GUTO LACAZ

“De que serve um livro sem figuras?” (Guto Lacaz)

Entrevista a Cristina Ramalho Foto: Murillo Constantino

Você iria gostar dele, aquela expressão de menino com vontade de começar história nova. Guto Lacaz já está com 61 anos, voz e alegria de criança até quando se mostra indignado com as indelicadezas da vida. Bastou ver lixo no chão, árvore maltratada, gente abandonada na rua — ou seja, é só dar uma voltinha no bairro — que ele vai lá, cutuca o mal-educado em questão e fala na maior sinceridade: “Não faz isso, é feio, não joga lixo, não desperdiça água”. Nem todo mundo entende o careca barrigudinho, com idade para se mancar e ir cuidar da própria vida. Voltam respostas como nas histórias em quadrinhos: palavrões, expressões de raiva, grunhidos. Guto, graças a Deus, nunca se mancou. Continua desmontando — de eletrodomésticos à pretensão alheia — e reconstruindo mundos.

Primeiro foram os foguetes que explodiam na rua e não iam a lugar algum — ele devia ter uns dez anos. Depois, os trenzinhos: fez um cabo até a casa do vizinho para enviar uma caixinha, tipo bondinho, ao Rui Pedreira, seu melhor amigo. Trenzinhos seriam desfrutados em ambientes mais sofisticados, como a sala na 18a Bienal Internacional de São Paulo, onde a instalação de Guto era um convite para experimentar a aventura: um trenzinho que ia de um lado para o outro. A criançada adorou. Ele foi parar na exposição mais importante do Brasil do mesmo jeito tão espontâneo como quando descobriu sua vocação para as artes — um dia colou uma garrafa de Crush (a Fanta de outros tempos) numa placa de madeira e batizou com o trocadilho Crushfixo. Inscreveu a obra no concurso Objeto Inusitado, ganhou o primeiro prêmio, quem passava para ver mostrava para outro amigo, sorrisos se abriam.

Guto entendeu os apitos do destino. Sabia olhar para as coisas e tirar poesia do improvável, e se bobear podia até viver disso. Martelos, caixas, serrotes, bolas de pingue-pongue que voam com o sopro de aspiradores de pó, o ferro de passar que frita ovo, a lata de óleo Maria que roda na bandeja à procura da salada — tudo pode ser transformado em arte, porque em cada historinha que ele inventa afloram os absurdos da existência.
O Guto desligado dos adjetivos foi parar em Paris, Nova York, entrevistas, na boca de gente séria que ao assistir uma performance dele, espiar uma instalação, ver seus desenhos, se desmanchava em elogios. E lá vinham as comparações: é o novo Marcel Duchamp! Um Professor Pardal! É um dadaísta! Sim, é tudo verdade. Guto tem também um quê de Harold Lloyd, o artista do cinema mudo que se pendurava em relógios, fazia humor sacudindo a lógica. Ou de Santos Dumont, na capacidade de inaugurar uns mundos novos. Tem, sobretudo, um refinamento incomum, o do sorriso embalado no poder de síntese: seus desenhos, elegantes, são limpos, perfeitos, impossíveis de copiar.

Não admira que ele diga, com aquela graça sinuosa, de dizer como quem não quer nada a palavra certa no instante da história em que essa palavra se faz imprescindível: “O desenho revela a pessoa”. Guto Lacaz, um senhor humilde, pai embasbacado com as gracinhas da filha, moleque que chuta o balde, revela-se um grande sujeito.

Outlook –Você sempre é descrito como a criança que inventava, explodia coisas e repetia de ano. Você era o filho problema?
Guto Lacaz – Eu sou o famoso filho “do meio”, o saco de pancadas. Em casa éramos quatro: a mais velha, Ana Helena, que ficou do lar; o Carlos Roberto, que virou psicanalista; eu e o Carlos Eduardo, o Nenê, que é psicólogo. Quer dizer, os dois psycho (brincadeira com psycho, psicopata em inglês). Meu pai era médico, importante, foi diretor da Faculdade de Medicina da USP. Mas até por serem muitos filhos, meus pais não se preocupavam tanto se eu repetia de ano, eram bem liberais, não me criticavam como “o filho problema”. Eu é que me preocupava de não ficar atrás do Nenê. Então depois de repetir no Dante (Alighieri, escola tradicional de São Paulo), fui para o ginásio vocacional e ali encontrei o meu ecossistema.

Para ler esta entrevista completa, clique no link: OTLK_18_6-FEV-2010_p1;26-32

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