S. MIGUEL DO GOSTOSO

IMG_0217

SAO MIGUEL DO GOSTOSO – VALOR

Por Cristina Ramalho

Sabe aquele estalo que nos faz querer inverter tudo? Quando as aflições vão se misturando com os desejos e vem aquela aquela contradição que dá em todo mundo, quem mora na cidade grande diz que sonha com o sossego da cabana na praia, e quem mora numa cabana pensa que talvez uma agitação na metrópole traga um sopro novo.

Uma vez em São Miguel do Gostoso, depois do mergulho, uma cervejinha e um peixinho frito no Sheik`s, fica difícil não escolher para sempre a cabana na praia. Tanto que muita gente ali fez isso mesmo: a Rosana saiu de São Paulo para abrir sua charmosíssima creperia Madame Chita, servindo caipirinhas e dando risadas, uma história atrás da outra contada com a voz rouca, o jeito gozador. Nunca mais deixou Gostoso. A Diovana e o Rogério vieram do Sul, abriram o bar Seridó de frente para a praia, e ali entre as panelas onde preparam ótimos pratos mexicanos e o kitesurf com o cabelo ao vento, criam quatro filhos loirinhos, lindos. Para quê outra vida?

Uma ida de férias e a vontadedar-uma-banana-para-o-patrão-e-montar-um-negócio-à-beira-mar. Assim vieram moradores de São Paulo, Bahia, Rio, da Itália, da França, de vários pontos do atlas e abriram docerias, bares, pousadas, escolas de windsurf e kitesurf no pequeno vilarejo. Os roteiros se repetem mais ou menos como aconteceu com tantos outros pontos deslumbrantes do nosso mapa, tipo Trancoso, Jericoaquara, Pipa.

A diferença dessa pequenina cidade a uma hora e meia ao norte de Natal, virando a esquina no Brasil, é que ela ficou na dela.

Não se abriu para turistas que chegam em bandos. Nem sinal de resorts com drinques coloridos, baladas lotadas, flyers de festas. Também não virou exclusiva-jet-set, com starlets sorridentes de pé na areia e biquíni de grife. Em Gostoso os bares e restaurantes estão quase camuflados entre as casinhas dos nativos, e é só dar uma voltinha na rua principal para você já se sentir um local.

“O que me pegou aqui foi a atmosfera do lugar, essa coisa de cadeira na calçada, todo mundo se conhece, conversa, clima de cidadezinha de interior”, diz Cacau Torroni, diretora de marketing em moda, uma brasileira que mora em Milão há 20 anos com o marido italiano e dois filhos, e tem uma casa aberta, linda, junto da praia Ponta de Santo Cristo. Ela vem todos os anos para São Miguel do Gostoso, nem que seja por uma semana, para ter a sensação de um Brasil pacato.

E é assim mesmo: cadeirinhas na frente das casas à beira da calçada da rua principal, onde também se enfileiram alguns bares, boa parte das pousadas, o mercado, o salão de beleza da Dola, os táxis-motos, a tapioca. As poucas ruas têm nomes do mar: Enseada das Baleias, Cavalo-Marinho, Ostras – ideia do Leonardo, do restaurante La Brisa, que faz um risoto de polvo que eu vou te contar. O próprio nome da cidade surgiu espontâneo das histórias de dois dos seus moradores. Um comerciante que se curou depois de uma promessa a São Miguel Arcanjo e construiu a igreja onde quase todo mundo se encontra, e um sujeito boa praça que ria gostoso contando anedotas, o que mais tarde daria duplo sentido ao slogan da cidade: Aqui se faz Gostoso. Deus e a malícia, os amores de todo brasileiro.

Esse clima de gente rindo à toa, senta aí, porta sempre aberta, acaba seduzindo quase tanto quanto a beleza do mar.

Sim, claro, o mar. Aqui em Gostoso ele é aberto, azulzão, cristalino, com a faixa de areia larga e um vento que sopra, muito, o ano todo. É parada essencial de praticantes de kitesurf.  São só quatro praias: Ponta do Santo Cristo, Cardeiro, Xepa e Maceió. A bordo de um buggy ou mesmo a pé, para quem se anima, chega-se à encantadora Tourinhos, a 6 km dali, uma baíazinha com o melhor dos dois mundos: tem um único restaurante de um italiano que faz peixe fresco, camarão divino, salada de rúcula estalando, um pudim de capim santo sensacional, comida que poderia estar numa prainha de Capri. E tem o silêncio. Sem barracas, quase ninguém por perto, a areia de talco, a água tranquila, boa de nadar .

Se pintar algum zum-zum-zum é de alguns turistas que param ali para ver o por do sol de Tourinhos, o mais bonito do pedaço. Nada de aplausos, é só para sentar e se maravilhar. Dali pra frente pode-se seguir uma rota de vilarejos com praias ainda mais intocadas, todas lindas, umas com história, como a Praia do Marco, onde historiadores acreditam que Cabral deve ter mesmo chegado antes de tudo, porque os ventos o trariam primeiro para cá, e não para Porto Seguro. Outras com geografia caprichadíssima, como Galinhos, vila de pescadores ainda mais bonita e deserta, porque difícil de chegar.

Toda essa simplicidade, porém, não impede o charme de Gostoso. Come-se bem: pães de um rapaz que trabalhou na francesa Le Vin, de São Paulo; pratos delicados e bem pensados no belo Hibisco, que serve peixe com gergelim e risoto, e bons vinhos; há restaurantes tailandeses, argentinos, a moqueca da Maristela e até a pizza tem encantos. Dorme-se muito bem na Pousada dos Ponteiros, de chalés amplos, com dossel, flores frescas e delicadeza nos detalhes. A pousada é do jornalista Emanuel Neri, o principal a divulgar Gostoso na mídia, e também um dos convictos a dizer não para excursões, hotéis, aparatos de turistas de massa. Há outras pousadas e restaurantes para todos os estilos. E a noite é boa para bebericar, uns poucos lugares para dançar, a palavra aqui é conversar, sem pressa. A maioria não dorme tarde.

Mas porque Gostoso faz a gente ter vontade de deixar tudo para trás parece meio difícil de escrever. Talvez porque um lugar assim é mais do que bonito. É um estado de espírito. É estar lá e não sentir falta de mais nada.

BOX: Vá por nós

Para chegar: São Miguel do Gostoso fica a 110 km ao norte de Natal. O acesso é pela BR 101

Para se hospedar:

Pousada dos Ponteiros – uma das pousadas mais charmosas da região, com chalés diante da praia, restaurante, piscina, decoração delicada.

http://www.pousadadosponteiros.com.br

Pousada Mar de Estrelas – fica na frente da praia, numa fazenda antiga, pomar imenso. O restaurante, tocado por Maristela, é um dos melhores de São Miguel do Gostoso. http://www.pousadamardeestrelas.com.br

Para comer:

Restaurante Hibiscus – um dos melhores da cidade, mistura cozinha baiana e internacional, e o ambiente é um charme, com móveis de brechó e tecidos coloridos

http://www.praiadogostoso.com/restaurantehibiscus/detalhe_restaurantehibiscus.html

O Jardim do Seridó – Diovana e Rogério, simpaticíssimos, comandam esse restaurante simplão, beira-mar, com ótimos pratos mexicanos e comida caseira. http://www.saomigueldogostosobrasil.com/restaurantes/jardim_do_serido/jardim_do_serido.htm

Para curtir a noite:

É um bar, lindo, que vende crespes, caipirinhas e objetos também, mas é o lugar de fim de noite (o que é cedo por estas bandas) e ótimos papos com a dona, Rosana.

http://www.praiadogostoso.com/madamechita/detalhe_madamechita.html

Para praticar windsurf:

http://www.kauliseadi.com.br/?p=news&newsInt=on&id=47

e kitesurf:

http://www.drwind.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: