Tem de ter autoestima?

Sobre mais essa obrigação que empurram para a gente: a autoconfiança.

Essa aquarela é da Andi Rubinstein, que fez meu mapa da vida me enxergando como um barquinho por aí

Minha melhor amiga aqui na Sicília é a Tania, nascida e criada em Florença, e de alma mais brasileira do que eu. Exuberante, sempre sorridente, linda, dá aulas de samba, já saiu até numa foto enorme do The Guardian em reportagem sobre o Sambódromo, quando desfilou na Salgueiro e o fotógrafo deve ter achado que era uma verissima carioca. Agora na pandemia ensina on line o rebolado para as italianas. Outro dia anunciou o curso nas redes sociais não apenas como uma aula de “samba in piedi”, mas de autoconfiança. “Você vai aprender a realçar sua feminilidade, a acreditar em você e se sentir uma rainha”, ela diz para a câmera. Até acharia legal sacudir os quadris febris, mas essa segunda parte do marketing foi a que colou em mim: a convicção em si própria. Preciso me matricular já.

Sempre me perguntei como é que algumas pessoas, mesmo as não muito lindas, colecionam conquistas como quem junta figurinhas de um álbum. Lembro da amiga que mal terminava um namoro e dizia: “agora vou dar um tempo, quero ficar sozinha, sair com as amigas”, para 15 minutos depois voltar da padaria contando displicente que conheceu um cara legal e marcaram de jantar no sábado. Com gente sedutora a coisa funciona assim. Tem de ser sem esforço, claro, de preferência com algumas incoerências para o outro achar mais sexy. Você conhece alguma: chega na festa e sem abrir a boca transmite, por códigos complexos que nunca aprendi, a mensagem “sou linda, confiante e tenho um segredo”, e dali a segundos pinta um fã na área. 

Já posso ouvir a turma que argumenta o contrário: “ah, mas vai ver os tipos que ela atrai” ou “funciona para sair uma vez, mas que adianta não ter cabeça?”. Forte é a defesa do conteúdo sobre a forma: “para ter uma boa relação o que conta é ser interessante, saber conversar, ser uma boa pessoa”. Hã-hã. Sim, tudo isso conta muitos pontos na dança do acasalamento mas não faz cosquinhas no principal: a autoconfiança. Que nem sempre vem com o charme do papo, o salário alto, o bom hálito e as melhores roupas, o mestrado. Colágeno e elastina ajudam bem, ôpa, mas felizmente também não determinam o sucesso. Para usar expressões das antigas, tem de confiar no seu taco, ter borogodó. A cereja do bolo é uma pitada de egoísmo. 

Para mim, acreditar em si mesmo é uma sabedoria nata, que desabrocha, nos felizardos, já na adolescência. São os populares da escola, aquele 1% capaz de destruir a autoestima dos 99% restantes e, se a gente bobear, pesar no nosso equilíbrio por anos a fio. Falo mais das mulheres só porque sou uma, mas me solidarizo com homens desajeitados, com LGBTQ+s, com todos da imensa fatia do planeta dos que se sentem em dúvida sobre si mesmos. Boa parte da categoria masculina tem a seu favor o treino em ouvir “nãos”, então já vai para a ação sem pensar muito. É o sujeito que pode ser barrigudo, sem atrativos, grosseirão, e canta até a Gisele Bundchen. Como diria o Stanislaw Ponte Preta, “dais vez, ela pode ser tarada”. 

Na raça ou na terapia, alguns adquirem a habilidade de vender bem o seu peixe. Não só no quesito sedução romântica, mas também na capacidade de convencer os outros de que estão certos. Existem as pessoas especiais, assertivas de modo gentil, que admiramos e conseguem o que querem com tranquilidade. Mas algo me intriga: aqueles que no trabalho ou na rua falam duro, em geral meio alto, e confiam que todo mundo corre para obedecer. Como é que sabem? Não têm medo de apanhar? Será por isso que a gente (eu, pelo menos) obedece? Tem também a pessoa que se acha dona de um nível intelectual mais elevado – às vezes elevado pouquinha coisa – e aproveita para mandar na vida de quem ela acredita que está abaixo. O tipo que não se acha, tem-se certeza.

Se a arte da autoconfiança já era difícil de aprender, agora, cada vez mais, virou imperativa. Campanhas, posts, mantras repetem que você tem obrigação de se achar uma graça, falar o que quer, se impor no emprego. Ôba! Sou a primeira a aplaudir quem usa o minishort com o corpo muito acima do peso, libera o cabelo black power, namora quem quiser, não se prende pelas rugas, a celulite, a idade, os não-pode, e que cada um seja feliz. Mas eu achava que ter autoestima era bacana para relaxar das cobranças. Então por que uns que conseguem finalmente amar a si mesmos atiram seu nirvana na cara da gente, com aquele tom esquisito de meritocracia? 

A mulher deixa os cabelos brancos, tá ótima, e em vez de curtir a beleza, solta a frase: “Posso porque eu tenho autoestima, não dependo da aprovação alheia”. A celebridade, a influencer, o colega da firma, para onde a gente olha, estão exibindo seu equilíbrio, falando “nunca me arrependi”, e dando a ordem: “Você tem de ter autoestima, senão não vai conseguir nada”. 

E quem não tem toda essa autoestima? Tenho de ter já? É fácil assim? São anos e anos cultivando minhas inseguranças, tocando a vida na base da tentativa-e-erro, espera aí. Nuns dias de acerto boto um vestidinho legal, me acho até gatinha, aprendo a cobrar pelo meu trabalho, no outro a crítica me faz sentir ridícula, a última das criaturas, e lá vou eu de novo escada abaixo para meus piores pesadelos da adolescência, essa fase que o Paulo Mendes Campos chamava, tão bem, detribunal inesperado. Acho que tá na hora de eu fazer o curso da Tania. 

Pensando bem, vou me inspirar na Verônica, travesti maravilhosa que conheci na adolescência, ali pelos lados da av. Ipiranga. Ela era superlativa: corpão, mãozão, unhas gigantes, pés idem, e equilibrava o excesso sussurrando o vozeirão, como se assim diminuísse o impacto da sua presença e ficasse delicada como se imaginava. Um dia ganhou um par de tamancos de saltos altíssimos, dourados, cintilou de felicidade. O problema é que era dois números menor do que o que ela calçava, ficava uma parte do pé para fora. “Tudo bem”, me falou baixinho. “Vou fazendo a linha calcanhar não é pé”. E foi caminhando meio torta pela calçada, mas com o sorriso convicto de quem se sentia uma princesa. Para mim, se tornou uma. 

Diário da Itália 13

Pequenas observações da vida aqui na Sicília

Foi no inverno passado a primeira vez que visitei Poggioreale Antica, cidadezinha de 1600 destruída por um terremoto em 1968. Felizmente morreram poucas pessoas, deu tempo para a maioria largar o prato de spaghetti na mesa e sair correndo, mas os escombros estão lá, um museu ao aberto dando pistas para a gente imaginar a vida por aqueles lados. Para entrar, é preciso pular um muro ou contornar o que restou de um prédio. Ninguém, nem som de passos, um silêncio de templo – não fosse por uns cães circulando, e a vegetação que brota verde, resistente, no meio dos tijolos, não haveria sinal de vida. Faltam cheiros. Nas poucas ruas, o cenário é de filme de guerra, talvez o pianista do Polanski saia magérrimo detrás de uma casa. 

Fui fazendo fotos com o celular. A imagem que mais me tocou é a de uma cadeira Thonet sem o assento, diante da porta da casa, para mim vestígio de um ritual querido em tantas cidadezinhas do mundo: aquela coisa tão brasileira da conversa de porta aberta na calçada, pode ser na prainha do Nordeste ou no sertão de Minas, uma gente que olha meio de banda, avaliando quem chega. E tão siciliana, como as senhoras e os senhores sentados nos vilarejos que contornam os caminhos das praias, rostos muito enrugados, craquelados como a terra, assistindo o colorido e a barulheira dos turistas que passam aos bandos durante o verão. 

E foi no verão que retornei para mostrar a cidade fantasma a um sobrinho adolescente de férias. Encontramos um senhor falante e sorridente. Conta que sempre volta ali. Memória de juventude, lembranças doídas? “Não, não sou daqui, venho porque me dá paz” – ele sorri e me convida a entrar em algumas casas (como resistir? Desde pequena adoro espiar casa alheia nem que seja pela fresta da rua), ensinando onde pisar para não desabar o que resta. Mostra o teto pintado com afrescos lindos, onde eram os quartos, a cozinha, aponta para o que sobrou de um antigo teatro na rua da frente e, como um guia, me explica o amor pela arte no tempo em que Poggioreale foi fundada. Quando a Sicília era um reino rico e governado pelos espanhóis, os americanos do mundo de então, e os aristocratas copiavam o estilo barroco que despontava nas igrejas e nos palazzos dos primos abonados de Roma. 

Ruínas estão por toda a parte na Itália, claro, e aqui na Sicília se misturam com a natureza deslumbrante e são um pouco o retrato dessa ilha e desse povo: memórias de um passado glorioso, poeira e rachaduras expondo com certa poesia o abandono e a falta de dinheiro, um jeito de viver que resiste firme no cotidiano e corre o risco de extinção. Pastores de ovelhas, camponeses com pequenos sítios, pescadores em barquinhos, mammas e confeiteiros artesanais, prosseguem a sabedoria medieval que alguns filhos se esmeram em resgatar, com orgulho ou por falta de opção, enquanto os que podem dão um jeito de botar o pé em outros mundos. 

É também um pouco o retrato da população que sobreviveu ao terremoto. Foi alojada a 4 km dali, na Poggioreale Nuova, que dá tristeza ainda maior – pela feiúra. Sua modernidade ficou mezzo pós-moderna numas colunas pastiche, mezzoarquitetura comunista dos anos 60, casas caixas-de-cimento, sem nem umas curvinhas poéticas à la Niemeyer para trazer leveza. Os próprios moradores ajudaram a construir a nova cidade, levou 15 anos para ficar pronta, e só então perceberam que faltava algo que nenhum arquiteto – e o Governo italiano convidou os mais famosos para o projeto — se lembrou de anotar no croqui: a identidade. Cadê as várias piazzetas com fontes onde os amigos se encontravam? Os becos com o mercadinho, o sapateiro, a vendinha de queijos? A nova cidade tem ruas feitas para carros e bairros afastados. Passaram o trator e levaram junto o sentido da vida. 

Os velhos moradores agora se sentem no exílio a dez minutos de onde nasceram, alguns não trabalham mais no que faziam, não pertencem a lugar nenhum, feito filho de estrangeiro que em casa cresce falando um idioma e comendo umas comidas e quando sai na rua é tudo diferente. Muitos imigraram de verdade para bem longe: leio que em Sidney, na Austrália, vivem 5 mil pessoas de Poggioreale. 

Gibellina, a cidade vizinha e muito mais atingida pelo terremoto, também foi reconstruída – a 20 km da original – com projeto feio à beça. O Governo italiano convidou artistas para criarem homenagens e o escultor Alberto Burri teve a melhor e mais impactante ideia: cobriu os restos da velha Gibellina de cimento, um monumento forte, belo, parece um labirinto, batizado de O Grande Creto. Lembra memorial do Holocausto e pode ser visto a longa distância da estrada. 

Agora o atual governador da Sicília quer transformar a Poggioreale Antica num centro de treinamento de bombeiros. Em troca da imensa área, promete preservar umas poucas ruínas para a visitação turística organizada. Voluntários que cuidam da memória da cidade se mobilizam contra, assinei a petição deles para isso não acontecer. Não sou daqui mas também não quero que apaguem essa história. Não apenas pelo óbvio e importante registro arqueológico. É que todo mundo precisa de memórias, nem que não sejam as próprias, eu mesma nunca volto ao passado, joguei fora quase todas as fotos de família, não guardo nada. Mas em alguns instantes todas as histórias são um pouco nossas, todas as cidades são um pouco nossas, nos escombros podem ter mundos escondidos de nós mesmos, a cadeira na porta da casa leva a gente para a prainha na Bahia, e de repente aquele lugar que não parece ter nada a ver com você transborda de sentido.

Tô aqui viajando, e penso que a galera a favor só do progresso, da vida prática, não vai achar graça nem serventia nenhuma nesses troços de outros tempos. Então lembro do genial Sergio Porto que foi cobrir uma Copa do Mundo – década de 60, acho – e ele e outros jornalistas deram um giro pela Europa. Um locutor esportivo escreveu num postal para a mulher suas impressões do Velho Mundo: “Ontem fui ver o Coliseu. Não só é menor que o nosso Maracanã, como está inacabado”. 

Diário da Itália 12

Pequenas observações da vida aqui na Sicília

Soube agora pouco: foi numa terça de Carnaval que nasceu o delicioso cannolo, o doce que, junto com a Máfia e a música de Nino Rota, está no pódio dos clichês mais ilustres aqui da Sicília. Não à toa, o trio esteve junto numa cena clássica de O Poderoso Chefão, quando os mafiosos Clemenza e Rocco saem pelos arredores de Nova York para matar Paulie. Rocco dá três tiros, Clemenza – que tinha saído do carro com a desculpa de “take a leak” (a velha “tirar água do joelho”) – observa Paulie morto sobre o volante e solta a frase que ganhou o mundo: “Leave the gun, take the cannoli”. Ao fundo, sobe a música de Rota. A fala foi um improviso do ator Richard Castellano, e Francis Ford Coppola gostou da piadinha – fãs devem se lembrar da cena em que, minutos antes, quando Clemenza saía de casa, sua mulher gritava na porta: “Não esquece de trazer os cannoli!”. Ensaios de especialistas enxergaram nos cannoli um pulo que Coppola quis dar na própria infância, quando seu pai chegava em casa trazendo o doce, e que a frase vem recheada de significados sobre a importância da família para os mafiosos. Será? Eu só acho natural: quem provou um bom cannolo não tem como esquecê-lo nem depois de matar algum sujeito.

Mas tem de ser o legítimo, feito na hora, com a ricota fresquíssima de leite de ovelha. Daí sua origem carnavalesca: é nessa época de fevereiro que as ovelhas mais produzem leite por aqui. É comum eu sair para uma volta um pouco mais para fora do centro e dar de cara com dezenas de ovelhas (pecora, em italiano) nas estradinhas. Os pequenos mercados dos contadini (camponeses) ficam lotados de produtos de pecora, queijos maravilhosos. É o momento de comprar o melhor iogurte que já comi na vida – depois, durante a fase de descanso das ovelhinhas, não tem mais. Como bom carnavalesco, o cannolo surgiu de uma brincadeira: alguém encheu uma banheira de creme de ricota e teve a ideia de enrolar uma massa doce nos canos, encobrindo as torneiras, e lambuzando as mãos dos incautos que fossem buscar água. Descobriram que ficava uma delícia.

Quem seria esse alguém é a graça do negócio: as histórias vão de um sujeito gozador que enrolou o doce em formato fálico mas achou que era abusado demais até pro Carnaval e cortou as pontas para dar uma disfarçada; ou de freiras de um convento de Caltanisseta, no centro da Sicilia, que provavelmente, entre risadinhas, tiveram o mesmo raciocínio. Uma versão diz que eram noviças, na real mulheres que escaparam de um harém (a história da origem do doce é lá pelo ano 1000, quando a Sicilia era dominada pelos árabes) e se esconderam no convento, convertidas ao cristianismo. E ali sublimaram em açúcar uns desejos proibidos, mais ou menos como as freiras portuguesas que inventaram aqueles doces derramados de gemas, caldas e malícia. O doce tem um quê de receita árabe e ganhou o nome por usar açúcar de cana, trazido para a Sicília pelos árabes. O que nos leva a mais uma versão, com menos picardia: o cannolo era enrolado em pedaços de cana, por isso sua forma cilíndrica/ fálica. De todo modo, já acharam textos até de 70 a.C. , do orador romano Cicerone, descrevendo um doce muito parecido com o cannolo. A história é longa.

Fosse em tempos normais, sem restrições de pandemia, terça de Carnaval seria o dia de eu pegar o carro e experimentar os cannoli de Piana degli Albanesi, cidadezinha numa colina ao lado de Palermo, que tem a tradição de festejar o dia com o doce. Ou ir até a linda Sciacca, aqui perto, cidade que adoro e onde provei o melhor cannolo da vida, presente dos meus amigos Antonello Veneri e Salvatore Dimino, que registraram para um documentário o dono e pasticcere do bar La Favola, Salvatore Scaduto (quando vier, anota a dica: La Favola, na Corso Vittorio Emanuele, 234, é imperdível).

Quem já assistiu ao episódio da série Chef`s Table com o chef Corrado Assenza, do Caffè Sicilia, em Noto (que fica do outro lado da ilha), talvez consiga compreender ao menos um teco do significado do cannolo para os sicilianos. É o orgulho de um doce que ganhou justa fama internacional, mas pelo que ele traz de mais genuíno: os ingredientes frescos, a ricota nuvem que só tem aqui, o dedicado trabalho manual (os cannoli são enrolados a mão, um a um), o que vai pela alma dessa gente de uma ilha com tantas lendas e pequenas tradições, o sabor que, feito uma madeleine, é morder e ir parar num dia de festa na família. Vai ver foi isso mesmo que Coppola pensou ao botar o doce no filme. Para mim, brasileirinha, ele não tem cara de carnaval, não. Mas me traz uma alegria real, que se pode tocar e descer goela abaixo. E, quando eu não morar mais aqui e provar um bom cannolo, sei que vai despertar uma amorosa Sicilia que eu tenho para contar.

Memória de praia

Historinhas que lembro

Cartum: Ziraldo

O sol esplêndido, eles chegaram no Posto 9 falando alto, tomando espaço, com aquela segurança de pisar em próprio território. Eram três: uma mocinha muito bonitinha e muito senhora da sua beleza carioca, bumbum arrebitado, perfeito, pernas grossas, baixinha, pouco peito, biquíni nadica de pano. Um rapaz magrelo e falante, o sotaque clichê, era o coordenador da ação. Olhava ao redor, escaneando os tipos, cumprimentando os ambulantes, como o funcionário dedicado que dá bom dia e as instruções no escritório. Um senhor de barriga roliça, pernas arqueadas, ar entre o entediado e o sabido que já viu tudo nessa vida, calção desbotado, camisa aberta. Do seu pescoço, misturada à correntinha prateada,vinha pendurada pela alça gasta uma velha máquina fotográfica de décadas atrás. 

Fazem um montinho de areia para a garota deitar em cima. Ela se espicha, levanta o bumbum para o céu, o corpo serpenteando em S. O fotógrafo, cigarro na boca, aperta os olhos e fala com a voz para dentro: “Mais para cima, Marcinha”. Ela se contorce mais um pouco e, milagre da flexibilidade, sobe mais a cauda. O rapaz repete em tom de ordem: “Marcinha, os gringos querem ver mais”. Lá vai ela, coluna dobrada ao meio. Do meu ponto de observação – estou na cadeira uns metros atrás – sua bunda já atingiu um outro patamar, é agora uma formação geográfica, dunas gêmeas que se erguem na minha frente. “Só mais um pouquinho, Marcinha”.

Então Marcinha, a voz mole, chorosa, resolve dar um basta: “Tá doendo, Ubirajara”.

Guardei a frase para eu mesma brecar situações que me espicham além do limite. O chefe sem freio, o sujeito sem noção, a mulher que abusa da sua paciência, qualquer um que já vem mandando. Tá doendo, Ubirajara. Só preciso aprender versão em italiano para dar um chega para lá nuns sicilianos folgados.

Diário da Itália 11

Pequenas observações da vida aqui na Sicília

Is this an elephant? Eu devia ter uns 9 anos quando descobri Rubem Braga, o homem que escrevia maravilhas das coisas do varejo da vida, como a aula de inglês em que ele se sentia posto à prova a cada pergunta da professora. E é numa volta aos 9 anos que me sinto nessa escola pública siciliana, sentadinha na carteira de fórmica verde, tão idêntica à do meu colégio lá na Santa Cecília, em São Paulo, quando a Maria Pia, professora de geografia, me chama para ler em voz alta. 

Leio um parágrafo que explica que a Terra é redonda, achatada nos polos, e está na galáxia Via Láctea. O italiano atrás de mim continua o próximo trecho, e Maria Pia completa a frase antes, sem paciência para o ritmo meio lento dele. Dali a pouco ela vai nos perguntar tudo de novo para ver se a gente assimilou direitinho. Também não esperará pela resposta. Antes de alguém dizer em qual Polo fica a Antartida, a ansiosa já anuncia: Sud!

Na minha idade, as pessoas amadurecidas coordenam grandes equipes, estão na segunda casa própria, ou ticando na lista das resoluções de vida a formatura dos filhos, a compra do sítio, o término do doutorado. Amigos me ligam contando que nesta pandemia estão amando estudar de novo, descrevem os temas das suas teses, os mais inspirados descobriram nova vocação. Outro dia a Ana me falou das leituras sobre o antropoceno. “E aí na Itália, como vão as coisas?” Tento contar de um jeito engraçadinho que mais uma vez meu destino engatou a ré. Estou de volta ao primeiro grau. Minha novidade emocionante do dia é um nervoso no estômago porque não conseguia me lembrar como faz conta de dividir com números grandes, e a professora de matemática tava vindo na minha direção. 

Estou na terceira série C. Supletivo do que antigamente chamavam de ginásio. Tirando dois adolescentes árabes, meus colegas de classe têm qualquer coisa entre os 30 anos e os virando a curva dos 60, italianos que parecem saídos de um filme do Mario Monicelli. Umas mulheres de peitos grandes falam muito alto, o tempo todo, dão risadinhas, provocam os homens com piadas, aquela excitação meio áspera, meio por nada, jogo eterno dos meninos e meninas de qualquer tamanho. O gorducho simpático trouxe bolo de laranja. O casal casado está sempre juntinho, sempre na segunda fileira, as carteiras coladas. O marido adianta com carinho as respostas do teste para ela. Ela ajeita os cabelos Chanel atrás da orelha e arruma os lápis e canetas para ele. 

Quando algum tema esquenta a discussão, todo mundo fala junto, mistura dialeto, o Fioca cismou que a Itália é uma ditadura, acha que o governo mete o bedelho em tudo. A professora de italiano lê um poema para explicar metáfora e a coisa desanda, ninguém ali tá vendo nas palavras o que ela diz que significam. Também não entendo metade do que essa turma diz, mas me sinto tão confortável – já tenho uma panelinha com a Roberta, irmanadas só no olhar, contra a Giuseppina, loira insuportável, arruma encrenca, quer mandar em todo mundo.

Pensar que eu sempre fiz piada quando me sentia encurralada com os dramas de adulta, dizendo “continuo na quinta série”. Alguém já me disse que pode ter componente psicológico aí, e começo a ficar desconfiada de mim mesma. Por que crescer me parece tão desinteressante? 

Não é que eu tenha saudade da infância, lembro de quase nada, da escola então esqueci tudo, das lições, das más amigas. Guardei as tardes de solidão, filha única enfurnada na biblioteca do bairro, a inadequação me trazendo um arrepio de tristeza, que ficou para sempre, mas também permaneceu, com mais força, a gargalhada boa por qualquer bobagem. E a mania de acreditar no que me dizem. Vai ver é isso, se não lembro, melhor ficar com a minha risada de menina, a sensação de frescor, de olhar tudo como se fosse a primeira vez. 

Agora com a pandemia vieram as discussões se fecha ou não fecha a escola. A Giuseppina, claro, tentou arregimentar o motim, odeia as aulas, só tá nessa (assim como outros) para receber o auxílio do Governo aos desempregados, que para isso precisam provar que ao menos estão estudando. Já eu só quero aprender melhor o idioma, saber sobre o país, e como não me ocorre ideia nenhuma para o meu futuro, a terceira C tá de bom tamanho. Talvez eu saia no lucro. Pode ser o recomeço, a alma passada a limpo como um exercício no caderno.

DIÁRIO DA ITALIA 10

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicilia

5/6: A convivência e suas consequências. Faz anos li um livro excelente sobre os bastidores de Hollywood, A Cidade das Redes, e nunca esqueci o drama de Gene Tierney, estrela da década de 40 e na minha lista das mulheres mais lindas do cinema. Grávida, ela contraiu rubéola, o que fez com que sua filha nascesse surda, cega e com outras sequelas. Gene não suportou a culpa. Veio o efeito dominó: afundou na depressão, tomou eletrochoques, tentou o suicídio, a carreira foi para o espaço, ela teve de trabalhar como balconista de loja. Anos depois, numa volta por cima, a atriz estava num evento em sua homenagem quando uma fã chegou junto, senhora amorosa, e lhe disse, açúcar na voz: “Gene, sempre te adorei. Lembra quando você estava numa campanha para ajudar os soldados na Guerra? Fugi do hospital e fui lá te dar um beijo”. A fã estava internada com rubéola. Gene estava grávida. Quando escutou a história, desmaiou.

Àquela altura, o que fazer com a sem noção? Foi só um beijo.

Nesta semana em Marsala comemoramos que a região de Trapani, onde estamos, na Sicilia, já estava há 28 dias sem nenhum novo caso de coronavírus. Deu nos jornais: a primeira região de toda a Itália a sair da pandemia. Mal se passaram três dias e um estudante siciliano que mora no Norte do país foi diagnosticado aqui depois de rodar pela cidade, ver os amigos, tomar umas no bar. Apertado pelo interrogatório medico, confessou que já tinha feito um teste porque devia estar contaminado, mas não quis esperar o resultado. Sabe como é, saudades da família, da turma, de olhar o mar.

Agora, o que fazer com o sujeito? Botar num castigo vintage, diante da lousa, escrevendo “sou irresponsável”, “sou irresponsável”, milhares de vezes?

certo que todo mundo já escorregou várias vezes na vida, mas provocar o tombo dos outros muda a casca de banana de patamar. Deveria ser simples invocar a coerência, aquela qualidade que achamos pouco sexy nos outros quando somos nós que pisamos na bola. O“você gostaria que o seu colega fizesse isso com você?” para nos avisar que estamos passando do limite. E justo quando é mais necessária, a primeira coisa a sair de cena é a coerência.

Sujeito fura o isolamento dizendo que não aguenta ficar longe dos amigos, impossível ser feliz sozinho. Então, sabendo que talvez esteja assintomático ou que no caminho pode pegar o vírus, sai felizão de casa para contaminar esses amigos que ele não consegue viver sem. A mesma pessoa que tem tanto apego a viver em grupo é a primeira a reivindicar o direito à liberdade individual, esse conceito sempre lembrado com veemência na hora de passar na frente dos outros, falar a frase agressiva, subir o muro para tapar o sol do vizinho.

A pandemia está escancarando, para quem nunca quis enxergar, as abissais injustiças sociais no planeta. Se a gente der um zoom, vai notar que ela nos mostra detalhes que preferíamos não ver na convivência diária. E vem o dilema de como exercer a diplomacia no seu pedaço: ser ou não ser fiscal da vida dos outros, quando a nossa também está na jogada?

O poeta Ferreira Gullar dizia que a crase não foi feita para humilhar ninguém. Mas nem todo mundo gosta de ouvir que falta ou sobra crase na frase. Regras de saúde também não foram feitas para humilhar ninguém, e podem botar a gente num beco das relações humanas. Devemos apontar o dedo na cara da amiga sempre tão gentil mas que não usa a máscara de jeito nenhum? Dar uma de X-9 e ligar para a polícia porque o vizinho está com 15 amigos no apartamento? Gritar com a mãe ou avó porque ela deu uma fugidinha até o mercado? Ela pode chorar e retrucar que antes disso você ficava dias sem telefonar, sem aparecer, que história é essa de agora vir com sermão. Se não fazemos nada, somos cúmplices. Ou não dormimos pelos próximos três meses de raiva dos egoístas.

A pós quarentena, que começa a arejar um pouco as coisas, traz novas saias justas. Uma amiga que se isolou no campo, na França, abriu a porta para o vizinho que passou só para se despedir, ia voltar para Paris. Na hora do tchau ele se empolgou e tascou um beijo na bochecha dela. Congelada, ela não sabia se dava uma dura ou corria para passar álcool gel. No laboratório, o italiano gordinho está de máscaras, luvas, espeta a seringa no meu braço e com a outra mão tira a máscara do nariz, esfrega o rosto suado (“tá calor”) e vem botar o algodão para cobrir a picada. Digo o quê?

Assim, balançando entre a hipocondria, a solidariedade e o e daí?, o jeito de seguir no mundo parece ser cada um cuidar o melhor de si e botar a mão na consciência, aquela voz interior que nos avisa que alguém pode estar olhando, como dizia o escritor H.L. Mencken. Aos poucos talvez a ciência dê conta do vírus, se a situação melhora esquecemos a bronca que tínhamos dos inconsequentes e dali a pouco tá todo mundo ocupado demais pensando em outras coisas. A coerência a gente deixa para depois.

DIÁRIO DA ITÁLIA 9

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicília

19/5: Querer saber ou não das coisas. Tem uma história sensacional que o Ziraldo conta de quando era menino e, lá pros lados de Caratinga, onde nasceu, existia um areal que era visto bem de longe, depois de um vale. Os meninos apertavam os olhos para enxergar aquele espaço que parecia infinito, podia ser um oceano. Um dia ele comentou com um amigo sobre o areal, o outro menino teimou: não é um areal, é um rio. “É um areal, todo mundo sabe”. “É um rio”. “Quer apostar?”. Correram até lá, chegaram esbaforidos. Ziraldo, que estava certo, apanhou na mão um punhado de areia e atirou, vitorioso, no amigo. “Olha aqui, ó, areia”. E o menino, incurvável diante da evidência: “’Não me molha, desgraçado”.

Teimosia, a nossa ou a alheia, é velha como o mundo, e bota uma pimenta boa nuns debates, ou naquela conversa de língua enrolada na mesa do bar. No final é capaz dos brigões não cederem, uns podem nunca mais se falar, ou vão sair abraçados cantando Se todos fossem iguais a você. Acontece que os cabeças dura cresceram e se multiplicaram por bilhões, tomaram as redes sociais e daí as ruas, as famílias, o planeta. E feito aqueles zumbis em filme, quando a gente bobeia somos nós a revirar os olhos e perder a capacidade de análise. Não importa o tema. Nem se o argumento vem embalado com elegância, lógica cartesiana, citação de especialista, ou você próprio é o diplomado que estuda o assunto há anos. O interlocutor prefere morrer seco com areia goela abaixo do que aceitar que foi maus, é verdade, não tinha pensado nisso, desta vez estava errado. Não era um rio.

No areal da vez, o coronavírus, com sua intrincada rede de temas, política, economia, cloroquina, abre-ou-fecha-o-comércio, racismo, desigualdade, egoísmo, máscara, não-é-tudo-isso-que-falam, e-se-fosse-alguém-da-sua-família, todas fortes razões para aprendermos a prestar mais atenção nos outros, os rios da discórdia correm cada vez mais caudalosos. Estamos em guerra. Pode ser aqui na Itália, em que a discussão faz parte da alma, ou até na China, onde parece que esqueceram o Confucio e andam estressadíssimos. O Brasil tem agravante disfarçado de jeitinho. Fulano torce o assunto, arruma uma desculpa, chuta o raciocínio como se fosse uma bola. Para fazer você ter vontade de tirar a calça e pisar em cima, tem aquele que ataca, lança um absurdo, e depois, apertado pelos fatos, apenas solta um kkkk e ainda sai comemorando, crente que foi gol.

Comum também é o tipo pavão, que finge conhecimento e fala “veja bem”, prometendo a nova informação que vai mudar tudo. Enrola e não diz nada. É como aquele sujeito de sapato bicolor que na gafieira tirou a Rita, minha antiga cabeleireira, para dançar. Ela ficou assanhadíssima, esse tinha cara de quem sabe o riscado. Ele dançava bem comunzinho, mas no meio da música anunciou, confiante: “Segura!” Ela se aprumou, firmou a coluna, “agora o homem vai me pegar no colo, me rodar, jogar para cima”, e … nada. Dali a pouco ele repetiu: “Se-gu-ra”, a Rita de novo se ajeitou, à espera do grande rodopio. Nada.

Se estão indo embora a diplomacia, as tiradas espirituosas, o interesse pelo diálogo, o que cresce na Internet é o fervor. Na vida muita gente ama, muita gente reza, muita gente batalha. Nas redes todo mundo ama, reza, batalha, paga seus impostos com fervor, e faz questão de deixar isso claro com uma violência inimaginável. E tem a desconfiança. Ah, nada é por acaso. A amiga fofa da adolescência, que toma chá numa caneca estampada com a frase do Ferreira Gullar (Não quero ter razão, quero ser feliz), dispara complexas teorias da conspiração e, se alguém mostra, com o fino da ciência, que aquilo não faz sentido, ela rebate: “Você está chipado, é isso, trabalha para eles (leia-se as organizações que querem dominar o mundo)”.

Eric Hobsbawn, grande historiador inglês, me disse numa entrevista (muito antes das redes sociais) que nunca tantas pessoas estudaram e foram à universidade, mas isso não fez novos gênios ou seres humanos melhores. Não é, de jeito nenhum, o caso de defender a ignorância, mas de pensar que sabedoria é também olhar para outros lados.

Em hebraico existe a lenda da Laila, nome que significa noite, uma espécie de feiticeira, me conta minha amiga Andi. Assim que um óvulo é fecundado aqui na Terra, Laila acende uma luz e entra na barriga da mãe, assoprando todo o conhecimento, todas as comédias e tragédias para o bebê que vai nascer. Na hora do parto, quando o bebê chora, Laila faz shhh! E põe o dedo no lábio do recém nascido. Então ele esquece tudo o que aprendeu no ventre e durante tantos momentos da vida sua lição vai ser voltar para dentro e recordar, e aí que estaria a graça da existência. Parece difícil.

Talvez a gente só precise se lembrar de algo mais simples, qualquer coisa do nosso cotidiano mesmo que gostávamos tanto de fazer, e que por algum motivo, quem sabe teimosia nossa, deixamos para lá. Assim, mais leves com algumas redescobertas, tentamos seguir em frente. Alguns de nós sabem lutar com força, outros no passinho miúdo já sacam tudo, e todos, por bem ou mal, sempre nos ensinam. Porque o mundo continua, os malvados não vão aprender nunca, e a gente espera que pelo menos eles se estrepem no final. Mas nem isso dá para ter certeza.

DIÁRIO DA ITALIA 8

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicília

5/5: Sobre cada um no seu quadrado. Não faz muito tempo. Eu estava numa legítima milonga em Buenos Aires. Um legítimo portenho me tirou para dançar. Cintilei.

— Não sei bem os passos, você me ensina?

— No sabes bailar el tango?

— Sou brasileira, mas danço tudo, aprendo rápido. Me ensina uns passos que eu pego – falei toda sorridente, aquele clichê tropical de achar que basta a boa lábia para quebrar o gelo.

— No. Así no se puede.

E o portenho, na faixa dos 30 anos, bonito mesmo com o cabelão juba penteado para trás, foi me levando de volta para a minha cadeira. Estávamos no meio do salão ainda meio vazio, todo mundo olhando, e aquele homem de camisa aberta no peito ia me devolver para a cadeira. Que que é isso? De jeito nenhum, Gardelón. A mão que estava na minha cintura tinha subido para o meio das costas, sutilmente me empurrando. 

Apelei. Agarrei no braço dele e murmurei, entredentes: “Por favor, me deixa tentar”. “Tango es un tema serio”, ele me disse, apontando a cadeira. “Tem nada a ver isso aí. Eu pago. Te pago 20 pesos, mas não vou ser devolvida”. O tempo passando e nós naquela situação ridícula. Ele continuava me empurrando, eu empurrava de volta. Quase enterrei as unhas no braço dele. No fim ele dançou comigo. Na sua testa estava escrito “mujer loca”, mas uma música, ao menos, ele dançou. 

Pode até pintar uns constrangimentos (esse aconteceu mesmo), mas dançar, para mim, sempre foi a alegria real. Um jeito Tony Manero de enxergar algum sentido da vida no sábado à noite – ou fugir dela, já que encarar a realidade nunca foi o meu forte. Desde menina, quando entro numa pista não saio nunca mais. Não é preciso um par, nem uns goles a mais, embora tudo isso seja bem vindo. Mexer o corpo, se deixar levar pela música, dar um gritinho interno quando toca aquela favorita. É a celebração. As inquietações, por uns minutinhos ou horas, ficam para trás.

É a melhor desforra. Nesta quarentena em que estamos vendo tanta dor e dúvida, dançar abre o sol naquele instante negro do meu dia em que, depois de ler as noticias e sentir um desejo incontrolável de matar os sem caráter, resolvo seguir o Nereu do Trio Mocotó, que cantava, derramando malícia no pandeiro e na voz rouca: “Extravasa, extravasa”. O jeito é extravasar na varanda, com a porta fechada para o marido, grudado no computador, não reclamar do som. Não há preguiça maior do que a desses chatos que vivem dando conselhos, mas vou me atrever aqui a uma sugestão: quando a alma estiver pegando fogo, em vez de ir chorar na cama que é lugar quente, experimente botar um som e sacolejar até as últimas consequências. 

Ou, se a ideia é se aprimorar, aproveite que esta pandemia é a era da autossuficiência e já estamos colados no youtube aprendendo a pintar o cabelo, fazer arroz soltinho, cortar a franja, e sintonize numa aula de dança. Pode se agarrar apaixonadamente a uma vassoura, pegar a cadeira para se apoiar na hora da voltinha, até subir nela `a la Liza Minelli. Life is not a cabaret agora, meu chapa, mas na vida mascarada em que estamos, por que não liberar uns sonhos? 

Lá fora é preciso manter a distância de no mínimo um metro e meio do outro, jamais expor bocas e narizes, e fico pensando se vamos voltar logo para a deliciosa farra de uma pista lotada, ou para a delicadeza do dois para lá, dois para cá, os corpos coladinhos, o calor anunciando sensações que a gente não consegue dizer. Se estamos tão autossuficientes, desaprenderemos a lição que é dançar junto, essa metáfora óbvia da existência? Da importância de se adaptar ao outro, entender a cadência, o suingue levando a vida. Uma aula de convivência, como me explicou anos atrás, com seus erres de sotaque italiano, a Dona Madalena, uma senhora de uns 70 e muitos anos que se maquiava com longos cílios postiços, botava o salto 15, ajeitava a peruca platinada e todo sábado se acabava no baile: “Filha, eu não complico: você samba, eu sambo. Você rrumba, eu rrumbo”.

E como fica a dança do acasalamento? Tudo bem que já vem mudando faz tempo, os Tinders dispensaram a lenga lenga do “você vem sempre aqui?”, mas na pista sempre existiu o ritual da troca de olhares e sorrisinhos com o drinque na mão, o chega junto, mão na mão, o enrosco gostoso. Agora que é cada um no seu quadrado, até na praia a sedução está ameaçada de extinção. Nas previsões de futuro próximo que os sujeitos estão se arriscando a fazer, vieram com uma ideia de no verão cada pessoa ficar exposta ao sol em gaiolas transparentes de plexiglass para ninguém se aproximar. Se aqui na Itália, que tem praias com cercadinhos (os lidos), a ideia já é de jerico, imagino no Rio, onde revelar o corpo é o convite imediato para o vizinho oferecer te besuntar de creme, ou combinar o samba para a noite, como seria? Vai acabar a inspiração para canções, novidades de comportamento, para novos ritmos dançantes. Não sou apocalíptica, mas agora que acabaram com o biscoito Globo, pressinto que vão levar também uns rituais do planeta. 

Sim, sucedem muitas coisas. O verão talvez não seja o mesmo, os romances também não, mas as músicas continuam aí, embalando a gente, salvando uns instantes, e nos nossos quadrados vamos resistir dançando. Neste mundo em que não podemos mais respirar sem sentir medo, lembro do Manuel Bandeira, que passou anos sofrendo do pulmão e escreveu que, se não dá para tentar mais nada na vida, a única coisa a fazer é tocar um tango argentino. 


	

DIÁRIO DA ITÁLIA 7

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicília

 

21/4: Sobre gaiolas grandes e pequenas. Enquanto boa parte do planeta está engaiolada em casa, turistas estavam esta semana trancafiados num navio de cruzeiro ancorado no mar quase em frente ao trecho onde moro, em Marsala. Virou assunto. Aqui no verão, no tempo em que a vida era leve e solta, era uma cidade de barcos de pescador, o centro de kitesurf, mas não rota de cruzeiro. Aqueles naviozões que anunciam champanhe e risadinhas com o capitão, spa e cascata de camarão no bufê, sempre pararam na cidade vizinha, Trapani. O jornal conta que o Costa Deliziosa traz 1814 passageiros mais 898 tripulantes. Zarparam de Veneza, em 5 de janeiro, para uma despreocupada volta ao mundo em três meses e meio. Pela data, a turma já saiu correndo risco, mas àquela altura ninguém atinou que o vírus que estava lá na China também teria a mesma ideia – e com muito mais velocidade.

O Deliziosa estava indo bem – o roteiro incluía Peru, Chile, ilha de Páscoa, uma pitada de Gauguin em Bora Bora, depois Nova Zelândia. Daí para o Oriente, fazendo uma volta para o pessoal ver a África, mergulhar e tomar um sorvetinho nas ilhas Seychelles e Mauricio. Há mais de um mês deixou de ser delícia: com as fronteiras fechadas, todos os portos de Austrália a Malta recusaram dar permissão para o navio atracar. E os turistas, italianos, espanhóis, americanos, ficaram a ver a terra de longe. Trotes da pandemia: quem tem quase 4 meses para esbanjar verba na água, com cozinheiro bom a bordo e passaporte de primeiro mundo, de repente se vê impedido de pisar num país, coisa que só acontecia com barcos de refugiados. Ao redor, a incógnita. Tudo é mar, imenso, inesperado.

Fico pensando nesses cidadãos presos num navio iguais aos personagens trancados na diligência em filme de faroeste do John Ford, tendo de conviver enquanto os índios, os inimigos, estão lá fora à espreita. Dá para imaginar: diálogos puxados num molho filosófico, uns tantos no desespero, uns mudos, outros tentando tirar lição de vida. Sempre tem os que representam cada tipo do mundo, o rico ambicioso, a exibida, alguém que viajou para esquecer a dor de perder um amor, o ex-gordinho da escola que se autoproclama o líder e vai tomando decisões. Dos conflitos ou das frases amenas emergem pedaços do passado de cada um, e assim revelam quem são, o que pensam, porque foram parar ali.

É quando se percebe que o perigo, além do vírus, mora bem ao lado: humanos em restrição costumam desnudar lados que não queríamos ter visto. Se o isolamento já é dureza para quem está em casa com a família, terreno conhecido, ainda que com rusgas e dramas, pense o que seja isolar-se com mais de mil que mal se conhecem e de repente não podem mais dar uma desanuviada no próximo porto. Tudo bem que o navio é grande, existe a opção de se enfurnar na cabine, ou escorregar feito peixe dos chatos, mas os dias passam, o consumo de uísque aumenta, as rodas se formam e logo vêm as dissidências. Os boatos. A piada torta. A disputa do camarão. Daí para a ignorância é um passo.

Eu, que sempre tive horror das férias em turma, quando pintam uns que ninguém conhece, fatalmente chove, não dá para sair da casa e o coitado para quem sempre sobra o trabalho em grupo na classe vai ser o único a encarar a pia de louça, desconfio que não tem Dom Pèrignon que disfarce as reações do varejo da vida. Teve aquela vez em que fiquei à deriva em condições bem mais simplesinhas, numa jangada sem remo, com meu namorado, dois pescadores monossilábicos, mais dois casais de turistas que embarcaram para dividir o custo do passeio com cara de divertido. O mastro quebrou. Da jangada víamos as dunas de Jericoaquara, parecia perto, mas o vento parou e ficamos assim, horas no mar, sem remo, sem comida, olhando desolados para o que seria nosso destino paradisíaco. Vieram as piadas, os palpites infelizes, o instinto assassino. A voz esganiçada de uma das garotas. Se o vento não tivesse voltado, algum de nós ali sairia sem orelha.

Pois no luxuoso Deliziosa a coisa também degringolou. O navio teve permissão para atracar aqui em Marsala porque um passageiro passou mal, não conseguia respirar, e precisou de socorro médico. Uma passageira contou ao jornal que assim que o capitão anunciou o fato, na hora do almoço, sem nem mencionar a palavra coronavírus, todo mundo largou os talheres, levantou da mesa e correu para se trancar na cabine. Ninguém mais se dirigiu a palavra. O roteiro virou suspense: qualquer um podia ser o inimigo. Assim seguiram, nas suas gaiolinhas individuais, as refeições servidas na porta. No fim o coitado não tinha o vírus, o teste deu negativo, o navio já se mandou para Barcelona. Outra passageira postou nas redes sociais um vídeo de gratidão, “o amor e a luz triunfarão”, alívio no ar. Deve ter ficado também um segredo em cada um: aquele sentimento que nada mais será o mesmo depois de escancarada a desconfiança.

Daqui das nossas pequenas gaiolas na terra, a vida também segue estranha. Mas lá fora é primavera, flores brotam espontâneas, e o mar continua imenso, inesperado.

DIÁRIO DA ITÁLIA 6

Pequenas observações da quarentena aqui na Sicília

 

14/4: Sobre esse negócio de aprender a ser só. Adoro contar a história de uma amiga que aproveitou a folga para passar uns dias na Bahia enquanto o marido, com trabalho acumulado, teve de ficar em casa. Muito bonitinha, ela caminhava pela areia quando do nada um sujeito do pedaço foi chegando, o olhar pidão, aquele papinho-gentileza. Ofereceu-se para ser um guia, “já viu o pôr do sol daqui?”, até que abriu o sorriso alvo e tascou a cantada: “Moça tão bonita, sozinha, não pode. Com você eu caso!” Ela agradeceu, explicou que já era casada. “Ôxi, cadê o marido?” “Não pôde vir”. Ele a examinou de alto a baixo e não se conteve, o sotaque arrastado: “Mas é muuuita confiança”.

Viajar sozinha é uma delícia, faço isso muito, desde a adolescência, mas em algum momento vai aparecer um tipo desse naipe, o recheio do papo tão previsível quanto umas comidas globalizadas: mudam alguns ingredientes, a receita é a mesma. Que se repete sempre se estamos sem ninguém ao lado: em bares, restaurantes, ou em algum cenário bonito que escolhemos para curtir civilizadamente a solidão. A ideia de ficar sozinho não costuma pegar bem por aí, e embora moças sofram muito, muito mais assédio, não é exclusividade feminina a aparição de um chato para fazer companhia quando a gente não quer. É o clichê de homens que fogem de mulheres grudentas. A cena clássica de se sentar num avião ou ônibus e a pessoa ao lado querer fazer amigo. A turma do escritório que vai olhar esquisito se você disser que não tá a fim de almoçar. Isolar-se pode lhe custar o emprego. Bancar a Greta Garbo não é tão fácil, nem aqui nem no Irajá.

Falo de isolamentos pontuais, a necessidade de ficar na sua por uns tempos. Não daqueles solitários ranhetas, o tipo Urtigão de mal com a vida que grunhe monossílabos diante de qualquer sorriso próximo. Também não cabe aqui a seríssima reclusão por depressão, dor profunda, incapacidade de seguir em frente.  Tô pensando naquela saudável vontade que dá às vezes de desaparecer, dar uma de João Gilberto recebendo a comida delivery por detrás da porta, enquanto cantarola o Samba de uma nota só. Há anos cultivo o sonho recorrente, quando a situação aperta, de um dia pegar a bolsinha e sumir – um tchauzinho para o trabalho maçante, o amor que murchou, a vida repetitiva. A solidão como liberdade, aquela maravilha que é não dar satisfação porque não tem ninguém olhando. Botar o disco dos Stones para tocar e sair dançando pelado no quintal, como o sisudo editor Luiz Schwarcz me contou numa entrevista: fez isso quando decidiu largar o emprego.

Essas coisas são complexas. Isolar-se, como quase tudo na vida, só tem graça quando a gente quer. Se os outros nos isolam dói demais. Tenho a memória de adolescente, criatura mais indesejada do planeta, quando meus dentes cresciam dois metros na minha frente, o choro profundo debaixo da coberta. Constatar que ficar mais velha não tirou de vez a coberta. A solidão, em dois palitos, traz a carência, outro perigo, quando uns goles a mais fazem a gente achar graça inimaginável nuns tipos que trazem escrito na testa: vou afundar sua autoestima. Um simples elogio já balança nossas convicções: minha amiga Marina, mulher linda e excelente escritora, ouviu um “largo tudo por você” de um carregador de colchão, suado, mas com umas costas fortes, uma firmeza. Quem sabe?, cogitou. Já enxerguei, animada, virilidade no porteiro gordinho do prédio que me sorria sempre tão simpático. Minha amiga Valéria me advertiu: “Melhor não”.

Agora, obrigados que estamos ao isolamento, mais as dúvidas abissais que vivemos, os efeitos dessa aritmética podem ser devastadores. Uma semana almoçando sozinho e há quem se sente em síndrome de abstinência (isso com a sorte de ter casa, comida, Internet). Entram em cena nos vídeos e lives o alívio da música, as adoráveis carinhas dos amigos no zoom, a tortura de gurus ensinando que na solidão devemos olhar para dentro. Agora? Jura? Não acho tão ruim o isolamento, mas eu não sou exemplo. Estou acostumada a ficar em casa, anos como frila, e tenho o imenso privilégio de apê com varanda e nem estar só: meu amor ao lado e uma cachorra maravilhosa, e falo com minha filha todo dia. Lá fora o marzão turquesa aqui da Sicilia.

No azul lá longe, hoje tem um único barco, um barquinho de pescador, solitário. Não, não vou dizer que seguimos todos no mesmo barco: uns vão de iate, outras embarcações variadas e tantos, tantos, têm de se virar agarrados numa tábua de madeira. Nesse marzão o que temos em comum é que estamos todos à deriva, atados pela incerteza e a saudade de outra vida que foi agora pouco. Isso me deu a tal liberdade do ninguém está olhando: voltei a escrever, coisa que não fazia há anos, porque tá tudo incerto mesmo e assim não me obrigo a fazer direito, um dos meus maiores dramas. Mas invejo o pescador no barquinho. Não sei o que ele pensa, e me inundo de azul e otimismo com a cena: é não ter nada em volta e não sentir falta de coisa alguma. É um estado de espírito. A liberdade absoluta.

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