KENGO KUMA VALOR

 

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Por Cristina Ramalho

A primeira ideia de Brasil do arquiteto japonês Kengo Kuma veio, como acontece com tantos estrangeiros, da música. Domingo, cinco da tarde, hora de tomar um chá e sintonizar a rádio J Wave para ouvir o programa Saúde Saudade, do DJ e produtor Jin Nakahara, que sabe tudo de MPB e suingue e toca, há muitos anos, o fino da bossa para os ouvintes em Tóquio. “Quem me falou sobre o programa do Nakahara foi meu velho amigo Sakamoto”, conta Kuma de Tóquio, por telefone, ao Valor. O arquiteto se deliciou com a leveza da música brasileira. Adorou Tom Jobim.

Kengo Kuma, 62, está entre os grandes arquitetos do mundo, hoje. Ryuichi Sakamoto, 64, você já sabe, mas não custa repetir: músico, ator, compositor, é um dos maiores artistas japoneses vivos. O encontro desses dois amigos que são a cara do Japão contemporâneo deu samba também no sentido figurado: Kuma e Sakamoto lançaram, em 2015, uma versão de um antigo jogo japonês de montar, o tsumiki, espécie de Lego em madeira. O arquiteto desenhou um bloco em formato de V, com aberturas nas pontas, e mil e uma possibilidades de criação: pássaros, casas, bonecos, um avião, o universo. Sakamoto, que tem uma ONG que atua em reflorestamento, a More Trees, colaborou fornecendo a madeira certificada.

Meses antes de lançar o jogo no mercado, Kuma e sua equipe montaram um pavilhão temporário de tsumikis gigantes na Tokyo Design Week, e crianças e adultos se esbaldaram. Mostrou que assim como os budistas acreditam que há um Deus no interior de todo ser humano, Kuma aposta que dentro de cada um de nós – por que não? — mora um arquiteto.

O tsumiki é um sambinha feito numa nota só da qual dá para se compor o que quiser. É também uma consequência do que Kuma mais gosta de fazer: juntar tradição e inovação. Pegar como base o lado mais clássico do Japão (o jogo original tinha ainda formas circulares, cúbicas, mas ele optou por usar só as triangulares) para enxugar as ideias e propor um jeito novo, lúdico, de construir a vida. Economia de espaço, materiais naturais, lirismo matemático. A beleza que é a simplicidade.

Tudo se encaixa.

Nos projetos arquitetônicos de Kuma, a madeira é tramada por experimentados artesãos, como um grande jogo de montar, formando estruturas de desenhos delicados, belos, que embalam os prédios, escondem/revelam a luz, deixam espaços vazios, proporcionam imagens poéticas como nuvens no céu. Caso da Sunny Hills, uma loja de bolos que Kuma projetou em Tóquio, casa pequena, que se tornou ponto turístico: as réguas finas de madeira, encaixadas em ângulo de 30 graus, dão um efeito de três dimensões. Um quê de conto de fadas.

É com essa filosofia tsumiki de enxergar o mundo que o arquiteto está chegando ao Brasil. Ele assina o projeto da Japan House, em São Paulo, um espaço previsto para inaugurar em 2017 e que pretende aprofundar as relações dos dois países nas artes, no business, e apresentar a contemporaneidade do Japão que nós, ocidentais, ainda pouco conhecemos (veja box). “O projeto tem de mostrar na sua arquitetura a essência da cultura japonesa e dialogar com a cultura brasileira”, Kuma explica. Criou uma estrutura de réguas de madeira trabalhadas por artesãos japoneses que conversa com uma parede de cobogós, os típicos elementos vazados da arquitetura brasileira modernista. A luz entra pelos espaços, formando desenhos, calma de templo em plena avenida Paulista.

“Vamos ter um jardim zen, com muito bambu, que é uma madeira tão japonesa e também tão brasileira”. Dentro do prédio de três andares, painéis deslizantes – chamados de fusumas – podem funcionar como paredes que se recolhem, abrindo espaços, ou fecham, dependendo da necessidade do momento. Afinal, esse é um projeto que nasce para celebrar a convivência.

Para acompanhar o andamento da obra, Kuma veio a São Paulo “umas seis, sete vezes”. Achou a cidade excitante, aberta a novas culturas, impressionou-se com o tamanho da imigração japonesa por aqui. Ele e sua equipe ensinaram artesãos brasileiros a trançar a madeira e, como sempre, Kuma se empolgou com a possibilidade de abrir o compasso, aprender algo novo. “Os brasileiros não têm uma cultura forte da hierarquia como nós, japoneses, e penso que evitar a hierarquia é muito importante, tento fazer isso no meu cotidiano”, ele diz. Trabalha com muitos jovens no seu escritório em Tóquio, o Kengo Kuma & Associates, uma equipe de mais de 40 pessoas. “Gente mais jovem me estimula demais”.

Ele criou um método de trabalho que chama de “humble method” (método da humildade). É o comedimento em ouvir o outro, trocar ideias, a cortesia oriental. Mas sobretudo é o comedimento na própria arquitetura – que ela deixe que a natureza fale. “A arquitetura deve ser uma moldura da natureza”, diz Kuma, que aprofundou mais ainda esse conceito depois de grandes acidentes naturais, como o tsunami e o terremoto no Japão. Não apenas usa os materiais naturais – argila, bambu, pedra, madeira – como busca integrar seus projetos aos lugares onde eles estão. Um estilo muito influenciado pelo amor ao seu ídolo de menino, o modernista Frank Lloyd Wright ( da arquitetura limpa integrada à natureza), e apurado pelo sentido de espaços vazios da arquitetura japonesa tradicional.

Quando criança, década de 1960, Kuma morava numa casa japonesa dos anos 1920, de madeira, com janelas e portas de papel, e morria de vergonha. “Meus amigos moravam em prédios de concreto, iguais aos americanos. Eu detestava a minha casa. Mas com o tempo fui percebendo que me sentia muito mais acolhido lá, que o concreto não me fazia sentir bem”. Quis trabalhar com isso, fazer casas, talvez. Mas o que definiu mesmo sua carreira foi entrar no Estádio Nacional de mãos dadas com o pai, nas Olimpíadas de Tóquio, em 1964. Tinha dez anos. E ficou de queixo caído com aquela imensa estrutura de concreto. Gostou mais ainda quando viu o arquiteto do estádio, Kenzo Tange, falando na TV. A Ásia vivia o boom da modernidade do concreto, grandes construções.

A vida vem em ondas como o mar e não é que Kuma foi escalado para projetar o estádio da segunda Olimpíada de Tóquio, em 2020? “Resolvi que vou criar o oposto: um estádio com muita madeira. Quero falar de harmonia, e a Ásia está voltada para a sustentabilidade, a criatividade, é outro momento”. Ele veio com a delegação japonesa assistir as Olimpíadas do Rio. “Achei tudo bonito”.

Como bom japonês, Kuma faz poesia ao mesmo tempo tão zen e tão high tech. No pavilhão do Buda, um templo em Touyoura, usou a mais moderna tecnologia do aço e o cobriu com barro, um deslumbre de leveza. Numa casa em Nagano, cortou as pedras externas em fatias finíssimas e criou ilusões com as luzes, um tipo diferente de transparência. Inventou uma casa de chá inflável no Museu de Artes Aplicadas de Frankfurt, tecnologia quase espacial combinada com ritual japonês. Fez prédios, museus na China, Inglaterra, França, está criando o projeto do museu V&A na cidade de Dundee, na Escócia, ganhou um sem número de prêmios. Tem um laboratório de pesquisas, o Kuma Lab, onde estuda sustentabilidade e novo uso de materiais.

A cada dia, diz, ele quer ser mais simples. “O arquiteto tem de ser um sushiman: fazer o máximo com o mínimo de elementos”. Tanto faz se em obras grandes ou pequenas, como ele cita num texto que escreveu comparando a arquitetura à literatura e citando seu escritor favorito, Haruki Murakami: “Murakami diz que escrever um conto ajuda a sintetizar e a buscar por algo que ele pode desenvolver num romance. Para mim, fazer uma casa de chá é como escrever um pequeno conto”. É ter aquele poder de síntese como numa canção bossa nova.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A falsa Marilyn Monroe e o verdadeiro Manhattan

Por Cristina Ramalho

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Em Quanto Mais Quente Melhor (1959), Marilyn Monroe improvisa um Manhattan durante a viagem de trem, com a bolsa de água quente como coqueteleira

O trabalho parecia moleza: botar uma peruca loira, fazer a pinta perto da boca, se apertar no vestido justo. Fani só precisava caprichar na vozinha rouca, tímida-sexy, levar o bolo até a casa do aniversariante, tocar a campainha e, quando ele abrisse a porta, a cereja do presente seria ela cantar, como a verdadeira Marilyn Monroe para John Kennedy, um sussurrante Happy birthday to you. Cachê: duzentos reais.

Quem teve a ideia foi a Adelita, namorada do aniversariante. Tinha essa fantasia: celebrar o aniversário do amado com uma surpresa hollywoodiana. Mas não se atreveria a ser a estrela – sempre de bege ou preto e branco, sempre a eficiente do escritório, com aquele rosto redondo, nariz de ursinho, não ia colar. Adelita achou o telefone de uma agência de telegramas animados. Ligou. Pediu uma Marilyn e um saxofonista.

– Então, além da Marilyn, eu quero um moço tocando o parabéns no sax. Uma cena de filme mesmo.

– Claro, querida. O sonho é seu, a gente realiza, respondeu a moça da agência.

Tudo certo. Manhã de sábado, Fani, apertada no vestido e tentando não entortar o salto do sapato um número menor, já se aprumava perto da porta. O moço do sax, terninho barato, ao lado. A namorada não se aguentava de ansiedade.

– Olha, eu vou me esconder atrás daquela árvore, ai, quero só espiar a cara de surpresa dele.

Fani achou graça. Queria ganhar prêmios no teatro, sabia de cor as peças do Antunes Filho, mas trabalho é trabalho. E bem que gostava da ideia de ser a Marilyn por 15 minutos. Era uma romântica. Achava da maior ternura fazer os telegramas animados e ver a reação das pessoas.

Tocou a campainha. Nada. Tocou de novo. Nada. Tensão no ar. A namorada começou a roer as unhas. “Toca outra vez”, sussurrou lá da árvore. Pééé. Péééé. Um sujeito meio gordo, descalço e só de cuecas, atendeu a porta. A cara dele não era boa. Fani arranhou a garganta, esticou o bolo em que se lia “Meu amor, my love, mon chéri”, e começou, sibilante: “Happy birthday to you…” O sax acompanhava.

– Mas que merda é essa? – disse o sujeito amassado de sono.  “Happy birthday, Mr. Taborda”, cantou a Marilyn, açúcar na voz. Então surgiram, por cima dos ombros do Taborda, as mãos de longas unhas vermelhas. Uma moça só de calcinha estava atrás dele. – O que foi, meu bem? , perguntou a das unhas.

– Te-le-gra-ma a-ni-ma-do da Adelita! – entoou a Marilyn a toda velocidade. O moço do sax, antevendo a tragédia, foi saindo, pé ante pé, a música soando cada vez mais longe. Adelita saiu chorando detrás da árvore.

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Marilyn, the real one, cantando Happy Birthday para o presidente americano John F. Kennedy em 1962

– Que que é isso, Adelita? gritou o Taborda. Fani deixou o bolo no chão e abriu caminho. Adelita avançou: “Seu canalha! Preparo a maior surpresa para você e você tá com outra”!

Fani pensou rápido e esticou as mãos: – São duzentos reais. O Taborda gritava cada vez mais alto. Adelita tentou pegar a só-de-calcinha pelos cabelos. Não se ouvia mais a música. O sujeito do sax já tinha desaparecido.

– São duzentos reais, insistia a Marilyn, que a essa altura já tinha arrancado os sapatos e só pensava em correr dali. Mas não ia perder os duzentinhos. Um gritava daqui, outra berrava mais alto, Adelita soluçava, Fani aproveitou o momento de fraqueza, ajudou a coitada da namorada abrir a bolsa, pegou seus duzentos, mais cem para o cara do sax, e se mandou.

Já que estava de Marilyn, que terminasse o dia com elegância cinematográfica. Calçou os sapatos de novo, foi até o bar de um hotel bacana ali perto, realizou um desejo: pediu um Manhattan. Era a bebida que a Marilyn Monroe, no papel de Sugar, improvisou no trem em Quanto Mais Quente Melhor, na cena em que o Jack Lemmon vestido de mulher aparecia com uma garrafa de bourbon. Fani não era Marilyn, Jack não era mulher, o Taborda não era o homem que Adelita imaginava. Mas o Manhattan, bem real, estava uma delícia.

Picapau e o Bombeirinho

Por Cris Ramalho

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– Mas por que eu?

– Meu bem, você é a única que cabe nessa roupa. E adora crianças.

Clara olhava desolada para a fantasia de Picapau sobre a cadeira. O inferno era a cabeça – um imenso cabeção de feltro, pesado, quente como o diabo, com penas vermelhas, medonho de feio. Os olhos eram também de feltro, grudados na cara. Para enxergar lá de dentro Clara tinha de olhar pelo bico. O restante do figurino não colaborava: um macacãozinho bem curto, azulão, com rabo de penas, meia calça e sapatilhas no mesmo tom.

Essa história aconteceu há um tempo. No tempo em que existia o videocassete e, consequentemente, as videolocadoras. O dono de uma delas achou que seria legal ter o Picapau na porta da loja, acenando para a garotada. Sobrou para a Clara: pequenininha, tipo mignon, ela era de fato a única adulta que entraria naquela fantasia. Também era verdade que adorava crianças. E foi pensando em ganhar um troco para ajudar a pagar a faculdade de Pedagogia que topou pagar esse mico. Três horas em pé, num calor de rachar a moringa, sustentando o peso do mundo no cabeção de feltro e dando tchauzinho.

O lado bom era o anonimato da coisa: ninguém a reconheceria por baixo do bico. Foi o que ela pensou enquanto acenava com a luva azul. A maioria das crianças nem respondia. Uns puxavam as penas da cauda. Os menorzinhos choravam alto, mães dizendo: “Não, querido, é só um pássaro bobo”.

A única que prestou atenção apontou para uma mancha na barriga do boneco, e berrou: — Mãeeee, a barriga do Picapau tá suja!

Firme, Clara. Já houve dias piores: aquele aniversário que a mãe de três meninos largou o menorzinho no seu colo, a fralda imunda, e sobrou para você trocar o cagão. E a viagem de Kombi até Campinas? Você e os rapazes vestidos de Jaspion e Changeman prontos para animar a festa num condomínio. A Kombi quebrou na estrada e vocês começaram a empurrá-la, na chuva, enquanto os caminhoneiros que passavam, gritavam, rindo: “Aí, Jaspion, força! Vai nessa, Changeman!”. Esse Picapau tava moleza.

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Mico: um dia vai chegar a sua vez de pagar

Assim meditando sobre as escolhas da vida, Clara aproveitou um momento de pouco movimento e sentou-se na muretinha em frente à loja. Cruzou as pernas azuis. Passou uma caminhonete de onde um sujeito suado, camiseta regata, anunciou em altos brados: “Ééé, Picapau, eu te conheço. Você é gostosinha”.

Pelo amor de Deus! Quanto tempo faltava para acabar aquela tortura? Que calor. Clara se recompôs, acenou, posou para fotos com crianças. Sentou de novo. Não conseguia saber as horas, mas devia faltar pouco. Foi então que um garoto de bicicleta, carregando uma sacola de laranjas, parou bem na frente dela. Enfiou duas laranjas com força bico adentro: “Come, Picapau, come!” – e se mandou.

Nem deu tempo de entender. Clara sentiu o golpe das duas laranjas bem nos olhos. Começou a chorar baixinho dentro do cabeção de feltro.  (“Nunca mais! Nunca mais!”)

Quando a tardinha caiu, o amigo foi buscá-la, como o combinado. Clara entrou no carro, arrancou o cabeção, espiou no espelho: dois roxos ao redor dos olhos. Ele quis saber o que tinha acontecido, ela só falou enfurecida, entre dentes: “Eu quero ir para um bar. Quero beber até cair”. Ela sempre tão certinha, que novidade era aquela?

Nem aceitou passar em casa para trocar de roupa. Quis parar num boteco de esquina, bem fuleiro. Sentou junto do balcão, vestida com o macacãozinho azul e com o cabeção nas mãos, como se fosse um capacete de motoqueiro. Viu um homem pedir uma pinga, e o moço do balcão completar com groselha. “É isso que eu quero”.
O amigo advertiu: “Isso aí é Bombeirinho, Clara, é forte para caramba”.  “Mais uma razão. Manda um, moço!”.Tomou um. Arrgh! Mas a groselha tinha um docinho bom. Tomou outro. “Vê lá, hein, Clara”.  E um terceiro. Ficou incontrolável.
A raiva pela humilhação, o calor, a dor do soco das laranjas, Clara ia se lembrando e bebendo mais. Vestiu o cabeção de Picapau, saiu trançando as pernas, e dava para ouvir debaixo de todo aquele feltro as gargalhadas abafadas dela. Clara agora era um Picapau bêbado, rindo sem parar e sambando na frente do bar.
Um bebum que assistia à cena pediu no balcão: “Eu quero aquela água que o passarinho bebeu, hahaha!”. Outro bêbado apoiado na parede, bem quieto, olhava fixo para aquele Picapau dançarino até concluir, muito sério, mas traído pela voz pastosa: “Eu acho isso normal”.

À mesa com Willem Dafoe

 

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Por Cristina Ramalho

 

Uma vez o diretor grego Theo Angelopoulos estava instruindo o ator americano Willem Dafoe como queria que ele fizesse uma cena. Angelopoulos não falava inglês, mas os dois se entendiam em italiano. Era a filmagem da Trilogia II: A poeira do tempo, 2008.

O grego sério, um tipo careca, de óculos, nariz talhado, caminhava de lá para cá, explicando:

_ Você vem por aqui, e daí faz assim, e cosí… Então sentou-se, olhou firme para o ator e soltou, enérgico, uma única frase em inglês:

_ And then … You cry!

Chorar? Dafoe não achava que era preciso, mas tudo bem, se era a vontade do diretor, assim seria. O grego insistia nisso.

Então veio o pior. Angelopoulos bateu palmas e gritou para a equipe:

_ Saiam todos! Dez minutos para o ator se concentrar!

Dafoe gelou. Já se sentia pronto para rodar, era o momento certo, que fizessem a cena logo. E agora?

_ Theo, volta aqui, volta todo mundo!

O ator contou essa história, imitando os gestos e o sotacão grego do homem, num encontro com estudantes de cinema da The Modern School Film, em Nova Iorque. “Aquilo me botou uma pressão, eu não queria nada, só queria filmar”, falou, expressão perplexa. Para quê complicar?

Repetiu tudo isso, rindo, nesta conversa com o Valor, a pedidos da repórter. Estávamos jantando no restaurante Skye, no hotel Unique, em São Paulo, na véspera de sua entrevista coletiva para apresentar Meu amigo hindu, que estreou ontem, 3 de março, filme estrelado por ele e dirigido por Hector Babenco.

Tanto para os alunos lá em Nova Iorque quanto diante do couvert, agora, Dafoe quis demonstrar que atuar, para ele, é simplesmente mergulhar na cena e seguir em frente. Porque Willem Dafoe, 60 anos, mais de 40 de carreira nos palcos, 108 filmes, papéis que vão do Duende Verde do Homem Aranha ao inesquecível sargento Elias de Platoon, do psicanalista no tenso Anticristo de Lars von Triers ao próprio Cristo de Scorsese e o Pasolini de Abel Ferrara, gosta mesmo de desaparecer. Livrar-se da tentação de analisar. Ser como uma tela em branco, e que o diretor tire dele o melhor.

_ Não fico pensando se meu estilo é esse ou aquele, é preciso fazer e pronto, a coisa tem de acontecer de um jeito ou de outro.

Dafoe não teoriza.

_ Não lembro qual escritor noir disse isso, mas é mais ou menos assim: quando você está desorientado, sem saber como continuar, tenha um cara com uma arma na mão abrindo a porta.

A frase real é de Raymond Chandler (“When in doubt, have a man come through a door with a gun in his hand”).

As histórias, o jeito despachado que ele conta, sua adesão natural ao momento. Uma simplicidade que em Willem Dafoe parece ser sua forma de enxergar a vida. O diretor quis desse jeito? Ok, o filme é dele. É para dar entrevista? Então o ator chega na hora, é gentil, aceita sentar mais para lá para o fotógrafo acertar a luz. Fãs no restaurante querem fotos? Pois não. Trata todo mundo bem, faz piada com sua pouca altura – sim, Dafoe é baixinho – e volta rápido para a mesa, focado para a conversa. Só pede, com delicadeza, para trocar de lugar por causa do forte ar condicionado. A hostess do Skye propõe desligar o aparelho. Tudo certo.

Ele está um pouco gripado e quer apenas água sem gás e, por enquanto, uma sopa de legumes de entrada. A assessora de imprensa, Claudia Sabbagk, também vai de sopa e escolhe um refrigerante. Mais águas, ceviche e polvo provençal como entradas para repórter e fotógrafo. De vez em quando, o garçom passa com uma cesta de pãezinhos quentes para abastecer o couvert. Dafoe pega um pãozinho multigrãos. Faz um barulho danado no restaurante, já está cheio, então estamos sentados bem pertinho um do outro para podermos conversar.

Antes da primeira pergunta, ele quer saber o que esta repórter achou do filme. Resposta: “A brincadeira é assim: quem faz as perguntas sou eu, você responde”. Ele ri.

O filme conta uma história inspirada no próprio Babenco: a do cineasta Diego Fairman, homem que descobre um linfoma e tem de lidar com a morte à espreita e a vida depois disso. Dafoe foi compondo sua atuação como muitas vezes costuma fazer: a partir da transformação física do personagem. Ele, que já é magro, vegetariano, e pratica yoga ashtanga há anos, teve de virar quase um faquir para perder 9 quilos.

_ Reduzi muito as porções, cortei o álcool, raspei a cabeça, as cenas foram em boa parte num hospital. Tudo isso vai ajudando a entrar no personagem, ele vai tomando conta.

_ Achou mais difícil interpretar um personagem inspirado em alguém que não apenas é real e está vivo, mas aqui, no caso, foi o seu chefe?

_ Não, isso não influenciou. Babenco tinha muito claro o que pretendia, mas de vez em quando queria que eu criasse o “meu” Diego. Na verdade palpitei muito pouco, e nem sempre acertava (risos). Por exemplo, nas provas de roupas. Ele nunca concordava com o que eu escolhia, dizia “Jamais eu usaria isso se fosse o Diego”. E escolhia outra. Tudo bem, não sou ligado em roupas, o Babenco entende, é todo elegante, presta atenção no que a gente veste — fala, meio gozador, sobre o cineasta, de quem é amigo há anos.

Já o cenário o ator conhecia bem: de pequeno, meio a contragosto, Dafoe ia seguindo o pai médico no trabalho pelos corredores do hospital e assistindo suturas, vendo injeções, observando pacientes. O que não estava previsto é que, uma semana depois de começar as filmagens aqui no Brasil, o ator receberia a notícia que seu pai havia morrido. _Ele estava bem velho, 97 anos, era natural que isso fosse acontecer logo. Mas realmente me afetou, e de alguma forma influenciou no meu trabalho. Meu pai era um homem muito esforçado e foi ficando mais doce com o tempo, sabe? Nossa relação foi ficando outra.

Três anos antes, sua mãe tinha falecido aos 90. Estavam morando na Flórida.

Os Dafoe eram uma típica família da pequena Appleton, Wisconsin, na América dourada dos anos 1950, com jantar farto à mesa, filhos educados, a felicidade tinindo nos eletrodomésticos, móveis de pés palito e firmes valores de vida. Quer dizer, sua biografia era para ter sido assim. Só que o pai, William, e a mãe, Muriel, enfermeira, trabalhavam juntos e nunca estavam em casa.

_Éramos oito filhos, cada um tinha um horário, a gente não conseguia jantar todos juntos e aquele roteiro idealizado pelo meu pai não deu muito certo.

Ele teve sorte: foi o sétimo da prole, quando Dr. Dafoe já não tinha tempo e paciência para ser rígido como foi com o primogênito, que não escapou de ser médico também. O pequeno Willem cresceu mimado por cinco irmãs, e elas lhe ensinaram umas coisas fundamentais da vida: corriam pela casa com um pênis desenhado em papelão pregado na calcinha e contavam piadas sujas.

Família classe média, trabalhadora, liberal, falava-se de tudo, e de política (“Wisconsin era um estado engajado, Milwaukee tinha sindicatos fortes, era bem socialista”, diz), mas para arrumar sua própria turma Dafoe começou a fazer teatro aos 17 anos. Gostou, e aos 18 entrou na faculdade de teatro Wisconsin, em Milwaukee. “Nem escreve isso, porque ninguém nunca ouviu falar”, ele brinca. Não terminou. Foi para a Europa em turnê com o grupo de vanguarda Theatre X, de Milwaukee. Na volta, se mandou para Nova Iorque.

Chegou numa cidade em ebulição, meados da década de 1970, quando era só dar uma voltinha no quarteirão e esbarrar com o Scorsese dirigindo De Niro e Harvey Keitel em Caminhos Perigosos, ou caminhar até a Factory de Andy Warhol para espiar a turma que circulava por lá: Truman Capote, Nico, Velvet Underground. Era uma Nova Iorque violenta, mas falava-se sobre arte conceitual, Philip Glass, John Cage, dança contemporânea, os aluguéis eram possíveis, bastava raspar o reboco de algum armazém para brotar um estúdio. Qualquer tema servia de estímulo para se fazer o que desse na telha. E o que aquela galera colorida que chegava de todos os lugares do país e do mundo menos precisava era de estímulo.

_ Eu tinha uma visão romântica de Nova Iorque, não gostei logo de cara. Fiquei sacudido com o que vi, era muita energia, as pessoas viviam cada dia como se fosse o último da vida delas. Aprendi um bocado.

Mais tarde sofreria com a perda de vários amigos que morreriam de Aids durante os anos 1980 e 90.

Mas com 20 anos, em 1975, um Dafoe cheio de ideias frescas era o mais jovem dos fundadores do The Wooster Group, dirigido por Elizabeth LeCompte, com quem ele acabaria se casando. O grupo, que ocupou um antigo armazém no SoHo também usado pelo pessoal do Fluxus (famoso movimento de arte que teve nomes como Yoko Ono, Joseph Buys e Nam June Paik), existe até hoje, e atualmente usa bastante tecnologia na linguagem. “É interessante, mas não é muito meu estilo”. Dafoe saiu de lá em 2005, mesmo ano em que conheceu, em Roma, sua atual mulher, a cineasta italiana Giada Colagrande.

_ Trabalhar numa companhia de teatro tão experimental e por 30 anos foi incrível, mas também limitador porque a gente tem de se dedicar tanto a ela que não há tempo para fazer outros espetáculos.

O fato de atuar nesse esquema explica seu jeito topa-tudo. Companhia teatral é sinônimo de trabalho artesanal, coletivo, ou seja, botar a mão na massa, de um toquezinho na iluminação à martelada no prego. Até Jack, seu único filho, hoje com 32 anos, cresceu nas coxias mas também entrou no palco, fez de tudo ao lado de pai e mãe.

_Acho que ele ficou cheio disso, porque virou advogado.

_ Como você é como pai?

_ Como uma mãe, hahaha! Sabe o que é, a mãe dele sempre foi workaholic demais.

As performances do Wooster sempre se misturaram com dança, e os atores se relacionavam com grandes mestres da dança contemporânea, como Merce Cunningham, Martha Graham, Pina Bausch. Dafoe se considera um dançarino, um pouco pelas piruetas no palco, e muito pelo conceito de atuação quase orgânico, de se colocar no próprio espaço e não refletir mais. Apenas seguir no ritmo.

_ Quando faço um espetáculo, termino a sessão com a sensação boa, aquele cansaço do dever cumprido. É como arar a terra, um trabalho físico, concreto, que se completa ali, na hora.

Surge o garçom, discreto, cardápio nas mãos. Quer saber o que vamos pedir como pratos. Decidimos repetir as entradas. Willem pede o polvo provençal com batata rústica, todos (com exceção da assessora, que pede um prato principal, o filet mignon ao molho de foie gras) acompanham, o garçom sugere uma porção dupla para cada um, os pratos são pequeninos. Que venham os polvos duplos.

No cinema ele começou no desastre de crítica e bilheteria que foi o filme O Portal do Paraíso (1981), de Michael Cimino. Desastre pessoal para Dafoe também, porque ele riu alto de uma piada durante o ajuste de iluminação, Cimino não achou a menor graça e lascou um “está demitido”. Cinco anos e uns filmes depois, ele se tornaria um astro ao fazer o sensível Sgto. Elias de Platoon (1986), de Oliver Stone. Não parou mais.

_ Faço grandes filmes, desses que dão bilheteria, para chamar a atenção para meus filmes pequenos.

Com aquela voz grave, o rosto fora do padrão hollywoodiano e o gosto por se atirar sem olhar, logo ganhou o coração dos cineastas mais autorais, mais doidos, mais intensos. Abel Ferrara (“Pasolini foi um filme sem script, intenso, criativo”), Lars von Triers (“Adoro o Lars, a gente se entende muito bem, e ele gosta de mudar constantemente”), Martin Scorsese, Wes Anderson, Spike Lee…

No teatro, fez espetáculos com outro gênio denso, Bob Wilson (“Já o Bob mantém sempre o mesmo estilo”), como a ópera experimental Vida e Morte de Marina Abramovic, em que ele, maquiado e de cabelos vermelhos, canta e faz diversos papéis ao lado da artista rainha da performance, numa visão poética sobre a vida dela. Ou a peça A Velha, ao lado de Mikhail Baryshinikov, montada em São Paulo em 2014. Foi durante essa turnê paulistana que sentou com Babenco, checou a agenda e topou fazer Meu amigo hindu.

Dafoe trabalha muito. Tem cinco filmes prontos para estrear em breve. Está fazendo mais um – projeto ainda em segredo – com sua mulher. Conheceram-se na rua, em Roma, apresentados por amigos comuns. Um dia, no impulso, ele a pediu em casamento durante o almoço, ela disse sim, ligaram para a Prefeitura e ouviram que, se chegassem em até duas horas, poderiam marcar o casório para o dia seguinte. Correram para lá e estão há quase 11 anos juntos. Escreveram o filme Before it had a name (Antes tinha um nome), drama romântico que Giada dirigiu e ambos atuaram sobre uma jovem italiana que vai a Nova Iorque. O filme abriu o Festival de Veneza de 2005 e foi relançado em DVD com o título The Black Widow (A viúva negra). “Ajudei no roteiro porque na época minha mulher não escrevia bem em inglês, mas não gosto de escrever. Não tenho o que dizer, porque quando penso uma história ela já se completa na minha cabeça, não vejo porquê contar”.

Giada é 20 anos mais jovem que ele e adora o Brasil (para onde já vieram algumas vezes) – mas não pôde vir dessa vez. Quando pequena, sua casa vivia cheia de artistas, amigos da mãe dela, que tocavam e cantavam bossa nova, uma alegria com cara de verão que ficou na sua memória. A italiana ainda busca patrocínio para um filme que pretende rodar em breve no Brasil, chamado Trópico.

O casal passou o réveillon retrasado no Rio com Seu Jorge, amigo chegado de Dafoe desde que eles fizeram o filme A vida marinha com Steve Zissou (2004). “Adoro a sogra dele, a mãe da Mariana, ela é cool, você conhece? “

O garçom retira os pratos. Sobremesa? Dafoe dispensa. “Não sou de doces”. Pede um chá, acompanhando a assessora. Creme brulée de milho com pipoca com chocolate e cheese cake de limão siciliano com sorvete de tangerina para repórter e fotógrafo. Falamos de comida, sabores preferidos, ele diz que gosta de cozinhar de vez em quando, de cuidar da casa, lavar a louça.

_ Gosto de fazer essas coisas simples, acho que ajudam a gente a meditar.

Hoje, vivendo mais em Roma do que em Nova Iorque, sai a pé para comprar umas coisas nas mercearias ao redor do seu pedaço, a Piazza Vittorio. Adora caminhar pelas cidades. Já Los Angeles não é a sua praia.

_ Vou, vejo meus amigos, é legal, mas Hollywood não tem a ver comigo. Em Nova Iorque posso ligar para um amigo e falar “vamos tomar um drinque” e ele vai. Em Los Angeles tenho de marcar com antecedência, o cara vai checar a agenda com os assessores, tudo é complicado.

O jantar está chegando ao fim, pedimos a conta. Dafoe confessa que às vezes acha que devia se calar e nunca mais dar entrevistas. Por quê? “Não me acho tão articulado, e também já me senti traído às vezes”. Será que tem recado aí, terá a repórter perguntado algo que não devia? “Não, não, é um receio meu. Acho melhor as pessoas não saberem de tudo. Assistir a um filme sem saber se aquele ator é rico, ou pobre, ou hetero ou gay. Se eu ler numa entrevista, por exemplo, que um ator gosta do Donald Trump, não quero mais ver nenhum filme dele”. E dá risada.

_ Mas você se expressa de tantas formas, não pensa em dirigir um filme?

_ De jeito nenhum. Quero estar no meio da brincadeira, não quero ficar olhando como os outros estão brincando. A verdade é que no fim das contas não importa a carreira que a gente escolhe, o mais importante são as pessoas para mim. Trabalhar com gente, é disso que eu mais gosto.

Ele se despede com um abraço afetuoso. Chegou há um dia, na manhã seguinte tem coletiva, fotos, todo o ritual de astro que parece não combinar com esse sujeito que diz, de alma sossegada, “Nunca sou a primeira escolha para os papéis, e tudo bem”. Mas o ator vai encarar papel real inédito agora: acaba de ser avô. “O bebê se chama Tom”, conta, e abre um sorriso de quem está num momento certo da vida. É só seguir em frente. Para quê complicar?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A falsa Marilyn Monroe e o verdadeiro Manhattan

Por Cristina Ramalho

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Em Quanto Mais Quente Melhor (1959), Marilyn Monroe improvisa um Manhattan durante a viagem de trem, com a bolsa de água quente como coqueteleira

O trabalho parecia moleza: botar uma peruca loira, fazer a pinta perto da boca, se apertar no vestido justo. Fani só precisava caprichar na vozinha rouca, tímida-sexy, levar o bolo até a casa do aniversariante, tocar a campainha e, quando ele abrisse a porta, a cereja do presente seria ela cantar, como a verdadeira Marilyn Monroe para John Kennedy, um sussurrante Happy birthday to you. Cachê: duzentos reais.

Quem teve a ideia foi a Adelita, namorada do aniversariante. Tinha essa fantasia: celebrar o aniversário do amado com uma surpresa hollywoodiana. Mas não se atreveria a ser a estrela – sempre de bege ou preto e branco, sempre a eficiente do escritório, com aquele rosto redondo, nariz de ursinho, não ia colar. Adelita achou o telefone de uma agência de telegramas animados. Ligou. Pediu uma Marilyn e um saxofonista.

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O Manhattan servido no restaurante português A Bela Sintra, em São Paulo

– Então, além da Marilyn, eu quero um moço tocando o parabéns no sax. Uma cena de filme mesmo.

– Claro, querida. O sonho é seu, a gente realiza, respondeu a moça da agência.

Tudo certo. Manhã de sábado, Fani, apertada no vestido e tentando não entortar o salto do sapato um número menor, já se aprumava perto da porta. O moço do sax, terninho barato, ao lado. A namorada não se aguentava de ansiedade.

– Olha, eu vou me esconder atrás daquela árvore, ai, quero só espiar a cara de surpresa dele.

Fani achou graça. Queria ganhar prêmios no teatro, sabia de cor as peças do Antunes Filho, mas trabalho é trabalho. E bem que gostava da ideia de ser a Marilyn por 15 minutos. Era uma romântica. Achava da maior ternura fazer os telegramas animados e ver a reação das pessoas.

Tocou a campainha. Nada. Tocou de novo. Nada. Tensão no ar. A namorada começou a roer as unhas. “Toca outra vez”, sussurrou lá da árvore. Pééé. Péééé. Um sujeito meio gordo, descalço e só de cuecas, atendeu a porta. A cara dele não era boa. Fani arranhou a garganta, esticou o bolo em que se lia “Meu amor, my love, mon chéri”, e começou, sibilante: “Happy birthday to you…” O sax acompanhava.

– Mas que merda é essa? – disse o sujeito amassado de sono.  “Happy birthday, Mr. Taborda”, cantou a Marilyn, açúcar na voz. Então surgiram, por cima dos ombros do Taborda, as mãos de longas unhas vermelhas. Uma moça só de calcinha estava atrás dele. – O que foi, meu bem? , perguntou a das unhas.

– Te-le-gra-ma a-ni-ma-do da Adelita! – entoou a Marilyn a toda velocidade. O moço do sax, antevendo a tragédia, foi saindo, pé ante pé, a música soando cada vez mais longe. Adelita saiu chorando detrás da árvore.

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Marilyn, the real one, cantando Happy Birthday para o presidente americano John F. Kennedy em 1962

– Que que é isso, Adelita? gritou o Taborda. Fani deixou o bolo no chão e abriu caminho. Adelita avançou: “Seu canalha! Preparo a maior surpresa para você e você tá com outra”!

Fani pensou rápido e esticou as mãos: – São duzentos reais. O Taborda gritava cada vez mais alto. Adelita tentou pegar a só-de-calcinha pelos cabelos. Não se ouvia mais a música. O sujeito do sax já tinha desaparecido.

– São duzentos reais, insistia a Marilyn, que a essa altura já tinha arrancado os sapatos e só pensava em correr dali. Mas não ia perder os duzentinhos. Um gritava daqui, outra berrava mais alto, Adelita soluçava, Fani aproveitou o momento de fraqueza, ajudou a coitada da namorada abrir a bolsa, pegou seus duzentos, mais cem para o cara do sax, e se mandou.

Já que estava de Marilyn, que terminasse o dia com elegância cinematográfica. Calçou os sapatos de novo, foi até o bar de um hotel bacana ali perto, realizou um desejo: pediu um Manhattan. Era a bebida que a Marilyn Monroe, no papel de Sugar, improvisou no trem em Quanto Mais Quente Melhor, na cena em que o Jack Lemmon vestido de mulher aparecia com uma garrafa de bourbon. Fani não era Marilyn, Jack não era mulher, o Taborda não era o homem que Adelita imaginava. Mas o Manhattan, bem real, estava uma delícia.

O WIT DE ARACY DE ALMEIDA

A genial Aracy de Almeida voltou às bocas com o livro de Eduardo Logullo, contando suas melhores histórias. Quase todas vividas diante de uma cervejinha preta. Ou de muitas outras bebidas…

Por Cristina Ramalho

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“Vai levar 10 mangos pela cara de pau”

Os que já passaram dos 40 lembram dela como a jurada implacável do Programa de Calouros do Silvio Santos, roupas absurdas, óculos gigantes de mãe complexa. Sujeito que desafinasse ela não perdoava. E tinha cacife para isso: a cantora Aracy nunca desafinou nos inúmeros sambas que gravou, um repertório repleto de Noel Rosa, claro, e de tantos outros grandes: Ary Barroso, Custódio Mesquita, Ismael Silva, Ciro de Souza. Paulinho da Viola diz que ela era a melhor cantora do Brasil.
Quando o calouro não escorregava nas notas, e sim na imagem, a jurada também não perdoava, mesmo que desse boa nota: “Esse rapaz, um rapaz bonito! Canta bem. Meu filho, eu vou te pedir um favor: troca de calças, tá bom? Tão largas demais. Tá tudo badalando”. Diante de uma candidata que não acertava uma e era dona de uma bunda descomunal, soltou essa: “Tu não canta nada, minha filha. Mas vai levar 500 pratas pelo calibre da jaca”.

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Propaganda de 1940 da cerveja Cascatinha, a preferida de Noel Rosa, parceiro de Aracy em muitas esbórnias pelas tabernas do Rio

Ela própria tinha outro trunfo além da voz afinadíssima: os peitos mais bonitos do Rio, eleitos nos dourados anos 1950, segundo relatos verídicos. Mas Aracy nem precisava levantar a blusa para embasbacar qualquer pessoa: bastava falar com aquela voz anasalada, as gírias inacreditáveis (“O mingau anda grosso”; “Eu tô nas bocas”), as tiradas certeiras, uma Dorothy Parker tropical. Enquanto Dorothy soltava o wit lá na mesa redonda do hotel Algonquin, cercada pela fina flor dos escritores, nossa Aracy fazia o mesmo, com mais verve ainda e em companhias desse naipe para cima: Noel, Ary, Mario de Andrade, Antônio Maria, Sergio Porto, Ataulfo Alves. Papo regado a cervejas pretas. De preferência na mesa da Taberna da Glória, que tinha um contrafilé com fritas sensacional. Ela e Noel também amavam a cerveja Cascatinha, um clássico dos anos 1930. Logo se entenderam: ele amou sua voz e compôs sambas divinos para ela; ela sacou de cara a personalidade do amigo: “Ele não era um monstro, mas o queixo dele era meio fajuto, sabe?, então era tímido”.

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Aracy jovenzinha, ensaiando os sambas de Noel

Era uma vida animada. Para Wilson Batista, ela contou a história de Amélia, uma mulher que existiu de fato, Ataulfo Alves ouviu, e nasceu assim “Amélia é que era mulher de verdade”, de Mario Lago e Ataulfo; um dia Kid Pepe encostou uma faca enorme na barriga de Aracy para ela gravar sua música “O que tem Iaiá”. “Eu gravei, compadre, com a faca na barriga e tudo”. Na boate Vogue, Aracy saiu no tapa com a amiga Linda Batista (“A gente entornava um pouco. E aquilo de bêbado não tem dono, sabe?”). Carmen Miranda, assim que chegava ao Rio, telefonava para Aracy para aprender gírias novas. Várias dessas histórias estão compiladas no delicioso livro Aracy de Almeida Não Tem Tradução, de Eduardo Logullo. Outras tantas, bem, basta citar o nome dela que alguém lembra de alguma ainda não contada.

Hoje “a madrugada não tá dando pedal”, e Aracy não está mais nas bocas. Morreu em 1988, aos 73 anos. Já mais velha, quando deixou de tomar a “bomba” (cachaça com limão), esqueceu o passado e deixou a sábia lição que registramos aqui para os amantes do Dringue: “Eu tinha uma coisa: eu bebia, mas o fino. Só tomava uísque escocês, vinho estrangeiro, aquelas coisas… e champanhe. Foi no tempo do Ibrahim Sued, que inventou aquele negócio de champanhota. Fui muito grã-fina”.

 

À MESA COM ANDY SUMMERS

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Por Cristina Ramalho

Por trás daquela cara de inglês típico do guitarrista Andy Summers se esconde uma alma carioca da fase dourada do Rio, ali pelo início dos anos 60. Não é só porque ele gravou o DVD United Kingdom of Ipanema com Roberto Menescal, ou porque compôs uma bossa nova nos seus tempos do Police que virou hit, Roxanne. Desde o dia em 1959 quando, aos 17 anos, Summers assistiu Orfeu do Carnaval no cinema de Bournemouth, cidade onde cresceu, a música brasileira abriu um sol no coração do inglês. “Luiz Bonfá, Tom Jobim”, ele repete, sotaque britânico, os autores da trilha do filme. As canções, a história, aquele país exótico chamado Brasil, tudo era sua praia.

Summers era um garoto de gostos modernos como eram aqueles rapazes mais velhos de Ipanema que estavam lançando uma música com tanto charme, tanto suingue. Poderia ter sido amigo de Tom, Bôscoli, do próprio Menescal, do Vinícius, e tomar umas no Jangadeiro, acenar para a Nara Leão, ouvir um som no Beco das Garrafas. Assunto não iria faltar. Falariam das mesmas coisas que ele adorava: o jazz, o cinema europeu, os retratos em preto e branco, o interesse por poesia e artes plásticas, e, claro, umas garotas. Com Tom Jobim, o bate-papo de chope na mão seria sobre um ídolo em comum: Villa-Lobos. “Toco Villa-Lobos sempre, posso tocar todos os dias”, Summers diz.

Mas o jovem inglês não veio para Ipanema. Atravessou o mar para ancorar em outras praias: as da Califórnia. Estudou música em Los Angeles, formou-se na California State University na década de 1970, e aliás é na Califórnia que vive hoje. O que ele ainda não sabia é que o amor por Villa-Lobos e pela bossa nova seria responsável por um dos encontros fundamentais da sua vida. Foi sobre o compositor brasileiro que Summers conversou, em Londres, no dia em que conheceu outro músico inglês e descobriu uma alma gêmea musical: o baixista Sting.

“Sting amava Villa-Lobos, assim que a gente se conheceu fomos tocando a música dele, de Bach, e jazz, e falamos de bossa nova, um olhava para o outro e yeah!, imediatamente tivemos uma conexão. Sabe, é essa a razão do sucesso do Police: nós três (eles e o baterista norte americano Stewart Copeland) tínhamos muito conhecimento musical, sabíamos de música clássica, viemos de outras bandas, era um outro background. Somos músicos, não apenas roqueiros”, Summers explica nesse almoço com a reportagem do Valor, no elegante restaurante Piselli, nos Jardins, horas antes de ele embarcar para Belo Horizonte, última cidade da turnê que vinha fazendo com o baixista Rodrigo Santos, do Barão Vermelho, um dos seus muitos amigos brasileiros.

Já estava animado de rever a amiga Fernanda Takai (com quem fez o álbum Fundamental, em 2012), ouvir Milton Nascimento e visitar Inhotim. “Levei um bom tempo para entender Minas Gerais, é tão diferente do Rio”, ele diz, totalmente em casa no nosso país tropical. Mais de 50 anos depois daquela tarde vendo o Orfeu do Carnaval, Summers é hoje um cidadão half Brazilian, vem para cá quase todos os anos, tocou com o Gil, escutou samba de Noel Rosa, acha o som do Pixinguinha “uma alegria”. Só falta aprender português e batucar um sambinha na caixa de fósforo.

Pouco antes do almoço, enquanto esperávamos na mesinha junto ao bar, a assessora de imprensa havia advertido que ele não queria falar sobre o The Police, a banda que durou apenas seis anos, de 1978 até 1984, vendeu mais de 50 milhões de discos e foi responsável por trazer arranjos inovadores, sofisticados, um toque de improviso jazzístico e de frescor para o rock inglês, então dominado pela cena punk. E pelas canções que boa parte do mundo sabe de cor: Every breath you take, Every little thing she does is magic, De Do Do Do De Da Da Da, e muitas, muitas outras. O tema só foi entrar na conversa depois da sobremesa, na hora do cafezinho. Summers tomava um cappuccino enquanto contava sobre suas influências, de quais artistas ele gostava quando jovem, e, bem, como não falar do Police? “Sting, Stewart, eu, nós realmente criamos um som muito especial, bordamos a música com texturas, como uma tapeçaria”, explica, trançando as mãos para reforçar o toque poético. “Começamos como punks mais por causa de Stewart e porque naquela época, em Londres, todo mundo tinha de ser punk”.

Mais detalhes sobre a vida de rock star Summers deixa para quem quiser ler a sua autobiografia, One Train Later, lançada em 2006 (o título se refere a “o encontro” que realmente mudou sua trajetória para sempre: no trem em que conheceu Stewart Copeland), e agora traduzida para o português, em edição da Ed. Neutra. Ele participou há pouco de uma tarde de autógrafos do livro na Livraria da Travessa, no Leblon. Com prefácio de The Edge, do U2, é uma história prá lá de intensa, e ser um dos maiores guitarristas do mundo é só um pedaço dela. Já começa quente: a mãe de Summers era uma cigana bonita chamada Red que trabalhava em uma fábrica de bombas durante a guerra. O pai, da Força Aérea. Andy Summers nasceu num trailer no acampamento cigano, em frente uma mulher com as mãos cobertas de anéis prevendo seu futuro no tarô enquanto ele dava a primeira mamada.

Do livro, naturalmente, saiu um filme: o documentário Can`t Stand Losing You: Surviving The Police, de 2012, dirigido pelo americano Andy Grieve. Traz imagens dos tempos psicodélicos, quando Summers tocava na banda The Animals, até o sucesso absoluto e a dissolução do Police. E a volta dos três para apenas uma turnê, mais de 20 anos depois, a famosa Reunion Tour, em 2007. Tudo com muitas fotos de Summers. Em uma cena profética, ele e Sting, cabeludos e com cara de moleques, estão dando uma entrevista e Sting, brincando, diz: “Nós vamos fazer isso para sempre?” Summers responde: “Não está no nosso contrato”.

Turnê e lançamento do livro são boas razões para ele ter vindo novamente ao Brasil, mas a principal, em São Paulo, foi a exposição das suas fotografias, chamada Del Mondo, que inaugurou a galeria Leica, em Higienópolis, e fica em cartaz até 5 de outubro. O nome é autoexplicativo: uma série de 42 fotos que Summers vem tirando por cidades do mundo todo, desde 1978, em turnês ou não. Foi no dia seguinte à abertura que almoçamos.

Éramos seis à mesa: Luiz Marinho, da galeria Leica; Luiz Paulo Assunção, seu agente há 20 anos, que também trabalha com Roberto Menescal; Silvia Balady, assessora de imprensa; Luiz Ushirobira, o fotógrafo, e esta repórter. Fazia um calor danado. Summers chegou atrasado, meio ansioso – estava antes dando uma entrevista para a TV – e, mal sentou, resolveu que não queria ser fotografado durante o almoço. Dali a pouco, mais relax diante do couvert e de um peixe defumado de entrada, abriu a guarda e um sorrisão quando a conversa começou pelo seu amor pela fotografia.

_ Algumas das suas fotos me lembraram o trabalho do japonês Daido Moriyama (o pai da fotografia de rua no Japão, faz um uso bem particular do preto e branco).

__ Sim, sim, Daido. Falo pouco dele porque pouca gente o conhece. Eu o admiro demais, é um dos meus grandes ídolos. Sabe que eu estava num workshop de fotografia em Tóquio, uns anos atrás, e me apresentaram o Daido. Ele não falava inglês, conversamos com um tradutor, e era muito gentil. Fomos todos jantar num restaurante em Shinjuku, depois nos despedimos, eu estava tão feliz que virei a rua, peguei a câmera e fui tirando fotos. Ele fez o mesmo, vindo do outro lado. Na esquina, esbarramos um nas costas do outro e gritamos Ahhh!!!, uma comédia”, ele conta, rindo.

Assim como Daido, Summers sai com a câmera por aí, à noite, registrando instantes de beleza, solidão, isolamento. Atento ao espontâneo. Faz isso quase como um espião, sem ser percebido. “Entro num ônibus, ou estou na calçada, no bar, boto a câmera aqui (simula o gesto, como se ela estivesse debaixo do seu braço), viro, disfarço, me escondo”. Invisível que retratou um japonês largado no trem, um garçom carregando a bandeja cheia de pratos como se carregasse o peso do mundo, um velho oriental na barraca de quinquilharias. Em várias imagens não se vê os rostos: é o detalhe da mulher acendendo o cigarro, ou a garota de costas segurando o disco de Elvis. Um clima em PB que lembra as telas em cores densas de Edward Hopper.

Ele já tirava fotos desde menino, na Inglaterra, quando, aos 14 anos, trabalhou num antigo resort em Dorset onde haviam morado Mary Shelley e Robert Louis Stevenson, fotografando na praia os turistas de sorrisos posados e sorvete na mão. Naquele tempo nem ligava para a câmera. Queria as moedas. Porque no fim do dia, abria a mochila e tirava dela um catálogo de guitarras Gibson, com fotos de grandes guitarristas – e sonhava com o momento em que pusesse as mãos em uma.

Só comprou sua primeira Leica em 1978, durante uma turnê do Police, e foi retratando os passos da banda, os fãs, os hoteis, as limousines, Sting fazendo a barba, e também pessoas anônimas, prédios, ruas, estradas, revelando uma America com profunda melancolia, olhar muito inspirado pelo trabalho do genial fotógrafo suíço Robert Frank. Publicou dois livros de fotos das tours com o Police: Throb, em 1983, e I’ll be watching you: Inside The Police, em 2007 (com fotos de 1980 a 1983).

“Fotografei muito a América na década de 1980, e hoje revendo as fotos fico chocado, parecem muito velhas, um passado distante. O que eu fiz é o documento de uma época que não existe mais. Não tinha Starbucks, não tinha ninguém com Iphone. Aquela América acabou”, ele conta. A geração de Summers cresceu sonhando em botar o pé na estrada como Jack Kerouac e curtir a vida adoidado feito os beatniks. Anos mais tarde, já famoso, Summers conheceria pessoalmente o mito William Burroughs. Foi convidado para compor a trilha do filme Junkie (baseado no livro do escritor beat), que não aconteceu.

_ O que achou do Burroughs?

_ Um cadáver. Ele não abriu a boca nenhuma vez. (faz uma cara engraçadíssima de velho decrépito)

Allen Ginsberg, o papa dos poetas beats, também não lhe causou boa impressão. “Arrogante demais”.

Estamos falando por um tempão, o restante da mesa já nos olha com fome e quer pedir os pratos. Summers pergunta um pouco sobre o que tem, dizemos que o Piselli tem culinária internacional, mas é um restaurante italiano, as massas são a atração. “O que tem de pasta?” O garçom traz o cardápio em inglês, todos palpitamos sobre os pratos, ele acaba escolhendo o ravioletti di formaggio boursin al pomodoro e basílico. Para a repórter, pesce al forno con zucchine. Os demais vão de ravioli di brie e pere alle erbe, filetto di manzo al gorgonzola e pere al vino tino, spaghetti al frutto di mare. Nada de álcool. Águas e cocas para todos.

Se a música abriu a estrada, ele aproveitou para descobrir o mundo. Fazendo fotos ou simplesmente conversando onde chega, quer sempre aprender sobre os lugares, pergunta da política, tenta entender a cultura, se entrosa com os locais e dali a pouco já é brother, tocando junto ou comendo com os novos amigos. “Não acho graça em ficar trancado no hotel vendo TV, não quero ser ignorante”.

No Paraguai, por exemplo, convidado para o festival de música Encuentros de Alma, em homenagem ao grande violonista paraguaio Augustin Barrios, de quem é fã, Summers escreveu um ensaio/ entrevista emocionado sobre a música de Barrios relacionada à história política do país. Era 2004, época das eleições, e ele descrevia a sensação de estar num país ainda tentando se reconstruir quinze anos depois do fim da ditadura de Stroessner. Na China, há pouco, Summers conheceu um chinês que acabou levando o músico para comer na casa de amigos — “Uns motoristas de caminhão, gente boa”. Mostra agora no seu Ipad, na mesa, as fotos que tirou deles, durante o jantar, trabalhadores risonhos numa casinha simples em uma pequena cidade chinesa, ninguém tinha a menor ideia de quem ele era.

O ravioletti estava bom, diz, depois de comer com gosto. Sobremesas? Todo mundo na mesa sugere opções, o creme brulée do restaurante é conhecido, saboroso, Summers fica em dúvida. E o pudim de chocolate com café? O garçom, gentil, vai e volta várias vezes para atender nossas mudanças de ideia. Pedimos três sobremesas (dois creme brulées e um pudim) para todos. Summers titubeia, mas acaba dispensando a dele. Abre de novo o Ipad para mostrar “uma coisa maravilhosa”. São fotos de uma orquestra chinesa de músicos na faixa dos 80, 90 anos, tocando instrumentos medievais. Um deles tem uma expressão como se estivesse no céu, de tão encantado. “A música tem uma força”.

A primeira vez que Summers sentiu isso foi aos 13 anos, quando ligou a TV e viu o guitarrista Eddie Cochran empunhando uma Gibson. “Foi um momento de epifania, um tóing saltou da tela e inundou a sala de blues e sexo”, ele escreveu na abertura do seu livro de ensaios Light Strings (2004). A música deu todo o sentido para uma existência que não era moleza.

É que por trás daquela vida de super roqueiro típico de Andy Summers, que já vendeu guitarra para Eric Clapton, se entupiu de cogumelos alucinógenos, em Bali, com o amigo John Belushi, foi ovacionado em estádios, sempre colecionando garotas de todos os cantos do planeta, também se esconde uma outra alma, introspectiva, melancólica, solitária. Uma angústia que vem dos mares frios. A infância na cidade litorânea de Bournemouth foi difícil, período internado com o irmão em orfanato, os tempos de falta de grana e de perspectiva, a eterna necessidade de se expressar. Ele escreve, gosta de autores densos, em particular os russos “Dostoievsky, Tolstoi, Tchecov, sempre releio”; pinta, há muitos anos, e se identifica com o intenso expressionismo alemão.

Nasceu mesmo para ser músico, diz. “Achava que seria músico de jazz, ouvia sem parar Wes Montgomery, Thelonious Monk, Chet Baker, Miles Davis”. Hoje se abre para todo tipo de encontro. “Sou capaz de tocar tudo, tenho essa curiosidade intensa”. Ganhou um sem número de prêmios também em carreira solo. Quando trabalha em seu estúdio, um prédio de grandes janelas diante do mar de Venice, fica imerso por horas. “Sou disciplinado, focado”. O estúdio já pertenceu a Madonna e ao pintor Basquiat. Summers acha graça quando conto que o filme que abriu Basquiat para a música foi também Orfeu do Carnaval.

Comemos as sobremesas, ele pega a colher para provar um teco do creme brulée, pede um cappuccino. Luiz Paulo, seu agente, comenta que estão atrasados para pegar o avião. Summers começa a contar do seu mais recente disco (“É uma síntese de vários sons que gosto, tem muitas texturas, é meio experimental, mas acessível”), aí fala das suas influências, e do Police, e vai se animando. E agora a música toma de vez a conversa, é a sua praia, poderíamos começar outra entrevista, de tanto assunto. Mas está na hora. Ele se levanta, dá um abraço apertado e se despede como se a gente fosse se encontrar de novo, qualquer dia desses. Bom, daqui a pouco Summers deve estar de volta ao Brasil, tomando um ar fresco, pedindo outro chope, tocando mais uma com seus novos amigos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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