Um clássico regado a outro

Boteco/ homem/ futebol combinam com rabo de galo, a bebida tradicional dos balcões de fórmica, que hoje tá virando chique. Aqui ela acompanha a narrativa de jogo com final romântico

Por Cristina Ramalho

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O sujeito sentado no banco alto arregaça as mangas da camisa, puxa um pouquinho as calças para cima, dá uma geral no bar. Batuca de leve a mão no balcão de fórmica vermelha.

– Ô campeão, vê aí dois rabos de galo! Ao lado dele, no balcão, o amigo sorridente, bonachão, uma cara de gordinho da escola, é o ouvinte. O primeiro se apruma no banco, copo na mão, dá um trago na bebida – ahhh – arranha a garganta e começa.

“Então, não sei se você se lembra, mas aquele dia — 14 de janeiro de 2000! (emposta a voz na data como se fosse um locutor de rádio) — estava quente como o diabo. A Mariza, a minha mulher, lembra dela? A Mariza queria ir à praia, paulista no Rio, já viu, e à noite jantar. Eu só pensava no nosso Coringão com o Vasco, que tinha combinado de ver com um pessoal. A torcida toda já devia estar lotando o Maracanã e a Mariza, ali, me dando bronca porque eu ia saindo, nem liguei que ia rolar um jantar lá na Barra, com aqueles amigos dela, gente que eu nunca confiei, umas mulheres que só davam risadinhas, e um carioca de cabelo espetado que falava pirrê de batata, fazendo biquinho para parecer francês. Mariza achava o homem do pirrê o fino. Parece que ele sabia de vinhos e, quando ia provar, dava uma fechadinha nos olhos e uma mordidinha na beira da taça, para derreter a mulherada. Ah, de matar! Eu para mim acho que mulher que cai em golpe da mordidinha na taça já nem deve ser levada em consideração. (o gordinho acha a maior graça)

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A discussão esquentou, a Mariza toda arrumada gritando na rua que nem nas nossas férias eu ligava para ela, eu olhava o relógio, o coração saindo pela boca: o jogo, meu Deus, e eu ia perder a final Corinthians e Vasco, o mundial da Fifa, quê isso? Mariza correu atrás de mim, eu subi no primeiro ônibus sem nem olhar se era via túnel velho ou túnel novo. (o gordinho já está vermelho de tanto rir) Desci uns três pontos depois, peguei um táxi, o calor era de matar, e no túnel, ah, parece que um cara tinha sido  atropelado e o trânsito parou. No rádio o locutor anunciava Corinthians e Vasco se aquecendo.

O calor no táxi, o relógio, meu ingresso molhando na mão suada, eu ia ter um infarto, já via a Mariza gritando comigo no hospital que eu era capaz mesmo de fazer de tudo para estragar o jantar dela com a turma do homem do pirrê. A essa altura já não dava mais para achar meus amigos lá no estádio, eu teria de assistir o jogo sozinho.

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O motorista acabou me deixando na entrada da torcida do Vasco. O portão fechado. (o gordinho faz uma careta de pânico). O jogo já ia começar, de fora eu escutava a torcida, os gritos, as ôlas. Implorei para o guarda do estádio, a barriga caindo fora da bermuda, o olhar de desprezo, aquele sotaque. ‘Vai dar, não, meirrmão’. A torcida urrava lá dentro. Daí eu vi aquele major aposentado que morou em São Paulo, lembra? (o gordinho faz um não com a cabeça e um sinal com a mão pedindo outro rabo de galo) Aquele vascaíno que andava com um palito de dente na boca e dizia que o Romário era muito melhor que o Pelé. O homem já estava abrindo um sorriso com o palito, para a gozação com a minha cara, quando entendeu meu desespero. Mandou me liberar. Meu coração saltou de novo – eu devia minha vida a um vascaíno!

heitor dos prazeres

O jogo ficou no 0 a 0… Trinta minutos de prorrogação. 0 a 0! Eu ia morrer. (o gordinho, cada vez mais animado, resolve falar: “Eu lembro, nossa, fomos pros pênaltis”) Rincón marcou o primeiro. Romário empatou. O Dida segurou um, 3 a 2, aquele calor, o suspense insuportável, eu sem poder torcer pelo Corinthians no meio do pessoal do Vasco, comecei a passar mal. Fui ficando tonto, o coração acelerou, o peito doía, o calor, não vi mais nada… Escutei, de longe, que o Marcelinho perdeu o nosso gol. (o gordinho já tá no terceiro copo e solta um shuu!) Acordei na ambulância, o médico falou que eu tive um negócio, assim, um princípio de infarto. Eu só pensava no jogo. Quem ganhou o jogo, quem é o campeão do mundo? ‘O Corinthians’, disse o doutor. ‘O Edmundo perdeu o pênalti, o Dida segurou’, ouvi uma voz de mulher. Ah, quase tive um infarto só de alegria, esqueci o calor, a dor no peito, o que eu ia escutar da Mariza na volta…

Então, não sei se você se lembra da Maria Carolina, aquela que eu namorei no colégio. Soube que tinha virado enfermeira, disseram que ela havia mudado de cidade, e agora ela estava lá, no Maracanã, dando plantão. A mão que me segurou, delicada, era dela, da Maria Carolina, corintiana como eu. A voz que me falou o resultado, era dela, da Maria Carolina, minha primeira namorada. Não sei por que, a primeira coisa que perguntei foi: ‘Você casou?’. ‘Não’, ela me sorriu com aquele mesmo sorriso de menina. Pois é, vamos casar, quero te dar o convite. O quê? A Mariza? Você não lembra? Da última vez que eu ouvi falar, saiu no tapa numa festa porque o sujeito do pirrê, o fino, tava mordendo a taça de vinho para uma outra, parece que era pernambucana… (ele se vira para o balcão) Ô campeão, vê mais um rabo de galo aí!”

*publicado no Dringue.com

 

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