O tango, o vinho e uma carreira amorosa

Uma taça de vinho, o sujeito enlaça a moça e começa a deslizar – o tango é uma aula de relacionamento

Por Cristina Ramalho

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A mão do sujeito se estendeu à minha frente. Ele estava me chamando para dançar. Engulo a taça de vinho e me aprumo. Ele, um braço esticado, o outro dando a volta na minha cintura, a perna já em movimento. Cintilei. Olha só, eu na pista de uma legítima milonga em Buenos Aires. Nos braços de um legítimo portenho.

— Não sei bem os passos, você me ensina?

— No sabes bailar el tango?

— Sou brasileira, mas adoro dançar, aprendo rápido. Me ensina uns passos básicos que eu pego – falei toda sorridente, aquele clichê tropical de achar que uma boa lábia é capaz de quebrar o gelo.

— No. Así no se puede.

E o portenho, na faixa dos 30 anos, bonito mesmo com o cabelão juba penteado para trás, foi me levando de volta para a minha cadeira. Estávamos no meio do salão, todo mundo olhando, e aquele homem de camisa aberta no peito ia me devolver para a cadeira. Que que é isso? De jeito nenhum, Gardelón.

Pedi primeiro na base da clemência, enquanto ele ia saindo da pista comigo, a mão que estava na minha cintura tinha subido para o meio das costas, sutilmente me empurrando: — Não vai nem tentar me ensinar? Só para eu ver como é. Ah, vai. Por favor.

— No se puede ensinar así.

Apelei para a força. Agarrei no braço dele e disse, entredentes: “Não vou ser mercadoria devolvida”.

— No. Tango es un tema serio. Por favor – e apontou a cadeira.

— Tem nada a ver isso aí. Eu pago. Te pago 20 pesos, mas não volto para a cadeira. Essa humilhação, não. O tempo passando e nós naquela situação ridícula. Ele continuava me empurrando, eu empurrava de volta. Quase enterrei as unhas no braço dele.— Eu não volto!

E ele dançou comigo. Na sua testa estava escrito “mujer loca”, mas uma música, ao menos, ele dançou.

Cinco anos depois

Lá estou eu na terra de Gardel de novo, apartamento arejado, na Recoleta. Bem perto tem uma escola famosa de tango. Corri para a aula. Vexame igual da outra vez não vou passar.

“La coreografia es como una lucha silenciosa”, ensina a professora argentina, cinturinha de 58 centímetros, bailando pelo piso de madeira como se rodopiar em oito mentalizando “dos por quatro, dos por quatro” fosse a coisa mais natural do mundo. Não é. Observo mais uma vez o passo a passo. Não vou aprender nunca. Foi então que me iluminei: finalmente entendi porque demorei tantos anos para acertar o ritmo com um homem. Sim, é metáfora: me refiro a aprender a lidar com o sexo masculino.

Tivesse sabido essa coreografia antes, eu teria conduzido minha carreira amorosa com muito mais esperteza – e quem sabe enriquecido depois de escrever tudo num livro de autoajuda. No tango a mulher não segue o homem (embora ela finja), nem se deixa levar pendurada nele. Não tem essa de somos um só. Ele puxa, ela segura de volta. A graça toda está na resistência. Nem forte, nem fraca. Firme. É pura física: do jeito que vai, volta. O tango é uma aula de relacionamento.

Hay que tener autoestima, claro. Para entrar em cena com aquela cara seríssima, o corpo ereto, é preciso acreditar. E convencer. Já eu, que sempre achei legal ser levinha e capaz de seguir qualquer par no samba carioca, no forró de Jericoacoara, até no bolero da festa de casamento, sempre rindo, de boa, deixando a personalidade de lado para o sujeito agarrado em mim me levar adiante, bem, eu não podia esperar muito sucesso. Tá explicado.

Mas vamos a uma aula prática. Estamos no La Viruta, calle Armenia, 1366. Pista lotada, loiras em vários tons da química riscam o chão com sapatos de salto altíssimo, abraçadas a senhores altivos. Alguns usam perucas. Obedecem a um curioso código de trânsito, onde abre-se caminho para o casal que rodopia melhor, e ninguém leva esbarrão. É um acordo tácito, como se o jeito de avançar na vida fosse esse mesmo, alternando a vez de quem domina a cena.

Hora de entrar na roda e cavar nosso espaço no ecossistema. Engulo outra taça de vinho. Dois professores – a cinturinha de vespa e um homem de terno e bigodes – dão os comandos iniciais. Mulheres de um lado, homens de outro. Iguais na insegurança da primeira vez. A orquestra vai no clássico, La Cumparsita. “Los pares, formem los pares”. Somos nós. Os homens vêm em nossa direção, mulheres enfileiradas, e cada um vai pegando quem aparece. Mentalizo para vir o melhor (“O vesgo não, vai me dar nervoso”. “O loiro anão não dá, não tô pagando para passar vergonha”).

O que me escolhe é bem apessoado, dei sorte. Só que dá a mão mole. Paciência. Resistência. Tudo que vai, volta. Amoleço um pouco a mão. Professores batem palmas. “Cambien los pares”. Meu próximo é um tipo grande, confiante, me segura, é com esse que eu vou. “Cambien!”. Vem um alto, um baixo, o loiro anão, um rápido, outro incerto, vamos cambiando, rodopiando, eu tentando me adaptar a cada um, sem perder a postura.

Até que chega o par perfeito. Faço o ocho, dos, quatro, esqueço a conta, paro de olhar para o chão para não pisar no pé do homem, estamos sincronizadíssimos. Se eu já não fosse casada, acharia que ele é minha alma gêmea.

Dia seguinte, o marido que não dança nem por decreto quer saber como foi. Conto tudo, quase eufórica. Ah, por que você não dança? Ia ser tão bom. Aí ele diz a frase no tom: “Fico feliz que você dançou, adoro te ver tão feliz”. Tudo que vai, volta. Estamos no mesmo passo. Como deve ser a vida.

À mesa com Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes – Valor Econômico

Por Cristina Ramalho                                        Foto divulgação/ site Arnaldo Antunes

 

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Paulo Mendes Campos já escreveu em crônica que ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba. E, quando a gente vai ver, não é que ele parece mesmo um pincel de barba?

É com esse frescor que Arnaldo Antunes parece enxergar o mundo. Das situações mais comuns, do varejo da vida, ele aponta o inesperado. Faz a gente ver o que não via. Tudo pode ser um pincel de barba. As letras das suas canções tão elaboradas e talvez por isso mesmo tão simples, com olhar de criança (“Saiba: todo mundo foi neném/ Einstein, Freud e Platão também…quem tem grana e quem não tem / Saiba: todo mundo teve medo/ mesmo que seja segredo”, em Saiba). As que subvertem a ordem das coisas (“Cinema assiste, cena vê, cor enxerga” em Imagem). E, claro, as frases de criança mesmo, como as do seu caçula, o Tomé, anotadas pelo Arnaldo pai quando o filho tinha 3 anos (“Só mais um outro último, tá? Eu quero muitos últimos”) e compiladas no livro As frases de Tomé ao 3 anos.

 Arnaldo tem aquela rara capacidade de olhar as coisas como se fosse pela primeira vez. Nas horas de folga das turnês, enquanto os músicos cochilavam no hotel, ou em São Paulo, fazendo algo que adora – caminhar pela rua –, ele pegava a câmera e saía por aí fotografando placas de rua, cartazes, dizeres curiosos. Voltava para casa com um arsenal de “mega”, “here”, “horário” “selfservice”, em inglês, português, anúncios espalhados por São Paulo e pelas cidades que já conheceu. Foi juntando tudo por mais de 20 anos, depois trabalhou um bocado no computador, digitalizando imagens, usando animação em stopmotion, e criou mosaicos em caixas com dizeres, formando jogos gráficos, explorando a semântica. O resultado (e mais telas, cartazes com palavras em redemoinhos, ou sobrepostas, formando desenhos e multiplicando significados) pode ser visto na exposição Palavra em Movimento, em cartaz no Centro Cultural Correios, em São Paulo, até o final de agosto.

Caminhar, para ele, é o melhor modo de ajeitar as ideias. Quando não tira foto, sai com um bloquinho e caneta, ou um gravador pequeno (“Hoje em dia tem o celular, né, que facilitou isso”, diz) e vai acumulando anotações esparsas, flashes que podem render um poema ou uma letra e é bom não esquecer. Guarda no bolso, chega em casa e bota na gaveta, dali a pouco revê, ajeita, afina, vai dando forma. Reescreve, reescreve, corta, enxuga, corta só mais um pouquinho, até chegar no mistério da simplicidade. Há poucos meses deu uma olhada nos últimos textos, viu que tinha uns fios condutores ali, temas como morte, tempo, relógio, achou que daria mais um livro (já publicou mais de 20 e ganhou dois Jabutis, em 1993 pelo livro As Coisas – desenhado por sua filha Rosa aos 3 anos —, e em 2004 pelo livro Et Eu Tu). Acabou de lançar Agora aqui ninguém precisa de si, pela Companhia das Letras.

“Sou obsessivo com o processo, faço muitos rascunhos, é disso que sai o resultado. Mas criação, para mim, é sempre algo prazeroso, mesmo se falar de dor. O prazer de criar é tanto que até redime a dor”, diz um Arnaldo sorridente logo no começo dessa conversa com o Valor, um almoço sem pressa, domingo de sol bom.

Foi caminhando que ele veio nos encontrar, a rua cheia de gente colorida, famílias com crianças, ele sozinho no passo firme, vestido com jeans, camisa, um paletó que lhe dá um ar de homem sério. Mas, com aquele corte de cabelo Joãozinho e a cara curiosa, se estivesse de calças curtas ficaria igual a menino de foto de Cartier-Bresson.

Arnaldo escolheu um dos restaurantes que mais gosta – o Nou, em Pinheiros – porque, diz, é legal, comida boa, fica bem perto da sua casa e tem um dos melhores sucos de tomate da cidade (“Eu e o Braz, meu filho, temos mania de fazer ranking de suco de tomate, saímos pela cidade atrás dos melhores “). É um lugar agradável, jardinzinho no fundo, onde sentamos na mesa lá no canto. Ele pede, claro, o suco de tomate, água com gás para ele, sem gás para a repórter.

Além da exposição e do livro, Arnaldo prepara novo disco pelo seu selo, Rosa Celeste, agora em fase de mixagem e com lançamento previsto para setembro, primeiro show já marcado em Brasília. A produção é assinada por Kassin, terá convidados (como de hábito nos seus discos) e boa parte das canções inéditas foi composta numa viagem recente. Tirou o semestre passado para um período sabático, foi a Nova York, Itália e Índia. Inaugurou-se um mundo. “Na Índia é tudo tão intenso, as cores, os cheiros, a espiritualidade”. É ligado nas coisas do espírito? “Olha, não acredito nem desacredito, mas acho legal. Às vezes vou a uma mãe de santo, ela já jogou búzios para mim”.

A Índia foi muito inspiradora. “Escrevi umas seis canções do disco. Nas férias é quando mais componho”. Música é seu ganha-pão, como ele respondeu um dia, entrevistado por crianças, para uma menina que queria saber como ele tinha tantos empregos.

O brinquedo essencial desse homem de 53 anos, torcedor do Santos, é a palavra. É como uma bola. Arnaldo toca a palavra com intimidade, vira pra cá, manda pra lá, passa para mais alguém que está no jogo. Chuta a sintaxe para o alto e faz seus poemas gráficos, a limpidez de pensamento, a arquitetura precisa, e umas curvas não previstas pela geometria. Às vezes chama os amigos, aquela alegria de montar um time, músicas brotam quase tão espontâneas quanto as risadas, e subir no palco para um show é uma sensação indescritível. Como entrar em campo e levantar a torcida.

“Adoro fazer show, acho que só faço disco para poder fazer show, me dá uma energia aquela troca com o público”, ele se empolga. “Sempre é divertido, na época dos Titãs a gente também ria muito, teve fases que convivi mais com eles do que com a minha família”.

Família. Quarto filho de uma prole de sete, Arnaldo se acostumou desde cedo a viver em grupo. “Adoro casa cheia. Minha casa sempre foi assim, meus irmãos, os amigos deles, eu dormia no quarto com meu irmão, adorava aquela bagunça. Minha casa hoje é assim também. Meus quatro filhos (Rosa, 26; Celeste, 21; Braz, 18, e Tomé, 13, todos do casamento com Zaba Moureau), o filho da minha mulher (Marcia Xavier – os dois são casados, mas vivem em casas separadas), quando nos juntamos é uma delícia”. Acha muito bom ser pai. “Cada filho é de um jeito, tem um que você tem de empurrar um pouco, outro deixar mais solto. Aprendo até mais com eles do que eles comigo”.

Vamos a um flashback da sua infância e adolescência, na hora do almoço todo mundo passando o pãozinho no molho da travessa, e um repertório musical para tudo que é gosto. A mãe de Arnaldo curtia Caymmi. Um dos irmãos aumentava o volume para escutar Yes, Emerson, Lake & Palmer, o fino do rock progressivo. Beatles, sambas, Jovem Guarda, Lamartine Babo, os irmãos trocavam discos, havia um piano na sala, cabiam todos os sons. Na hora do passeio, a trilha do carro tinha de ser música erudita, o pai só ouvia a rádio Cultura. Arnaldo via aquilo e tirava as muitas lições possíveis. Aprendeu violão. Lembra-se de assistir fascinado, pela TV, os grandes festivais de música. “Mutantes, Macalé, Maria Alcina, Gil”. Entrou em Letras, na USP, mudou-se para o Rio, fez um ano de PUC, voltou para São Paulo, foi fazer parte da Banda Performática do artista plástico Aguilar, acabou largando a faculdade. Reencontrou amigos do Colégio Equipe, como o Paulo Miklos, e em 1982 fizeram uma banda, os Titãs do Iê-iê. Quando viu, já era pop.

A garçonete interrompe o papo trazendo duas entradas da casa: bolinhos de arroz, bem saborosos, e uma bela porção de bruschettas. “Acho que não é aqui, não pedimos”. “Mandaram para vocês”. Ôpa, claro! Ao ouvir que Luiz, o fotógrafo, costuma pedir o mesmo que o entrevistado, para fazer a foto do prato, Arnaldo, gentil, já vai perguntando antes de escolher algo do cardápio: “Hummm… Você tem alguma restrição alimentar?”. Risos. Ele pede uma truta ao molho de alcaparras, amêndoas e passas. Robalo ao molho de açafrão com saladinha e risoto de grãos para a repórter.

“Nunca entendi gente que fala ‘só gosto de samba’, ou que só gosta de rock”, ele comenta, enquanto saboreia uma bruscheta de cogumelos. Há pouco tempo, quando participou de dois episódios do ótimo documentário André Midani—Do Vinil ao Download, sobre a vida e a obra do grande produtor André Midani, Arnaldo se emocionou demais por estar na roda de violão com Gilberto Gil e Jorge Benjor, lembrando e cantando ao vivo, ali, as faixas do disco Gil e Jorge (1975), um dos seus favoritos de todos os tempos. “Quase furei esse disco de tanto ouvir, e sempre que ouço de novo fico contente”. Em cena, Arnaldo aparece derretido, cara de fã, ouvindo e às vezes cantando junto, Marisa Monte acompanhando, a faixa Filhos de Gandhi. Dali a pouco emendam, felizes, com O Homem da Gravata Florida, de Jorge Benjor, depois Xica da Silva.

“O Jorge é o cara que introduziu a poesia modernista na música popular brasileira. É o verso livre, ele faz caber tudo, qualquer palavra cabe na música dele”, fala Arnaldo no documentário. Tiveram direção durante a gravação ou aquilo foi mesmo um papo espontâneo? “O Andrucha (Waddington) era o diretor, mas nos deixou soltos, lembrando histórias, o papo foi fluindo, gente interessada e interessante, aquele clima que você vê na tela”.

O primeiro disco que ele comprou, adolescente que juntava dinheiro por um mês e corria até a loja Hi-fi, no Shopping Iguatemi, foi Transa, de Caetano Veloso. Depois Chuck Berry, Rolling Stones… Voltava para casa andando devagar, abraçado aos LPs, a música dizendo as coisas que ele não sabia dizer. “Toda canção popular é um eu coletivo, a gente pega para a gente aquele sentimento, principalmente na adolescência”.

“Sou de uma geração aberta, que cresceu embalada pelo Tropicalismo”. Quando morava em frente à PUC, assistia de graça os shows no Tuca, e foi lá que viu, de queixo caído, Rosa dos Ventos, de Maria Bethânia. Saía nas ruas nas passeatas políticas, todos de mãos dadas (“Era muito emocionante, a gente tomava umas bombas de gás lacrimogêneo, o povo das janelas jogava papel picado”), mas nunca se engajou em grupo nenhum. Não era a dele.

Chegam os pratos. São bonitos, coloridos. Arnaldo vai cortar o peixe, para um pouco, começa a falar sobre a política atual .“A gente vive uma época de muita intolerância (no seu novo livro há um verso que chama a atenção pela imagem da indiferença e da diferença social: “Do hall do seu palácio humilha o moço/ e gargantilha o sol no seu pescoço”). Eu cresci durante a Guerra Fria e, quando teve a queda do muro de Berlim, achei que ia ser algo libertário”, diz ele. “E não foi. Hoje ainda vemos esse reacionarismo assustador, seja do estado islâmico, da volta da Ku Klux Klan, seja aqui no Brasil, com a bancada evangélica se juntando com a bancada da bala, e o Collor também”. Votou na Marina, no segundo turno não votou em ninguém.

“Achei as campanhas da Dilma e do Aécio muito truculentas, tudo horrível, preferi anular o meu voto. Agora, a Dilma foi eleita, vamos deixar a mulher governar. Respeito todas as opiniões, todas as religiões, mas fico muito chocado com essa maneira velha de se fazer política. Ninguém tá pensando no bem comum, no que é bom para a nação, e é para isso que os políticos são eleitos. Mas todos só pensam no poder, partidos fazem alianças sem o mínimo de coerência com a sua postura”.

Dá outra garfada no peixe. Esse artista que domina a palavra acredita que o mais importante é mudar a linguagem política. “Vejo pouca gente com um discurso renovador, só alguns oásis, não só de honestidade, mas na forma de pensar, na linguagem, como o Marcelo Freixo e a Marina”, fala Arnaldo.

Como se sabe, ele é versado em mudanças. Depois de dez anos de Titãs, por que não uma carreira solo? Em 1993 fez Nome, disco e show tão diferentes do rock dançante de Sonífera Ilha e tantos hits. Nem todo mundo entendeu aquele moço fazendo onomatopeias com as palavras, virando tudo de ponta cabeça, de mãos dadas com a matemática do concretismo. Moderno demais. “Foi quase um começar do zero, plateias pequenas, tudo diferente, um aprendizado. Mas eu não queria ser hermético. Sempre quis ser pop”.

Bom, suas composições acabaram ganhando o coração de muitos cantores brasileiros e internacionais, da italiana Ornella Vanoni à baiana Daniela Mercury, e foi de discos infantis à música para edição do Bhagavad Gita, trilhas para filmes, para o grupo Corpo, para o programa Um Pé de Quê da Regina Casé, para o Castelo Rá-Tim-Bum. Em 2002, 2003, ele conheceu o sucesso estrondoso com o projeto Tribalistas (com Carlinhos Brown e Marisa Monte). Naquela época, difícil quem não soubesse as letras do disco. Crianças de dois aninhos tiravam a chupeta para cantar Já sei namorar. E ele foi parar em Portugal, na Áustria, na China, no Mali. “O Edgar Scandurra e eu fomos tocar com o Toumani Diabaté, em Bamako, foi uma experiência sensacional, emocionante, duas músicas tão diferentes, duas culturas tão diferentes”.

A cada disco ele chama artistas novos, que depois vão voar também: Marcelo Jeneci, o baterista Curumim, o Ortinho, tanta gente. Arnaldo vai esculpindo, refinando, o poder de síntese embalando o trabalho de artesão paciente. Como se fosse um Niemeyer que deita poesia com traços levíssimos, dois rabiscos mostram uma cidade inteira.

Esse enorme à vontade com todos os sons, todas as letras, ganhou do músico David Byrne um belo texto, prefácio do livro Doblo/ Duplo, de 1999: “Um dicionário não julga quem o consulta… Arnaldo tem um pouco daquela qualidade característica do dicionário. A qualidade de uma criança muito sofisticada, que nos pede para prestar atenção em expressões vocais, imagens, sons, textos às vezes simples e às vezes complexos… e pede que recebamos essas coisas com profunda inocência, porque aquela inocência é muito mais ameaçadora do que qualquer sofisticação. E também dá mais prazer”.

Pedimos a conta. “Legal aqui, né? Você gostou?, ele pergunta sobre o restaurante. Quer dividir a despesa e, quando ouve que é convidado pelo jornal, propõe: “Então quero te levar para tomar um café e comer a sobremesa, um mil folhas numa doceria ótima, aqui nessa rua mesmo. Por minha conta”. Topado. Caminhamos um pouco, atravessamos a rua, a doceria, Confeitaria Dama, está cheia. Ele pede o mil folhas, eu escolho outro doce, ele parte um pedaço do dele e bota no meu prato. “Não é uma delícia?” Segue para o caixa. Volta sorrindo. “A moça do caixa foi uma fofa, não quis cobrar, disse que é minha fã”, fala espantado. Nos despedimos, ele agradece com gentileza (“Adorei conversar”). O sol está bom.

Pouco antes de ir embora, ao explicar porque gosta tanto do raciocínio das crianças, Arnaldo havia citado um verso do Oswald de Andrade: “Aprendi com meu filho de dez anos que a poesia é ver as coisas que eu nunca vi”. Tudo pode ser um pincel de barba.

 

 

 

 

 

Um clássico regado a outro

Boteco/ homem/ futebol combinam com rabo de galo, a bebida tradicional dos balcões de fórmica, que hoje tá virando chique. Aqui ela acompanha a narrativa de jogo com final romântico

Por Cristina Ramalho

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O sujeito sentado no banco alto arregaça as mangas da camisa, puxa um pouquinho as calças para cima, dá uma geral no bar. Batuca de leve a mão no balcão de fórmica vermelha.

– Ô campeão, vê aí dois rabos de galo! Ao lado dele, no balcão, o amigo sorridente, bonachão, uma cara de gordinho da escola, é o ouvinte. O primeiro se apruma no banco, copo na mão, dá um trago na bebida – ahhh – arranha a garganta e começa.

“Então, não sei se você se lembra, mas aquele dia — 14 de janeiro de 2000! (emposta a voz na data como se fosse um locutor de rádio) — estava quente como o diabo. A Mariza, a minha mulher, lembra dela? A Mariza queria ir à praia, paulista no Rio, já viu, e à noite jantar. Eu só pensava no nosso Coringão com o Vasco, que tinha combinado de ver com um pessoal. A torcida toda já devia estar lotando o Maracanã e a Mariza, ali, me dando bronca porque eu ia saindo, nem liguei que ia rolar um jantar lá na Barra, com aqueles amigos dela, gente que eu nunca confiei, umas mulheres que só davam risadinhas, e um carioca de cabelo espetado que falava pirrê de batata, fazendo biquinho para parecer francês. Mariza achava o homem do pirrê o fino. Parece que ele sabia de vinhos e, quando ia provar, dava uma fechadinha nos olhos e uma mordidinha na beira da taça, para derreter a mulherada. Ah, de matar! Eu para mim acho que mulher que cai em golpe da mordidinha na taça já nem deve ser levada em consideração. (o gordinho acha a maior graça)

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A discussão esquentou, a Mariza toda arrumada gritando na rua que nem nas nossas férias eu ligava para ela, eu olhava o relógio, o coração saindo pela boca: o jogo, meu Deus, e eu ia perder a final Corinthians e Vasco, o mundial da Fifa, quê isso? Mariza correu atrás de mim, eu subi no primeiro ônibus sem nem olhar se era via túnel velho ou túnel novo. (o gordinho já está vermelho de tanto rir) Desci uns três pontos depois, peguei um táxi, o calor era de matar, e no túnel, ah, parece que um cara tinha sido  atropelado e o trânsito parou. No rádio o locutor anunciava Corinthians e Vasco se aquecendo.

O calor no táxi, o relógio, meu ingresso molhando na mão suada, eu ia ter um infarto, já via a Mariza gritando comigo no hospital que eu era capaz mesmo de fazer de tudo para estragar o jantar dela com a turma do homem do pirrê. A essa altura já não dava mais para achar meus amigos lá no estádio, eu teria de assistir o jogo sozinho.

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O motorista acabou me deixando na entrada da torcida do Vasco. O portão fechado. (o gordinho faz uma careta de pânico). O jogo já ia começar, de fora eu escutava a torcida, os gritos, as ôlas. Implorei para o guarda do estádio, a barriga caindo fora da bermuda, o olhar de desprezo, aquele sotaque. ‘Vai dar, não, meirrmão’. A torcida urrava lá dentro. Daí eu vi aquele major aposentado que morou em São Paulo, lembra? (o gordinho faz um não com a cabeça e um sinal com a mão pedindo outro rabo de galo) Aquele vascaíno que andava com um palito de dente na boca e dizia que o Romário era muito melhor que o Pelé. O homem já estava abrindo um sorriso com o palito, para a gozação com a minha cara, quando entendeu meu desespero. Mandou me liberar. Meu coração saltou de novo – eu devia minha vida a um vascaíno!

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O jogo ficou no 0 a 0… Trinta minutos de prorrogação. 0 a 0! Eu ia morrer. (o gordinho, cada vez mais animado, resolve falar: “Eu lembro, nossa, fomos pros pênaltis”) Rincón marcou o primeiro. Romário empatou. O Dida segurou um, 3 a 2, aquele calor, o suspense insuportável, eu sem poder torcer pelo Corinthians no meio do pessoal do Vasco, comecei a passar mal. Fui ficando tonto, o coração acelerou, o peito doía, o calor, não vi mais nada… Escutei, de longe, que o Marcelinho perdeu o nosso gol. (o gordinho já tá no terceiro copo e solta um shuu!) Acordei na ambulância, o médico falou que eu tive um negócio, assim, um princípio de infarto. Eu só pensava no jogo. Quem ganhou o jogo, quem é o campeão do mundo? ‘O Corinthians’, disse o doutor. ‘O Edmundo perdeu o pênalti, o Dida segurou’, ouvi uma voz de mulher. Ah, quase tive um infarto só de alegria, esqueci o calor, a dor no peito, o que eu ia escutar da Mariza na volta…

Então, não sei se você se lembra da Maria Carolina, aquela que eu namorei no colégio. Soube que tinha virado enfermeira, disseram que ela havia mudado de cidade, e agora ela estava lá, no Maracanã, dando plantão. A mão que me segurou, delicada, era dela, da Maria Carolina, corintiana como eu. A voz que me falou o resultado, era dela, da Maria Carolina, minha primeira namorada. Não sei por que, a primeira coisa que perguntei foi: ‘Você casou?’. ‘Não’, ela me sorriu com aquele mesmo sorriso de menina. Pois é, vamos casar, quero te dar o convite. O quê? A Mariza? Você não lembra? Da última vez que eu ouvi falar, saiu no tapa numa festa porque o sujeito do pirrê, o fino, tava mordendo a taça de vinho para uma outra, parece que era pernambucana… (ele se vira para o balcão) Ô campeão, vê mais um rabo de galo aí!”

*publicado no Dringue.com

 

Estás bor-ra-cho!

A narrativa de amor de uma paraguaia com um caubói americano temperada por um Old Fashioned

Por Cristina Ramalho (publicado também no Dringue.com)

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“Vai um dringue?”, pergunta JR Ewing, o patriarca de Dallas

Foi no Paraguai. Eu estava em um cassino dentro do resort de um americano, figurão do tipo caubói. Ele andava pelos corredores, entre as máquinas de caça-níqueis e umas loiras em todos os tons da química, um JR Ewing com chapelão e tudo, saído direto do seriado Dallas. Alto, muito alto. Alguém me soprou no ouvido que a baixinha lá atrás, uma versão mignon de Joan Collins (eu sei, eu sei, Joan era do Dinastia, mas um casal desses ocupa dois seriados) equilibrada sobre plataformas de Carmen Miranda, é a sua esposa. Ela cintila: cílios imensos, roupa de paetês, a cintura apertada. As mãos têm pedras faiscando em todos os dedos, unhas vermelhas de dar medo. Somos apresentadas.

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Mulher sozinha em férias

Uma cantada regada a um bom Pisco Sauer – e muita história para contar para os amigos

Por Cristina Ramalho (publicado também no Dringue.com )

La Main au Collet TO CATCH A THIEF d'AlfredHitchcock avec Cary Grant, Grace Kelly, 1955

Cary Grant, bom de lábia, passa uma cantada em Grace Kelly em Ladrão de Casaca (1955)

Sempre me lembro da história de uma amiga carioca que aproveitou a folga para passar uns dias na Bahia enquanto o marido, com trabalho acumulado, teve de ficar no Rio. Muito bonitinha, ela caminhava pelas areias baianas quando um sujeito do pedaço, malemolente, sem camisa, foi chegando, o olhar pidão, aquele papinho-gentileza-com-a-turista. Ofereceu-se para ser um guia, falou das maravilhas locais, a natureza,” já viu o pôr do sol daqui?” e coisa e tal, até que abriu o sorriso alvo e tascou a cantada: “Moça tão bonita, sozinha, não pode. Com você eu caso!”

Ela agradeceu, explicou que já era casada. “Ôxi, cadê o marido?” “Não pôde vir”. Ele examinou a carioca de alto a baixo e não conteve a frase, o sotaque arrastado: “Mas é muuuita confiança”.

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Independência

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Cansada da vida dura, morando com os pais, trabalhando tanto, a mocinha do interior se vira pra prima, Volúnia, e conta seu sonho, o sotaque carregado: “Ai, Volúnia, queria tanto morar sozinha, ser independente, chegar em casa, acender um cigarro, tomar um dringue”. Meu amigo Sergio Crusco e eu ouvimos essa história verídica, e desde então nunca mais falamos drinque. É dringue e pronto. Assim batizamos nosso novo blog, que fala de bebidas, suas histórias, traz umas músicas que combinam, dicas de barmen e tal. Para uma estreia festiva, abrimos com champanhe. Tomara que vcs curtam. Aqui vai o dringue.com Cheers! http://dringue.com/2015/03/06/vem-romance-ai/

NINA PANDOLFO

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As cores da delicadeza – revista Florense

Por Cristina Ramalho

 

Nelson Rodrigues escreveu um dia que o diretor de teatro Zé Celso Martinez Corrêa, sempre querendo ser maldito, botou o elenco pelado no palco, xingou a burguesada toda e, para sua surpresa, a plateia achou uma graça. Ele foi aplaudido de pé. Nelson deitou veneno na sua coluna no jornal: “Zé Celso foi visto tentando pular do Viaduto do Chá, gritando ‘eu fracassei, eu fracassei’ “.

Lembrei dessa história quando a artista Nina Pandolfo me contou que pintou em Munique, em 2005, um grafite sombrio, agressivo, denunciando os abusos na guerra do Iraque, e mal botou o pincel no chão a primeira coisa que ouviu foi: “Oh, so cute!”(Que fofo!). Nina amuou. Ninguém entendeu. Fracassou, fracassou. Bom, a semelhança com a piada sobre o Zé Celso acaba aqui. Nina de fato deu seu recado na pintura. Os que acharam uma fofura é porque simplesmente não prestaram atenção.

Sim, aquelas na parede alemã eram suas meninas de olhos grandes, lindas, ar de doçura, um quê de sonho. Mas bastava chegar mais perto só para ver: uma tinha o braço amputado. A outra, um roxo no lugar do olho. O menino, sem perna, se equilibrava na muleta. Estavam cercados por arame farpado. Lá no fundo, tanques de guerra em chamas. Colados no chão, soldadinhos de chumbo. E, o que é mais uma marca das artes de Nina, dentro dos olhos era possível enxergar outras cenas: máscaras de Mickeys como máscaras de terroristas armados. “Eu estava mesmo com muita raiva das guerras, dos abusos de poder, da incompreensão”, fala Nina nessa conversa em seu ateliê. Sossegou quando um amigo lhe disse que era claro que o grafite estava muito bom, forte, e os rostinhos de boneca acentuavam o tom chocante da coisa.

Talvez os espectadores tenham enxergado apenas a beleza porque as pinturas de Nina despertam o nosso lado mais suave. A cara da autora, no sentido literal: aqueles olhos imensos das suas personagens não são, como muita gente pensa, inspirados nos mangás japoneses. São os olhões da própria Nina. Os gatos que sempre aparecem nas telas e grafites são seus gatos Rakim (que se aboleta nos ombros da dona como se fosse uma estola de pele e fica ali por horas, enquanto ela pinta e depois se dá conta das dores nas costas) e Monalisa, a tímida. Em breve, a nova cachorra Mia, uma jack russell branca e marrom que corre animada pelo ateliê, vai brilhar em quadro.

E os jardins, as flores, as joaninhas, os longos cabelos, detalhes cheios de cor que se esparramam pelas obras e fazem a gente abrir um sorriso são também os traços da sua personalidade. A pronta sensibilidade para as coisas do afeto.

É o jeito de ver a vida de Carina Arsenio, 37 anos, voz de menina, tipo mignon, que assina Nina (Pandolfo é o sobrenome do ex-marido Otávio, um dos geniais grafiteiros de Os Gêmeos), e pinta todos os dias, como quem cozinha diariamente no capricho para as pessoas que ama. “Se eu estou mal, ou triste, eu não pinto de jeito nenhum. Quando a minha avó morreu, eu nem conseguia pegar no pincel, e tinha três dias para finalizar as telas para uma exposição. Aí foquei no lado bom: ela estava com 102 anos, não sofreu, foi parando, morreu de velhice. Só assim pintei”. Nina não teoriza.

Ela é sorridente, gentil, parece tão espontânea. Fala da avó, das telas, dos bichos, das irmãs do mesmo jeito – e com a mesma importância – que conta sobre suas exposições em galerias na Inglaterra, Alemanha, Suécia, França, Grécia, Índia, Estados Unidos, os elogios de curadores e críticos internacionais, os dias em que pintou com Os Gêmeos e mais o grafiteiro Nunca um castelo na Escócia, o jantar em que o cineasta Win Wenders comentou sobre os grafites dela em Wuppertal. Ou que vai de ônibus para a rua 25 de março, no centro, comprar o material de trabalho (“ Pra quê ir de carro e pagar estacionamento?”) e volta de táxi. “Ah, venho carregada de sacolas”.

Caçula de cinco irmãs, Nina nasceu em Tupã, interior de São Paulo, e aos cinco meses veio com a família para a capital, bairro Vila Gustavo, zona norte da cidade. Cresceu numa casa com um jardim que ela achava enorme (“E não era tão grande, né, o jardim da mãe?”, ela pergunta agora para a irmã, Sibeli, dez anos mais velha, sua assessora/ secretária/ faz-tudo), brincava escondida com as bonecas, entre as duas árvores de hibisco. Jogava vôlei na rua com as amigas até a hora da mãe chamar para o jantar. Olhava as válvulas na parte de trás dos televisores que o pai, técnico em eletrônica, consertava na oficina, e enxergava prédios, imaginava cidades inteiras, o pensamento lá no fundo. Quando a irmã mais velha se casou, Nina sonhou ser estilista de vestido de noivas.

Só pensava em desenhar. Teria futuro? A mãe, sábia, lhe disse para seguir o que gostasse que daria certo. “Eu me inscrevi na oficina cultural da Água Fria (bairro de São Paulo) e fazia todos os cursos que apareciam”. Alguém chegou lá para ensinar grafite. “Era a época em que se fazia grafite com estêncil, como os do Vallauri (Alex, precursor dos grafites em São Paulo, espalhava botas e a personagem Rainha do Frango Assado pelas paredes e postes da cidade). Eu fui ampliando os desenhos nos quadradinhos, mas achei que era muito melhor fazer direto na parede. Saí da aula”. Aos 15 anos, matriculou-se para estudar arte no Colégio Técnico Carlos de Campos, no Brás, e conheceu uns meninos que vinham do universo hip-hop e pintavam com spray. Eram Os Gêmeos. Era irresistível. Um deles, o Otávio, deu a ela o primeiro livro sobre grafite, foi chegando mais perto e não demorou a virar marido.

Inaugurou-se um mundo. Nina vestia – como faz até hoje quando sai para grafitar – um macacão “que não marca o corpo”, levava um sanduíche na mochila e esquecia da vida. Única garota entre os marmanjos (Os Gêmeos, Speto, Nunca, Onesto, os grandes nomes do grafite brasileiro), carregava latas, escadas, misturava-se bem com eles, e descobriu que o seu mundo interior, tão rico, fazia todo o sentido no mundo lá fora, na rua, para quem quisesse ver. Suas meninas sensuais, melancólicas, delicadas, se espalharam em paredes da rua 23 de Maio, do Cambuci, do centro, da Vila Mariana. As pessoas adoravam. Os convites não demoraram a aparecer, e no começo dos anos 2000 Nina e Os Gêmeos partiram para colorir o planeta.

Em Cuba, Nina pintava uma parede junto com um muralista local, ele nos pincéis, ela no spray. Emocionou-se com uma mulher que chegou de mãos dadas com a filha, as duas maravilhadas. “Não era só pelo desenho. Elas nunca tinham visto uma lata spray de nada, nem de desodorante, e de repente uma coisa tão banal para a gente era mágico para elas. Isso me tocou demais”. Os cubanos pediam: pinta a minha casa. E a minha. A minha é a da esquina! “Pintei até à noite, as casas da rua inteira, fiquei exausta, e feliz. No Brasil não costumo fazer isso, porque muita gente que pode pagar pelo trabalho de um artista pede a pintura de graça, meio na malandragem, não gosto”. Mas numa favela em São Paulo foi pintando de bom grado, pelo prazer de alegrar o cenário. Uma moradora de um dos barracos achou que ela devia estar cansada, o dia inteiro em pé, tão magrinha, e a convidou para almoçar. Dividiram o único bife.

Num dia de 2007 Nina recebeu o convite de um jovem lorde escocês para pintar o castelo Kelburn, da sua família. Era um projeto cultural bancado por empresas amigas do nobre, e a pintura ficaria exposta por três anos, um acordo feito com o pessoal do patrimônio histórico. O escocês avisou que havia convidado mais dois grafiteiros: a dupla Os Gêmeos e um outro, chamado Nunca. “Achei que os trabalhos de vocês parecem combinar. Você se importaria de dividir o espaço?” Nina ri. “Ele não sabia que eu era casada com o Otávio e que o Nunca é um dos nossos melhores amigos, foi coincidência!”

O trabalho era um conto de fadas. Eles usavam uma espécie de andaime elétrico para alcançar as torres, e lá do alto viram que mais abaixo no terreno havia um laguinho lindo, e o laguinho virou desenho. “Fomos incorporando a paisagem na pintura, mudando o projeto a cada coisa que a gente via, e tudo foi dando certo”. Até que o lorde confessou que seu pai, o conde de Glasgow, odiava grafite e eles tinham de terminar tudo antes dele voltar de viagem. Tarde demais. O conde chegou. Nina e os rapazes mal engoliram o glup!, quando o conde, fascinado, sacou a câmera e saiu registrando cada traço. “Que maravilha! Isso é arte pura!”. Gostou tanto que entrou com o pedido de tombamento da pintura na secretaria local.

Na Alemanha, em Wuppertal, Nina trabalhou em 2006 para um projeto da Red Bull que levou artistas do mundo inteiro para intervenções na cidade, de surpresa, sem autorização. Acompanhada de um morador local, que serviria de intérprete caso a polícia chegasse, ela passeava para escolher onde grafitar. Pulou uma cerca, viu um túnel escuro, úmido, abandonado. “O que era aqui? “ O alemão respondeu: “Um túnel que levava os judeus para os campos de extermínio”. “Então é aqui que eu vou pintar”. Com tochas como única iluminação, ela desenhou pelo túnel inteiro. Lá na saída, Os Gêmeos grafitaram também. Na entrada, uma artista japonesa deixou sua marca. A população da cidade não viu. O túnel continua fechado até hoje.

Tempos depois, num jantar na casa de Leon Cakoff (já falecido, criador da Mostra de Cinema de SP), o cineasta Win Wenders é apresentado para Nina e conta que filmou uma das cenas do seu documentário Pina (sobre a bailarina Pina Bausch, que era de Wuppertal) num túnel abandonado que ele encontrou, todo grafitado. “Tudo lindo”, falou Wenders. Nina sorriu. “Fui eu que pintei”.

Grécia, pouco antes dos Jogos Olímpicos: Nina impressionou-se com o desmatamento no país. Grafitou meninas árvores, cabelos de flores, galhos queimados, uma versão pop/feminina do Frans Krajcberg.

Embora pareça que ela tenha começado no grafite e depois tentado as telas, o que aconteceu foi o contrário. Quando conheceu Os Gêmeos, Nina já pintava quadros – sua primeira exposição em galeria foi numa coletiva, em 1998 –, e aos quadros voltou, já famosa pela street art. Desde 2008 é artista da Galeria Leme, em São Paulo, onde fez há pouco uma exposição muito elogiada, Serendipidade, com telas e esculturas criadas ao acaso que depois de prontas conversavam bem entre si. “Cada exposição eu monto de um jeito. Já fiz inspirada por contrastes dos sentidos, doce/ amargo, ácido/picante. Já fiz telas sequenciais, que de certa forma contavam uma história”.

Diz que leva em média nove meses para fazer um quadro e, aproveitando o clichê da metáfora, encara cada um como se fosse um filho. Tinha tanto ciúme das obras que não deixava seus assistentes (agora está com duas, a Dani e a Fernanda) assistirem em coisa alguma. “Precisei fazer terapia para aprender a delegar. Elas me ajudam, fazem o fundo da tela, por exemplo – só nisso economizo uns 3 meses de trabalho – mas antes, quando ia ensinar, já pegava o pincel e eu mesma fazia. Ficava esgotada”. Quando fez seu livro, Nina, editado pela Masterbooks (a editora da apresentadora de TV Eliana Michaelichen, fã de Nina), ela criou umas cinco versões antes de chegar ao resultado final.

Acaba não guardando os quadros, porque suas exposições vendem tudo, pedidos se acumulam. Está tentando montar o seu acervo. “Não sei dizer não, então quando me pressionam para vender empurro a minha irmã para resolver”. Tem pra já duas exposições: uma na Galeria Leme, outra na Inglaterra, onde é agenciada também. Agora foi convidada para uma grande mostra itinerante num museu brasileiro, mas ainda não pode dizer qual. É disputada por colecionadores e seu valor de mercado só cresce. Ficou rica? Prefere dizer que não mudou. “Ah, sou a mesma, não sou consumista, minha melhor amiga é a mesma desde os meus 15 anos, gosto de ir para a casa dos meus pais nos finais de semana”.

Na mesa do ateliê tem um bolo de cenoura quentinho e café para nós, fotógrafo e repórter. Observo os desenhos pregados num mural – parecem uma versão infantil das telas, e têm dedicatória, a letrinha escorregando: “Para a tia Nina”. Nina sorri. “A minha sobrinha desenha muito bem, é a filha da Sibeli”. E emenda: “Sabia que meus primeiros desenhos na vida eu fiz depois de ler uns poemas da minha irmã?” Sibeli, orgulhosa, corre para abrir o livro de Nina e mostra uma tela da exposição Desafiando Sonhos, de 2010. São quatro meninas juntinhas, coloridas, uma alegria real. “Somos nós, as quatro irmãs, mas a Nina não quis nos dizer qual é qual”. O título da obra: Amores Iguais. Não dá para evitar. O que Nina desperta na gente é a delicadeza.

 

 

 

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