MARIO COHEN – Valor Econômico

 

Por Cristina Ramalho

Um dia Lamartine Babo telefonou para o escritor Paulo Mendes Campos porque andava angustiado. Fez um foxtrote cheio de bossa para uma gringa bonita que conheceu numa festa, ela gostou, quis ganhar a partitura e naquela manhã, quando Lamartine resolveu escrever a música para a moça, se deu conta de que era idêntica a uma canção americana. “Ela vai achar que eu copiei”, apavorou-se Lamartine. Paulo pediu que ele assoviasse o fox, Lamartine obedeceu e na hora reconheceu as notas: “Que bandido! O americano descarado copiou uma sinfonia de Tchaikovsky!”…

Podia ser uma história sobre plágio. Mas contamos essa só para abrir um sorriso e ilustrar como uma boa música é capaz de viajar por aí, mesmo que seus autores nem pensem nisso. E assim transbordar de sentido em qualquer época, para qualquer pessoa, não importa o lugar ou o idioma. É juntar instrumentos e tirar um som e está feito o convite espontâneo que todo mundo entende. “É a melhor forma de comunicação que existe, atinge a todos”, diz o publicitário Mario Cohen nesta entrevista ao Valor, na sua sala no deslumbrante Auditório Ibirapuera, onde ele é presidente do instituto de mesmo nome. Ali Mario cuida, orgulhoso, de uma escola de música para 120 crianças e adolescentes, acompanha a programação sensível do auditório que traz artistas como Yamandu Costa, Lenine ou Nelson Freire, e também está à frente do Prêmio Tim de música e do Tim Festival. A música assina o slogan de trabalho da marca patrocinadora: viver sem fronteiras.

O próprio Mario aboliu algumas da sua vida. Nasceu em Roma, divide-se entre Rio e São Paulo, planta oliveiras no Uruguai e está produzindo um azeite que batizou de Elvis, em homenagem à sua paixão pelo rock americano. Um Elvis Presley ao vivo foi o primeiro disco que Mario comprou com o seu dinheirinho, aos 14 anos, quando caminhava na rua devagar com o LP na mão, as letras cantadas de cor. Outras melodias serviriam de trilha sonora para seus momentos que grudaram na memória, apanhar umas meninas, embalar uns sonhos, igualzinho acontece com todos nós. Nem sempre o fundo musical acabava em happy end. “As mulheres me abandonavam porque eu não sabia dançar”, diz ele. Mas por uma dessas coisas inusitadas da vida, a música daria um feliz sentido profissional para o executivo Mario Cohen.

Foi assim que esse italiano refinado, ex-dono de agência de publicidade, ex-diretor de comunicação da TV Globo, acostumado a andar de terno e a falar em telefones importantes, um dia se encheu e escutou novos acordes do destino: estava na hora de mudar. Hoje seu cotidiano é conversar sobre compositores, cantores, orquestras com o lendário produtor musical Pena Schmidt, superintendente do Instituto Auditório Ibirapuera, ou com o expert em jazz e MPB Zuza Homem de Mello, ou se inteirar das novidades da música eletrônica com a diretora de cinema e criadora de vários festivais, Monique Gardenberg. Agora, a cereja do trabalho de Mario é a escola, batizada ali nos bastidores de Julliard (uma reverência à famosíssima escola nova-iorquina de música e artes onde estudaram, só para dar uns exemplos, Miles Davis, Wynton Marsalis, YoYo Ma, Nina Simone…), por ser um projeto com a intenção bem maior do que ensinar um instrumento.

“Estamos criando aqui no Ibirapuera uma nova geração de músicos, uma nova forma pensar o estudo da música”, diz ele. São meninos e meninas entre 9 e 19 anos que estudam na rede pública e querem tocar. Não basta ter talento – para conseguir uma vaga, é preciso mostrar que está realmente a fim. “Entre dois candidatos, um com talento e outro com muita força de vontade, fica o que tem força de vontade”, explica Mario. Afinal, a idéia é colocar esses garotos (a primeira turma, iniciada em 2005, vai se formar em 2010) no mercado de trabalho, em cena ou nos bastidores. Então, no currículo, tem aulas de iluminação, cenotécnica, sonoplastia, produção, de amor ao palco. Convidados como maestros e acadêmicos ensinam, com alma e profundidade, que a música vai muito além da partitura ou da justeza poética. Falam de movimentos artísticos, influências, contam a História.

A turma vai formar a Orquestra Brasileira de Música, um sonho antigo de Villa-Lobos, de criar uma orquestra com a estrutura clássica, mas onde coubesse também uma série de instrumentos genuinamente brasileiros, que não existem nas convencionais. E vêm aí projetos mais audaciosos: no momento, a escola produz uma espécie de megabiblioteca de acalantos. “São 100 acalantos, brasileiros, africanos, europeus, de todo lugar. Estamos coletando gravações de mães cantando o primeiro acalanto que fazem para seus filhos, e vamos arquivá-los, estudar o significado do acalanto, tudo isso com o trabalho de pesquisadores da USP”, explica Mario. Em andamento está uma série de documentários, uma reflexão sobre os papéis da música, feita também com o pessoal da USP. Haverá um episódio (ou mais) sobre o maestro, outro sobre o solista e assim por diante, e a intenção será exibi-los numa TV a cabo.

Todo esse trabalho vem de orçamento da Tim (“Bancamos 70% das nossas despesas, o restante vem da bilheteria, do aluguel do espaço para eventos”), que também construiu o próprio auditório, em 2005, investindo R$ 29 milhões. Mario não fala em números, mas a gestão financeira do auditório é aberta ao público. Em 2006, por exemplo, o balanço ativo foi de R$ 3.198.952.  Bilheteria não falta na programação elogiadíssima pelos bem-pensantes da música.

Todos os artistas que se apresentam no Auditório Ibirapuera também dão workshops aos alunos – está no contrato, inclusive –, o que permite à garotada, felizarda, ouvir opiniões e conselhos de Chico Buarque, João Donato, Badi Assad, Tom Zé, Marcelo Bratke… E assim vão aprendendo que Lamartine Babo, Tchaikovsky, os músicos americanos, os acalantos, o Seu Jorge, o Villa-Lobos, todos nos trazem aquele sentimento tão familiar de reconhecer, docemente e em qualquer ponto, coisas nossas nas músicas. É ouvir algo e se sentir em casa.

Com tanto lirismo ao redor, Mario se inspira ainda mais para as escolhas de uma vida, digamos, artesanal. Escolheu ter um cliente só, a Tim, depois de se lembrar de Oliviero Toscani, o compatriota que criou as campanhas da Benetton, com quem Mario trabalhou na revista Colors. “Ele era homem de um cliente só”. Enquanto cuida das oliveiras no Uruguai, Mario está terminando de escrever sua biografia profissional, e negocia a publicação com editores. Agora quer voltar a se dedicar mais à sua outra atividade: a Pequena Galeria 1818, que Mario abriu há alguns anos ao lado do Copacabana Palace. “Ela se chama pequena porque é pequena mesmo e o 18 é um número que me mantém intrigado: Meus filhos Luca e Manuela nasceram no dia 18; a Valentina (sua filha com a atriz Carolina Ferraz), no dia 19 porque no dia 18 eu estava viajando e ela esperou. E o último, o Matteo, nasceu no dia 14 de abril, mês 4, o que dá18”, diz ele.

A Pequena Galeria investe na fotografia como importante arte brasileira e tem nomes como Otto Stupakoff, César Barreto, Walter Firmo… “A fotografia, como a música, também é compreendida por todo mundo”, diz ele, que por sinal ama dois fotógrafos além-mar, totalmente diferentes entre si: o francês Lartigue, clássico dos anos 20, e o japonês Daido Moriyama, que traduz a Tóquio contemporânea. Mario vai espalhando suas paixões, se bem que no futebol respeita os territórios. Torce, um pé lá, outro cá, para dois times: Palmeiras e Botafogo. E futebol, se a gente for ver bem, é igual música: uma bola, os amigos, e num minuto se inventa um mundo que faz todo o sentido para qualquer pessoa do planeta.

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