LAN – revista Icaro

Por Cristina Ramalho

Peito e bunda em todo lugar. Perdão pela lascívia logo de cara, mas é assim que o cartunista Lan vê a vida. Uma sucessão de curvas femininas, rebolantes, que prometem sensações _ para onde quer que Lan dispare o olhar, da geografia (“o Rio de Janeiro é uma cidade mulher, curvilínea”, diz) ao alfabeto (“a letra S é um corpo feminino”), ele só consegue pensar naquilo. Seus traços escorregam saborosamente no papel as idéias marotas _ e é por isso que suas mulatas são as mais sinuosas, as mais deliciosas, as mais mais. Não por acaso, Lan casou-se com uma linda, Olívia, fulgurante bailarina do trio que deitou ritmo pelos palcos cariocas nos anos 50/60: as irmãs Marinho.

Olívia e suas irmãs Mary e Norma, estrelas dos shows de Carlos Machado no Golden Room do Copacabana Palace, foram retratadas por Lan em desenhos elegantes, a malícia transbordando nos risos alvos e quadris febris. Outras tantas mulatas, como Marisa, Sandra Mara, Narcisa, figuram na lista de homenageadas por esse italiano que, como bom exemplar da espécie, não se cansa de amar as fêmeas. Em qualquer caso que conta, seja sobre suas primorosas caricaturas dos sambistas do Rio, ou sua amizade com o escritor Stanislaw Ponte Preta, ou até a famosa charge publicada em 1954 no jornal Última Hora, na qual imortalizou o anti-comunista Carlos Lacerda como “O Corvo”, tem sempre mulher no meio da narrativa.

“Inventei o Lacerda como um corvo porque o desenho era mais fácil, era só encher de preto, fiz em menos de cinco minutos. Estava atrasado, tinha de sair correndo para encontrar com uma mulata”, fala Lan, simplificando as versões mais sérias que entraram para a História. Samuel Wainer, o então diretor do jornal e inimigo número 1 de Lacerda, havia pedido uma charge dele na linha “papa-defunto”, acusando-o de envolvimento na morte do jornalista Nestor Moreira. Em sua biografia, “Razão da Minha Vida”, Wainer se diz autor da idéia. Outros reclamaram a criação mas, cá entre nós, a de Lan parece ser a verídica. “Passei uma noite maravilhosa com a mulata, voltei no dia seguinte e o Samuel me chamou. Pensei: fui demitido! E ele e outros figurões me cumprimentaram pela profundidade psicológica do meu trabalho”, diverte-se.

Lacerda nunca mais se livrou do apelido e Lan firmou-se de vez como chargista genial. Fazia apenas dois anos que tinha chegado ao Rio, mas aprendeu rápido a descrever o Brasilem tintas. Ocharme trazido do berço _ Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortellini Rossi Rossini nasceu em 1925 na Toscana, Itália _ ganhou contornos mais precisos no Uruguai, para onde foi estudar acompanhando o pai, músico clássico que tocava oboé com Arturo Toscanini. Ali em Montevidéu que Lanfranco virou Lan, descoberta a vocação na caricatura perfeita do _ quem mais? _ professor de química. Ali também aprendeu a desenhar de memória, para exercitar o essencial na caricatura: a síntese. E estudou arquitetura, profissão que nunca exerceu. De desenho, mesmo, jura que nunca teve aula nenhuma.

O toque extra de malandragem veio da Argentina. Lan trabalhouem Buenos Airesnos jornais El Mondo e Notícias Gráficas (onde a chefe _ olha a mulher no meio _ era Evita Perón) criando caricaturas de esportistas. Nas horas vagas, distribuía rosas brancas, tortas doces e palavras amigas às moças da noite. “Já não se fazem prostitutas como antigamente”, suspira. Lan é milongueiro. Fala macio, derrama gentileza, sabe dançar. Com tantos predicados, sacou rápido que se sentiria em casa no Rio de Janeiro. Não deu outra. Mal aportou na Baía de Guanabara, em 52, já foi conhecer a turma das escolas de samba. E seu coração se deixou levar pela Portela, da qual foi até diretor. “Ela é de uma elegância incomparável e a única que ganhou 22 carnavais”.

Por causa da Portela, engrossou com Sargentelli num programa da TV Rio em 62, quando a favorita era o Salgueiro, que havia contratado dois artistas, Pamplona e Arlindo, para criar suas fantasias. Sargentelli questionou Lan se a vencedora Portela havia roubado no título. O caricaturista defendeu sua escola e argumentou, bidu, que o Salgueiro também merecia aplausos por inaugurar uma nova categoria no samba: a profissão de carnavalesco. Como já acontecia com as mulheres, sua diplomacia lhe valeu, sempre, o apreço de todas as outras escolas de samba. Lan circulou por todas, bebeu com todo mundo, namorou garotas de vários estandartes e conquistou o respeito de velhas e novas guardas.

O resultado está em centenas de caricaturas de todos os personagens importantes do samba: Zé Keti, Candeia, Clementina de Jesus, Nelson Sargento, Casimiro Calça Larga, Dona Ivone Lara, Monarco, Paulinho da Viola, Neide e Delegado, Jamelão…Todos eles aparecem, em cores ou preto-e-branco, sempre divinos, em “As Escolas de Lan”, livro recém-reeditado e mais caprichado do que a primeira versão, em 1979. Patrocinado pela Lei Rouanet, vem com texto do amigo e cunhado Haroldo Costa, mais prefácio do escritor Artur da Távola. Alguns retratados ganharam novas leituras, com exceção, por exemplo, de Jamelão _ mal-humorado demais para um bis no desenho.

Essa gente toda rende horas de histórias, que Lan relembra com prazer e sotaque na sua casa, um sítio em Petrópolis onde vive com a eterna Olívia. Nelson Cavaquinho, ele conta, lhe ensinou preciosa dica de expert: como beber cada vez mais. “Ele me falou que quando o porre bate, é só enfiar a cabeça debaixo da torneira e deixar a água cair por cinco minutos. Aí, voltar para a mesa”. Lan testou o método quando foi trabalhar no jornal O Globo, onde o diretor de então media a masculinidade dos empregados pelas doses que conseguiam engolir. Funcionou. Sua virilidade virou atração. Dali ele pulou, mais tarde, para o Jornal do Brasil, em cujas páginas estampou ironia dos fatos cariocas por 37 anos.

Sua carioquice foi da Praça Tiradentes _ lá ficou amigo do bandidão Madame Satã _ à Copacabana dourada da bossa-nova. Lan elegia as certinhas do Lalau com Sérgio Porto, dançava com as vedetes do teatro rebolado, gargalhava com o povo do Pasquim, se emocionava com o som dos surdos da bateria e desenhava sem parar. “Todo instrumento tem sua alma, expressa no rosto de quem toca”, diz ele, que até hoje chora quando a escola entra na avenida. “É um milagre”. Por esse amor, deixou Paris (onde se exilou nos tempos negros de 64) ao escutar um disco da Mocidade Independente no apartamento de Danuza Leão e Samuel Wainer. “Larguei um emprego na Paris-Match só para voltar para o Rio, minha maior paixão”, fala Lan sobre a cidade que lhe inspira. “Por onde ando, só vejo peitos e bundas”.

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Carmen Oliveira
    ago 27, 2011 @ 11:06:30

    Qual data da primeira publicação da caricatura do Corvo, na Última Hora?

    Importante para trabalho sobre o fantástico Lan.

    Obrigada pela resposta.

    Responder

  2. Fran Oliveira
    dez 20, 2012 @ 20:34:19

    Cris, Vc tem o contato do cartunista Lan? Preciso para comprar uma caricatura dele para uma publicação. Obrigado

    Responder

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