LONDRES arquitetura

Londres arquitetura

Por Cristina Ramalho Foto Ana Ottoni

Resilientes são os ingleses, e usam com orgulho esta palavrinha – que no sentido literal vem de um termo da física para explicar a capacidade que os corpos têm de voltar à sua forma inicial depois de submetidos a um esforço intenso – para definir o sujeito que se recupera com firmeza dos choques da vida. Resilientes eles se mostraram há pouco, reagindo com aquela elegância habitual aos ataques de 7 de julho. Como resilientes eles foram durante a Segunda Guerra, segurando a onda, quantas bombas viessem (e foram 57 dias seguidos de bombardeamento massivo).

Não é por acaso, portanto, que em Londres estão os exemplos da arquitetura mais ousada do planeta. Londres é uma cidade feita de resiliências. Agüentou firme uma série de acidentes – como um incêndio que destruiu 80% da cidade no século 17 – e brigas boas em seus mais de dois mil anos de história. E nunca parou de se reinventar. Ainda estão lá as casinhas grudadas de tijolos aparentes, os parques de verde impecável, o Palácio de Buckingham, a Rainha e os clichês adoráveis. E também é lá que estão os edifícios de aço, vidro, filosofia ecológica e formatos insanos. Retrato mais explícito você vê à beira do Tâmisa: diante da Tower Bridge, a ponte neogótica do século 19, eis um prédio todo de vidro, com cara de iglu: é a prefeitura, absolutamente transparente, onde qualquer um enxerga o que se passa lá dentro. Como deve ser a política.

A prefeitura, ou City Hall, como se chama na Inglaterra, saiu das idéias a jato do atual darling da arquitetura londrina: Ken Shuttleworth, ex-braço direito do mais famoso arquiteto britânico, Sir Norman Foster. Batizado na escola de Ken, The Pen (“Ken, a caneta”), graças à sua incrível rapidez para desenhar o que desse na veneta desde garotinho, Shuttleworth assina no momento quase todos os atrevimentos da cidade. Ele diz que levou dez segundos para bolar o formato esférico do City Hall. Da sua caneta imaginária mais o olhar de menino saíram outras coisas de desenho de ficção científica: um edifício meio foguete, meio fálico, a Swiss Re Tower, que os gozadores britânicos apelidaram de Gherkin (nome em inglês daqueles picles de pepino); a ponte do Milênio, que virou Wobbly Bridge (Ponte oscilante); e o projeto da Vortex, uma torre de300 metros de altura que lembra uma ampulheta, com o topo mais largo, e deve ficar pronta em breve.

“Todo mundo quer subir em torres, e curiosamente elas tendem a se estreitar no topo. Prefiro então os topos mais largos”, explica Suttleworth, 52, que passou 30 anos de sua carreira trabalhando com o papa Norman Foster, e dele herdou o conceito contemporâneo que olha direto para o futuro. Nada do pastiche misturando referências do passado, como era de lei nos prédios pós-modernos. Agora as formas são curvas, esquisitas, de modo a aproveitar a energia do vento e revelar outra característica futurista: a atenção ao meio-ambiente. Os projetos focam a economia de energia de todos os jeitos possíveis. A ventilação é natural, a água, que vem de lençóis freáticos, é reciclada no uso e, quando dá, capta-se também a energia solar. O material é o vidro, que deixa entrar a luz, e às vezes enche o cenário de poesia.

Como a redoma transparente que Foster criou para uma das mais queridas instituições britânicas, o British Museum. Arrepiou uns ingleses mais conservadores, mas esqueça as críticas: ficou lindo, claro e funcional. A cúpula do museu aqueceu o astral, a gigantesca biblioteca no centro está acessível, e o grande salão ficou tão acolhedor que as crianças sentam no chão e desenham ali mesmo. Ou outro belíssimo projeto de Foster, a estação de metrô Canary Wharf, que dá acesso às Docklands. É o transporte para um outro mundo, mas quando bate o sol nas escadas que dão acesso à saída, a estação vai mudando de cara, uma certa promessa de vida nova que nem a gente vê nos filmes futuristas. E é mesmo uma estranha vida de filme que acontece naquele trecho das Docklands.

 Às margens do rio

À beira do Tâmisa, como em tantas outras cidades do mundo, as antigas zonas portuárias foram revitalizadas e surgiu um outro planejamento urbano. Nas docas de Londres o que impressiona é a atmosfera de história em quadrinhos – prédios altíssimos, alguns horrendos, outros belos, tudo em aço e vidro, um shopping center subterrâneo, ruas quase desertas onde de vez em quando caminham homens de longos trench coats pretos. Neste lado das Docklands, junto à estação Canary Wharf e ao Jubilee Center, ficam a torre de Canary Wharf, construída por César Pelli e atuamente o prédio mais alto de Londres (244m), mais vários bancos e empresas. Vários deles foram concebidos por um grupo de arquitetos canadenses, mas tudo bem: é o jeito de londrino de reurbanizar seus espaços. Uma cyber cidade. Junto ao rio, algumas docas ainda se mantêm antigas, há uns barquinhos ancorados, singelos – e lá no meio, dá para ver o Domo do Milênio, espécie de disco voador com antenas.

O Domo fica em Greenwich, ponto final das Docklands e marco zero da hora do mundo. É uma espécie de circo moderno, mistura de feira de ciências, exposição de artes e museu que homenageia o tempo. É o que há de mais futurista às margens do rio, e junto ao Tâmisa estão – e estarão – outros tantos projetos contemporâneos. Arquitetos como a controvertida anglo-iraquiana Zaha Hadid criaram novos projetos para a vida ao longo do Tamisa, que prometem mudar o jeito de viver da cidade. Zaha inventou (por enquanto é só croqui) uma ponte habitável, espécie de cidade horizontal com espaços cuturais e vida própria sobre o rio. Nessas invenções há uma espécie de volta carinhosa ao passado: afinal, todas as cidades desde sempre, na história da Humanidade, ergueram suas novidades e riquezas junto aos rios.

“O rio é parte integral da cidade, é um ímã para as pessoas, todo mundo quer estar perto dele. Mesmo os novos projetos que não estão à margem dele são feitos de modo a aproveitá-lo, a dar a sensação de que estamos perto dele”, explica Ken Shuttleworth. Para conferir o que ele diz, basta pegar um barco junto às pontes de Waterloo ou Blackfriars num dia de sol e seguir olhando as margens até as Docklands. No caminho, vá se deslumbrando com o cenário meio caótico, prédios megamodernos junto a monumentos antigos, o City Hall, o Gherkin, os novos edifícios de apartamentos, o Museu do Design, e a belíssima Tate Modern.

A Tate Modern era um galpão decô projetado em 1947 por Sir Gilles Gilbert Scott, autor das famosas cabines telefônicas vermelhas, e funcionava como estação de energia. Foi revitalizada pelos arquitetos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron, que preservaram a tubulação metálica, os tijolos aparentes e outras belezas originais e encheram de vidro e luz a parte de cima, onde há cafés e grandes janelões e varandas para se contemplar a beleza do rio, e junto à beleza clássica da Saint Pau’l Cathedral. De uma usina desativada, na área do East End, antes completamente deteriorada, brotou uma galeria de arte fascinante, um novo espaço urbano. Uma Londres revitalizada, o novíssimo conversando com o antigo, o sobrevivente de cara nova, tanto faz se é bonita ou não. É uma aula de resiliência.

BOX

Para acompanhar a arquitetura das margens do Tamisa o ideal é pegar um barco nas estações de metrô Waterloo ou Blackfriars e ir até o Domo do Milênio. Para saber sobre horários do Domo, confira no site www.dome2000.co.uk . Se quiser checar as Docklands de perto, desça do barco em Greenwich ou vá de metrô, pela Jubille Line, até Canary Wharf. De lá, passeie a pé e depois pegue o trem das Docklands Light Railway.

Já o Gherkin, a Swiss Re Tower, fica na City, junto à Liverpool Tube Station. A Tate Modern está próxima de Waterloo.

Se quiser entender a arquitetura da cidade, faça o ótimo tour da Architectural Dialogue, tel: 020 7267 7697.

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