Bernardo Paz – Trip

bernardo-paz-proprietario-do-instituto-inhotim-1332209504618_956x500O Incendiário – páginas negras da Trip/ agosto 2013

Por Cristina Ramalho

Durante anos o empresário mineiro Bernardo Paz se enchia de uísque para poder dormir – duas horas, se muito – e de manhã tinha de engolir o Engov e negociar com banqueiros, operários em greve, políticas econômicas. Nos intervalos, moças notavam sua estampa de galã, olhos azuis, sentavam-se ao seu lado para mais um drinque e logo viravam esposas. Vinham mais filhos, mudanças de endereço, um punhado de papagaios no banco, sempre com aquela eterna sensação de angústia e os muitos maços de cigarro que carrega desde garoto. Nesse ritmo, aos 45 anos ele teve um AVC em Paris. Deitado por obrigação, com tempo para pensar na vida, Bernardo se lembrou do jardim mais exuberante que já tinha visto, num hotel de luxo em Acapulco, em 1971. Só que enquanto lá dentro, ao som das maracas, os hóspedes se deslumbravam, do outro lado do muro altíssimo a população mexicana vivia na miséria absoluta.

Bom, já dizia o escritor Paulo Mendes Campos que é quando um homem está cansado, quando a vida o encheu, que ele vê o inesperado. Foi mais ou menos o que aconteceu. Bernardo achou que devia deixar algo de bonito para os outros. Que fosse ainda mais bacana do que o jardim de Acapulco, e sem muros, para gente de todas as classes partilharem do encantamento. Assim começou a se desenhar a alma do Inhotim – e hoje é o maior museu a céu aberto do mundo, que combina arte, jardim botânico e projeto social.

Bernardo usou o próprio dinheiro – e o charme da conversa para se entrosar com quem fosse preciso – e construiu o museu dentro da sua fazenda em Brumadinho, Minas Gerais. Inaugurado para o grande público em 2006, o seu Inhotim tornou-se, em pouquíssimo tempo, referência mundial em arte. Numa área de 97 hectares, espalham-se pavilhões espetaculares, encravados na natureza, com o fino dos contemporâneos: Adriana Varejão (ex-mulher dele), Ernesto Neto, Tunga, Anish Kapoor, Miguel Rio Branco, uma lista de 500 obras de 100 grandes artistas de 30 nacionalidades.

“A arte contemporânea é a única arte crítica, interativa, que mexe com as pessoas”, repete Bernardo, hoje com 63 anos. Um sujeito ansioso que continua fumando sem parar, ainda não dorme, é carismático, intenso, e tem histórias como se todo dia na sua vida fosse um happening. Não poderia mesmo ver graça em quadros e esculturas feitos para se contemplar com a mão no queixo. Inhotim é uma extensão natural da sua personalidade: exuberante, perfeccionista, feito de superlativos. As obras sacodem os sentidos, convidam a experimentar, subvertem os espaços. Matthew Barney, por exemplo, criou ali a instalação De Lama Lâmina, com um trator que suspende um tronco de árvore. Doug Aitken cavou uma cratera e instalou microfones lá no fundo, para a gente escutar o som do centro da Terra, no seu Sonic Pavilion. E quem quiser pode mergulhar na piscina do Helio Oiticica.

Uma alegria real, que se pode tocar. Era o que ele queria.

O verde também é um exagero de beleza. Um dia Bernardo se gabava das palmeiras para um agrônomo, e ele retrucou: “Não é bem assim. Faltam centenas de espécies para essa coleção ser espetacular”. É prá já. Bernardo deu a bronca no jardineiro ali mesmo, e não demorou exibia uma das maiores coleções de palmeiras do planeta – mais de 1400 espécies. Há ainda um Viveiro Educador, com 25 mil metros quadrados para pesquisas científicas. Ele gosta de dizer que não entende de arte – desfez-se da coleção de arte moderna da família, da qual ele mesmo tinha comprado boa parte – e manja mesmo é de botânica. Quando o projeto de Inhotim ainda estava em botão, o amigo Burle Marx  lhe deu conselhos preciosos para o paisagismo do lugar.

De início o público era de amigos dos amigos, a turma dos bem-pensantes das artes, mas Bernardo queria mesmo derrubar muros. Inhotim tem programas de inclusão, coral, banda, projetos que melhoram a vida em torno, e o programa Inhotim Para Todos, que leva crianças e adultos de baixa renda para visitarem o museu. “Quero que essas pessoas sejam tratadas com dignidade, com a beleza que merecem. Se uma pessoa pobre tem a casa pintada, um pouco de beleza que seja, ela se sente valorizada, tem estímulo para melhorar. Isso tem de acontecer em vários sentidos”, diz.

Bernardo foi longe – em janeiro de 2011 foi convidado a falar no Fórum Mundial de Davos sobre o tema Arte e Filantropia. Antes de ir, Bernardo deixou a paz de lado e botou fogo em entrevistas (“Quando chegar lá, vou olhar para a cara daqueles bundas-moles e mandá-los para puta que os pariu. O fórum que importa está no governo de cada país, de cada estado, de cada cidade”). Não deve ter mandado, porque saiu de lá aplaudido de pé. Na gangorra da história, o nome Bernardo Paz rodou na imprensa por um leque danado de temas: o casamento com Adriana Varejão; denúncias envolvendo seu irmão, o publicitário Cristiano Paz, com o mensalão, já que Cristiano era sócio de Marcos Valério; acusações de lavagem de dinheiro para sustentar Inhotim; processo de um paisagista que não teve seu nome mencionado na criação do jardim – e fale mais um item que talvez esteja na lista.

Ele segue em frente. Está casado com a sexta mulher (Arystela Rosa, 31 anos, que mora em São Paulo enquanto ele fica em Inhotim), é pai do sétimo filho (Aquiles, nome do pai de Bernardo, de quem ele sempre esperou reconhecimento), avô de dois netos (“Detesto neto”), vendeu sua mineradora Itaminas por 1,2 bilhão de dólares e jura que bota tudo no museu, vive duro, pegando empréstimos. Mora sozinho num casarão de vidro dentro de Inhotim, 12 metros de pé direito e peças de design, cara de galeria de arte (“Fiz essa casa para os outros, que se deslumbram, eu não preciso morar nisso aqui”), onde conversou com a Trip e se abriu de um jeito impressionante. Diz que não é feliz. “Tomo remédio para dormir, remédio para acordar, remédio para o coração”. Mas gosta de saber que, assim como a mãe, de quem herdou a sensibilidade, só está pensando nos outros. Porque como lhe disse um funcionário muito simples, outro dia, carregando um pato morto: “O pato, como a gente, nasce, cresce e morre”.

 

Ontem veio aqui uma moça da Fundação Cartier francesa, você disse que ela ficou impressionada com o que viu. BBC, Wall Street Journal, The New York Times, a imprensa do mundo tem escrito maravilhas de Inhotim, e você está cheio de projetos novos para cá, não?

Ela ligou na hora para o Hervé (Chandés, presidente da Fundação Cartier). O Hervé é meu amigo pessoal. Aliás, o Anastasia (Antonio Anastasia, governador de Minas Gerais) esteve lá no Louvre, ele quer trazer o Louvre pra cá (Anastasia pretende ter uma filial do museu francês em Belo Horizonte). O presidente do Louvre conhece o Inhotim e falou pra ele: “Você tem o lugar mais impressionante do planeta, porque você quer o Louvre lá?” Aí o governador foi na Lafarge (empresa francesa, uma das maiores construtoras do mundo, com filiais em MG), falou com o presidente deles na França. E a Lafarge vai construir de graça um pavilhão para mim, são R$ 6 milhões que eles vão investir. Tá bom, ajuda a gente. É esse aqui (Bernardo mostra a maquete de um ovo aberto, dentro o formato de um anfiteatro), terá 30 metros por 18 metros de altura. Tem um restaurante que vai debaixo da terra. Começa a construir no ano que vem.

Tem outros projetos já desenhados?

Tem 58 pavilhões pra construir. Já projetados. Só que eu tô com a cabeça quente, é tanta coisa. Na parte botânica tem uma green house de 50 metros de altura por 50 mil metros de área que vamos fazer. Vou botar a Floresta Amazônica dentro. Isso é o governo da Noruega que vai financiar.

Esses financiamentos, como funcionam?

Doação.

 

Mas como eles chegam, vêm oferecendo assim? Você não tem uma equipe que prospecta, faz captação?

Tenho um grupo de profissionais, mas o pessoal de fora chega aqui, se impressiona com o lugar, não viram nada igual no mundo e querem ter o nome vinculado ao Inhotim. Já para a captação de Lei Rouanet temos um departamento que cuida disso. Nossos projetos são todos editados pela Ernst & Young,  então nós temos excelência absoluta nessa área.

Como acontece a negociação com os estrangeiros?

É fascinação, só isso. No domingo teve aqui um francês, que tá tentando construir em São Paulo. Ele comprou aquele Hospital Matarazzo na Av. Paulista, tem um projeto grande. Ele quer fazer Inhotim comigo, tem dinheiro demais (Bernardo se refere aos franceses do grupo hoteleiro Allard, que compraram o hospital em São Paulo para fazer um hotel de luxo assinado por Philippe Starck). Mas é dinheiro árabe, eu acho, não tenho certeza, nunca perguntei a ele. Ele quer me levar em Abu Dhabi, pra conhecer o emir, que é fascinado com arte. A gente tem que analisar, tudo tem tempo certo pra cada coisa.

É só você quem dá a palavra final?

Não, eu dou a palavra inicial, que tá muito na frente da palavra final dos outros.

Você veta alguma coisa?

Não há necessidade de vetar, porque temos uma equipe de profissionais que filtra tudo. Tenho sete curadores, um americano, um alemão, uma sul coreana, uma portuguesa, dois brasileiros etc. Já chega para mim o melhor do mundo. Nunca chega uma coisa mais ou menos. O melhor do artista e tudo por preço de projeto, não por preço de obra.

Você criou o Inhotim usando sua fortuna pessoal para um projeto grandioso desses, que mistura arte, botânica, projeto social, já imaginava que aconteceria tudo isso?

Eu nunca imaginei que eu ia construir Inhotim, eu comecei a fazer. É claro que eu olho para trás hoje e vejo com tranquilidade que talvez eu tivesse imaginando. Porque dez anos atrás eu comprei o terreno para fazer um aeroporto para Inhotim e ao mesmo tempo eu não imaginava que eu ia construir Inhotim.

 

E, afinal, vai ter o aeroporto?

Vai, claro que vai, já tem terra, tem tudo, já está aprovado pela Infraero, pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), por todo mundo.

Vi que o hotel está sendo construído aqui dentro, e vai ter mais um restaurante. Você não tinha convidado o Alex Atala para fazer um restaurante aqui?

O hotel vai ficar pronto logo, tá super adiantado. O Alex é um gênio, um chef maravilhoso, mas pediu R$ 8 milhões para o restaurante e só ia vir aqui de vez em quando. Achei demais, falei não, obrigado, não quero. E ele andou espalhando que estraguei um sonho dele. Estraguei porra nenhuma, achei que era dinheiro demais, esses caras têm muito ego.

Falando em ego, você sempre diz em entrevistas que uma pessoa só se realiza mesmo quando faz algo para a sociedade. Você sempre sentiu essa vontade de partilhar? Me conte um pouco da sua infância, adolescência.

Sempre, sempre. Fui educado assim. Bom, minha mãe era poeta, pintora e assistente social. Era muito vinculada às pessoas mais humildes. Meu avô por parte de pai trabalhou com o Marechal Rondon, foi um homem muito patriota, a palavra é meio ridícula, mas ele tinha um orgulho do Brasil, criou meu pai dentro desses fundamentos nacionalistas. Minha mãe era muito depressiva, mas tinha um senso de humor fora do comum. Já o meu pai era engenheiro, muito disciplinado, era um homem que me ninava com os hinos, Hino da Bandeira, Hino Nacional, todos os hinos que você imaginar.

Ele cobrava muito?

Era muito duro, muito difícil. Meu relacionamento era melhor com a minha mãe, ela era de uma sensibilidade atroz. Esse antagonismo me deixou completamente inseguro, até os… ah, a minha vida inteira. Somos quatro irmãos, eu era o mais velho. Isso me deixou mais ou menos sem pouso, porque meu pai pregava o heroísmo, a luta, a vontade, o crescimento. Meu avô, pai dele, era do Piauí, mas fugiu de lá, teve a revolução. Na época de Arthur Bernardes (mineiro, presidente do Brasil de 1922 a 1926) meu avô era comunista, foi parar no Rio vestido de mulher, prenderam ele.

Vocês tinham dinheiro?

Éramos classe média baixa, classe média de funcionário publico. Meu pai trabalhava para a prefeitura, foi secretário de governo. Naquela época Belo Horizonte só tinha funcionário público praticamente.

Você estudou até que ano?

Eu detestava estudar. Fui muito bem até o quarto ano do primário. Tinha um irmão que era muito brilhante e ele saltou a admissão. Naquela época tinha o exame de admissão para entrar no ginásio. Meu irmão estudava 12 horas por dia, então meu pai começou a me perseguir. Mas tinha uma diferença: meu irmão era moreno, mais magro, e eu era bonito, de olho azul. Meu pai me dizia: “Você não vai dar nada na vida”, essas coisas. Eu tinha 13, 14 anos, isso marca muito, entende? Então passei uma infância e juventude muito isolado, calado. Terminei o ginásio, parei, tempos depois fui fazer o madureza (antigo supletivo) e entrei em economia na faculdade, mas larguei.

Você era um adolescente angustiado?

Extremamente. Eu era muito bonito e isso também me atrapalhou muito. Eu detestava isso, tinha pânico de ser bonito, e muitas pessoas diziam que a beleza trazia burrice, me apavorava.

Mas não era muito melhor para ganhar as meninas, que é o que todo menino de qualquer idade quer?

Eu tinha muita vergonha. Até os 20 anos eu não conversava com mulher. Às vezes ia a uma festa, tinha que ficar só 5 minutos, porque as meninas iam todas em cima de mim e eu não sabia dançar.

Com que idade você se casou pela primeira vez?

Com 23 anos. Tinha esse problema também. Como eu nunca procurei por uma mulher, eu normalmente fui achado por uma mulher. Nunca casei com mulher bonita na vida, porque as que chegavam eram as mais feias, as bonitas ficavam esperando. Eu casei com uma menina que se aproximou muito na época e fiquei 11 anos com ela, a Sandra. Tivemos duas filhas. Antes de casar eu já trabalhava quase como atendente no posto de gasolina do meu pai. Depois fui trabalhar numa boutique de roupa de homem. Muito tempo depois soube que o footing na cidade era na porta da boutique, as meninas iam me espiar.

E você, pelo jeito, já tinha deixado de ser introspectivo.

Só no trabalho. Eu tinha que me articular, porque eu não ia dar nada na vida, tinha que fazer alguma coisa. Depois eu fui operar na Bolsa de Valores. Em 1971 teve um crash na bolsa no Brasil e todo mundo perdeu tudo. Aquilo me traumatizou, porque eu vi as pessoas que tinham dinheiro guardado para a sua velhice perderem tudo. É uma coisa que eu nunca mais esqueci e é um lugar que eu nunca mais entro na minha vida. Tenho pânico dessas coisas que trabalham com dinheiro para fazer dinheiro. Eu parti mais para essa parte da realização pessoal.

Bom, mas como é que você virou dono de mineradora, milionário, e chegou nisso aqui que tem hoje?

Eu tinha um percentual na mineradora. Eu comprei, era quebrada, literalmente quebrada.

Mas de onde veio essa mineradora, era da sua família?

Quando eu me casei acabei indo trabalhar no banco que era do pai da minha primeira mulher (o Banco Mineiro do Oeste, de João do Nascimento Pires, primeiro sogro de Bernardo). Ele quebrou e perdeu o banco e tudo o que ele tinha. Eu já tinha saído para cuidar da mineração, que tinha sido dele, mas estava quebrada. Ele tinha perdido a cabeça. A história dele foi uma história dramática, porque ele era um homem extraordinário que nos últimos anos da vida estava na macumba, cortava pescoço de carneiro para tomar sangue. Eu tinha que correr atrás para ele não ser roubado. Eu pus ele lá na mineração na época e foi uma tragédia, porque na hora de pagar os transportadores e pessoal, ele pegava o dinheiro para pagar esses videntes. Então eu passei dez anos segurando greves, acordava às 4 da manhã, chegava em casa à meia-noite. Mas aí esse homem morreu, foi uma complicação.

Isso foi durante os anos 70, teve o milagre econômico.

Para mim não teve. Eu vivia com duplicatas, dívidas, tinha mais de 2 mil cheques sem fundo. Eu não dormia. Às vezes pra dormir tinha que tomar uma garrafa de uísque, porque não tomava tranquilizante na época, hoje tomo. Dormia duas horas e acordava com dor de cabeça, mas indo trabalhar. Minha vida passou como uma ventania. Descobri uma fórmula de resolver esse problema, que era comprar outras empresas falidas, recuperar as outras empresas e fazer um monte maior pra sair lá na frente. Chegou um ponto em que a jazida não pertencia à mineração, era arrendada. Aí tive de fazer uma empresa às pressas, para fazer o arrendamento, continuar trabalhando, conseguir pagar toda a dívida e liberar todo o patrimônio. O maior sufoco da minha vida, não esqueço disso. Minha mulher e eu nos separamos, eu fiquei sem nada, criei uma holding e a partir daí eu vi que não tinha saída, a dívida era grande demais. Fui para a China e fiquei amigo de uns ministros chineses, tive a primeira reunião com o Deng Xiaoping.

 

Você diz que foi o primeiro empresário brasileiro a ir para a China comunista.

Ninguém nunca tinha ido à China. Quando eu fui à China só os judeus estavam lá naquela época. O Deng Xiaoping foi o motor dessa história toda, mas por trás tinha todo um grupo de pessoas brilhantes. Eles botaram 10 milhões de dólares na siderurgia, comprei outras minas também e virei uma empresa de dez mil funcionários e uma correria, tinha que viajar trezentos quilômetros por dia, indo e vindo, correndo atrás. Eu estava bêbado quando comprei a primeira usina siderúrgica. Fiz um discurso que ninguém entendeu, lembrei de quando eu era criança, que eu dormia no quarto com três irmãos que dava pro terreno baldio ao lado. E todo dia uma galinha cantava. Eu subia no muro e descobri que ela estava botando ovo. Aí eu pegava o ovo e guardava. Aquilo pra mim era uma coisa impressionante , eu estava ganhando aqueles ovos que a galinha botava de lado. E naquilo eu acumulei 12, 13 ovos.

Mas a partir daí sua história de empresário melhorou.

Não, o Brasil ficou uma loucura. Teve plano Cruzado, plano Collor, plano Real, e depois o Meirelles (Henrique Meirelles, presidente do Banco central entre 2003 e 2011), que acabou com as indústrias botando o câmbio lá para baixo.

E você, onde estava nessa altura?

Nessa altura eu estava na mineração. O que aconteceu? O minério subiu de 10 dólares para 180 dólares. Então mesmo com o câmbio caindo 100%, o minério subiu 1800%. Com isso eu consegui pagar a dívida de bancos, adequar a dívida fiscal, parcelar com o fisco essas coisas todas, e consegui triplicar, quadriplicar a produção de minério.

 

Quer dizer, aí foi surgindo esse dinheirão. E você ainda vendeu uma mina para os alemães.

Aí surgiu o dinheiro e construí Inhotim. A mina eu doei, é uma história longa, mas acabou dando muito dinheiro e os alemães retribuíram botando dinheiro em Inhotim. Aí larguei tudo, porque tive um problema de saúde em Paris em 95, segurei ainda até 99… que me fez pensar em fazer algo maior, para a comunidade.

 

Você teve um AVC, deixou alguma sequela na época?

É, eu tive um AVC. Não deixou, porque o sangue vazava pelo nariz e encharcava tudo o que estava em volta, nunca vi tanto sangue na minha vida.

Você estava sozinho?

Estava para casar naquele ano com a quarta mulher, a Titina.

Era uma menina criada em uma família rica, muito conservadora em Minas Gerais. E ela era muito mais nova que eu, eu tinha 44 anos e ela tinha 26 quando nos casamos. Fiquei 11 anos com ela, não tivemos filhos porque ela não podia. Antes eu tinha sido casado com a Cláudia, que me deu duas filhas maravilhosas.

Não tem uma história que você se separou e no mesmo dia foi a um bar e conheceu uma moça?

Era uma austríaca, uma moça de 22 anos. Foi minha segunda mulher. Também foi uma que me viu bebendo no bar, se aproximou e eu casei. Tivemos um filho, o Bernardo, que hoje vive em Stanford.

 

Você gosta das moças mais novas?

Não, não. A questão nem é essa. A questão é que… Eu sou um cara de poucos prazeres na minha vida. E um dos poucos prazeres era sexo. Era difícil fazer sexo com uma mulher mais velha. Casar com uma mulher de 50 anos, quando eu tinha essa idade, e ter apetite sexual, entendeu? (risos)

 

Ah, entendi, a beleza é importante também pra tudo, certo?  

Hoje eu consigo encarar a beleza da inteligência, da sabedoria. Aí tanto faz a idade, consigo me apaixonar por uma pessoa sem me preocupar com o sexo desde que essa pessoa seja brilhante. Mas não no sentido carnal.

 

Mas você não me respondeu uma coisa: você se interessava por arte? Aliás, você vendeu a coleção de quadros da família.

Já pensei muito isso, mas nunca quis entender de arte. Eu não entendo de arte. Vou dizer uma coisa com toda a franqueza: eu não entendo Picasso. Porque arte para mim tem um processo educativo, elucidativo. Anterior a Picasso, a arte era anterior à fotografia. Então a arte traduzia a visibilidade de uma determinada coisa que você não conhecia, ela tinha esse papel.

 

A arte era figurativa. Já na arte moderna…

E quando veio a fotografia, os artistas todos passaram a fugir da fotografia, do realismo. Alguns artistas conseguiam isso com beleza, como Monet, Matisse e outros mais. O Picasso era um comerciante com muito talento de pintura, então o ciclo azul ele pintou de forma clássica, de uma beleza extraordinária, que afinal ele era um gênio. Depois ele passa a distorcer tudo e deixa de ser uma pessoa admirável; os quadros deixam de ser admirados para serem invejados por ricos e colecionadores. Ganha o valor comercial.

Já que tocamos nisso, a arte brasileira está cada vez mais valorizada. Uma obra da Adriana Varejão, sua ex-mulher, já passa de um milhão de reais.

A obra da Adriana, por coincidência, ou por qualquer outra coisa, teve um salto de valor após o pavilhão dela aqui, que é o mais bonito de Inhotim. Comprei todas as obras para o pavilhão por 180 mil dólares – e lá tem 70 obras. Hoje custa um milhão de dólares cada obra dela. Então, isso não acontece de uma hora pra outra. Ela tem um valor enorme como pesquisadora, ela vai fundo em suas pesquisas. E de uns tempos para cá os ricos brasileiros começaram a reconhecer os nossos artistas e a comprar por uns preços absurdos.

A Beatriz Milhazes passa fácil de um milhão.

Isso é uma loucura. A Milhazes tenta ser pintora mas o que ela faz é cortina inglesa.

Qual é o seu parâmetro de boa arte?

O meu parâmetro é a educação. Arte contemporânea é a única arte crítica, interativa, que mexe com as pessoas, as crianças adoram, mais do que os pais. A arte aqui em Inhotim está envolta na beleza da natureza. Esse é o segredo. Ela toca as pessoas. A Adriana tem por trás uma curiosidade. O Ernesto Neto tem uma diversão e uma alegria, que se traduz para a criança em uma perspectiva de felicidade. O Cildo Meirelles tem a perspectiva da morte – quase todos os artistas têm a perspectiva da morte.

A Adriana foi sua única esposa famosa. Te incomodava ser conhecido como “o marido da Adriana Varejão”?

Nunca me preocupei com a fama da Adriana. Me importava com o que ela fazia, com o trabalho dela, enxertado de vontade e víscera. Me apaixonei por ela, casei com ela, tivemos a Catarina, linda, e continuei levando a minha vida. E aí você tem um problema: a Adriana, como todo artista de uma forma geral, tem a característica de olhar muito pro seu próprio interior. Isso é um vício de quem constrói pra si mesmo, não quer dizer que seja um erro dela. Ela não reconhecia suas ambições de ganhar dinheiro com arte. Ela queria ser uma pessoa da arte pela arte. Mas por outro lado, ela precisava do dinheiro. Não para viver, mas para ser importante – o mundo capitalista exige isso. E ela era artista, ela devia brilhar, mas eu estava crescendo como pessoa, isso foi criando um abismo entre nós. Ela queria envelhecer comigo, acho que ela ainda me ama, mas isso é impossível. Não olho para trás, separamos e acabou.

Você tem inimigos?

Não que eu saiba. Meus inimigos não têm nome, mas tentam me prejudicar. São pessoas que têm ciúmes. A vida inteira eu tentei solucionar problemas e buscar caminhos pras pessoas. No primeiro momento eu consigo muita coisa. Porque tenho uma facilidade imensa de ligar pontos, entendo a pessoa sem ela perceber. Em um primeiro momento ela me julga um gênio, em um segundo momento ela tem medo, no terceiro momento ela tem raiva e no quarto parte para a vingança.

Não posso deixar de perguntar sobre todas as acusações de lavagem de dinheiro envolvendo o nome do seu irmão (Cristiano Paz) com o Marcos Valério. E ligando você a políticos. O que você diz disso?

Eu digo que meu irmão é inocente, meu irmão é brilhante. Ele tem uma agência de publicidade que talvez seja a melhor agência do Brasil. Nunca procurou dinheiro, nasceu artista. Um artista admirável. Quando ele começou em publicidade, tinha 16 anos, fez um filme e todos em casa choramos de emoção.  

Eu tenho pena dele. Ajudo o Cristiano no que eu posso. Porque ele foi envolvido nesse processo pelo Marcos Valério. Mas o banco deu dinheiro observando algum favor – e o banco quebrou. Todos perderam e meu irmão foi o único que se manteve de pé nessa história. E eu nunca fui amigo de político nenhum.

Os seus outros dois irmãos trabalham com o quê?

A Virgínia, coitada, é inteligentíssima mas é uma sonhadora também. A filha dela é arquiteta, ela montou um escritório pra filha dela, é genial, mas não ganha dinheiro, tenho sempre que dar dinheiro pra ela. O André é brilhante também, mexe com comércio, mas doido: xinga, briga, berra. Uma coisa tem de ficar clara: eu nunca fui rico, não sou rico, não tenho um tostão no banco. Todo o meu dinheiro está envolvido com a população de uma forma geral.

Você tem uma vida confortabilíssima, bacana…

Você me acha um cara feliz? O que ocorre é muito simples: eu estou sentado aqui, construí uma coisa bela, se eu fosse miserável, numa outra escala, teria feito a coisa mais bela possível. Preciso de 2 milhões todo mês, pego dinheiro emprestado, estou devendo 12 milhões de reais, mês que vem eu pago, que eu vendi um troço aqui em cima por 250 milhões. Tudo o que ganho boto aqui em Inhotim (na imprensa já saiu que ele bota 70 milhões de dólares por ano em Inhotim; há dois anos, Bernardo vendeu sua Itaminas para um grupo chinês por 1,2 bilhão de dólares).

E agora você está com a sexta esposa, que é a Arystela, que lhe deu o sétimo filho.

Ela é designer, veio aqui criar a iluminação de uns restaurantes meus. Essa menina sofreu absurdamente. O marido dela teve esquizofrenia, quis matá-la e morreu assassinado. Então é uma menina que veio do interior, muito na dela, extremamente correta, e lindíssima. Temos  o Aquiles, um menino lindo, dei a ele o nome do meu pai. O meu pai, apesar de ter me crucificado a vida inteira, tenho o maior respeito pelo o que ele foi.

Ele faleceu há pouco tempo.

Faleceu há dois anos, dizendo que tinha orgulho de mim.

Que era o que você tanto quis na adolescência.

Isso. Me deu um prazer muito grande saber disso. Quando ele morreu, eu não tinha que provar nada mais pra ninguém. A vida inteira o meu foco é a sociedade.

Quando você morrer, o que deve acontecer com Inhotim, que é uma extensão da sua pessoa? Quais são seus planos?

Aí tá a diferença entre o sonhador e a pessoa pragmática. Sou mais para pragmático. Estou pensando lá na frente e penso grande. Eu vou criar aqui – se Deus quiser, e não que eu acredite em Deus – uma Disney World pós contemporânea cultural, e que faça com que as pessoas cresçam e que atenda a sociedade de uma forma geral – miseráveis, pobres, médios e ricos. E que todos sejam considerados iguais aqui dentro, como são hoje. Hoje eu recebo cerca de 100 mil pessoas de comunidades extremamente carentes, recebo 80 mil crianças por ano – extremamente pobres. Tenho 140 professores monitores educadores, tenho as comunidades quilombolas – que eu trouxe todos pra trabalhar aqui. Nós atendemos essas comunidades.

Muitos ricos não investem em nada para a comunidade. O que você acha da elite brasileira?

A elite brasileira não difere de nenhuma elite. A pior elite é a aristocracia europeia, porque não admite até hoje que perdeu poder. As elites são feitas por pessoas que lutaram para crescer, que têm medo de perder. Todo rico é assim, toda pessoa que cresce não quer dar um passo para trás. O que eu estou fazendo é uma renúncia absoluta da vida.

Mas também seu nome está ligado a um legado.

Meu nome está ligado a isso, mas ele está sendo alvo de muitos Exocets (mísseis). Nunca fui amigo de nenhum político, nunca me liguei nisso. Eu condeno a corrupção, que prejudica o pobre, que atrapalha a saúde, que vende remédio mais caro, essa corrupção que manipula o dinheiro. Agora eu, por mim, não estou nem aí pra minha vida. Se eu morrer amanhã, já morri. Agora estou com uma arritmia cardíaca, tenho de ir ao (hospital) Einstein na segunda, acho uma chatice, detesto sair daqui.

 

Isso me deixa curiosa: você teve um AVC, fuma à beça, diz que toma tranquilizantes toda noite, sete filhos, não tem a preocupação de viver mais, nunca fez esportes?

Não, nunca fiz. Faço tudo o que você disse, e os sete filhos gostam de mim. Tenho 1400 funcionários, se você sair aí e falar mal de mim, eles te matam. As pessoas que estão próximas a mim, estão muito próximas, muito próximas.

O que te emociona?

Meus filhos me emocionam. E as pessoas que estão comigo no parque. Encontrei um negro quilombola revoltado com sua condição e querendo matar os brancos. Esse negro hoje é o melhor condutor de visitantes que temos. Todos os negros que tenho aqui são quilombolas e são pessoas extraordinárias.

 

O amor começa

 

Então me pediram um texto sobre amor — e acho que só posso me arriscar a escrever direito sobre isso depois que eu passar dos 80 anos. Resolvi declarar homenagem/paródia ao “O Amor Acaba”, de Paulo Mendes Campos, que foi um dos escritores que melhor descreveu a paixão. É também uma vontade de dizer que sim, o amor acaba, mas também recomeça sempre. E, bom, é uma forma bem malandra de eu declarar o meu amor.

 

O amor começa. No primeiro beijo visto no cinema, ali na tela, o ator e a atriz cintilantes como se a vida, tirando umas passagens meio difíceis no roteiro, fosse sempre uma delícia. No primeiro beijo eu daqui da plateia, ele ainda atrapalhado, sem saber se tem limite onde botar as mãos. Na primeira vez que fomos juntos para o mar, água batendo nas pernas, o verde perto da areia, o azul lá longe, vontade do momento durar para sempre. No primeiro macarrão feito sem pressa, tomate cortadinho aos poucos, manjericão, depois o queijo, taças de vinho e sorrisos que prometiam sensações. Nas primeiras sensações. Na primeira música enviada por email, a letra dizendo as coisas que ele não consegue dizer.

Nas primeiras bolhas de champanhe geladinho o amor começa. Na primeira caminhada pela avenida, tarde da noite, vento no rosto, assunto que não acaba nunca… Na primeira reconciliação depois da frase torta, discussão boba, mas deu aperto no estômago, medo de perder. Na primeira mesa com os amigos dele, orgulho de ser apresentada na roda, agora é para valer. No primeiro encontro com a mãe dele – se o encontro for bom. No primeiro silêncio confortável, sem precisar dizer nada, como se nós dois pensássemos em voz alta sobre qualquer coisa. No primeiro sorvete, fim de tarde, risos só de olhar quem passa, ouvir a conversa vizinha, e imaginar as mesmas coisas.

Na primeira vez que ele conta um filme, e se empolga, e eu me emociono de ouvir, como se assistisse junto, ou só porque é tão bonito o jeito que ele conta. Na primeira vez que ele se emociona com o que escrevi. O amor começa quando ele não sai de perto na hora da minha doença. Na primeira vez que ele vê futebol com o meu pai. No primeiro passeio dele, atento, com a minha cachorra. No primeiro presente dele para a minha filha. No primeiro churrasco que ele se arrisca a fazer. O amor começa quando ele chega. E traz um chocolate. O amor começa antes de ele dizer eu te amo. Mas começa bem melhor quando ele diz.

 

 

Quem sabe alguém está olhando

foto: Ana Ottoni

Caiu a última casquinha no dia do Natal, e olha que coisa, volto ao parque e um sujeito ao meu lado me observa, abre um sorrisinho tímido e me pergunta se melhorei. “Então você…” O moço, Daniel, explicou que não foi nada, estava acostumado a sangue, só me pegou no colo porque com aquele calor, asfalto quente, não dava, melhor me botar na grama, “fiz um travesseirinho com sua mochila, você não se lembra?” Não, não me lembro. Não lembro de jeito nenhum como é que fui parar um mês atrás naquela ambulância, amarrada, ensanguentada, umas vozes ao longe, tudo correndo, cena de plantão médico da TV.

Cenas. Todas misturadas. As de horror eu lembro: a cabeça dói, as costas doem, tudo dói. Pernas, não sei onde estão. As vozes lá longe. Calor infernal. Clang! A porta abre. As pernas não mexem. A cabeça dói. As vozes. Vem médico de um lado, médico de outro, não consigo ver os rostos, olhar do lado não dá, com esse colar que botaram ao redor do meu pescoço.  As vozes. Que calor. “Você não precisa se assustar, o médico vai falar tudo”. Tudo? Melhor não imaginar. Então alguém me dá a mão. “Tô aqui”. É o marido, sorrisão solidário.

O marido está aqui? Acho que agora já era.

A história vem aos pedacinhos, como as casquinhas que ainda se desprendiam dos meus cabelos um mês depois.

“Vou tocar sua cabeça. Você sente aqui? Dói?”

“Você caiu no parque, teve convulsão, uma moça achou o seu celular e ligou no último número, que era o meu, e sangrou muito porque abriu sua cabeça”.

“Diz que o senhor que levou sua cachorra teve um infarto na rua uma vez e ficou tão comovido quando foi ajudado, socorrido, que já se prontificou a segurar a coleira da Zara”.

“Ah, que fofa, a sua cachorra. Na hora que você estava lá, estendida no chão, lambeu seu rosto o tempo todo, não latiu, nem pulou, tão educada, e olha que juntou umas 30 pessoas em volta”.

“Mãe, quando ele me falou que você estava no hospital peguei a bicicleta correndo, eu queria chegar logo”.

“Ai, tinha tanto sangue, nem quis assustar seu marido, amenizei, que bom que ele é tranquilo, né?”

“Era você, lá no parque? Nossa, um amigo meu viu, tava lá”.

Ninguém sabia o meu nome. Uma mulher sem documento e com uma cachorra bonita, uma mulher que se estatelou no parque num dia de sol de rachar a moringa. Uma mulher que rachou de fato a moringa – e que no meio daquela gente trazia uma história nova para o dia. Mais tarde, em alguma conversa numa roda alguém vai falar qualquer coisa sobre parques e outro, na sequencia, emendar: ”Parque? Menino, tenho uma história de parque, vi uma mulher caída lá hoje…”

Seis dias de hospital. Doze pontos na cabeça. Nenhuma causa aparente. Frases solidárias. Depois todo mundo se apressando, carinhosamente, em me ajudar, dar um jeitinho. “Não precisa entregar o texto agora, imagine, importante é se cuidar”. É que o inesperado dos outros traz aquela familiaridade do podia-ser-comigo. Já, já volta tudo ao normal, e tô antevendo que vou ter outra convulsão para não ter de dar conta do trabalho.

Sabe aquela sensação quando você olha alguém de longe, esperando o metrô, por exemplo, e reconhece uma pessoa vagamente conhecida? Pode ser um vizinho com quem mal troca oi, mas ali, na multidão, a visão dele ganha um sentido. Você sorri, ele vai sorrir de volta, vocês trocam um olhar solidário, que coincidência, esperando o metrô ali, tão longe de casa. Não é preciso dizer nada. Houve um momento, súbita cumplicidade, e dali a pouco vocês vão desaparecer e cada um cuidar da sua vida.

Daniel, o anjo que me socorreu em 25 de novembro, reapareceu no parque no dia do Natal e se apresentou. Natalie, a anja com Natal até no nome, a moça que achou meu celular e discou o número com mais ligações (que era o do marido), me mandou uma mensagem de boas festas. Abri o sorriso vaidoso de ter um instante de cumplicidade, a Providência Divina disfarçada em pessoas tão gentis.

Vontade de espalhar minha história, puxar assunto com o primeiro desconhecido (“pois é, rachei a cabeça, foi ali mesmo perto da ciclovia, diz que tinha muito sangue”). E quando a pessoa me olhasse meio com pena, meio assustada, eu diria triunfante: “Ah, mas agora tô bem, gente que eu nem conhecia me ajudou”.

Então, de repente, comecei a pensar nas histórias que os outros teriam e talvez quisessem contar. Da moça que ouviu um adeus do seu amor e chora como se nada mais fizesse sentido. Da que perdeu o pai, doente há anos, e sem memória, mas era o pai dela, e agora, como vai ser? Daquela outra com uma cara vitoriosa de quem se vingou da má amiga. De quem acabou de ouvir, suprema glória, elogio de um ex-inimigo. Do menino que fez o gol mais lindo lá na escola. Do que saiu do hospital, aliviado. De quem passeia no parque para esquecer a dor que é ter uma pessoa muito querida no hospital e fica indignado com a falta de sensibilidade dos que não sabem de nada e passam dando gargalhadas. Como é que alguém pode rir assim quando temos uma pessoa no hospital?

Não, ninguém me conta nada. E me deu uma vontade de dizer para quem passa que sim, todos nós temos os mesmos enredos, mas se você, de súbito, se estatelar no chão e achar que é o fim, alguns vão parar, ajudar, se familiarizar, talvez salvar sua vida. Dali a pouco vão embora, misturados na multidão, já pensando em outras coisas, e um dia, por nada em especial, você vai se flagrar abrindo um sorriso, não um sorriso qualquer. Um que diz que sua história é única – mesmo que só você e mais uns 2 ou 3 se lembrem disso.

Limite para quê?

Essa moça na foto com ar de quem sempre sabe onde vai é a Fernanda de Camargo-Moro, única arqueóloga de comida da Unesco. A foto é de 1970, mas até 4 anos atrás, na flor dos 74, ela rodava Oriente Médio e Ásia, sozinha, cruzando desertos e visitando quem não conhecia para entender, pela comida e a religião, as coisas que as pessoas não dizem, mas revelam tudo. Escrevi o texto abaixo sobre ela na última edição da revistae publico aqui porque adoro gente sem limites. E eu também preciso ir além…

Por Cristina Ramalho

Um tapa na cara. Assim que Fernanda abriu a porta do seu quarto de hotel no Cairo veio o bofete, dado por um policial egípcio. Ela esticou o olho e viu outro policial, as gavetas reviradas. Acabou amarrada numa cadeira, o vestido rasgado, presa no último andar do Sheraton. Sem saber, tinha cometido dois crimes:

1-      Ter entrado no Egito com livros de Israel na bagagem. Ela vinha de Israel, isso não aparecia no passaporte, e seguiria dali para Angola. Naquele ano de 1971, geografia e história andavam confusas, Egito e Israel tinham saído de uma guerra e já preparavam a próxima.

2-      Ter os cabelos e os olhos negros de uma terrorista famosa na época por aquelas bandas: a palestina Leila Khaled. Fernanda pensou nos quatro filhos que a esperavam no Rio e se pirulitou de volta para casa num avião que pegou em Chipre. Dali a pouco iria para outro ponto exótico do atlas.

Não há preguiça maior do que ouvir algum desses chatos que bastam ter alguma história nova para contar e já saem dizendo que sua vida daria um livro. Deviam antes dar uma espiada na vida de Fernanda de Camargo-Moro, única arqueóloga de comida da Unesco, museóloga, escritora. Um dia presa no Egito, no outro escavando em Israel, ou passando a tarde aprendendo receitas de família no interior da Índia, Fernanda viajou por todo o Oriente (“Do Extremo Oriente só não estive no Laos”), a América Central, conhece a Europa inteira, cruzou fronteiras árabes, hindus, afegãs, zonas de conflito, muitas vezes sozinha.

Repetiu famosas rotas históricas como a da seda, a do incenso, a das especiarias, tudo o que a gente só conhece… dos livros. Ela escreveu vários: sobre a Índia, a Turquia, Veneza, o Iêmen, todos com o foco na comida ou na religião para entender como as culturas se cruzaram. Aquilo que no vocabulário de hoje chamamos de globalização.

“Eu encontrava nas escavações vestígios de comida, mandava analisar, e ia estabelecendo as pontes. Quando fui mexer na Índia percebi que para entender o país eu precisava entender o que cada etnia comia, e que tranças eram feitas. Por exemplo, todo mundo pensa que o curry é descoberta indiana, o curry é uma dádiva que a Pérsia deu para a Índia. As pessoas hoje dão tanta importância para falar de globalização, mas os costumes sempre se misturaram”, diz Fernanda, que em cada livro mistura, saborosamente, fatos documentados, causos e, sempre, receitas, para o leitor captar na panela a química, a geografia e a alma de cada cultura. Sua última viagem exploradora foi em 2007, para Dubai, tema do mais recente livro, Mar de Pérolas, sobre as civilizações do Golfo, lançado em 2008 pela Ed. Record. Assim como escancara o sorriso para falar das relíquias pré-islâmicas, ela se acende toda ao descrever os shoppings e o aparato consumista árabe. “Ah, Nova York já era, Dubai é demais”. É capaz de enxergar beleza e valor em cada instante da história.

Lá no Golfo ela rodou por tudo e, com inveja dos pescadores, mergulhou de cilindro pela primeira vez na vida, na flor dos 74 anos, sentindo o corpo leve nas águas do estreito de Ormuz. De volta ao Rio, levou um tombo na Rua da Assembleia e se estropiou. Também passou há pouco por uma cirurgia no fígado – nunca bebeu nem fumou, mas adquiriu uma cirrose, talvez de tanto abusar dos ovos enterrados que comia na Tailândia. Agora, aos 78, Fernanda é obrigada a se segurar na poltrona da sala do seu apartamento na Gávea, onde deu esta entrevista. “Acho que depois que eu me separei do meu primeiro marido, esta é a primeira vez que passo tanto tempo em casa”, ela diz, gozadora.

Com os cabelos branquinhos presos em coque, o colar de pérolas, ela vai contando com voz doce um punhado de histórias de fazer o Indiana Jones tirar o chapéu. Fernanda nunca se deu tanta importância, então livro sobre sua vida, autobiografia, não fez, não. Teria de escrever vários volumes. Perdeu a conta de quantos países conheceu. É globalizada antes de nascer: em 1933 já estava em Paris, na barriga da mãe, enquanto o pai, o arquiteto Paulo de Camargo e Almeida (um dos fundadores da FAU-USP, e autor de um plano piloto para criação de Brasília com Vilanova Artigas), estudava na Sorbonne, frequentava a casa de Gertrude Stein e saía para tomar umas com o poeta Gabriele D’Annunzio.

Do pai que ela herdou a vocação para viver com o pé no avião. A psicanálise também explica. “Nunca perdoei a mamãe, que fez meu pai voltar de Paris, ela matou o sonho dele. E logo depois eles se separaram”, conta Fernanda. Não demoraria a planejar sua saída: aos 14 anos, ela viajou com as professoras e colegas do colégio para Florença, todas hospedadas num convento. No ano seguinte, convidada a acompanhar os tios para servir de intérprete numa viagem para a Holanda, Fernanda escreveu para as freiras em Florença e pediu para alugar um quarto ali. “Elas ficaram com pena de mim e não me cobraram”. Sobraram uns trocos para estudar história da arte e ir a Paris.

E havia também sua paixão pelo Oriente. Aos 3 aninhos ela andava pela casa abraçada a um disco quebrado da Tosca, fazendo cara de feliz a cada vez que ouvia o trecho da ópera com música árabe. Leu os livros de Malba Tahan, ouvia as histórias do avô viajado e da deslumbrante tia Alice (que inspiraria seu belo livro A Ponte das Turquesas, sobre Istambul), criou um mundo oriental dentro dela. Da Europa estava ali pertinho, só que a sua mãe entrou em cena e o exotismo teve de esperar. “Voltei e, não sei por que, acabei me casando aqui, e com um sujeito quadrado”.

Foi como voltar dez casas no jogo e cair no fosso do dragão: o marido, um economista tradicionalmente mineiro, não via lógica numa mulher com asas. O mais longe que ela chegou durante o casamento foi Buenos Aires – com ele junto, claro. Não podia durar. Nove anos e quatro filhos depois, lá vai Fernanda mais uma vez na direção contrária: era mulher desquitada, nos nem sempre dourados anos 60, e estava com a bagagem pronta para morar com a criançada na Toscana. A mãe a segurou de novo, alegando que a avó sofreria demais. Fernanda ficou, começou a dar aulas na universidade, mas como era formada em História pela PUC com especialização em arqueologia, logo arrumou os pauzinhos e conseguiu uma bolsa para Portugal. “Entrei para o corpo da Unesco. Ali, de uma certa forma, eu inventei essa arqueologia de comida”.

Começava, em 1970, o seu script errante. Jerusalém (“Um encantamento”), Tunísia, Egito, Trinidad e Tobago, Nepal, Japão, Índia (“Eu ia para a Índia duas vezes por ano, fui durante dez anos”). Na Jordânia escavava tão concentrada que nem ouviu os tiros. Só parou quando um amigo lhe gritou do outro lado do campo: “Fernanda, olha o bombardeio!”. Estava na China quando houve o massacre da Praça da Paz Celestial.

Quem a vê nas fotos, com um olhar de quem sempre sabe aonde vai, corpo mignon, um quê de heroína da Nouvelle Vague, não imagina aquela moça cavocando na terra com um bando de homens no sol do deserto, ou se encontrando com poderosos de vários governos, sem ouvir besteira. Bem, a cena à la Bond Girl que contamos lá na abertura do texto, diz ela, aconteceu só uma vez. Fernanda jura que nunca mais se viu numa situação de aperto, nem naqueles países que, daqui da terra dos rebolados, a gente ouve falar que as mulheres são trocadas por camelos. Ninguém a chamou para um narguilé “lá em casa” ou a mandou encarar um tanque de roupa.

“Acho que é porque sou aberta. Quando me convidaram para integrar o grupo do Projeto Himalaias, uma indiana me disse que fui escolhida porque nunca me converti a nenhuma religião, nunca tentei ser o que não era”.

Muito antes do discurso autossustentável que todo mundo hoje pronuncia de boca cheia, o Projeto Himalaias, de 1995, era um grupo multidisciplinar de cientistas que ensinava a preservar a natureza e os elementos culturais, e formava habitantes no Nepal para prolongar esse conhecimento. “Em Katmandu tínhamos o apoio do rei e da rainha, que pertenceu ao nosso conselho. Houve um golpe, mataram toda a família real, só sobrou uma tia que era meio estúpida, e uma parte dos nossos arquivos sumiu. Não dava para continuar”, ela conta. Criou, então, um projeto no deserto do Iêmen. “Mas tem uma coisa que destrói o mundo chamada americano. Eles quiseram logo se meter”. Dessa passagem pelo Iêmen ela descreveria a rota do incenso e os caminhos da Rainha de Sabbah, num dos seus livros mais bonitos: As Caravanas da Lua.

Mesmo saltitante, Fernanda continuou morando no Rio. Por aqui, teve cargos importantes, foi presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro e da Fundação Estadual de Museus do Rio de Janeiro, mas o governo achava que ela dava piruetas demais para não ser comunista. Ainda por cima recebia cartas da Rússia, da Romênia… Abriram sua correspondência. Tiraram seus cargos. Cassaram Fernanda. A saída era o aeroporto, mas ela voltava sempre – tinha uma família a zelar. Os quatro filhos ficavam em casa com o telefone na mão, controlados um pouco à distância (“Ela sabia ser mãe: fazia chantagem”, brinca sua filha Andrea), um pouco pela avó e muito por um personagem essencial nessa história: o italiano Giovanni. Eram amigos desde que ela tinha 6 anos e ele, 9, casaram-se com outros, e em 1973 reencontraram-se. Ela o pediu em casamento. Ele não titubeou em morar com uma mulher que viajava a cada dois meses, quatro filhos que não eram os seus, e uma sogra no pacote.

Um romance com final feliz: quase quarenta anos depois do sim, continuam trocando olhares carinhosos aqui na sala de casa. Publicitário, ex-dono de uma livraria no Leblon que comprou do pessoal do Pasquim, o charmoso Giovanni, 81, é só elogios para ela (“É a mulher que se veste mais rápido do mundo, não se pinta, a vaidade dela é mais pelo orgulho do que ela já fez”). Entendeu que o melhor jeito de segurá-la era deixa-la ir. “Como ter ciúme, se a Unesco precisava dela, as pessoas a queriam, com que direito eu impediria Fernanda de ser quem é?” Fernanda emenda: ela é quem tinha ciúmes. “Podia estar em qualquer lugar que dava um jeito de telefonar para ele”.

Andrea, a filha, traz os cadernos de viagens com os lindos desenhos de Fernanda, registros que ela nunca mostrou nem nos livros. Giovanni insiste que ela deveria fazer uma autobiografia. “Ela está liberada até para contar os eventuais romances que possa ter tido, porque agora tudo é história”. Fernanda sorri – fala às vezes “quando eu viajar de novo”, ou “quero voltar para Istambul”, diz que chora de saudades dos netos (dois dos filhos de Fernanda moram em Paris há mais de vinte anos). “Fui a última vez para Paris em 2008, mas agora tô nessa poltrona, vou ver quando posso ir”. Giovanni observa sua mulher finalmente em casa e acena um sim, porque o mundo gira depressa e um pouco mais de amor só pode fazer bem.

 

 

Quem tem mãe não tem medo

 

                

“Quem tem mãe não tem medo, a não ser da própria” – a frase é do Henfil, e usei essa como epígrafe na história que escrevi sobre a minha mãe, Gladys, para o meu livro Aprendi com minha mãe (que traz 52 histórias de mães de famosos de A a Z, de Arnaldo Jabor a Ziraldo, e tem Ronaldo Fraga, irmãos Campana, Suplicy, Costanza Pascolato…). Republico aqui abaixo porque hoje, 25 de agosto, minha mãe faria 72 anos. Queria que muita gente a tivesse conhecido — e quem conheceu que se lembre dela hoje também.

Por Cris Ramalho

  Aconteceu numa noite de autógrafos de um livro do Teotônio Vilella. Na fila, bem na nossa frente, estava o Henfil. Minha mãe sorriu para ele, encantada – era sua fã – e mostrou o pé dela. “Olha só o meu pé, Henfil. Não é pé de mãe?” Ele, maravilhado diante daquele pé gordinho, tão confiável, acolhedor, veio com essa: “É pé de supermãe”. Henfil, além de cartunista genial, era famoso por classificar as pessoas de acordo com os pés de cada um. E minha mãe… Bom, era e é A Supermãe. Não apenas de mim – embora eu seja filha única –, mas dos irmãos dela, do meu pai, dos meus amigos, de todos que iam chegando e, depois do nascimento da minha filha, ainda aprimorou o estilo no papel de superavó.

Talvez os pés gordinhos tenham dado a base genética para tamanha vocação. Ou, mais provavelmente, o talento tenha brotado, dolorido, com a ausência da mãe dela. Minha avó morreu jovem, quando mamãe tinha 18 anos, e mesmo antes disso, doente, internada durante anos num hospital, não houve muito tempo para as duas. Sem saber o que era ter mãe, a minha resolveu ser mãe. No sentido literal, cuidando da comida, da casa, das roupas sempre impecáveis, passando noites acordada porque eu tinha febre, ou não chegava, abrindo mão de qualquer coisa sua por mim. No sentido figurado, ouvindo atenta às histórias de cada um, sempre pronta a atender os desejos alheios e a acreditar em todo mundo, tanto faz se é conhecido ou não. Minha mãe, quando quer, consegue ser ingênua como a D. Nenê, da Grande Família, para citar uma bem típica. De olhar doce, lágrimas fáceis e mãos capazes de um purê de batata que eu vou te contar.

 Como nem tudo é o que parece, ela também pode ser o oposto do clichê maternal. Bonita, cabelão, de roupas coloridas, blush e batom em qualquer tempo, sou testemunha do seu sucesso desde quando ela ia me pegar, sempre de sapato de saltinho, na porta do jardim da infância. Até hoje, pode estar de cabelo molhado e ar distraído, faz bonito em cena. Um amigo meu diz que, com aqueles olhos verdes, ela é uma mistura de Liz Taylor com Maysa. Na adolescência, aliás, meus amigos logo se tornavam amigos dela. Como o Sérgio Crusco, da faculdade, que um dia telefonou lá em casa à minha procura e, como eu não estava, ficou de papo com ela. Comentou que estava triste, estávamos todos combinando de viajar para Cabo Frio, mas o pai dele o proibiu de ir e não lhe deu dinheiro. Conselho da minha mãe: “Vou lhe dizer uma coisa, Sergio: Todas as vezes que obedeci meu pai eu me ferrei. Vai viajar. Se você quiser, passa aqui que eu lhe dou o dinheiro”. Ele foi, claro, e repete essa história até hoje…

 Comigo, nem preciso falar. Minha mãe faz tudo para me ver feliz. Ela sempre achou que ninguém se compara ao bebê aqui, e me deu e dá tanto amor que ficou meio difícil para eu encarar o restante do mundo. Já de pequena, no Pré, foi duro entender que nem todos me achavam essa gracinha. De lá para cá, a coisa só piorou. Cada vez que noto que não estou agradando, me pergunto: “Como assim? Minha mãe diz que eu sou incrível”. Mas aí é só voltar para o colo dela, ganhar um monte de beijos e ouvir que o mundo é assim mesmo, que tudo bem. Um ritual que repito com minha filha, Nina, embora com menos freqüência, já que ela é bem mais resolvida do que eu. Amar a filha acima de tudo e se derreter de tanto amor: taí uma coisa que aprendi com minha mãe. Herdei ainda a mania do exagero.

 Como toda boa história de amor, essa é recíproca: também acho que mãe como a minha não existe igual. Como alguém com uma vida tão sofrida pode ser capaz de tanta generosidade? Quando a minha avó adoeceu, meu avô até tentou cuidar dos quatro filhos (minha mãe é a terceira), mas precisava trabalhar à noite, como contador. Enquanto os irmãos ficaram um tempinho no colégio interno, ela morou uns meses com o pai num hotel em frente à Estação da Luz e foi lá da janela do quarto que ela, seis anos e de mãozinhas grudadas nas dele, assistiu ao incêndio da estação, viu cair o relógio e guardou na memória um momento de afeto. Ele acabaria distribuindo as crianças entre a parentada, e sobrou para a minha mãe uma tia terrível. Depois que ficou viúvo, meu avô se casou de novo, reuniu os filhos e foram todos morarem Ribeirão Preto. Mas havia uma madrasta, e não era uma madrasta qualquer. Minha mãe viveu dias de Gata Borralheira, limpando a casa, trabalhando fora, cuidando dos irmãos e ouvindo coisas injustas.

 Nos dias que a situação apertava demais, ela pulava a janela e ia dançar um bolero nos bailes à tarde. Logo seria um broto de cintura fina, medidas de miss (“93 de busto, 59 de cintura e 93 de quadris, eu tinha um corpinho, só achava minha cara meio redonda”, ela me diz, sempre) e um sorriso que lhe garantia bombons e elogios no balcão da farmácia onde foi trabalhar. Só que uma cidade de interior nos anos 50 estava bem distante da Copacabana dourada que a gente vê nas canções bossa-nova. Ali, na real, não se podia nada, nenhuma risada mais soltinha, que logo se ficava “falada”. E minha mãe, que queria morrer diante de tanta mediocridade, teve de se contentar em exercer o espírito livre nos sonhos, nos livros, e numa ou outra resposta irônica para segurar o muito que dizer. Com 20 anos voltou para São Paulo, acabou morando com os irmãos, casou-se em seguida e, por uma dessas coisas da vida que não se explica, acabou optando por ser livre só no espírito. Continuou limpando a casa, cuidando dos irmãos que a toda hora pintavam na área, segurando barras bem pesadas de família, salvando os outros de encrencas e ouvindo coisas injustas.

 Mas aí eu já estava na história. Única filha, única mulher diante de um mundo masculino (mamãe não teve irmãs, só homens ao redor) para ela partilhar, desde pequena, suas ideias e umas pequenas fugas da chatice diária. Minha mãe pode ter parado de trabalhar fora, pode ter deixado de realizar uns desejos só dela, mas a alma continuou independente como uma Isadora Duncan. Ela me incentivou a seguir o rumo das minhas venetas, e até quando fiquei grávida, estudante desligada, achou ótimo e nem pensou se eu deveria me casar – assim aprendi a liberdade. (mas me casei mesmo assim). Ela me fazia confidências e sempre soube me ouvir – assim aprendi a confiança absoluta. E se no meio do caminho surgiram histórias trágicas, nós nos segurávamos uma na outra. E saíamos – como fazemos até hoje – para um almoço glamouroso num dia cinzento ou para um passeio leve, comprando bobagens, dando risadas e tomando um Chicabon.

 Foi para ela que contei quando descobri o amor. Ela que sabia das minhas coisas, enquanto minhas amigas se espantavam, não contavam nada para as mães. Posso estar em Bangcoc ou no sertão do Ceará, mas é com ela que falo todos os dias pelo telefone.

Se não falar, fica faltando alguma coisa em mim.

 Eu gosto de pensar que também é bom ficarmos juntas sem dizer nada. Talvez sossegadas numa cadeira de praia, olhando o mar, num dia de sol bom. Então uma hora ela vai comentar comigo sobre o que está lendo – quem sabe algo do Rubem Braga, ou do Jabor, que ela adora – vamos rir ou chorar um pouquinho juntas e de repente vai bater uma felicidade, que é de tudo, de um instante bom, da nossa eterna sintonia. E vou pensar que também sou mãe, quero que a minha filha possa sempre escolher ser feliz, e a história se repete.

 Só não sei se dá para eu ser uma mãe tão especial quanto ela – e isso até minha filha, desde pequenina, já anteviu. Quando ela estava com uns quatro anos, fez um desenho que, de tão simbólico da família, preguei na porta de entrada do nosso apartamento. Num lado da folha, o desenho grande de uma menininha de mãos dadas com uma mulher, cena de segurança e conforto total. “Quem são essas, Nina?”, perguntei. “Eu e a vovó”. “E essa outra aqui, sozinha no canto?” “É você, mamãe”. A do canto, lá longe, era uma magrela dançando. Essa arte de ser mãe, definitivamente, é difícil de aprender.

 

Minha mãe

 Gladys Giovannetti Ramalho nasceu em São Paulo, no dia 25 de agosto de 1939, quase junto com a Segunda Guerra Mundial. Aos cinco anos, ficava na fila do pão nas madrugadas durante a Guerra. “Na minha vez, o pão sempre acabava e baixavam a porta do forno na minha cara”, contava, rindo. Na adolescência, morou em Serra Negra e em Ribeirão Preto e, aos 20 anos, mudou-se de volta para São Paulo. Ela e meu pai, Tarcisio, se conheceram na praia, em 1962, de maiôs e cabelos molhados. Marcaram encontro em São Paulo, na porta do cinema, e não se reconheceram, bem-vestidos e penteados. Quase que ali acaba uma história que seria longa… Casaram-se em novembro de 63. Sempre estiveram juntos em tudo, pais incríveis e, como avós, adoráveis.

Ela faleceu em 22 de outubro de 2010. Meu pai, agora, está ainda mais juntinho de mim e da minha filha – acho que a Gladys curte isso.

Veja bem

Até que demorou para a minha visão das coisas atrapalhar a vida. Na classe eu me sentava no fundão, via tudo em panorâmica, não perdia um tiquinho da lousa, muito menos as piadas.

Aos 13, quando começam a se revelar os altos e baixos da existência, me classificaram com 0,5 grau de miopia. Óculos, não, obrigada. O que os olhos não viam ajudava a me esconder, desengonçada e rechonchuda, do foco nem um pouco amoroso dos meninos. Sem a nitidez da realidade, eu podia ser quem bem quisesse. E tudo que eu não queria era ser quatro-olhos.

Meu peso diminuiu, o grau aumentou. Diziam que bastou eu afinar a cintura para ficar metida – não retribuía aos acenos (aqui cabe defesa: antes de emagrecer, não me lembro de ninguém acenando animado para mim). Antes fosse isso, mas o fato é que eu só enxergava se a pessoa chegasse mais perto. Na dúvida, de tímida virei popular: retribuía qualquer tchauzinho, por mais na diagonal que fosse.

Mas por que não usar óculos? Veja bem, eu tinha feito esforço sobrehumano para caber no 36. Era dentuça. E ainda ia me esculachar?

Lentes de contato me davam aflição. Já crescida, os óculos só eram tirados da bolsa no teatro ou cinema. Luzes acesas, lá iam para a bolsa, de novo. Só saíam de novo para eu dirigir, o que também demoraria um bocado.

A essa altura a miopia estava pelos 1.5. Até contribuiu para um romance. Na festa apertei os olhos para conferir se aquele loiro alto que se avizinhava era bonito mesmo ou delírio pós champanhe. Ele não entendeu que eu só o olhava fixo porque não enxergava. Chegou rasgado em sorriso e na mão, duas taças. Pelo que registrei, o resto foi uma beleza.

Relapsa, sempre, larguei os óculos no carro, rolaram no chão, as lentes riscadas refletindo todo um estilo de vida: um pouco embaçado pelos anos, mas sempre enxergando luz boa lá no finalzinho. Uns sopros de anjos – via filha e marido – me convenceram a ir ao oculista, eu andava apertando demais os olhos. Exagero. O grau subiu pouco, só mais meio. E como usei pouquíssimos óculos, ainda me orgulho de posar de garota: enquanto todo mundo ao redor puxa os temidos oclinhos de leitura, eu posso me gabar de ler o cardápio em qualquer penumbra, não importa o tamanho da letra, e ainda acertar o pedido.

O doutor é um amor, me fala da Grécia, da vida, de vinhos, “continue assim que sua miopia tá boa, não precisa de óculos o tempo inteiro” – mas quando checa minha idade na ficha acha que é hora de medir a pressão ocular. Foi aí que ele mudou de tom, chamou para conversa séria e mandou para uma bateria de exames. Abre o olho para a foto da retina, estica feito tortura em Laranja Mecânica, pinga colírio, e depois outro, e mais outro. A japonesa falante me dá um mouse para apertar o que vejo nas laterais de uma tela de videogame. Luzinha em cima, luzinha embaixo, luzinhas pulando a todo momento. De repente não vem luz nenhuma. O computador não vai me enganar! Na dúvida, aperto o mouse.

Aprendo que o nervo ótico é dividido em dez quadradinhos. Nove dos meus já eram. Se eu me tratar, muito que bem. Se não, perco esse fiozinho que resta.Vou parar numa espécie de dr. House dos olhos, mas com sorrisos e bons modos. Mais exames. O House gente fina me conta que tem falha na minha genética e meus olhos desprendem pigmentos que fecham os canais. Quero sair correndo. Também não pode. “Você tem de parar com os esportes de alto impacto”.

Então me ensinam que chegou a hora de exercitar meu olhar. Ampliar meus horizontes: admirar o por do sol, espiar as estrelas, olhar a linha do mar, o pensamento lá no fundo. Alguém me diz que pode ter componente psicológico aí, e começo a ficar desconfiada de mim mesma. Terei visto coisa que não devia? Ou vai ver é castigo divino por conta daquela vez, na quarta série, que brincávamos de filme de terror e o Ivaldo, que tinha um olho de vidro, me encurralou no corredor e tirou o olho. E eu gritei tanto, tanto, que o menino sumiu dali, talvez cheio de complexos.

Se ver a realidade nunca foi meu forte, parece que estão me cutucando agora para pingar o colírio e encarar. Tento vislumbrar poesia, salpicar charme: vou dar a mão sem olhar, enxergar o tal lado cheio do copo, celebrar a alegria dos sentidos. É pegar esse limão que pintou e fazer uma boa caipirinha, cantarolando alto o samba do Paulinho da Viola: “a vida não é só isso que se vê…” Agora, se um dia a coisa ficar preta de vez, vou é segurar firme na coleira da Zara, a labradora mais fofa do planeta, e que sabe me guiar para as alegrias de muitos instantes.

Dar a cara pra molhar

Jacques Mayol, o mergulhador mais famoso que se tem notícia, dizia que o habitat natural do homem é o oceano. “Nascemos nus, num oceano em miniatura, que é o ventre da mãe”. Nadar, então, seria voltar às origens em todos os sentidos, a melhor das sensações. Sei não. Do próprio ventre saí correndo, prematura, e embora minhas primeiras fotos sejam na praia (morei em Santos quando era bebê), tinha com o mar um acordo tácito: eu não ia além da minha insignificância, ele não perdia tempo comigo.

Nem me lembro da primeira vez que eu vi o mar. Guardei uns deslumbramentos, aquela alegria de gritar quando vem a onda, o azul pertinho da água, o verde lá longe, o coração apressado, as pernas enfiadas na areia, a água escorregando saborosamente por baixo. Um arrepio de medo. O mar. Do peito não passava. Minha mãe, que não botava fé nessa história de água maternal, ficava espiando de longe, um de longe que era bem pertinho. Morria de medo por mim. Ela nunca soube nadar.

Já a praia, às vezes para ela, e sempre para mim, era o melhor dos mundos. Gostávamos de sentar nas cadeiras num dia de sol bom, a conversa despenteada, meio falar de nada, dar umas risadas. De repente batia uma felicidade por nada em especial, era por estar de papo para o ar, sol bom, o pé fazendo suish, suish na areia de talco, na boca um Chicabon.

Muitas vezes ela não estava – e sem suas espiadas eu ia um pouco mais, dançava no vai e vem das ondas, dava meus furos na água. Até que eu fui longe. Umas braçadas em Ubatuba, um mergulho de garrafa em Fernando de Noronha, farra com bóia num cânion no rio São Francisco, flutuar em Bonito, boiar na Tailândia, pular ondas com um amor de mãos entrelaçadas no Nordeste. Voltava para contar minhas descobertas, minha mãe ouvia assustada. Eu adorava me atirar sem olhar. Um sorrisão e a dádiva: sentir o corpo na água.

Mas a cara, não. Minha cara eu não dava para molhar. Nem no chuveiro me atrevia a tomar água no rosto. Nadava o cachorrinhês, pescoço duro, rosto para fora, a deselegância indiscreta numas braçadas sem suingue para chegar logo.  Assim desbravei piscinas, lagos, mares, sempre com aquela eterna sensação de que nasci com alguma coisa errada. O pavor de morrer afogada, o coração disparado, sonhos durante anos de tsunamis gigantes me engolindo. Meu medo de enfiar a cara na água era quase tão grande quanto o medo de ficar sem mãe um dia.

Às vezes a vida fica dolorida e a escuridão do mundo esmaga a gente. Minha mãe morreu. Só me restou ir para o fundo.

Com o empurrão de uma amiga querida fui parar de maiô, touca e 40 anos de vergonha na aula de natação. A vontade de sair correndo. Braços para um lado, pernas para o outro, o corpo troncho – devo estar parecendo um jacaré comendo uma garça.

Dias de tortura. Meia piscina é mais do que uma maratona. Os óculos escondem as lágrimas. O coração dispara. Isso nunca vai dar certo. Nuns dias bate sol, a água fica azulzinha, a boca até fecha antes de eu engolir um balde. Vou pra frente, feliz da vida. Na aula seguinte, mal dou duas braçadas, engasgo, entorto, bebo dois litros, volto dez casas e caio no fosso do dragão. Isso vai ser difícil.

A amiga vem com sorriso otimista. “Você está nadando”. O marido traz lição de vida, aprender é assim mesmo, e olha que beleza, você já atravessou a piscina. Uma terapeuta enxergou a profundidade das relações afetivas. Leio no I Ching que medo e água estão ali, ó, grudados, e agora chegou a hora de nadar em águas mais profundas.

Então um dia, do nada, deslizo na água. As inquietações, por segundos, ficaram para trás. Aprendo a respirar, mas ainda assim só consigo me soltar quando estou com os pés de pato. E a minha cara está inteira na água. Acabaram de inaugurar o mundo. Estou levinha, levinha, solto as bolhas, que orgulho, se eu já tivesse aprendido como não engolir tudo juro que ia abrir um sorrisão. Ah, Jacques Mayol, você tinha razão: mergulhar, a melhor das sensações.

Talvez eu esteja delirando, mas tenho quase certeza que vi minha mãe agarradinha aos meus pés de pato…

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