FERREIRA GULLAR

“Sou surreal demais para fugir do real” (Ferreira Gullar)

Entrevista a Cristina Ramalho Foto Nana Moraes

“Não quero ter razão. Quero ser feliz” – a mensagem em letras coloridas está impressa no copo de plástico barato, numa prateleira da sala de Ferreira Gullar. A frase do próprio poeta caiu literalmente na boca do povo, e além de copos, aparece em e-mails, capas de agendas, na roda de amigos no bar que depois de um pilequinho se abraçam jurando amizade eterna. Ganhou fama pela espontaneidade com que foi dita, na Flip de 2006, em Paraty. Gullar debatia sobre conflitos com o poeta palestino Mourid Barghouti, e de repente, para não criar um clima tenso, fugiu pela tangente com elegância poética. “Eu contei uma história. Que um dia briguei com a minha mulher, a Claudia, teimei em ter razão, mas percebi que ia ficar sozinho. Peguei o telefone e disse a ela que não quero ter razão, quero ser feliz”. O palestino ficou, claro, sem resposta.
A audiência aplaudiu. Mais tarde, Gullar autografava livros e um sujeito tímido lhe segredou no ouvido: “liguei para a Isabel, falei isso aí que você disse, o importante é ser feliz”. A Isabel não resistiu. Poucos de nós resistem à simplicidade e profundidade com que o maranhense Ferreira Gullar diz as coisas. As palavras são uma extensão natural do seu jeito analítico, irônico, de olho em tudo. Tem tamanho domínio da cena que se deu ao luxo de começar a carreira chutando para o alto a linguagem, em 1954, com um poema que era um livro inteiro, A Luta Corporal. Continuou balançando a sintaxe e os corações de leitores com o Poema Sujo (escrito em 1976, no exílio), uns versos doídos, a beleza que é o raciocínio. Inventou o concretismo, fez poema de cordel, militou por anos no Partido Comunista.
Garoto, em São Luís, Gullar era o único poeta da família, visto com pena por ser tão fora dos trilhos. Já famoso, amigo de Mario Pedrosa, Amilcar de Castro, Fernando Sabino, passava a tarde na praia de Ipanema mas não era do sol. Seguia para o bar com esses bebuns célebres, e bebia um chope só. Teve a mesma mulher por anos, Thereza, até ela falecer. Nunca fumou maconha, embora vivesse no auge do desbunde. Desenha, pinta, e não se considera artista. Nem liga para as homenagens que querem lhe fazer em 2010, quando irá completar 80 anos. “Já sou surreal demais para fugir do real”, diz ele nesta entrevista.

Bobagem explicar. As razões de Ferreira Gullar são outras.

Outlook – Você está programando algo para a celebração dos seus 80 anos?

Ferreira Gullar – Não, eu não programo a vida. Nem acho que eu tenho 80 anos. Não que eu ligue para essa coisa de idade, não é isso. É que para mim é uma data qualquer. Vai sair um livro com poemas inéditos meus, Em Alguma Parte Alguma (veja poema inédito na última página), mas são coisas que venho escrevendo, nada programado. Ficou acertado com a editora que vai ser publicado no ano que vem, para coincidir com meus 80 anos. Mas eu estou sempre escrevendo, os poemas acontecem. Às vezes passo meses, anos, sem escrever nada. Faz dez anos que eu não publico nenhum livro.

Para ler esta entrevista completa, clique no link: OTLK_02_17-OUT-2009_p1;26-32

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