trecho meu livro Aprendi com minha mãe (Costanza Pascolato)

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( a história de Gabriella, mãe de Costanza Pascolato, é uma das 52 histórias de mães que escrevi no meu livro Aprendi com minha mãe)

Tudo Sobre Minha Mãe

Cena 1: Mamãe está deitada num sofá, metida num robe de seda pura com borboletas aplicadas, quase uma diva de cinema. Eu, envergonhada, conto que estou sangrando e não sei porquê – estou com 11 anos. Ela mal me olha e diz que agora serei mocinha, que é assim mesmo, coisas da vida. Só queria brincar, eu digo, e começo a chorar. Ela não me responde. Fica mexendo nas borboletas.

Cena 2: A Segunda Guerra acabou e meu pai, que era ministro do governo fascista de Mussolini, teve de fugir do país. Meu irmão, bebê, foi levado para a Suíça por nossa governanta, Blanche. Eu fiquei com minha mãe num campo de refugiados, sem nada. Ela não se abalou: ia conversando com cada um, tentando arranjar um jeito de nos tirar dali. Conseguiu unir todos nós sãos e salvos e ainda nos embarcar num navio para a América do Sul.

Cena 3: Em São Paulo, com pouquíssimo dinheiro, mamãe resolve pedir um empréstimo a meu avô, que continuava na Itália, para arrematar um carregamento de sedas de um navio. Anteviu, esperta, que uma tecelagem de sêda seria um bom negócio. Só se produzia algodão no Brasil. Arranjou o dinheiro e acabaria montando uma fábrica de tecidos. Meses depois, o lugar pegou fogo, e ela perdeu quase tudo. Não disse um a, voltou a trabalhar e montou tudo de novo.

Tudo isso é minha mãe. Forte, corajosa, inteligente, determinada. E também distante, seca, de valores absurdamente tradicionalistas. Preocupada demais com as aparências. Dura demais consigo mesma e comigo. Tudo o que eu sou aprendi com ela – até, por exemplo, o que não devo ser jamais. Temos uma longa e intensa convivência, e uma longa e intensa dificuldade de nos darmos bem. Nos últimos anos, porém, fui aprendendo a lidar melhor com isso, e a compreendê-la, a ter compaixão real por ela. Não no sentido de pena, mas no significado espiritualista/budista do termo, mesmo, de se colocar no lugar do outro. E desde que passei a enxergá-la desse modo, as coisas melhoraram. Até aqui, no entanto, foi um caminho muito difícil, e é esta a nossa história, que tem diversas fases.

1 – A nobreza

Gabriella, minha mãe, era linda. Do tipo mignon, charmosa, boa de traquejo social, ela fascinou o meu pai, Michele Pascolato, um homem fora do comum. Ele foi o mais jovem dos ministros de Mussolini, era federale (uma espécie de prefeito) de Veneza, e nada tinha a ver com os políticos de hoje. Culto, refinado, entendia profundamente de arte, de música clássica, falava vários idiomas, lia muito, sabia um bocado sobre filosofia, história, um cidadão de alta cultura, de ideais nobres. Tocava violoncelo, um legítimo Andrea Guarneri del Gesù do século 17, instrumento raríssimo desses que valem um milhão de dólares, algo como um violino Stradivarius. E ele ainda era um charme de homem, da alta aristocracia veneziana. A casa da minha avó, onde ele foi criado e nós brincávamos de frente para o Grande Canal, era um dos belos palácios de Veneza, repleto de importantes obras de arte e hoje, apesar de não pertencer mais à minha família, é preservado como um dos orgulhos do patrimônio italiano. Papai recebia os convidados do Festival de Veneza. Era vizinho de Cole Porter. Vivia cercado de gente brilhante.

Mamãe vinha também de uma família muito rica, mas menos sofisticada. Meu avô, pai dela, era um homem de terras – tinha terras a perder de vista –, um grande fazendeiro. Uma família rígida, de códigos morais terríveis, tipicamente burguesa do final do século 19. Mamãe, a filha mais velha, logo se destacou. Aos 20 anos, formou-se em religiões comparadas em Veneza, na Ca’ Foscari, a universidade mais antiga da Itália. Também se formou em inglês em Cambridge, na Inglaterra. Foi em Veneza que conheceu meu pai.

Um amor à primeira vista. Logo se casaram, e se tornaram um belo par, admirado nas festas. Papai conhecia tudo de etiqueta, de civilidade. Sóbrio, articulava amizades com elegância, enquanto mamãe fazia a social, sabia receber e ser bem recebida.

Eu, a primeira filha do casal (tenho um irmão, Alessandro, quatro anos mais novo), nasci junto com a Segunda Grande Guerra. A Polônia foi invadida pelos alemães em 16 de setembro de 1939. Três dias depois, eu nasceria em Siena, na Toscana, Norte da Itália. Mamãe não quis me ver durante uma semana. Acho que ela não tinha vocação para ser mãe tão jovem, aos 21 anos, ainda mais de uma menina, e ainda mais de mim, que nasci feíssima. E ali, naquele momento, nascia também a hostilidade dela comigo.

Ela pouco me via, e como as outras mães ricas e bem criadas daqueles tempos, tinha uma governanta, enfermeira formada, para cuidar das crianças. A nossa era Blanche, suíça, parte importantíssima da trajetória dos Pascolato, e que hoje mora em São Paulo, pertinho da minha casa. Ela me alfabetizou – em francês, comme il faut –, e só fui aprender italiano depois.

 2- A resistência

Pouco antes da guerra acabar, papai percebeu que, além de não durar muito, o fascismo já não era o que ele acreditava. Meu pai ajudava os intelectuais, os judeus, e escondia quem conseguia, avisava quem ia ser preso para a pessoa poder escapar. Mamãe o apoiava em tudo, claro. Quando finalmente a guerra acabou e os italianos mataram Benito Mussolini e expuseram seu corpo em praça pública, fomos obrigados a fugir correndo. Os italianos queriam matar toda a classe alta ligada ao fascismo. Nossas casas foram saqueadas. Papai precisou sair do país – ele, que tinha sido herói e até ganhou medalhas durante a guerra – e foi parar na Suíça. Ali acabou abrigado na casa de um advogado amigo de meu pai, onde Blanche, a nossa governanta se empregou. Por ser suíça, ela conseguiu sair da Itália sem problemas, levando com ela o meu irmãozinho, então com um ano de idade. Por seis meses, meu pai ficou no sótão da casa, e por uma fresta no chão espiava meu irmão andar, fazer gracinhas, crescer saudável. Ele não podia correr o risco de meu irmão vê-lo e, tão pequeno, acabar revelando que “papai” morava ali.

Mamãe e eu fomos levadas para um campo de refugiados. Ficávamos ali, e a Cruz Vermelha nos alimentava, dava remédios, essas coisas. Logo minha mãe foi revelando seu lado prático e heróico. Ia conversando com cada um – muitos dos presos eram italianos ricos que conhecíamos – e tentando arranjar um jeito de sair dali. Uma vez por semana, ela e os outros adultos tinham permissão para sair de lá. Mamãe aproveitava, então, para correr atrás de outros amigos, conseguir documentos, conversar com as pessoas dos consulados. Precisávamos sair da Itália, era só no que ela pensava.

E conseguiu. Deixamos o país em direção a América do Sul num navio cheio de italianos, todos carregando a saudade de casa e a idéia de uma vida melhor em terras prometidas.

A intenção de mamãe era a Argentina, onde o meu avô tinha terras e uns parentes. Mas o pessoal do consulado argentino não a tratou bem e ela ficou em dúvida. No navio, encontrou com uma turma animadíssima de cineastas italianos, que estavam a caminho do Rio, queriam montar uma companhia de cinema no Brasil, e iriam se hospedar na casa de Gabriella Besanzoni Lage, uma famosa cantora lírica italiana – casada com o milionário armador Lage, dono de importantes estaleiros – que adorava ser mecenas de artistas (a casa era onde fica o Parque Lage) e dava festas incríveis. Ela precisaria escrever uma carta dizendo que nos acolhia, para podermos entrar no Brasil. Telegrafamos do navio e ela enviou a carta, de bom grado. Passamos seis meses no Rio, numa pensão em Laranjeiras. Lembro que eu tive febre escarlatina e da minha janela, meio delirando, enxergava o Cristo Redentor.

No fim, a companhia de cinema não deu certo, os italianos se espalharam e mamãe – sempre ela – achou que ali no Rio não iríamos muito adiante. Resolveu ir a São Paulo a convite seu amigo Ciccilo Matarazzo. Generoso, Ciccilo alugou uma casa para nós, na rua Joaquim Eugênio de Lima.

3- A nova história

Os Matarazzo, os Crespi, os Pignatari faziam a São Paulo de então. Eram donos do dinheiro, das fábricas, dos carros mais bacanas, das melhores festas. Moravam ali pela avenida Paulista ou nos Jardins e mantinham os costumes italianos. Não tínhamos mais dinheiro, mas pertencíamos a essa classe, então vivíamos com eles. Mamãe foi trabalhar numa casa de alta-costura na rua Marconi, na época o creme de la creme do comércio. Papai foi mexer com importação e exportação, arrematando carregamentos de navios abandonados. Basicamente, ele vendia máquinas industriais de todos os gêneros, abandonados nos navios atracados nos vários portos brasileiros à espera de uma solução para seguir caminho, voltar para seus países de origem. A guerra mundial havia paralisado tudo. Ele estava bastante infeliz. Não se reconhecia naquela função comercial. Advogado de profissão, era um homem à antiga, culto, com pendão para a erudição, e reconhecia no mundo paulistano o início de um capitalismo enérgico, quase selvagem. Foi, entretanto, um companheiro aliado, e sempre apoiou as decisões de minha mãe .

Mamãe, a corajosa, foi quem mais uma vez tomou a iniciativa. Num dos navios que papai ia verificar, havia um carregamento de seda e ela resolveu que com aqueles tecidos faria um bom dinheiro e montaria sua própria tecelagem. Escreveu ao meu avô na Itália pedindo um empréstimo, explicando sua idéia e ele a atendeu. Em 1948 ela montou uma fábrica num galpão na Vila Guilherme em São Paulo, com meu pai junto. Pouco tempo depois, em 50, a fábrica queimou, ficando parcialmente destruída. Não tinha seguro. Meus pais recomeçaram. Mamãe trabalhou noite e dia, jamais reclamou, e nossa tecelagem, a Santa Constância, se firmou. Isso é mais uma coisa que aprendi com ela: gosto de trabalhar. Tenho prazer pelo trabalho em si. Sou determinada, como ela sempre foi.

Mas a nossa relação nunca foi fácil. Não havia conversa, eu aprendia mais em papos com as amigas. Lembro que um dia, era bem nova, devia ter uns 10 anos, e cheguei em casa perguntando para ela se era verdade que no beijo na boca se colocava a língua, tinham me dito isso. Ela berrou: “Sua putana!”, e se afastou. Por um bom tempo não quis nem falar comigo.

O moralismo, a falta de sensibilidade, a rigidez, se repetiriam em tantos momentos. Quando me casei, aos 23 anos, com o banqueiro Robert Blocker, ela foi totalmente contra, porque ele era norte-americano. Não tinha a classe européia, na sua opinião. Eu fui a esposa ideal, era linda, recebia bem, era campeã de etiqueta, fazia a social como mamãe sabia fazer. Alguns anos mais tarde, já com duas filhas, eu me apaixonaria perdidamente pelo homem da minha vida, um italiano, Giulio Cattaneo della Volta com quem vivi 21 anos, e deixaria meu marido por ele. Foi a vez de minha mãe atacar de novo. Incentivou o Robert a me proibir de ficar com minhas filhas, Consuelo, então com nove anos, e Alessandra, cinco. Ela me deserdou e botou todo mundo contra mim.

Eu fui tocando a vida, trabalhando como vitrinista, como produtora de moda na ed. Abril, fazendo tanta coisa. Quando papai faleceu de um câncer de fígado, em 1987 (mamãe cuidou dele durante nove anos), eu assumi a direção de estilo da fábrica. Pois na frente dos funcionários minha mãe me desancava: “Não escutem o que a Costanza diz, porque ela não sabe de nada”. Ela competia em tudo comigo. Tive de aprender rápido e direito. Giulio morreu em 1990 – nos meus braços, e até hoje sinto muita falta dele –, a situação foi mudando. Aos poucos, fomos aprendendo a conviver e a trabalhar juntas. Acho que no fundo ela me achava bacana. Eu, como já disse, tenho aprendido a me colocar no lugar dela, a ter compaixão por ela, desde que comecei a meditar, há uns quatro anos, quando me separei do Nelson Motta. Entendo agora a fragilidade dela, os momentos em que se sentiu acuada e me atacou, eu a vejo mais humana. E reconheço, em mim, muita coisa dela. Tudo o que sou devo a ela. Até, como já disse, o que não sou e nem quero ser jamais.

A mãe

Gabriella Pascolato nasceu no dia 12 de junho de 1917 em Tortona, na Itália, filha de uma família muito rica, de fazendeiros com terras a perder de vista. Casou-se com Michele Pascolato em Veneza, e teve dois filhos: Costanza e Alessandro. Fundou no Brasil a Tecelagem Santaconstância e, por sua enorme história com a moda brasileira, vive sendo celebrada. Em 2003 foi homenageada num desfile de moda da grife Zapping, e no final do desfile entrou na passarela de mãos dadas com o estilista Renato Kherlakian. Ao fundo, um painel com a foto dela e a legenda: “God Save the Queen of Fashion” (Deus Salve a Rainha da Moda). Ela faleceu no dia 21 de agosto de 2010, em São Paulo.

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Andrea
    fev 24, 2016 @ 15:14:28

    Linda historia !!!
    Essas familias paulistas deviam escrever um livro contando suas historias.

    Responder

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