GUILHERME DE BRITO – ilustrada (fsp)

CAPA DA ILUSTRADA _ PERFIL GUILHERME DE BRITO

Entre a flor e o espinho

 

“Não concebo o mundo sem amor”, diz à Folha o compositor da consagrada “A Flor e o Espinho”
CRISTINA RAMALHO
ENVIADA ESPECIAL AO RIO

Assim como o seu santo de devoção, São Francisco de Assis, o compositor Guilherme de Brito sempre levou uma vida sem dinheiro, pregando o amor e adorando os animais. A diferença é que Guilherme também sempre esteve à beira do pecado.
Andava pelos botecos imundos da praça Tiradentes, lá pelos anos 40/50, onde fez uma tatuagem no braço, conviveu com o bandidão Madame Satã e pagou muita cerveja preta para o único sujeito mais pobre do que ele: Nelson Cavaquinho, parceiro de Guilherme em dezenas de músicas de versos lindos e doloridos, como “tire o seu sorriso do caminho/ que eu quero passar com a minha dor”, de “A Flor e o Espinho”.
O Rio de Janeiro daquelas paradas estava bem distante da Copacabana dourada de gente mais bem-sucedida. Não era para o bico de Guilherme: “Eu saía das noitadas, sacudia no trem e passava o dia trabalhando na Casa Edison”, conta ele.
Um dia, trocou uns tapas com um empregado inconveniente e foram os dois para a rua. Guilherme decidiu ser bombeiro, mas não tinha roupa. Arrumou um macacão, que sua mulher, Nena, lavou e pôs para quarar no gramado. “Mas a grama pegou fogo e queimou minha única roupa de trabalho”, diz. Era uma vida dura.
Bem, nem tudo são espinhos nessa história: porte de lorde, olhos azuis, Guilherme agradava as moças com seus sonetos sofisticados _ em particular a Nena, com quem está casado há 56 anos _e hoje, além de continuar “lindinho” (como lhe escreveu uma fã), é reverenciado pelos músicos.
Aos 79 anos, vai lançar pela Lua Discos o seu primeiro disco no Brasil (já tinha lançado “Folhas Secas”, no Japão, em 1990), ainda sem nome, com 12 canções inéditas e a participação de Luiz Melodia e Cássia Eller. É o primeiro de uma série de três, com produção de Moacyr Luz.
O disco já está pronto e deve chegar às lojas em março. “Estou feliz, com ânimo para compor e mudar de casa”, diz Guilherme, na sala do seu pequeno apartamento, no terceiro andar de um prédio sem elevador em Bonsucesso, zona norte do Rio. Ele quer voltar para Vila Isabel, onde nasceu e, quando garoto, pegou carona no carro de Noel Rosa.
A Folha teve acesso ao CD teste, ainda em finalização. Nele, Guilherme canta com sua voz suave as músicas que falam de dores amorosas daquelas de arrancar lágrimas. Com Melodia, canta “Maria”, feita para uma dona bonita que ele conheceu no trem, mas não lhe deu a menor bola: “Maria/ Teu nome é um poema/ que lembra açucena perdida no campo/ e que, à noite, o luar a envolve em seu manto”.
Cássia Eller entra em “Erva Daninha”, a voz blueseira perfeitamente encaixada no estilo de Guilherme: “Eu sou erva daninha/ por que tu és minha raiz”. Guilherme adorou Cássia: “Ela tem uma força, uma franqueza”.
No estúdio, os produtores tentavam adivinhar como seria o encontro dos dois, o que um senhor sambista acharia daquela roqueira de vozeirão e tatuagens. Ele olhou para ela, puxou a manga da camisa e mostrou a tatuagem dele, que ninguém ali imaginava. “Olha só, fiz esse índio quando eu tinha 20 anos. Eu e o Cachimbo, meu amigo, tatuamos o mesmo desenho, e até hoje nem sei por quê.” Cássia morreu de rir.
A identificação da dupla vai além _do mesmo modo que Nelson Cavaquinho, chamado por alguns de “Muddy Waters brasileiro”, Guilherme tem o coração apaixonado e a vocação para a amargura de um bom autor de blues.
A vida de cabaré também ajudou: Guilherme, duro, só podia andar pelos becos malcheirosos e botecos cheios de marinheiros, mulheres não muito lindas e sexo pago. Um “beatnik” tropical.
De mulheres, ele não fala: “Não tive ninguém, a Nena é ruim de manobra”, diz, no bar Garota de Bonsucesso, longe dos ouvidos de Nena. Mas deve ter dado um bocado de trabalho, tanto que escreveu para ela quando a barra pesou: “Tu já eras a encantadora criatura que és hoje/ meiga, delicada e simples/ eu, o mesmo monstro que fui até então/ mau, hipócrita e sem coração”.
Nena perdoou, sempre, nesses 56 anos, dois filhos, cinco netos e um bisneto. Ela é filha e irmã de seresteiros, está acostumada a galanteadores. Ele garante que fidelidade é o seu forte. “Não só com a Nena. Eu e o Nelson tínhamos um pacto de não compor com mais ninguém, mas ele pulou a cerca algumas vezes. Eu perdoei, não tenho vaidade.” E já chorou? “Choro muito, não posso com a dor dos outros, não aguento que maltratem os animais, não concebo o mundo sem amor.”

BOX: Sambista agradece a Deus por sossego

DA ENVIADA AO RIO
O apartamentinho de Guilherme e Nena, em Bonsucesso, contém um pouco da história da música _não apenas nas letras, como nos quadros de Guilherme, um pintor naif autodidata. “Eu andava sempre com um carvão no bolso e tinha inclinação para desenho, mas odiava quando a professora pedia para eu desenhar no quadro”, diz ele, pouco acostumado à glória.
“A classe batia palmas, e eu queria que o chão se abrisse, de tanta vergonha.” O chão não se abriu, e ele aprimorou o traço. Quis participar de um concurso. Pediram currículo, não tinha. Mandou três quadros, e a moça do balcão o reconheceu. “É o sambista Guilherme de Brito!” Venceu o concurso, pintando um mestre-sala e uma porta-bandeira.
Os quadros já deram até um dinheirinho, quando ele esteve no Japão, em 92, para fazer uns shows ao lado de Monarco. Vendeu oito e, na última hora, se recusou a vender a tela que pintou de um papagaio. “Não sei explicar, foi me dando uma saudade daqui, olhei e parecia que o papagaio queria ficar comigo.”
O quadro do papagaio está em seu hall, ao lado de vários, de um desenho de Fagner (“gravei com ele, e ele fez esse para mim”) e de telas do companheiro de sambas Nelson Sargento (“ele era pintor de parede, resolveu atacar uns quadros também”).
Guilherme arriscou uma escultura em bronze de seu santo, são Francisco de Assis. “Não sabia esculpir, peguei a argila e alguém me disse que tinha de pôr no forno. Quase acabei com o forno da cozinha, a Nena ficou louca.”
Uma segunda tentativa e o são Francisco até que ficou bom. Há uma coleção de sãos franciscos na pequena sala, onde Guilherme também pintou seu santo na porta que dá para a cozinha.
Ele é religioso: não tira do peito a corrente dourada com o crucifixo, diz que reza todas as noites e agradece a Deus por ter vivido com certo sossego e incrível regularidade, ao contrário de Nelson, que caía de bêbado e dormia em bancos de jardim.
Guilherme teve uma mulher por toda a vida, um único parceiro de sambas durante anos, apenas um emprego (na Casa Edison). Começou como office-boy, foi despedido por uma briga (leia texto ao lado), voltou e terminou chefe de seção. Sempre com amigos na música, como Beth Carvalho, que adora fazer uma visita e comer os pastéis da Nena.

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