IRMÃOS CAMPANA

A DANÇA DAS CADEIRAS

Por Cristina Ramalho Foto Ana Ottoni

Foi perdido num redemoinho que Humberto Campana enxergou um tiquinho do sentido da vida. Ali no meio de um rio gelado lá da Califórnia, girando e girando depois de cair do caiaque, engolindo a água agitada, achando que não ia conseguir escapar dessa, a cabeça rodando, ele começou a ver…cadeiras.

Bom, já dizia o escritor Paulo Mendes Campos que é quando um homem está cansado, quando a vida o encheu, que ele vê o inesperado. Foi mais ou menos o que aconteceu, porém, para entender essa história, vamos contar sem exagero. Humberto, sujeito sensível, já andava em redemoinhos existenciais, à procura da verdadeira vocação. Tinha se formado em Direito na USP (“só porque eu era fã de Lygia Fagundes Telles, musa da faculdade do Largo São Francisco”), mas não se ajeitava na monotonia jurídica. Resolveu, então, vender espelhos emoldurados por conchas e também peças originais do artesanato brasileiro, que ele e o irmão caçula, o arquiteto Fernando, lixavam, coloriam e davam toques de charme. Em 1988 Humberto foi para a Califórnia e, enquanto fazia um rafting, caiu mesmo do bote. Ali jurou que, se saísse vivo do redemoinho, inventaria alguma coisa.

“Eu vi as espirais na água, e também nas pinturas das pedras feitas pelos índios americanos. Pensei no significado do símbolo, a junção do positivo e negativo”, conta Humberto. Na volta ao Brasil, apurou a idéia. O material seria bruto, barato, incomum. Humberto botou a mão na massa. Fernando, mais objetivo, deu forma à imaginação, e em 1989 os irmãos Campana lançavam sua primeira coleção de cadeiras, As Desconfortáveis, feitas em ferro e com encostoem espiral. Expostasna galeria da amiga Adriana Adam, outra artista que era da pá virada, as cadeiras esquisitas causaram um rebuliço. Surgia um novo jeito de pensar, de tirar mobília do improvável. Totalmente brasileiro.

Quinze anos depois, o nome da dupla está nos museus, nas feiras e nas publicações mais importantes do design mundial. Os irmãos Campana são os únicos brasileiros com peças no acervo do MoMA de Nova York. São convidados a toda hora para dar aulas e palestras por todo o globo, da mais arrojada escola de design do momento, a holandesa Eindhoven, às mesas redondas com os bambas da área em Milão. Alunosde faculdades européias fazem fila para estagiar com eles no Brasil. Abra uma revista gringa de decoração ou um luxuoso livro de arquitetura, eis os Campanas de novo. Folheie qualquer Caras e lá está o nome da dupla, na boca de alguma celebridade “que adora os Campanas”. Até quem nunca se interessou pelo assunto já deve ter visto alguma criação dos dois, como a famosa cadeira vermelha, feita de cordas grossas, que enfeita as salas do hotel Emiliano,em São Paulo, e de vários prédios de fina estirpe pelo mundo.

Como tudo que os Campanas fazem, a cadeira vermelha nasceu um pouco do olhar esperto sobre o acaso, um tanto do trabalho duro para dar realidade ao produto. Um dia Humberto passou por uma loja de material de construção, viu um rolo grande de cordas e levou para o ateliê. “Quando joguei o rolo na mesa ele se desfez: ali havia outra cadeira”. Fernando caprichou no conceito da coisa e a peça foi parar num debate com as maiores estrelas de design na Itália. Rendeu sinceros elogios, em especial dos artistas de países do Terceiro Mundo, e uma tremenda dor de cotovelo nuns europeus minimalistas. “Muitos designers famosos, que nunca saíram dos seus escritórios, riam, debochavam da gente”, conta Fernando.

Humberto, encolhido, quis fechar a pastinha e dar adeus ao mundo ali mesmo. Fernando encarou: “Somos fiéis à nossa raiz, construímos tudo sozinhos, vocês aqui fazem tudo clean, trabalham para uma empresa, não participam do processo”. A platéia ficou muda. Afinal, Fernando tinha razão. Designers europeus criam maquetes e cabe à empresa (como a Edra, italiana que produz as peças dos Campanas e de quase todo mundo que é bom) a feitura do produto. Os irmãos não apenas constroem os protótipos no seu próprio estúdio, um amplo espaço no bairro caótico de Santa Cecília, em São Paulo, como viajam até à Itália e batem um papo com os operários que fazem os seus móveis. “Quando bolamos o sofá Boa (feito de espuma e veludo, em tranças grossas, capa da revista Interni), passamos dez dias na Itália trançando a espuma para ensinar como se faz”, conta Fernando.

Acontece que o melhor da dupla ninguém conseguiria copiar. É o passado de moleque de interior dos irmãos, criados na diminuta Brotas (hoje rota dos esportistas radicais), acostumados a subir em árvore e inventar brinquedo com o que tinham nas mãos. Humberto, 51 anos, o filho do meio, se sentia solitário e extravasava a vontade louca de sair dos trilhos lendo e indo ao cinema da cidade. Fernando, 42, o caçula, queria ser ator ou astronauta e construía seus próprios cenários. Humberto vibra com o processo (“gosto de criar”), Fernando com o resultado. Os dois ensinam aos alunos o que aprenderam no dia-a-dia: que a beleza está ao redor. Na estrutura da favela (a cadeira Favela usa tocos de madeira dispostos uns sobre os outros), no pedaço de plástico (veja os objetos feitos com fios de plástico espaguete), nas folhas grossas de papelão (que viram um belo sofá), no bambu (que deu luminária).

“A gente aprende com a escassez”, dizem. Os mesmos estrangeiros que acharam graça ingênua nessa aparente simplicidade hoje se derretem em cumprimentos aos irmãos de Brotas. Humberto e Fernando não se impressionam. Suas peças são caras porque feitas na Itália (“vamos fazer coisas mais populares aqui, como uma sandália Melissa”), mas eles vivem de modo modesto (“na verdade não ganhamos muito”), não têm nem assessor de imprensa. E preferem morar em São Paulo, longe do burburinho internacional e a melhor fonte de inspiração do mundo. “Aqui mesmo na esquina do ateliê mora um mendigo que faz calça e turbante de plástico. É de dar inveja no John Galliano”, ri Humberto, aquele que vê o inesperado.

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