BERNARDO PAZ

 

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O Incendiário
 – páginas negras da Trip/ agosto 2013

Por Cristina Ramalho

Durante anos o empresário mineiro Bernardo Paz se enchia de uísque para poder dormir – duas horas, se muito – e de manhã tinha de engolir o Engov e negociar com banqueiros, operários em greve, políticas econômicas. Nos intervalos, moças notavam sua estampa de galã, olhos azuis, sentavam-se ao seu lado para mais um drinque e logo viravam esposas. Vinham mais filhos, mudanças de endereço, um punhado de papagaios no banco, sempre com aquela eterna sensação de angústia e os muitos maços de cigarro que carrega desde garoto.

Nesse ritmo, aos 45 anos ele teve um AVC em Paris. Deitado por obrigação, com tempo para pensar na vida, Bernardo se lembrou do jardim mais exuberante que já tinha visto, num hotel de luxo em Acapulco, em 1971. Só que enquanto lá dentro, ao som das maracas, os hóspedes se deslumbravam, do outro lado do muro altíssimo a população mexicana vivia na miséria absoluta. Bom, já dizia o escritor Paulo Mendes Campos que é quando um homem está cansado, quando a vida o encheu, que ele vê o inesperado. Foi mais ou menos o que aconteceu. Bernardo achou que devia deixar algo de bonito para os outros. Que fosse ainda mais bacana do que o jardim de Acapulco, e sem muros, para gente de todas as classes partilharem do encantamento. Assim começou a se desenhar a alma do Inhotim – e hoje é o maior museu a céu aberto do mundo, que combina arte, jardim botânico e projeto social.

Bernardo usou o próprio dinheiro – e o charme da conversa para se entrosar com quem fosse preciso – e construiu o museu dentro da sua fazenda em Brumadinho, Minas Gerais. Inaugurado para o grande público em 2006, o seu Inhotim tornou-se, em pouquíssimo tempo, referência mundial em arte. Numa área de 97 hectares, espalham-se pavilhões espetaculares, encravados na natureza, com o fino dos contemporâneos: Adriana Varejão (ex-mulher dele), Ernesto Neto, Tunga, Anish Kapoor, Miguel Rio Branco, uma lista de 500 obras de 100 grandes artistas de 30 nacionalidades. “A arte contemporânea é a única arte crítica, interativa, que mexe com as pessoas”, repete Bernardo, hoje com 63 anos.

Um sujeito ansioso que continua fumando sem parar, ainda não dorme, é carismático, intenso, e tem histórias como se todo dia na sua vida fosse um happening. Não poderia mesmo ver graça em quadros e esculturas feitos para se contemplar com a mão no queixo. Inhotim é uma extensão natural da sua personalidade: exuberante, perfeccionista, feito de superlativos. As obras sacodem os sentidos, convidam a experimentar, subvertem os espaços. Matthew Barney, por exemplo, criou ali a instalação De Lama Lâmina, com um trator que suspende um tronco de árvore. Doug Aitken cavou uma cratera e instalou microfones lá no fundo, para a gente escutar o som do centro da Terra, no seu Sonic Pavilion. E quem quiser pode mergulhar na piscina do Helio Oiticica. Uma alegria real, que se pode tocar. Era o que ele queria.

O verde também é um exagero de beleza. Um dia Bernardo se gabava das palmeiras para um agrônomo, e ele retrucou: “Não é bem assim. Faltam centenas de espécies para essa coleção ser espetacular”. É prá já. Bernardo deu a bronca no jardineiro ali mesmo, e não demorou exibia uma das maiores coleções de palmeiras do planeta – mais de 1400 espécies. Há ainda um Viveiro Educador, com 25 mil metros quadrados para pesquisas científicas. Ele gosta de dizer que não entende de arte – desfez-se da coleção de arte moderna da família, da qual ele mesmo tinha comprado boa parte – e manja mesmo é de botânica. Quando o projeto de Inhotim ainda estava em botão, o amigo Burle Marx  lhe deu conselhos preciosos para o paisagismo do lugar. De início o público era de amigos dos amigos, a turma dos bem-pensantes das artes, mas Bernardo queria mesmo derrubar muros. Inhotim tem programas de inclusão, coral, banda, projetos que melhoram a vida em torno, e o programa Inhotim Para Todos, que leva crianças e adultos de baixa renda para visitarem o museu.

“Quero que essas pessoas sejam tratadas com dignidade, com a beleza que merecem. Se uma pessoa pobre tem a casa pintada, um pouco de beleza que seja, ela se sente valorizada, tem estímulo para melhorar. Isso tem de acontecer em vários sentidos”, diz. Bernardo foi longe – em janeiro de 2011 foi convidado a falar no Fórum Mundial de Davos sobre o tema Arte e Filantropia. Antes de ir, Bernardo deixou a paz de lado e botou fogo em entrevistas (“Quando chegar lá, vou olhar para a cara daqueles bundas-moles e mandá-los para puta que os pariu. O fórum que importa está no governo de cada país, de cada estado, de cada cidade”). Não deve ter mandado, porque saiu de lá aplaudido de pé. Na gangorra da história, o nome Bernardo Paz rodou na imprensa por um leque danado de temas: o casamento com Adriana Varejão; denúncias envolvendo seu irmão, o publicitário Cristiano Paz, com o mensalão, já que Cristiano era sócio de Marcos Valério; acusações de lavagem de dinheiro para sustentar Inhotim; processo de um paisagista que não teve seu nome mencionado na criação do jardim – e fale mais um item que talvez esteja na lista.

Ele segue em frente. Está casado com a sexta mulher (Arystela Rosa, 31 anos, que mora em São Paulo enquanto ele fica em Inhotim), é pai do sétimo filho (Aquiles, nome do pai de Bernardo, de quem ele sempre esperou reconhecimento), avô de dois netos (“Detesto neto”), vendeu sua mineradora Itaminas por 1,2 bilhão de dólares e jura que bota tudo no museu, vive duro, pegando empréstimos. Mora sozinho num casarão de vidro dentro de Inhotim, 12 metros de pé direito e peças de design, cara de galeria de arte (“Fiz essa casa para os outros, que se deslumbram, eu não preciso morar nisso aqui”), onde conversou com a Trip e se abriu de um jeito impressionante. Diz que não é feliz. “Tomo remédio para dormir, remédio para acordar, remédio para o coração”. Mas gosta de saber que, assim como a mãe, de quem herdou a sensibilidade, só está pensando nos outros. Porque como lhe disse um funcionário muito simples, outro dia, carregando um pato morto: “O pato, como a gente, nasce, cresce e morre”.  

Ontem veio aqui uma moça da Fundação Cartier francesa, você disse que ela ficou impressionada com o que viu. BBC, Wall Street Journal, The New York Times, a imprensa do mundo tem escrito maravilhas de Inhotim, e você está cheio de projetos novos para cá, não?

Ela ligou na hora para o Hervé (Chandés, presidente da Fundação Cartier). O Hervé é meu amigo pessoal. Aliás, o Anastasia (Antonio Anastasiagovernador de Minas Gerais) esteve lá no Louvre, ele quer trazer o Louvre pra cá (Anastasia pretende ter uma filial do museu francês em Belo Horizonte). O presidente do Louvre conhece o Inhotim e falou pra ele: “Você tem o lugar mais impressionante do planeta, porque você quer o Louvre lá?” Aí o governador foi na Lafarge (empresa francesa, uma das maiores construtoras do mundo, com filiais em MG), falou com o presidente deles na França. E a Lafarge vai construir de graça um pavilhão para mim, são R$ 6 milhões que eles vão investir. Tá bom, ajuda a gente. É esse aqui (Bernardo mostra a maquete de um ovo aberto, dentro o formato de um anfiteatro), terá 30 metros por 18 metros de altura. Tem um restaurante que vai debaixo da terra. Começa a construir no ano que vem.

Tem outros projetos já desenhados? 

Tem 58 pavilhões pra construir. Já projetados. Só que eu tô com a cabeça quente, é tanta coisa. Na parte botânica tem uma green house de 50 metros de altura por 50 mil metros de área que vamos fazer. Vou botar a Floresta Amazônica dentro. Isso é o governo da Noruega que vai financiar.

Esses financiamentos, como funcionam? Doação.  

Mas como eles chegam, vêm oferecendo assim? Você não tem uma equipe que prospecta, faz captação?

Tenho um grupo de profissionais, mas o pessoal de fora chega aqui, se impressiona com o lugar, não viram nada igual no mundo e querem ter o nome vinculado ao Inhotim. Já para a captação de Lei Rouanet temos um departamento que cuida disso. Nossos projetos são todos editados pela Ernst & Young,  então nós temos excelência absoluta nessa área.

Como acontece a negociação com os estrangeiros? 

É fascinação, só isso. No domingo teve aqui um francês, que tá tentando construir em São Paulo. Ele comprou aquele Hospital Matarazzo na Av. Paulista, tem um projeto grande. Ele quer fazer Inhotim comigo, tem dinheiro demais (Bernardo se refere aos franceses do grupo hoteleiro Allard, que compraram o hospital em São Paulo para fazer um hotel de luxo assinado por Philippe Starck). Mas é dinheiro árabe, eu acho, não tenho certeza, nunca perguntei a ele. Ele quer me levar em Abu Dhabi, pra conhecer o emir, que é fascinado com arte. A gente tem que analisar, tudo tem tempo certo pra cada coisa.

É só você quem dá a palavra final? 

Não, eu dou a palavra inicial, que tá muito na frente da palavra final dos outros.

Você veta alguma coisa? 

Não há necessidade de vetar, porque temos uma equipe de profissionais que filtra tudo. Tenho sete curadores, um americano, um alemão, uma sul coreana, uma portuguesa, dois brasileiros etc. Já chega para mim o melhor do mundo. Nunca chega uma coisa mais ou menos. O melhor do artista e tudo por preço de projeto, não por preço de obra.

Você criou o Inhotim usando sua fortuna pessoal para um projeto grandioso desses, que mistura arte, botânica, projeto social, já imaginava que aconteceria tudo isso?

Eu nunca imaginei que eu ia construir Inhotim, eu comecei a fazer. É claro que eu olho para trás hoje e vejo com tranquilidade que talvez eu tivesse imaginando. Porque dez anos atrás eu comprei o terreno para fazer um aeroporto para Inhotim e ao mesmo tempo eu não imaginava que eu ia construir Inhotim.

  E, afinal, vai ter o aeroporto?

Vai, claro que vai, já tem terra, tem tudo, já está aprovado pela Infraero, pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), por todo mundo.

Vi que o hotel está sendo construído aqui dentro, e vai ter mais um restaurante. Você não tinha convidado o Alex Atala para fazer um restaurante aqui?

O hotel vai ficar pronto logo, tá super adiantado. O Alex é um gênio, um chef maravilhoso, mas pediu R$ 8 milhões para o restaurante e só ia vir aqui de vez em quando. Achei demais, falei não, obrigado, não quero. E ele andou espalhando que estraguei um sonho dele. Estraguei porra nenhuma, achei que era dinheiro demais, esses caras têm muito ego.

Falando em ego, você sempre diz em entrevistas que uma pessoa só se realiza mesmo quando faz algo para a sociedade. Você sempre sentiu essa vontade de partilhar? Me conte um pouco da sua infância, adolescência.

Sempre, sempre. Fui educado assim. Bom, minha mãe era poeta, pintora e assistente social. Era muito vinculada às pessoas mais humildes. Meu avô por parte de pai trabalhou com o Marechal Rondon, foi um homem muito patriota, a palavra é meio ridícula, mas ele tinha um orgulho do Brasil, criou meu pai dentro desses fundamentos nacionalistas. Minha mãe era muito depressiva, mas tinha um senso de humor fora do comum. Já o meu pai era engenheiro, muito disciplinado, era um homem que me ninava com os hinos, Hino da Bandeira, Hino Nacional, todos os hinos que você imaginar.

Ele cobrava muito? 

Era muito duro, muito difícil. Meu relacionamento era melhor com a minha mãe, ela era de uma sensibilidade atroz. Esse antagonismo me deixou completamente inseguro, até os… ah, a minha vida inteira. Somos quatro irmãos, eu era o mais velho. Isso me deixou mais ou menos sem pouso, porque meu pai pregava o heroísmo, a luta, a vontade, o crescimento. Meu avô, pai dele, era do Piauí, mas fugiu de lá, teve a revolução. Na época de Arthur Bernardes (mineiro, presidente do Brasil de 1922 a 1926) meu avô era comunista, foi parar no Rio vestido de mulher, prenderam ele.

Vocês tinham dinheiro?

Éramos classe média baixa, classe média de funcionário publico. Meu pai trabalhava para a prefeitura, foi secretário de governo. Naquela época Belo Horizonte só tinha funcionário público praticamente.

Você estudou até que ano?

Eu detestava estudar. Fui muito bem até o quarto ano do primário. Tinha um irmão que era muito brilhante e ele saltou a admissão. Naquela época tinha o exame de admissão para entrar no ginásio. Meu irmão estudava 12 horas por dia, então meu pai começou a me perseguir. Mas tinha uma diferença: meu irmão era moreno, mais magro, e eu era bonito, de olho azul. Meu pai me dizia: “Você não vai dar nada na vida”, essas coisas. Eu tinha 13, 14 anos, isso marca muito, entende? Então passei uma infância e juventude muito isolado, calado. Terminei o ginásio, parei, tempos depois fui fazer o madureza (antigo supletivo) e entrei em economia na faculdade, mas larguei.

Você era um adolescente angustiado? 

Extremamente. Eu era muito bonito e isso também me atrapalhou muito. Eu detestava isso, tinha pânico de ser bonito, e muitas pessoas diziam que a beleza trazia burrice, me apavorava.

Mas não era muito melhor para ganhar as meninas?

Eu tinha muita vergonha. Até os 20 anos eu não conversava com mulher. Às vezes ia a uma festa, tinha que ficar só 5 minutos, porque as meninas iam todas em cima de mim e eu não sabia dançar.

Com que idade você se casou pela primeira vez?

Com 23 anos. Tinha esse problema também. Como eu nunca procurei por uma mulher, eu normalmente fui achado por uma mulher. Nunca casei com mulher bonita na vida, porque as que chegavam eram as mais feias, as bonitas ficavam esperando. Eu casei com uma menina que se aproximou muito na época e fiquei 11 anos com ela, a Sandra. Tivemos duas filhas. Antes de casar eu já trabalhava quase como atendente no posto de gasolina do meu pai. Depois fui trabalhar numa boutique de roupa de homem. Muito tempo depois soube que o footing na cidade era na porta da boutique, as meninas iam me espiar.

E você, pelo jeito, já tinha deixado de ser introspectivo.

Só no trabalho. Eu tinha que me articular, porque eu não ia dar nada na vida, tinha que fazer alguma coisa. Depois eu fui operar na Bolsa de Valores. Em 1971 teve um crash na bolsa no Brasil e todo mundo perdeu tudo. Aquilo me traumatizou, porque eu vi as pessoas que tinham dinheiro guardado para a sua velhice perderem tudo. É uma coisa que eu nunca mais esqueci e é um lugar que eu nunca mais entro na minha vida. Tenho pânico dessas coisas que trabalham com dinheiro para fazer dinheiro. Eu parti mais para essa parte da realização pessoal.

Bom, mas como é que você virou dono de mineradora, milionário, e chegou nisso aqui que tem hoje?

Eu tinha um percentual na mineradora. Eu comprei, era quebrada, literalmente quebrada.

Mas de onde veio essa mineradora, era da sua família?

Quando eu me casei acabei indo trabalhar no banco que era do pai da minha primeira mulher (o Banco Mineiro do Oeste, de João do Nascimento Pires, primeiro sogro de Bernardo). Ele quebrou e perdeu o banco e tudo o que ele tinha. Eu já tinha saído para cuidar da mineração, que tinha sido dele, mas estava quebrada. Ele tinha perdido a cabeça. A história dele foi uma história dramática, porque ele era um homem extraordinário que nos últimos anos da vida estava na macumba, cortava pescoço de carneiro para tomar sangue. Eu tinha que correr atrás para ele não ser roubado. Eu pus ele lá na mineração na época e foi uma tragédia, porque na hora de pagar os transportadores e pessoal, ele pegava o dinheiro para pagar esses videntes. Então eu passei dez anos segurando greves, acordava às 4 da manhã, chegava em casa à meia-noite. Mas aí esse homem morreu, foi uma complicação.

Isso foi durante os anos 70, teve o milagre econômico.

Para mim não teve. Eu vivia com duplicatas, dívidas, tinha mais de 2 mil cheques sem fundo. Eu não dormia. Às vezes pra dormir tinha que tomar uma garrafa de uísque, porque não tomava tranquilizante na época, hoje tomo. Dormia duas horas e acordava com dor de cabeça, mas indo trabalhar. Minha vida passou como uma ventania. Descobri uma fórmula de resolver esse problema, que era comprar outras empresas falidas, recuperar as outras empresas e fazer um monte maior pra sair lá na frente. Chegou um ponto em que a jazida não pertencia à mineração, era arrendada. Aí tive de fazer uma empresa às pressas, para fazer o arrendamento, continuar trabalhando, conseguir pagar toda a dívida e liberar todo o patrimônio. O maior sufoco da minha vida, não esqueço disso. Minha mulher e eu nos separamos, eu fiquei sem nada, criei uma holding e a partir daí eu vi que não tinha saída, a dívida era grande demais. Fui para a China e fiquei amigo de uns ministros chineses, tive a primeira reunião com o Deng Xiaoping.

 Você diz que foi o primeiro empresário brasileiro a ir para a China comunista.

Ninguém nunca tinha ido à China. Quando eu fui à China só os judeus estavam lá naquela época. O Deng Xiaoping foi o motor dessa história toda, mas por trás tinha todo um grupo de pessoas brilhantes. Eles botaram 10 milhões de dólares na siderurgia, comprei outras minas também e virei uma empresa de dez mil funcionários e uma correria, tinha que viajar trezentos quilômetros por dia, indo e vindo, correndo atrás. Eu estava bêbado quando comprei a primeira usina siderúrgica. Fiz um discurso que ninguém entendeu, lembrei de quando eu era criança, que eu dormia no quarto com três irmãos que dava pro terreno baldio ao lado. E todo dia uma galinha cantava. Eu subia no muro e descobri que ela estava botando ovo. Aí eu pegava o ovo e guardava. Aquilo pra mim era uma coisa impressionante , eu estava ganhando aqueles ovos que a galinha botava de lado. E naquilo eu acumulei 12, 13 ovos.

Mas a partir daí sua história de empresário melhorou.

Não, o Brasil ficou uma loucura. Teve plano Cruzado, plano Collor, plano Real, e depois o Meirelles (Henrique Meirelles, presidente do Banco central entre 2003 e 2011), que acabou com as indústrias botando o câmbio lá para baixo.

E você, onde estava nessa altura?

Nessa altura eu estava na mineração. O que aconteceu? O minério subiu de 10 dólares para 180 dólares. Então mesmo com o câmbio caindo 100%, o minério subiu 1800%. Com isso eu consegui pagar a dívida de bancos, adequar a dívida fiscal, parcelar com o fisco essas coisas todas, e consegui triplicar, quadriplicar a produção de minério.  

Quer dizer, aí foi surgindo esse dinheirão. E você ainda vendeu uma mina para os alemães.

Aí surgiu o dinheiro e construí Inhotim. A mina eu doei, é uma história longa, mas acabou dando muito dinheiro e os alemães retribuíram botando dinheiro em Inhotim. Aí larguei tudo, porque tive um problema de saúde em Paris em 95, segurei ainda até 99… que me fez pensar em fazer algo maior, para a comunidade.

 Você teve um AVC, deixou alguma sequela na época?

É, eu tive um AVC. Não deixou, porque o sangue vazava pelo nariz e encharcava tudo o que estava em volta, nunca vi tanto sangue na minha vida.

Você estava sozinho?

Estava para casar naquele ano com a quarta mulher, a Titina. Era uma menina criada em uma família rica, muito conservadora em Minas Gerais. E ela era muito mais nova que eu, eu tinha 44 anos e ela tinha 26 quando nos casamos. Fiquei 11 anos com ela, não tivemos filhos porque ela não podia. Antes eu tinha sido casado com a Cláudia, que me deu duas filhas maravilhosas.

Não tem uma história que você se separou e no mesmo dia foi a um bar e conheceu uma moça e se casou de novo?

Era uma austríaca, uma moça de 22 anos. Foi minha segunda mulher. Também foi uma que me viu bebendo no bar, se aproximou e eu casei. Tivemos um filho, o Bernardo, que hoje vive em Stanford.  

Você gosta das moças mais novas?

Não, não. A questão nem é essa. A questão é que… Eu sou um cara de poucos prazeres na minha vida. E um dos poucos prazeres era sexo. Era difícil fazer sexo com uma mulher mais velha. Casar com uma mulher de 50 anos, quando eu tinha essa idade, e ter apetite sexual, entendeu? (risos)  

A beleza é importante também pra tudo, certo?  

Hoje eu consigo encarar a beleza da inteligência, da sabedoria. Aí tanto faz a idade, consigo me apaixonar por uma pessoa sem me preocupar com o sexo desde que essa pessoa seja brilhante. Mas não no sentido carnal.  

Mas você não me respondeu uma coisa: você se interessava por arte? Aliás, você vendeu a coleção de quadros da família.

Já pensei muito isso, mas nunca quis entender de arte. Eu não entendo de arte. Vou dizer uma coisa com toda a franqueza: eu não entendo Picasso. Porque arte para mim tem um processo educativo, elucidativo. Anterior a Picasso, a arte era anterior à fotografia. Então a arte traduzia a visibilidade de uma determinada coisa que você não conhecia, ela tinha esse papel.  

A arte era figurativa. Já na arte moderna…

E quando veio a fotografia, os artistas todos passaram a fugir da fotografia, do realismo. Alguns artistas conseguiam isso com beleza, como Monet, Matisse e outros mais. O Picasso era um comerciante com muito talento de pintura, então o ciclo azul ele pintou de forma clássica, de uma beleza extraordinária, que afinal ele era um gênio. Depois ele passa a distorcer tudo e deixa de ser uma pessoa admirável; os quadros deixam de ser admirados para serem invejados por ricos e colecionadores. Ganha o valor comercial.

Já que tocamos nisso, a arte brasileira está cada vez mais valorizada. Uma obra da Adriana Varejão, sua ex-mulher, já passa de um milhão de reais.

A obra da Adriana, por coincidência, ou por qualquer outra coisa, teve um salto de valor após o pavilhão dela aqui, que é o mais bonito de Inhotim. Comprei todas as obras para o pavilhão por 180 mil dólares – e lá tem 70 obras. Hoje custa um milhão de dólares cada obra dela. Então, isso não acontece de uma hora pra outra. Ela tem um valor enorme como pesquisadora, ela vai fundo em suas pesquisas. E de uns tempos para cá os ricos brasileiros começaram a reconhecer os nossos artistas e a comprar por uns preços absurdos.

A Beatriz Milhazes passa fácil de um milhão.

Isso é uma loucura. A Milhazes tenta ser pintora mas o que ela faz é cortina inglesa.

Qual é o seu parâmetro de boa arte?

O meu parâmetro é a educação. Arte contemporânea é a única arte crítica, interativa, que mexe com as pessoas, as crianças adoram, mais do que os pais. A arte aqui em Inhotim está envolta na beleza da natureza. Esse é o segredo. Ela toca as pessoas. A Adriana tem por trás uma curiosidade. O Ernesto Neto tem uma diversão e uma alegria, que se traduz para a criança em uma perspectiva de felicidade. O Cildo Meirelles tem a perspectiva da morte – quase todos os artistas têm a perspectiva da morte.

A Adriana foi sua única esposa famosa. Te incomodava ser conhecido como “o marido da Adriana Varejão”? 

Nunca me preocupei com a fama da Adriana. Me importava com o que ela fazia, com o trabalho dela, enxertado de vontade e víscera. Me apaixonei por ela, casei com ela, tivemos a Catarina, linda, e continuei levando a minha vida. E aí você tem um problema: a Adriana, como todo artista de uma forma geral, tem a característica de olhar muito pro seu próprio interior. Isso é um vício de quem constrói pra si mesmo, não quer dizer que seja um erro dela. Ela não reconhecia suas ambições de ganhar dinheiro com arte. Ela queria ser uma pessoa da arte pela arte. Mas por outro lado, ela precisava do dinheiro. Não para viver, mas para ser importante – o mundo capitalista exige isso. E ela era artista, ela devia brilhar, mas eu estava crescendo como pessoa, isso foi criando um abismo entre nós. Ela queria envelhecer comigo, acho que ela ainda me ama, mas isso é impossível. Não olho para trás, separamos e acabou.

Você tem inimigos?

Não que eu saiba. Meus inimigos não têm nome, mas tentam me prejudicar. São pessoas que têm ciúmes. A vida inteira eu tentei solucionar problemas e buscar caminhos pras pessoas. No primeiro momento eu consigo muita coisa. Porque tenho uma facilidade imensa de ligar pontos, entendo a pessoa sem ela perceber. Em um primeiro momento ela me julga um gênio, em um segundo momento ela tem medo, no terceiro momento ela tem raiva e no quarto parte para a vingança.

Não posso deixar de perguntar sobre todas as acusações de lavagem de dinheiro envolvendo o nome do seu irmão (Cristiano Paz) com o Marcos Valério. E ligando você a políticos. O que você diz disso?

Eu digo que meu irmão é inocente, meu irmão é brilhante. Ele tem uma agência de publicidade que talvez seja a melhor agência do Brasil. Nunca procurou dinheiro, nasceu artista. Um artista admirável. Quando ele começou em publicidade, tinha 16 anos, fez um filme e todos em casa choramos de emoção.   Eu tenho pena dele. Ajudo o Cristiano no que eu posso. Porque ele foi envolvido nesse processo pelo Marcos Valério. Mas o banco deu dinheiro observando algum favor – e o banco quebrou. Todos perderam e meu irmão foi o único que se manteve de pé nessa história. E eu nunca fui amigo de político nenhum.

Os seus outros dois irmãos trabalham com o quê?

A Virgínia, coitada, é inteligentíssima mas é uma sonhadora também. A filha dela é arquiteta, ela montou um escritório pra filha dela, é genial, mas não ganha dinheiro, tenho sempre que dar dinheiro pra ela. O André é brilhante também, mexe com comércio, mas doido: xinga, briga, berra. Uma coisa tem de ficar clara: eu nunca fui rico, não sou rico, não tenho um tostão no banco. Todo o meu dinheiro está envolvido com a população de uma forma geral.

Você tem uma vida confortabilíssima, bacana…

Você me acha um cara feliz? O que ocorre é muito simples: eu estou sentado aqui, construí uma coisa bela, se eu fosse miserável, numa outra escala, teria feito a coisa mais bela possível. Preciso de 2 milhões todo mêspego dinheiro emprestado, estou devendo 12 milhões de reais, mês que vem eu pago, que eu vendi um troço aqui em cima por 250 milhões. Tudo o que ganho boto aqui em Inhotim (na imprensa já saiu que ele bota 70 milhões de dólares por ano em Inhotim; há dois anos, Bernardo vendeu sua Itaminas para um grupo chinês por 1,2 bilhão de dólares).

E agora você está com a sexta esposa, que é a Arystela, que lhe deu o sétimo filho.

Ela é designer, veio aqui criar a iluminação de uns restaurantes meus. Essa menina sofreu absurdamente. O marido dela teve esquizofrenia, quis matá-la e morreu assassinado. Então é uma menina que veio do interior, muito na dela, extremamente correta, e lindíssima. Temos  o Aquiles, um menino lindo, dei a ele o nome do meu pai. O meu pai, apesar de ter me crucificado a vida inteira, tenho o maior respeito pelo o que ele foi.

Ele faleceu há pouco tempo.

Faleceu há dois anos, dizendo que tinha orgulho de mim.

Que era o que você tanto quis na adolescência. 

Isso. Me deu um prazer muito grande saber disso. Quando ele morreu, eu não tinha que provar nada mais pra ninguém. A vida inteira o meu foco é a sociedade.

Quando você morrer, o que deve acontecer com Inhotim, que é uma extensão da sua pessoa? Quais são seus planos?

Aí tá a diferença entre o sonhador e a pessoa pragmática. Sou mais para pragmático. Estou pensando lá na frente e penso grande. Eu vou criar aqui – se Deus quiser, e não que eu acredite em Deus – uma Disney World pós contemporânea cultural, e que faça com que as pessoas cresçam e que atenda a sociedade de uma forma geral – miseráveis, pobres, médios e ricos. E que todos sejam considerados iguais aqui dentro, como são hoje. Hoje eu recebo cerca de 100 mil pessoas de comunidades extremamente carentes, recebo 80 mil crianças por ano – extremamente pobres. Tenho 140 professores monitores educadores, tenho as comunidades quilombolas – que eu trouxe todos pra trabalhar aqui. Nós atendemos essas comunidades.

Muitos ricos não investem em nada para a comunidade. O que você acha da elite brasileira?

A elite brasileira não difere de nenhuma elite. A pior elite é a aristocracia europeia, porque não admite até hoje que perdeu poder. As elites são feitas por pessoas que lutaram para crescer, que têm medo de perder. Todo rico é assim, toda pessoa que cresce não quer dar um passo para trás. O que eu estou fazendo é uma renúncia absoluta da vida.

Mas também seu nome está ligado a um legado.

Meu nome está ligado a isso, mas ele está sendo alvo de muitos Exocets (mísseis). Nunca fui amigo de nenhum político, nunca me liguei nisso. Eu condeno a corrupção, que prejudica o pobre, que atrapalha a saúde, que vende remédio mais caro, essa corrupção que manipula o dinheiro. Agora eu, por mim, não estou nem aí pra minha vida. Se eu morrer amanhã, já morri. Agora estou com uma arritmia cardíaca, tenho de ir ao (hospital) Einstein na segunda, acho uma chatice, detesto sair daqui.  

Isso me deixa curiosa: você teve um AVC, fuma à beça, diz que toma tranquilizantes toda noite, sete filhos, não tem a preocupação de viver mais, nunca fez esportes?

Não, nunca fiz. Faço tudo o que você disse, e os sete filhos gostam de mim. Tenho 1400 funcionários, se você sair aí e falar mal de mim, eles te matam. As pessoas que estão próximas a mim, estão muito próximas, muito próximas.

O que te emociona?

Meus filhos me emocionam. E as pessoas que estão comigo no parque. Encontrei um negro quilombola revoltado com sua condição e querendo matar os brancos. Esse negro hoje é o melhor condutor de visitantes que temos. Todos os negros que tenho aqui são quilombolas e são pessoas extraordinárias.  

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