e eles tinham de terminar tudo antes dele voltar de viagem. Tarde demais. O conde chegou. Nina e os rapazes mal engoliram o glup!, quando o conde, fascinado, sacou a câmera e saiu registrando cada traço. “Que maravilha! Isso é arte pura!”. Gostou tanto que entrou com o pedido de tombamento da pintura na secretaria local.

Na Alemanha, em Wuppertal, Nina trabalhou em 2006 para um projeto da Red Bull que levou artistas do mundo inteiro para intervenções na cidade, de surpresa, sem autorização. Acompanhada de um morador local, que serviria de intérprete caso a polícia chegasse, ela passeava para escolher onde grafitar. Pulou uma cerca, viu um túnel escuro, úmido, abandonado. “O que era aqui? “ O alemão respondeu: “Um túnel que levava os judeus para os campos de extermínio”. “Então é aqui que eu vou pintar”. Com tochas como única iluminação, ela desenhou pelo túnel inteiro. Lá na saída, Os Gêmeos grafitaram também. Na entrada, uma artista japonesa deixou sua marca. A população da cidade não viu. O túnel continua fechado até hoje.

Tempos depois, num jantar na casa de Leon Cakoff (já falecido, criador da Mostra de Cinema de SP), o cineasta Win Wenders é apresentado para Nina e conta que filmou uma das cenas do seu documentário Pina (sobre a bailarina Pina Bausch, que era de Wuppertal) num túnel abandonado que ele encontrou, todo grafitado. “Tudo lindo”, falou Wenders. Nina sorriu. “Fui eu que pintei”.

Grécia, pouco antes dos Jogos Olímpicos: Nina impressionou-se com o desmatamento no país. Grafitou meninas árvores, cabelos de flores, galhos queimados, uma versão pop/feminina do Frans Krajcberg.

Embora pareça que ela tenha começado no grafite e depois tentado as telas, o que aconteceu foi o contrário. Quando conheceu Os Gêmeos, Nina já pintava quadros – sua primeira exposição em galeria foi numa coletiva, em 1998 –, e aos quadros voltou, já famosa pela street art. Desde 2008 é artista da Galeria Leme, em São Paulo, onde fez há pouco uma exposição muito elogiada, Serendipidade, com telas e esculturas criadas ao acaso que depois de prontas conversavam bem entre si. “Cada exposição eu monto de um jeito. Já fiz inspirada por contrastes dos sentidos, doce/ amargo, ácido/picante. Já fiz telas sequenciais, que de certa forma contavam uma história”.

Diz que leva em média nove meses para fazer um quadro e, aproveitando o clichê da metáfora, encara cada um como se fosse um filho. Tinha tanto ciúme das obras que não deixava seus assistentes (agora está com duas, a Dani e a Fernanda) assistirem em coisa alguma. “Precisei fazer terapia para aprender a delegar. Elas me ajudam, fazem o fundo da tela, por exemplo – só nisso economizo uns 3 meses de trabalho – mas antes, quando ia ensinar, já pegava o pincel e eu mesma fazia. Ficava esgotada”. Quando fez seu livro, Nina, editado pela Masterbooks (a editora da apresentadora de TV Eliana Michaelichen, fã de Nina), ela criou umas cinco versões antes de chegar ao resultado final.

Acaba não guardando os quadros, porque suas exposições vendem tudo, pedidos se acumulam. Está tentando montar o seu acervo. “Não sei dizer não, então quando me pressionam para vender empurro a minha irmã para resolver”. Tem pra já duas exposições: uma na Galeria Leme, outra na Inglaterra, onde é agenciada também. Agora foi convidada para uma grande mostra itinerante num museu brasileiro, mas ainda não pode dizer qual. É disputada por colecionadores e seu valor de mercado só cresce. Ficou rica? Prefere dizer que não mudou. “Ah, sou a mesma, não sou consumista, minha melhor amiga é a mesma desde os meus 15 anos, gosto de ir para a casa dos meus pais nos finais de semana”.

Na mesa do ateliê tem um bolo de cenoura quentinho e café para nós, fotógrafo e repórter. Observo os desenhos pregados num mural – parecem uma versão infantil das telas, e têm dedicatória, a letrinha escorregando: “Para a tia Nina”. Nina sorri. “A minha sobrinha desenha muito bem, é a filha da Sibeli”. E emenda: “Sabia que meus primeiros desenhos na vida eu fiz depois de ler uns poemas da minha irmã?” Sibeli, orgulhosa, corre para abrir o livro de Nina e mostra uma tela da exposição Desafiando Sonhos, de 2010. São quatro meninas juntinhas, coloridas, uma alegria real. “Somos nós, as quatro irmãs, mas a Nina não quis nos dizer qual é qual”. O título da obra: Amores Iguais. Não dá para evitar. O que Nina desperta na gente é a delicadeza.

 

 

 

NAS NUVENS

Quando eu saí fora da realidade pilotando (mesmo) esse charmoso aviãozinho. Nas fotos, estou com o meu instrutor, o Faria, e com a fotógrafa Marcela Beltrão.

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Por Cristina Ramalho

Ah, Amelia Earhart pode ter sido mais ousada, mas olha eu pilotando um aviãozinho lindo, vermelho, o céu de brigadeiro, sobrevoando montanhas, o mar, furando nuvens… Vou te contar: visto do alto, com um manche nas mãos, o mundo ganha graça nova.

O convite era para realizar um sonho. A Jazz Side, empresa disposta a realizar os sonhos desde que você pague o tamanho da sua imaginação, já levou um sujeito para surfar na Indonésia com o Kelly Slater, fotografou uma mulher sem problemas de auto-estima para a Playboy ( e o marido espalhou pela casa a sua coelhinha particular em painéis de 1,70m de altura e chamou os amigos para ver) e agora me propunha. Eu, jornalista, aceitaria sonhar para eles?

Dias depois, recebo uma caixa com um papiro dentro, marcando o horário, e um pin de piloto. Me acendi na hora. Na quarta, 8h30 da manhã, Pedro, um dos donos da Jazz Side, e seu motorista, Josildo, vieram buscar a fotógrafa Marcela Beltrão e eu. Na véspera, fizemos as piadinhas habituais: se morrermos é porque a pauta caiu, hahaha, mas no dia, ao menos para mim, o clima era de alegria absoluta. Fomos de carro até Jundiaí, onde fica a escola de pilotagem Air Training, dentro de um aeródromo. Quem nos recebeu foi o dono da escola, o instrutor Faria, e ali, diante do seu physique du role de tio da escola, já senti que a história ia ser ajuizada demais. Faria começou me dando aulas de teoremas, o que significa vento resultante, porque as pequenas asas traseiras são essenciais ao equilíbrio, e soltou uma frase: “Até um macaco aprende a voar. A diferença é que o bom piloto sabe o porquê das coisas”.

Cocei a cabeça.

Hora de conhecer o avião. Um Cirrus SR22, monomotor. Vermelho, tinindo, um chuchu que custa US$ 500 mil e, caso a coisa vire pesadelo, vem com um paraquedas que segura o avião inteiro. Fiz cara de esperta enquanto checávamos, juntos, combustível, asas, entrada e saída de ar.

Veio a primeira dose de realidade: eu não sentaria à esquerda, como comandante. Fui à direita no banco do co-piloto. “Você terá os mesmos comandos que eu, pode pilotar sozinha daí. Mas sentar aqui, só quem tem matrícula e fez exame médico, que a legislação não permite”, falou o tio Faria. Amuei. Desde quando sonho tem lei?

Segunda dose real: aquela história de fugir dos bandidos ligando o avião e dando tchauzinho não rola. As telas são muitas, o computador vem cheio de informações, surgem montes de números, gráficos, pedidos, e Faria tinha de clicar OK em item por item de segurança. Demorou para sair do lugar. Enquanto isso, fui aprendendo sobre mapas, o que significa a barrinha verde na tela ao lado do aviãozinho branco, onde acionar o paraquedas. Então…

“Ecolimaeco pede permissão, rota Jundiái, através de Jari até Ubatuba”. Ôba. Na decolagem pouco enxergamos à frente, o nariz do avião para cima. Dali a pouco, avião no céu, o manche é meu. Não é em U, igual aos jatos. É um joystick, muuuito sensível. Ouvi o comando: “Vire suavemente à direita”. É prá já. Juro, mal mexi o polegar e o avião virou. Ôpa. Ouvi um gemido lá atrás, onde estavam a Marcela e o Pedro, meus bravos passageiros. Toquei para a esquerda. O avião aprumou. Ah, fácil. Mas acho que o Faria me olhou com pena.

Então meu dia cintilou. Um sol danado lá fora, eu estava pilotando sozinha, atravessei uma nuvem fofinha, era como um floco gigante de algodão. Sonho puro. Furar nuvens, lá embaixo o marzão turquesa, eu tão feliz quanto quem devia estar nas lanchas incríveis que avistei de cima. Tio Faria me chamou para a real: “O avião está descendo rápido, sobe mais um pouco. Agora desce mais um pouquinho”. Minha mão escorregou, acho que o avião desceu um pouquinho mais. Deu um salto, acho. Ôpa, desculpem. Marcela soltou um grito, olhei para trás, ela e Pedro estavam brancos. Pedro pediu, educadíssimo: “Por favor, não fale ôpa. Imagine um cirurgião falando ôpa enquanto corta o paciente”. Ah, tá.

Na hora da aterrissagem, Faria assumiu. Descemos na minúscula pista do aeroporto de Ubatuba, fizemos a curva para subir de novo. Voltei ao manche. “Pode subir”. Decolei um avião! E realizei outro sonho de criança: falei no microfone com a torre. Faria mandou repetir: “Ecolimaeco cruzando para o portão 2 Quebec a 4500 pés”. Cruzes, um monte de gente respondeu fazendo perguntas. Faria entrou na linha.

Mais um pouco e aterrissamos firmes, seguros. Marcela continuava bem branca. Um vôo de uma hora e meia, 350 km/hora, 7500 pés de altitude. E tenho história para contar. Não dei loopings, nem caí na selva, cara de perdida e só de camiseta, mas por uns instantes, lá nas nuvens, tive aquela sensação de infância que a vida é de graça. Um sonho bom.

 

O cinema e a praia

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Cinco dias de cinema à beira-mar – matéria para o VALOR

Por Cristina Ramalho

Sábado, terceiro dia da mostra de cinema em São Miguel do Gostoso. A tela fica ao ar livre, plateia de pé na areia, bem diante do mar. Durante a projeção de Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, o público está acompanhando o drama dos personagens que sofrem em Ceilândia, cidade satélite de Brasília, quando estrelas cadentes cortam o céu de soneto de Gostoso. Espectadores olham para cima, um ou outro cutuca o vizinho de cadeira, sorrisos se abrem, como se as estrelas, as de verdade, tivessem um papel na trama. E por um instante São Miguel do Gostoso virou a Macondo mágica do Gabriel Garcia Marquez.

De 13 a 18 de novembro essa encantadora cidadezinha de praias lindas e bons ventos para o kitesurf, a 1h30 de Natal, RN, recebeu a Segunda Mostra de Cinema de Gostoso, criada e organizada pelo diretor Eugenio Puppo e seu assistente Matheus Sundfeld, da Heco Produções, junto com o Coletivo de Direitos Humanos, Ecologia, Cultura e Cidadania da comunidade local. Cinco dias, 62 filmes brasileiros recentíssimos, debates com realizadores e jornalistas de várias cidades, uma programação matinal só para crianças, à noite o cinema com telão impecável, som de primeira e 640 cadeiras, curadoria elogiada pelos convidados, patrocínio da Cosern, toda uma estrutura que surpreendeu os convidados.

Mas o que faz dessa mostra algo tão especial é sua natureza arejada. A praia, aqui, é muito mais do que o cenário. É um personagem ativo, com enredo, humor, psicologia. Pescadores e moradores se misturam aos turistas, entram e saem como se chegassem para tomar um sol, posam com a família para fotos na frente do cartaz da mostra, crianças passam correndo, todo mundo se conhece, a conversa fiada de cervejinha na mão.

Não há ingressos: na entrada, o público recebe cédulas de votação, e dá uma nota de 1 a 5 para cada filme. As cadeiras são de plástico, dessas de praia, e se a sessão lota, basta se esticar na areia. Uns falam alto, dão risada, emitem opinião no meio como se estivessem na sala de casa, vendo TV, e na real é isso mesmo. A grande maioria dessa turma nunca tinha ido ao cinema na vida.

O que não impediu os gostosenses de mergulharem nas histórias. No documentário Abraço de Maré, um curta do potiguar Victor Ciriaco, uma mulher conta como é estar casada com o pescador, a falta de vergonha dele, passando faceiro com moça mais nova diante dela, também a falta de dinheiro de todo dia, a vida nem sempre moleza numa casinha à beira d’água. Na plateia, mulheres reais se reconhecem no ato, riem alto, comentam dos próprios maridos como se conversassem ao vivo com a moça da tela.

Domingo à noite, exibição do longa A História da Eternidade, do pernambucano Camilo Cavalcante, um retrato de um sertão estilizado, clima de fábula, história densa. De repente veio a cena de uma avó ardendo em desejo pelo neto, outra da sobrinha arrancando a roupa para se deitar com o tio, e na plateia um sujeito meio grande levantou-se irado. Aquilo era demais. Anunciou em bom som, o sotaque carregado: “Esse filme é todo er-ra-do!”. Saiu, seguido por mais uma meia dúzia de indignados.

Teve também o silêncio envolvente, quando o script falou direto ao coração da plateia. Como durante a exibição do filme que o público escolheria como o vencedor da mostra, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro. Não se ouvia um “ a “ entre os mais de mil espectadores que se espalharam pela areia, ou em pé lá no fundo. No final, com o gesto revelador da última cena, o público aplaudiu animado, cúmplice. Angelo Ravazi, produtor de cinema de São Paulo que levou os filmes De Castigo (de Helena Ungaretti), Hospedeira (de Rita Carelli), A Era de Ouro (de Miguel Antunes Ramos e Leonardo Mouramateus) e A Revolução do Ano (de Diogo Faggiano), escreveu mais tarde na página do facebook da mostra que esse foi um dos momentos memoráveis do evento. “Me deu um pouco de esperança nesses tempos tão zoados”, disse.

É o povo de Gostoso descobrindo o cinema – e esticando o olho para o mundo além do marzão ali na porta. Taí a intenção principal de Eugenio Puppo. “Estamos formando o olhar do cinema aqui, e mais do que isso, o olhar da cidadania”, diz ele. É também um projeto maior: com verba captada via lei estadual Câmara Cascudo, Puppo e Sundfeld criaram uma turma de alunos de linguagem audiovisual ali em Gostoso. Um curso de três anos, ministrado por professores de São Paulo e de outras cidades, que dão módulos de roteiro, produção, filmagem, edição para 50 alunos recrutados numa seleção entre 270 candidatos.

Quando começaram esse projeto, no ano passado, Puppo e Matheus rodaram as estradinhas de terra da região num carro alugado, convidando os jovens de assentamentos de sem-terra, dos povoados próximos, a aprender o que é e como se faz cinema.

“Eu progredi muito com o curso, quero progredir mais, me passa um monte de ideias na cabeça e agora eu sei que posso escrever, fazer aquelas ideias virarem histórias”, fala o magrinho Leonardo Maximiano, 24 anos, morador do assentamento Novo Horizonte, entusiasmado com tantos outros horizontes que antevê nas aulas. Leonardo e seus colegas de curso estão no coletivo Nós do Audiovisual. Assinam dois curtas exibidos na mostra, o documentário Promessas e o bem feito Nas Lonas, ficção que os meninos filmaram na feira de Gostoso.

“Cinema é o que eu amo fazer. Eu fico na dúvida entre cinema e jornalismo, mas acho que cinema me toca mais, e também penso em ser atriz de teatro”, diz a bonita Rosângela Modesto, 16 anos, sete irmãos, pais que nunca saíram dali. Ério, compenetrado, acredita que foi selecionado porque sempre teve interesse na linguagem audiovisual. Os outros dão risada, sacaneiam, “você nem sabia o que era isso”. Raiane, Mércia, José Edivan, Everton, alguns que nasceram antes da luz elétrica chegar por essas bandas, contam que agora olham tudo de outro jeito – “A gente vê uma cena na TV e já sabe onde está a câmera, como foi filmada, se aquilo tá legal”–, assistem clássicos nas aulas, O Nascimento de Uma Nação, de Griffith, ou o Cidadão Kane, do Welles.

“Existe um mercado de trabalho real para essa moçada. O mercado que mais cresce hoje é o audiovisual, e eles aqui mesmo em Gostoso podem fazer vídeos para pousadas, para a prefeitura, para as empresas, para a companhia de energia eólica”, diz Puppo.

Por enquanto, os garotos assistem o resultado das aulas na tela grande da mostra. Os seus curtas Promessas e Entre Lonas foram exibidos no dia do encerramento. Amigos e parentes apontam no meio da sessão: “Olha lá a Rosangela”. “Olha a Mércia! “ . Clima de euforia. Puppo e Matheus anunciam os vencedores da mostra e chamam realizadores para o palco. Convidados com rostos bronzeados e vestindo bermudas elogiam a curadoria do evento, a beleza da cidade, as peixadas da Maristela, todo mundo deslumbrado com esse festival de astral tão leve, ensolarado.

Joaquim Castro, diretor do documentário Dominguinhos, vencedor como menção honrosa, recebe o prêmio com o filho Ernesto no colo, e agradece no microfone ao seu Chico, o pipoqueiro de Gostoso. “Ele vende pipoca a R$ 1, isso é uma maravilha, isso não existe”. Faz um vento danado. Hora de tomar uma caipirinha.

Sabores vão e voltam

Prefácio que escrevi para o livro Diário da Cozinheira, de Carla Pernambuco

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Por Cristina Ramalho

Tem pessoas que sempre lembram primeiro do que comeram – e depois localizam o prato no momento da vida. As madeleines de Carla trazem também paisagens variadas. Lembrança da infância? A cena do flashback é uma Carlinha, quatro anos desabrochando na ultraminissaia, escolhendo com dona Nelly o sorvete em taça que vinha com colherinha de prata na Confeitaria Colombo, “das primeiras vezes que fui ao Rio”. E é só puxar um fio da sua natureza, ano a ano, para surgirem os presuntos de Punta Del Este que ela e o pai adoravam, ou o momento de afeto com o pai no sorvete saboreado aos poucos, corpo encostado no Simca Chambord rabo-de-peixe.

Nas férias com os avós paternos, o ritual de matar um porco nas fazendas de Don Pedrito ou de Santa Maria, onde legal mesmo era comer bife de cordeiro, os pratos temperados e sublimes da babá Baiana, e não demorou olha a Carla brotinho, cabeluda, comendo a torta de maçã da Brenda na praia de Imbituba, dando beijos nos surfistas, aquele sol, o pé fazendo suish na areia…

As descobertas da vida foram se misturando com os roteiros: o primeiro croissant quentinho em Paris, o café com doce no Café Danesi, em Roma, onde ela roubou o cardápio, porque Danesi é seu sobrenome de solteira e um souvenir desses, quando arrumar outro? Os temperos no Marrocos na viagem que ganhou de adolescência, e da qual voltou outra, outro figurino, outras estradas, e uma mania de ir na direção contrária. Quando Carla já estava quase caindo do galho de tão amadurecida, morando em Nova York, confirmou o que intuitivamente todo mundo que gosta de comer e cozinhar já sabe: que a comida é assim, uma combinação de memórias, viagens, inteligência, leituras, conversas. Descobriu que podia tomar qualquer rumo e misturar o que gostasse, e isso tinha até nome pronto: fusion food.

O primeiro jantar que ela preparou como chef foi tailandês. Os primeiros elogios ao Carlota vinham para sua mistura de ácido com picante, com doce, com salgado, Oriente com comida caseira brasileira e, quando ela distraiu, estava com o pé no jato de novo. E ao pé da letra: fez catering para a primeira classe da Varig.

Então vieram mais vôos, convites, mudanças de rumo, blog, TV, rádio, a disposição de menina para encarar o que viesse, um angu coreano, uma carona de pé estropiado por Portugal, uma pimenta de esquentar os tamborins lá no Peru. E pessoas, muitas, de todos os tipos, que iam lhe ensinando as novas, um jeito de refogar e de ver o mundo, e qualquer coisa de inesperado. Cenário, roteiro, personagens: as comidas de Carla vêm com tudo isso. Mais do que chef, ela é uma entertainer.

Os sabores, como a gente sabe, vão e voltam. Em Portugal ela viu o pessoal da fazenda matar um porco e não é que era quase igual à fazenda lá de Don Pedrito? Um almoço em Porto Alegre com um amigo traz o gosto bom de uma geleia e um tempo que era outro, algumas estradas que ficaram para trás. Uma ida a Londres com a caçula, Julia, e o sorrisão por ver no olho da filha o mesmo deslumbre que Carla teve ali, quando tinha a idade dela. Floriana, a mais velha, se mandou um dia para a Bahia, no outro apareceu de bicicleta para cozinhar com a mãe. Carla olhou a filha e se enxergou em Caixa Prego, em Itaparica, quando sumia nas férias com a turma da faculdade e comia mingau de tapioca depois do mergulho no mar.

Baiana faleceu e Carla escreveu no seu blog um lindo texto sobre ela, sobre o significado tão delicado e profundo de servir o outro. Floriana apareceu no programa de TV e assou com a mãe um palmitão, uma alegria real, que se podia tocar. É a comida dizendo as coisas que a gente nem precisa dizer.

As cenas se repetem, as receitas são capazes de viajar por aí e transbordar de sentido em qualquer lugar, não importa o idioma – é botar a mesa e está feito o convite espontâneo que todo mundo entende. Carla tem essas histórias para contar. Talvez por isso que gosto sempre de escrever sobre ela, e gosto mais ainda de conversar com a Carla e ouvir seus relatos de viagem e as últimas delícias que ela provou. Por reconhecer que em tantas dessas lembranças dela tem qualquer coisa familiar – aquele sentimento de comer num lugar diferente e viver um instante tão bom que aquela cidade já é um pouco nossa. Tanto faz se a gente já viajou para lá ou não.

 

 

Bernardo Paz – Trip

 

 

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O Incendiário
– páginas negras da Trip/ agosto 2013

Por Cristina Ramalho

Durante anos o empresário mineiro Bernardo Paz se enchia de uísque para poder dormir – duas horas, se muito – e de manhã tinha de engolir o Engov e negociar com banqueiros, operários em greve, políticas econômicas. Nos intervalos, moças notavam sua estampa de galã, olhos azuis, sentavam-se ao seu lado para mais um drinque e logo viravam esposas. Vinham mais filhos, mudanças de endereço, um punhado de papagaios no banco, sempre com aquela eterna sensação de angústia e os muitos maços de cigarro que carrega desde garoto.

Nesse ritmo, aos 45 anos ele teve um AVC em Paris. Deitado por obrigação, com tempo para pensar na vida, Bernardo se lembrou do jardim mais exuberante que já tinha visto, num hotel de luxo em Acapulco, em 1971. Só que enquanto lá dentro, ao som das maracas, os hóspedes se deslumbravam, do outro lado do muro altíssimo a população mexicana vivia na miséria absoluta. Bom, já dizia o escritor Paulo Mendes Campos que é quando um homem está cansado, quando a vida o encheu, que ele vê o inesperado. Foi mais ou menos o que aconteceu. Bernardo achou que devia deixar algo de bonito para os outros. Que fosse ainda mais bacana do que o jardim de Acapulco, e sem muros, para gente de todas as classes partilharem do encantamento. Assim começou a se desenhar a alma do Inhotim – e hoje é o maior museu a céu aberto do mundo, que combina arte, jardim botânico e projeto social.

Bernardo usou o próprio dinheiro – e o charme da conversa para se entrosar com quem fosse preciso – e construiu o museu dentro da sua fazenda em Brumadinho, Minas Gerais. Inaugurado para o grande público em 2006, o seu Inhotim tornou-se, em pouquíssimo tempo, referência mundial em arte. Numa área de 97 hectares, espalham-se pavilhões espetaculares, encravados na natureza, com o fino dos contemporâneos: Adriana Varejão (ex-mulher dele), Ernesto Neto, Tunga, Anish Kapoor, Miguel Rio Branco, uma lista de 500 obras de 100 grandes artistas de 30 nacionalidades. “A arte contemporânea é a única arte crítica, interativa, que mexe com as pessoas”, repete Bernardo, hoje com 63 anos.

Um sujeito ansioso que continua fumando sem parar, ainda não dorme, é carismático, intenso, e tem histórias como se todo dia na sua vida fosse um happening. Não poderia mesmo ver graça em quadros e esculturas feitos para se contemplar com a mão no queixo. Inhotim é uma extensão natural da sua personalidade: exuberante, perfeccionista, feito de superlativos. As obras sacodem os sentidos, convidam a experimentar, subvertem os espaços. Matthew Barney, por exemplo, criou ali a instalação De Lama Lâmina, com um trator que suspende um tronco de árvore. Doug Aitken cavou uma cratera e instalou microfones lá no fundo, para a gente escutar o som do centro da Terra, no seu Sonic Pavilion. E quem quiser pode mergulhar na piscina do Helio Oiticica. Uma alegria real, que se pode tocar. Era o que ele queria.

O verde também é um exagero de beleza. Um dia Bernardo se gabava das palmeiras para um agrônomo, e ele retrucou: “Não é bem assim. Faltam centenas de espécies para essa coleção ser espetacular”. É prá já. Bernardo deu a bronca no jardineiro ali mesmo, e não demorou exibia uma das maiores coleções de palmeiras do planeta – mais de 1400 espécies. Há ainda um Viveiro Educador, com 25 mil metros quadrados para pesquisas científicas. Ele gosta de dizer que não entende de arte – desfez-se da coleção de arte moderna da família, da qual ele mesmo tinha comprado boa parte – e manja mesmo é de botânica. Quando o projeto de Inhotim ainda estava em botão, o amigo Burle Marx  lhe deu conselhos preciosos para o paisagismo do lugar. De início o público era de amigos dos amigos, a turma dos bem-pensantes das artes, mas Bernardo queria mesmo derrubar muros. Inhotim tem programas de inclusão, coral, banda, projetos que melhoram a vida em torno, e o programa Inhotim Para Todos, que leva crianças e adultos de baixa renda para visitarem o museu.

“Quero que essas pessoas sejam tratadas com dignidade, com a beleza que merecem. Se uma pessoa pobre tem a casa pintada, um pouco de beleza que seja, ela se sente valorizada, tem estímulo para melhorar. Isso tem de acontecer em vários sentidos”, diz. Bernardo foi longe – em janeiro de 2011 foi convidado a falar no Fórum Mundial de Davos sobre o tema Arte e Filantropia. Antes de ir, Bernardo deixou a paz de lado e botou fogo em entrevistas (“Quando chegar lá, vou olhar para a cara daqueles bundas-moles e mandá-los para puta que os pariu. O fórum que importa está no governo de cada país, de cada estado, de cada cidade”). Não deve ter mandado, porque saiu de lá aplaudido de pé. Na gangorra da história, o nome Bernardo Paz rodou na imprensa por um leque danado de temas: o casamento com Adriana Varejão; denúncias envolvendo seu irmão, o publicitário Cristiano Paz, com o mensalão, já que Cristiano era sócio de Marcos Valério; acusações de lavagem de dinheiro para sustentar Inhotim; processo de um paisagista que não teve seu nome mencionado na criação do jardim – e fale mais um item que talvez esteja na lista.

Ele segue em frente. Está casado com a sexta mulher (Arystela Rosa, 31 anos, que mora em São Paulo enquanto ele fica em Inhotim), é pai do sétimo filho (Aquiles, nome do pai de Bernardo, de quem ele sempre esperou reconhecimento), avô de dois netos (“Detesto neto”), vendeu sua mineradora Itaminas por 1,2 bilhão de dólares e jura que bota tudo no museu, vive duro, pegando empréstimos. Mora sozinho num casarão de vidro dentro de Inhotim, 12 metros de pé direito e peças de design, cara de galeria de arte (“Fiz essa casa para os outros, que se deslumbram, eu não preciso morar nisso aqui”), onde conversou com a Trip e se abriu de um jeito impressionante. Diz que não é feliz. “Tomo remédio para dormir, remédio para acordar, remédio para o coração”. Mas gosta de saber que, assim como a mãe, de quem herdou a sensibilidade, só está pensando nos outros. Porque como lhe disse um funcionário muito simples, outro dia, carregando um pato morto: “O pato, como a gente, nasce, cresce e morre”.  

Ontem veio aqui uma moça da Fundação Cartier francesa, você disse que ela ficou impressionada com o que viu. BBC, Wall Street Journal, The New York Times, a imprensa do mundo tem escrito maravilhas de Inhotim, e você está cheio de projetos novos para cá, não?

Ela ligou na hora para o Hervé (Chandés, presidente da Fundação Cartier). O Hervé é meu amigo pessoal. Aliás, o Anastasia (Antonio Anastasia, governador de Minas Gerais) esteve lá no Louvre, ele quer trazer o Louvre pra cá (Anastasia pretende ter uma filial do museu francês em Belo Horizonte). O presidente do Louvre conhece o Inhotim e falou pra ele: “Você tem o lugar mais impressionante do planeta, porque você quer o Louvre lá?” Aí o governador foi na Lafarge (empresa francesa, uma das maiores construtoras do mundo, com filiais em MG), falou com o presidente deles na França. E a Lafarge vai construir de graça um pavilhão para mim, são R$ 6 milhões que eles vão investir. Tá bom, ajuda a gente. É esse aqui (Bernardo mostra a maquete de um ovo aberto, dentro o formato de um anfiteatro), terá 30 metros por 18 metros de altura. Tem um restaurante que vai debaixo da terra. Começa a construir no ano que vem.

Tem outros projetos já desenhados?

Tem 58 pavilhões pra construir. Já projetados. Só que eu tô com a cabeça quente, é tanta coisa. Na parte botânica tem uma green house de 50 metros de altura por 50 mil metros de área que vamos fazer. Vou botar a Floresta Amazônica dentro. Isso é o governo da Noruega que vai financiar.

Esses financiamentos, como funcionam? Doação.  

Mas como eles chegam, vêm oferecendo assim? Você não tem uma equipe que prospecta, faz captação?

Tenho um grupo de profissionais, mas o pessoal de fora chega aqui, se impressiona com o lugar, não viram nada igual no mundo e querem ter o nome vinculado ao Inhotim. Já para a captação de Lei Rouanet temos um departamento que cuida disso. Nossos projetos são todos editados pela Ernst & Young,  então nós temos excelência absoluta nessa área.

Como acontece a negociação com os estrangeiros?

É fascinação, só isso. No domingo teve aqui um francês, que tá tentando construir em São Paulo. Ele comprou aquele Hospital Matarazzo na Av. Paulista, tem um projeto grande. Ele quer fazer Inhotim comigo, tem dinheiro demais (Bernardo se refere aos franceses do grupo hoteleiro Allard, que compraram o hospital em São Paulo para fazer um hotel de luxo assinado por Philippe Starck). Mas é dinheiro árabe, eu acho, não tenho certeza, nunca perguntei a ele. Ele quer me levar em Abu Dhabi, pra conhecer o emir, que é fascinado com arte. A gente tem que analisar, tudo tem tempo certo pra cada coisa.

É só você quem dá a palavra final?

Não, eu dou a palavra inicial, que tá muito na frente da palavra final dos outros.

Você veta alguma coisa?

Não há necessidade de vetar, porque temos uma equipe de profissionais que filtra tudo. Tenho sete curadores, um americano, um alemão, uma sul coreana, uma portuguesa, dois brasileiros etc. Já chega para mim o melhor do mundo. Nunca chega uma coisa mais ou menos. O melhor do artista e tudo por preço de projeto, não por preço de obra.

Você criou o Inhotim usando sua fortuna pessoal para um projeto grandioso desses, que mistura arte, botânica, projeto social, já imaginava que aconteceria tudo isso?

Eu nunca imaginei que eu ia construir Inhotim, eu comecei a fazer. É claro que eu olho para trás hoje e vejo com tranquilidade que talvez eu tivesse imaginando. Porque dez anos atrás eu comprei o terreno para fazer um aeroporto para Inhotim e ao mesmo tempo eu não imaginava que eu ia construir Inhotim.

  E, afinal, vai ter o aeroporto?

Vai, claro que vai, já tem terra, tem tudo, já está aprovado pela Infraero, pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), por todo mundo.

Vi que o hotel está sendo construído aqui dentro, e vai ter mais um restaurante. Você não tinha convidado o Alex Atala para fazer um restaurante aqui?

O hotel vai ficar pronto logo, tá super adiantado. O Alex é um gênio, um chef maravilhoso, mas pediu R$ 8 milhões para o restaurante e só ia vir aqui de vez em quando. Achei demais, falei não, obrigado, não quero. E ele andou espalhando que estraguei um sonho dele. Estraguei porra nenhuma, achei que era dinheiro demais, esses caras têm muito ego.

Falando em ego, você sempre diz em entrevistas que uma pessoa só se realiza mesmo quando faz algo para a sociedade. Você sempre sentiu essa vontade de partilhar? Me conte um pouco da sua infância, adolescência.

Sempre, sempre. Fui educado assim. Bom, minha mãe era poeta, pintora e assistente social. Era muito vinculada às pessoas mais humildes. Meu avô por parte de pai trabalhou com o Marechal Rondon, foi um homem muito patriota, a palavra é meio ridícula, mas ele tinha um orgulho do Brasil, criou meu pai dentro desses fundamentos nacionalistas. Minha mãe era muito depressiva, mas tinha um senso de humor fora do comum. Já o meu pai era engenheiro, muito disciplinado, era um homem que me ninava com os hinos, Hino da Bandeira, Hino Nacional, todos os hinos que você imaginar.

Ele cobrava muito?

Era muito duro, muito difícil. Meu relacionamento era melhor com a minha mãe, ela era de uma sensibilidade atroz. Esse antagonismo me deixou completamente inseguro, até os… ah, a minha vida inteira. Somos quatro irmãos, eu era o mais velho. Isso me deixou mais ou menos sem pouso, porque meu pai pregava o heroísmo, a luta, a vontade, o crescimento. Meu avô, pai dele, era do Piauí, mas fugiu de lá, teve a revolução. Na época de Arthur Bernardes (mineiro, presidente do Brasil de 1922 a 1926) meu avô era comunista, foi parar no Rio vestido de mulher, prenderam ele.

Vocês tinham dinheiro?

Éramos classe média baixa, classe média de funcionário publico. Meu pai trabalhava para a prefeitura, foi secretário de governo. Naquela época Belo Horizonte só tinha funcionário público praticamente.

Você estudou até que ano?

Eu detestava estudar. Fui muito bem até o quarto ano do primário. Tinha um irmão que era muito brilhante e ele saltou a admissão. Naquela época tinha o exame de admissão para entrar no ginásio. Meu irmão estudava 12 horas por dia, então meu pai começou a me perseguir. Mas tinha uma diferença: meu irmão era moreno, mais magro, e eu era bonito, de olho azul. Meu pai me dizia: “Você não vai dar nada na vida”, essas coisas. Eu tinha 13, 14 anos, isso marca muito, entende? Então passei uma infância e juventude muito isolado, calado. Terminei o ginásio, parei, tempos depois fui fazer o madureza (antigo supletivo) e entrei em economia na faculdade, mas larguei.

Você era um adolescente angustiado?

Extremamente. Eu era muito bonito e isso também me atrapalhou muito. Eu detestava isso, tinha pânico de ser bonito, e muitas pessoas diziam que a beleza trazia burrice, me apavorava.

Mas não era muito melhor para ganhar as meninas?

Eu tinha muita vergonha. Até os 20 anos eu não conversava com mulher. Às vezes ia a uma festa, tinha que ficar só 5 minutos, porque as meninas iam todas em cima de mim e eu não sabia dançar.

Com que idade você se casou pela primeira vez?

Com 23 anos. Tinha esse problema também. Como eu nunca procurei por uma mulher, eu normalmente fui achado por uma mulher. Nunca casei com mulher bonita na vida, porque as que chegavam eram as mais feias, as bonitas ficavam esperando. Eu casei com uma menina que se aproximou muito na época e fiquei 11 anos com ela, a Sandra. Tivemos duas filhas. Antes de casar eu já trabalhava quase como atendente no posto de gasolina do meu pai. Depois fui trabalhar numa boutique de roupa de homem. Muito tempo depois soube que o footing na cidade era na porta da boutique, as meninas iam me espiar.

E você, pelo jeito, já tinha deixado de ser introspectivo.

Só no trabalho. Eu tinha que me articular, porque eu não ia dar nada na vida, tinha que fazer alguma coisa. Depois eu fui operar na Bolsa de Valores. Em 1971 teve um crash na bolsa no Brasil e todo mundo perdeu tudo. Aquilo me traumatizou, porque eu vi as pessoas que tinham dinheiro guardado para a sua velhice perderem tudo. É uma coisa que eu nunca mais esqueci e é um lugar que eu nunca mais entro na minha vida. Tenho pânico dessas coisas que trabalham com dinheiro para fazer dinheiro. Eu parti mais para essa parte da realização pessoal.

Bom, mas como é que você virou dono de mineradora, milionário, e chegou nisso aqui que tem hoje?

Eu tinha um percentual na mineradora. Eu comprei, era quebrada, literalmente quebrada.

Mas de onde veio essa mineradora, era da sua família?

Quando eu me casei acabei indo trabalhar no banco que era do pai da minha primeira mulher (o Banco Mineiro do Oeste, de João do Nascimento Pires, primeiro sogro de Bernardo). Ele quebrou e perdeu o banco e tudo o que ele tinha. Eu já tinha saído para cuidar da mineração, que tinha sido dele, mas estava quebrada. Ele tinha perdido a cabeça. A história dele foi uma história dramática, porque ele era um homem extraordinário que nos últimos anos da vida estava na macumba, cortava pescoço de carneiro para tomar sangue. Eu tinha que correr atrás para ele não ser roubado. Eu pus ele lá na mineração na época e foi uma tragédia, porque na hora de pagar os transportadores e pessoal, ele pegava o dinheiro para pagar esses videntes. Então eu passei dez anos segurando greves, acordava às 4 da manhã, chegava em casa à meia-noite. Mas aí esse homem morreu, foi uma complicação.

Isso foi durante os anos 70, teve o milagre econômico.

Para mim não teve. Eu vivia com duplicatas, dívidas, tinha mais de 2 mil cheques sem fundo. Eu não dormia. Às vezes pra dormir tinha que tomar uma garrafa de uísque, porque não tomava tranquilizante na época, hoje tomo. Dormia duas horas e acordava com dor de cabeça, mas indo trabalhar. Minha vida passou como uma ventania. Descobri uma fórmula de resolver esse problema, que era comprar outras empresas falidas, recuperar as outras empresas e fazer um monte maior pra sair lá na frente. Chegou um ponto em que a jazida não pertencia à mineração, era arrendada. Aí tive de fazer uma empresa às pressas, para fazer o arrendamento, continuar trabalhando, conseguir pagar toda a dívida e liberar todo o patrimônio. O maior sufoco da minha vida, não esqueço disso. Minha mulher e eu nos separamos, eu fiquei sem nada, criei uma holding e a partir daí eu vi que não tinha saída, a dívida era grande demais. Fui para a China e fiquei amigo de uns ministros chineses, tive a primeira reunião com o Deng Xiaoping.

 Você diz que foi o primeiro empresário brasileiro a ir para a China comunista.

Ninguém nunca tinha ido à China. Quando eu fui à China só os judeus estavam lá naquela época. O Deng Xiaoping foi o motor dessa história toda, mas por trás tinha todo um grupo de pessoas brilhantes. Eles botaram 10 milhões de dólares na siderurgia, comprei outras minas também e virei uma empresa de dez mil funcionários e uma correria, tinha que viajar trezentos quilômetros por dia, indo e vindo, correndo atrás. Eu estava bêbado quando comprei a primeira usina siderúrgica. Fiz um discurso que ninguém entendeu, lembrei de quando eu era criança, que eu dormia no quarto com três irmãos que dava pro terreno baldio ao lado. E todo dia uma galinha cantava. Eu subia no muro e descobri que ela estava botando ovo. Aí eu pegava o ovo e guardava. Aquilo pra mim era uma coisa impressionante , eu estava ganhando aqueles ovos que a galinha botava de lado. E naquilo eu acumulei 12, 13 ovos.

Mas a partir daí sua história de empresário melhorou.

Não, o Brasil ficou uma loucura. Teve plano Cruzado, plano Collor, plano Real, e depois o Meirelles (Henrique Meirelles, presidente do Banco central entre 2003 e 2011), que acabou com as indústrias botando o câmbio lá para baixo.

E você, onde estava nessa altura?

Nessa altura eu estava na mineração. O que aconteceu? O minério subiu de 10 dólares para 180 dólares. Então mesmo com o câmbio caindo 100%, o minério subiu 1800%. Com isso eu consegui pagar a dívida de bancos, adequar a dívida fiscal, parcelar com o fisco essas coisas todas, e consegui triplicar, quadriplicar a produção de minério.  

Quer dizer, aí foi surgindo esse dinheirão. E você ainda vendeu uma mina para os alemães.

Aí surgiu o dinheiro e construí Inhotim. A mina eu doei, é uma história longa, mas acabou dando muito dinheiro e os alemães retribuíram botando dinheiro em Inhotim. Aí larguei tudo, porque tive um problema de saúde em Paris em 95, segurei ainda até 99… que me fez pensar em fazer algo maior, para a comunidade.

 Você teve um AVC, deixou alguma sequela na época?

É, eu tive um AVC. Não deixou, porque o sangue vazava pelo nariz e encharcava tudo o que estava em volta, nunca vi tanto sangue na minha vida.

Você estava sozinho?

Estava para casar naquele ano com a quarta mulher, a Titina. Era uma menina criada em uma família rica, muito conservadora em Minas Gerais. E ela era muito mais nova que eu, eu tinha 44 anos e ela tinha 26 quando nos casamos. Fiquei 11 anos com ela, não tivemos filhos porque ela não podia. Antes eu tinha sido casado com a Cláudia, que me deu duas filhas maravilhosas.

Não tem uma história que você se separou e no mesmo dia foi a um bar e conheceu uma moça e se casou de novo?

Era uma austríaca, uma moça de 22 anos. Foi minha segunda mulher. Também foi uma que me viu bebendo no bar, se aproximou e eu casei. Tivemos um filho, o Bernardo, que hoje vive em Stanford.  

Você gosta das moças mais novas?

Não, não. A questão nem é essa. A questão é que… Eu sou um cara de poucos prazeres na minha vida. E um dos poucos prazeres era sexo. Era difícil fazer sexo com uma mulher mais velha. Casar com uma mulher de 50 anos, quando eu tinha essa idade, e ter apetite sexual, entendeu? (risos)  

A beleza é importante também pra tudo, certo?  

Hoje eu consigo encarar a beleza da inteligência, da sabedoria. Aí tanto faz a idade, consigo me apaixonar por uma pessoa sem me preocupar com o sexo desde que essa pessoa seja brilhante. Mas não no sentido carnal.  

Mas você não me respondeu uma coisa: você se interessava por arte? Aliás, você vendeu a coleção de quadros da família.

Já pensei muito isso, mas nunca quis entender de arte. Eu não entendo de arte. Vou dizer uma coisa com toda a franqueza: eu não entendo Picasso. Porque arte para mim tem um processo educativo, elucidativo. Anterior a Picasso, a arte era anterior à fotografia. Então a arte traduzia a visibilidade de uma determinada coisa que você não conhecia, ela tinha esse papel.  

A arte era figurativa. Já na arte moderna…

E quando veio a fotografia, os artistas todos passaram a fugir da fotografia, do realismo. Alguns artistas conseguiam isso com beleza, como Monet, Matisse e outros mais. O Picasso era um comerciante com muito talento de pintura, então o ciclo azul ele pintou de forma clássica, de uma beleza extraordinária, que afinal ele era um gênio. Depois ele passa a distorcer tudo e deixa de ser uma pessoa admirável; os quadros deixam de ser admirados para serem invejados por ricos e colecionadores. Ganha o valor comercial.

Já que tocamos nisso, a arte brasileira está cada vez mais valorizada. Uma obra da Adriana Varejão, sua ex-mulher, já passa de um milhão de reais.

A obra da Adriana, por coincidência, ou por qualquer outra coisa, teve um salto de valor após o pavilhão dela aqui, que é o mais bonito de Inhotim. Comprei todas as obras para o pavilhão por 180 mil dólares – e lá tem 70 obras. Hoje custa um milhão de dólares cada obra dela. Então, isso não acontece de uma hora pra outra. Ela tem um valor enorme como pesquisadora, ela vai fundo em suas pesquisas. E de uns tempos para cá os ricos brasileiros começaram a reconhecer os nossos artistas e a comprar por uns preços absurdos.

A Beatriz Milhazes passa fácil de um milhão.

Isso é uma loucura. A Milhazes tenta ser pintora mas o que ela faz é cortina inglesa.

Qual é o seu parâmetro de boa arte?

O meu parâmetro é a educação. Arte contemporânea é a única arte crítica, interativa, que mexe com as pessoas, as crianças adoram, mais do que os pais. A arte aqui em Inhotim está envolta na beleza da natureza. Esse é o segredo. Ela toca as pessoas. A Adriana tem por trás uma curiosidade. O Ernesto Neto tem uma diversão e uma alegria, que se traduz para a criança em uma perspectiva de felicidade. O Cildo Meirelles tem a perspectiva da morte – quase todos os artistas têm a perspectiva da morte.

A Adriana foi sua única esposa famosa. Te incomodava ser conhecido como “o marido da Adriana Varejão”?

Nunca me preocupei com a fama da Adriana. Me importava com o que ela fazia, com o trabalho dela, enxertado de vontade e víscera. Me apaixonei por ela, casei com ela, tivemos a Catarina, linda, e continuei levando a minha vida. E aí você tem um problema: a Adriana, como todo artista de uma forma geral, tem a característica de olhar muito pro seu próprio interior. Isso é um vício de quem constrói pra si mesmo, não quer dizer que seja um erro dela. Ela não reconhecia suas ambições de ganhar dinheiro com arte. Ela queria ser uma pessoa da arte pela arte. Mas por outro lado, ela precisava do dinheiro. Não para viver, mas para ser importante – o mundo capitalista exige isso. E ela era artista, ela devia brilhar, mas eu estava crescendo como pessoa, isso foi criando um abismo entre nós. Ela queria envelhecer comigo, acho que ela ainda me ama, mas isso é impossível. Não olho para trás, separamos e acabou.

Você tem inimigos?

Não que eu saiba. Meus inimigos não têm nome, mas tentam me prejudicar. São pessoas que têm ciúmes. A vida inteira eu tentei solucionar problemas e buscar caminhos pras pessoas. No primeiro momento eu consigo muita coisa. Porque tenho uma facilidade imensa de ligar pontos, entendo a pessoa sem ela perceber. Em um primeiro momento ela me julga um gênio, em um segundo momento ela tem medo, no terceiro momento ela tem raiva e no quarto parte para a vingança.

Não posso deixar de perguntar sobre todas as acusações de lavagem de dinheiro envolvendo o nome do seu irmão (Cristiano Paz) com o Marcos Valério. E ligando você a políticos. O que você diz disso?

Eu digo que meu irmão é inocente, meu irmão é brilhante. Ele tem uma agência de publicidade que talvez seja a melhor agência do Brasil. Nunca procurou dinheiro, nasceu artista. Um artista admirável. Quando ele começou em publicidade, tinha 16 anos, fez um filme e todos em casa choramos de emoção.   Eu tenho pena dele. Ajudo o Cristiano no que eu posso. Porque ele foi envolvido nesse processo pelo Marcos Valério. Mas o banco deu dinheiro observando algum favor – e o banco quebrou. Todos perderam e meu irmão foi o único que se manteve de pé nessa história. E eu nunca fui amigo de político nenhum.

Os seus outros dois irmãos trabalham com o quê?

A Virgínia, coitada, é inteligentíssima mas é uma sonhadora também. A filha dela é arquiteta, ela montou um escritório pra filha dela, é genial, mas não ganha dinheiro, tenho sempre que dar dinheiro pra ela. O André é brilhante também, mexe com comércio, mas doido: xinga, briga, berra. Uma coisa tem de ficar clara: eu nunca fui rico, não sou rico, não tenho um tostão no banco. Todo o meu dinheiro está envolvido com a população de uma forma geral.

Você tem uma vida confortabilíssima, bacana…

Você me acha um cara feliz? O que ocorre é muito simples: eu estou sentado aqui, construí uma coisa bela, se eu fosse miserável, numa outra escala, teria feito a coisa mais bela possível. Preciso de 2 milhões todo mês, pego dinheiro emprestado, estou devendo 12 milhões de reais, mês que vem eu pago, que eu vendi um troço aqui em cima por 250 milhões. Tudo o que ganho boto aqui em Inhotim (na imprensa já saiu que ele bota 70 milhões de dólares por ano em Inhotim; há dois anos, Bernardo vendeu sua Itaminas para um grupo chinês por 1,2 bilhão de dólares).

E agora você está com a sexta esposa, que é a Arystela, que lhe deu o sétimo filho.

Ela é designer, veio aqui criar a iluminação de uns restaurantes meus. Essa menina sofreu absurdamente. O marido dela teve esquizofrenia, quis matá-la e morreu assassinado. Então é uma menina que veio do interior, muito na dela, extremamente correta, e lindíssima. Temos  o Aquiles, um menino lindo, dei a ele o nome do meu pai. O meu pai, apesar de ter me crucificado a vida inteira, tenho o maior respeito pelo o que ele foi.

Ele faleceu há pouco tempo.

Faleceu há dois anos, dizendo que tinha orgulho de mim.

Que era o que você tanto quis na adolescência.

Isso. Me deu um prazer muito grande saber disso. Quando ele morreu, eu não tinha que provar nada mais pra ninguém. A vida inteira o meu foco é a sociedade.

Quando você morrer, o que deve acontecer com Inhotim, que é uma extensão da sua pessoa? Quais são seus planos?

Aí tá a diferença entre o sonhador e a pessoa pragmática. Sou mais para pragmático. Estou pensando lá na frente e penso grande. Eu vou criar aqui – se Deus quiser, e não que eu acredite em Deus – uma Disney World pós contemporânea cultural, e que faça com que as pessoas cresçam e que atenda a sociedade de uma forma geral – miseráveis, pobres, médios e ricos. E que todos sejam considerados iguais aqui dentro, como são hoje. Hoje eu recebo cerca de 100 mil pessoas de comunidades extremamente carentes, recebo 80 mil crianças por ano – extremamente pobres. Tenho 140 professores monitores educadores, tenho as comunidades quilombolas – que eu trouxe todos pra trabalhar aqui. Nós atendemos essas comunidades.

Muitos ricos não investem em nada para a comunidade. O que você acha da elite brasileira?

A elite brasileira não difere de nenhuma elite. A pior elite é a aristocracia europeia, porque não admite até hoje que perdeu poder. As elites são feitas por pessoas que lutaram para crescer, que têm medo de perder. Todo rico é assim, toda pessoa que cresce não quer dar um passo para trás. O que eu estou fazendo é uma renúncia absoluta da vida.

Mas também seu nome está ligado a um legado.

Meu nome está ligado a isso, mas ele está sendo alvo de muitos Exocets (mísseis). Nunca fui amigo de nenhum político, nunca me liguei nisso. Eu condeno a corrupção, que prejudica o pobre, que atrapalha a saúde, que vende remédio mais caro, essa corrupção que manipula o dinheiro. Agora eu, por mim, não estou nem aí pra minha vida. Se eu morrer amanhã, já morri. Agora estou com uma arritmia cardíaca, tenho de ir ao (hospital) Einstein na segunda, acho uma chatice, detesto sair daqui.  

Isso me deixa curiosa: você teve um AVC, fuma à beça, diz que toma tranquilizantes toda noite, sete filhos, não tem a preocupação de viver mais, nunca fez esportes?

Não, nunca fiz. Faço tudo o que você disse, e os sete filhos gostam de mim. Tenho 1400 funcionários, se você sair aí e falar mal de mim, eles te matam. As pessoas que estão próximas a mim, estão muito próximas, muito próximas.

O que te emociona?

Meus filhos me emocionam. E as pessoas que estão comigo no parque. Encontrei um negro quilombola revoltado com sua condição e querendo matar os brancos. Esse negro hoje é o melhor condutor de visitantes que temos. Todos os negros que tenho aqui são quilombolas e são pessoas extraordinárias.  

O amor começa

 

Então me pediram um texto sobre amor — e acho que só posso me arriscar a escrever direito sobre isso depois que eu passar dos 80 anos. Resolvi declarar homenagem/paródia ao “O Amor Acaba”, de Paulo Mendes Campos, que foi um dos escritores que melhor descreveu a paixão. É também uma vontade de dizer que sim, o amor acaba, mas também recomeça sempre. E, bom, é uma forma bem malandra de eu declarar o meu amor.

 

O amor começa. No primeiro beijo visto no cinema, ali na tela, o ator e a atriz cintilantes como se a vida, tirando umas passagens meio difíceis no roteiro, fosse sempre uma delícia. No primeiro beijo eu daqui da plateia, ele ainda atrapalhado, sem saber se tem limite onde botar as mãos. Na primeira vez que fomos juntos para o mar, água batendo nas pernas, o verde perto da areia, o azul lá longe, vontade do momento durar para sempre. No primeiro macarrão feito sem pressa, tomate cortadinho aos poucos, manjericão, depois o queijo, taças de vinho e sorrisos que prometiam sensações. Nas primeiras sensações. Na primeira música enviada por email, a letra dizendo as coisas que ele não consegue dizer.

Nas primeiras bolhas de champanhe geladinho o amor começa. Na primeira caminhada pela avenida, tarde da noite, vento no rosto, assunto que não acaba nunca… Na primeira reconciliação depois da frase torta, discussão boba, mas deu aperto no estômago, medo de perder. Na primeira mesa com os amigos dele, orgulho de ser apresentada na roda, agora é para valer. No primeiro encontro com a mãe dele – se o encontro for bom. No primeiro silêncio confortável, sem precisar dizer nada, como se nós dois pensássemos em voz alta sobre qualquer coisa. No primeiro sorvete, fim de tarde, risos só de olhar quem passa, ouvir a conversa vizinha, e imaginar as mesmas coisas.

Na primeira vez que ele conta um filme, e se empolga, e eu me emociono de ouvir, como se assistisse junto, ou só porque é tão bonito o jeito que ele conta. Na primeira vez que ele se emociona com o que escrevi. O amor começa quando ele não sai de perto na hora da minha doença. Na primeira vez que ele vê futebol com o meu pai. No primeiro passeio dele, atento, com a minha cachorra. No primeiro presente dele para a minha filha. No primeiro churrasco que ele se arrisca a fazer. O amor começa quando ele chega. E traz um chocolate. O amor começa antes de ele dizer eu te amo. Mas começa bem melhor quando ele diz.

 

 

Quem sabe alguém está olhando

foto: Ana Ottoni

Caiu a última casquinha no dia do Natal, e olha que coisa, volto ao parque e um sujeito ao meu lado me observa, abre um sorrisinho tímido e me pergunta se melhorei. “Então você…” O moço, Daniel, explicou que não foi nada, estava acostumado a sangue, só me pegou no colo porque com aquele calor, asfalto quente, não dava, melhor me botar na grama, “fiz um travesseirinho com sua mochila, você não se lembra?” Não, não me lembro. Não lembro de jeito nenhum como é que fui parar um mês atrás naquela ambulância, amarrada, ensanguentada, umas vozes ao longe, tudo correndo, cena de plantão médico da TV.

Cenas. Todas misturadas. As de horror eu lembro: a cabeça dói, as costas doem, tudo dói. Pernas, não sei onde estão. As vozes lá longe. Calor infernal. Clang! A porta abre. As pernas não mexem. A cabeça dói. As vozes. Vem médico de um lado, médico de outro, não consigo ver os rostos, olhar do lado não dá, com esse colar que botaram ao redor do meu pescoço.  As vozes. Que calor. “Você não precisa se assustar, o médico vai falar tudo”. Tudo? Melhor não imaginar. Então alguém me dá a mão. “Tô aqui”. É o marido, sorrisão solidário.

O marido está aqui? Acho que agora já era.

A história vem aos pedacinhos, como as casquinhas que ainda se desprendiam dos meus cabelos um mês depois.

“Vou tocar sua cabeça. Você sente aqui? Dói?”

“Você caiu no parque, teve convulsão, uma moça achou o seu celular e ligou no último número, que era o meu, e sangrou muito porque abriu sua cabeça”.

“Diz que o senhor que levou sua cachorra teve um infarto na rua uma vez e ficou tão comovido quando foi ajudado, socorrido, que já se prontificou a segurar a coleira da Zara”.

“Ah, que fofa, a sua cachorra. Na hora que você estava lá, estendida no chão, lambeu seu rosto o tempo todo, não latiu, nem pulou, tão educada, e olha que juntou umas 30 pessoas em volta”.

“Mãe, quando ele me falou que você estava no hospital peguei a bicicleta correndo, eu queria chegar logo”.

“Ai, tinha tanto sangue, nem quis assustar seu marido, amenizei, que bom que ele é tranquilo, né?”

“Era você, lá no parque? Nossa, um amigo meu viu, tava lá”.

Ninguém sabia o meu nome. Uma mulher sem documento e com uma cachorra bonita, uma mulher que se estatelou no parque num dia de sol de rachar a moringa. Uma mulher que rachou de fato a moringa – e que no meio daquela gente trazia uma história nova para o dia. Mais tarde, em alguma conversa numa roda alguém vai falar qualquer coisa sobre parques e outro, na sequencia, emendar: ”Parque? Menino, tenho uma história de parque, vi uma mulher caída lá hoje…”

Seis dias de hospital. Doze pontos na cabeça. Nenhuma causa aparente. Frases solidárias. Depois todo mundo se apressando, carinhosamente, em me ajudar, dar um jeitinho. “Não precisa entregar o texto agora, imagine, importante é se cuidar”. É que o inesperado dos outros traz aquela familiaridade do podia-ser-comigo. Já, já volta tudo ao normal, e tô antevendo que vou ter outra convulsão para não ter de dar conta do trabalho.

Sabe aquela sensação quando você olha alguém de longe, esperando o metrô, por exemplo, e reconhece uma pessoa vagamente conhecida? Pode ser um vizinho com quem mal troca oi, mas ali, na multidão, a visão dele ganha um sentido. Você sorri, ele vai sorrir de volta, vocês trocam um olhar solidário, que coincidência, esperando o metrô ali, tão longe de casa. Não é preciso dizer nada. Houve um momento, súbita cumplicidade, e dali a pouco vocês vão desaparecer e cada um cuidar da sua vida.

Daniel, o anjo que me socorreu em 25 de novembro, reapareceu no parque no dia do Natal e se apresentou. Natalie, a anja com Natal até no nome, a moça que achou meu celular e discou o número com mais ligações (que era o do marido), me mandou uma mensagem de boas festas. Abri o sorriso vaidoso de ter um instante de cumplicidade, a Providência Divina disfarçada em pessoas tão gentis.

Vontade de espalhar minha história, puxar assunto com o primeiro desconhecido (“pois é, rachei a cabeça, foi ali mesmo perto da ciclovia, diz que tinha muito sangue”). E quando a pessoa me olhasse meio com pena, meio assustada, eu diria triunfante: “Ah, mas agora tô bem, gente que eu nem conhecia me ajudou”.

Então, de repente, comecei a pensar nas histórias que os outros teriam e talvez quisessem contar. Da moça que ouviu um adeus do seu amor e chora como se nada mais fizesse sentido. Da que perdeu o pai, doente há anos, e sem memória, mas era o pai dela, e agora, como vai ser? Daquela outra com uma cara vitoriosa de quem se vingou da má amiga. De quem acabou de ouvir, suprema glória, elogio de um ex-inimigo. Do menino que fez o gol mais lindo lá na escola. Do que saiu do hospital, aliviado. De quem passeia no parque para esquecer a dor que é ter uma pessoa muito querida no hospital e fica indignado com a falta de sensibilidade dos que não sabem de nada e passam dando gargalhadas. Como é que alguém pode rir assim quando temos uma pessoa no hospital?

Não, ninguém me conta nada. E me deu uma vontade de dizer para quem passa que sim, todos nós temos os mesmos enredos, mas se você, de súbito, se estatelar no chão e achar que é o fim, alguns vão parar, ajudar, se familiarizar, talvez salvar sua vida. Dali a pouco vão embora, misturados na multidão, já pensando em outras coisas, e um dia, por nada em especial, você vai se flagrar abrindo um sorriso, não um sorriso qualquer. Um que diz que sua história é única – mesmo que só você e mais uns 2 ou 3 se lembrem disso.

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