KENGO KUMA VALOR

 

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Por Cristina Ramalho

A primeira ideia de Brasil do arquiteto japonês Kengo Kuma veio, como acontece com tantos estrangeiros, da música. Domingo, cinco da tarde, hora de tomar um chá e sintonizar a rádio J Wave para ouvir o programa Saúde Saudade, do DJ e produtor Jin Nakahara, que sabe tudo de MPB e suingue e toca, há muitos anos, o fino da bossa para os ouvintes em Tóquio. “Quem me falou sobre o programa do Nakahara foi meu velho amigo Sakamoto”, conta Kuma de Tóquio, por telefone, ao Valor. O arquiteto se deliciou com a leveza da música brasileira. Adorou Tom Jobim.

Kengo Kuma, 62, está entre os grandes arquitetos do mundo, hoje. Ryuichi Sakamoto, 64, você já sabe, mas não custa repetir: músico, ator, compositor, é um dos maiores artistas japoneses vivos. O encontro desses dois amigos que são a cara do Japão contemporâneo deu samba também no sentido figurado: Kuma e Sakamoto lançaram, em 2015, uma versão de um antigo jogo japonês de montar, o tsumiki, espécie de Lego em madeira. O arquiteto desenhou um bloco em formato de V, com aberturas nas pontas, e mil e uma possibilidades de criação: pássaros, casas, bonecos, um avião, o universo. Sakamoto, que tem uma ONG que atua em reflorestamento, a More Trees, colaborou fornecendo a madeira certificada.

Meses antes de lançar o jogo no mercado, Kuma e sua equipe montaram um pavilhão temporário de tsumikis gigantes na Tokyo Design Week, e crianças e adultos se esbaldaram. Mostrou que assim como os budistas acreditam que há um Deus no interior de todo ser humano, Kuma aposta que dentro de cada um de nós – por que não? — mora um arquiteto.

O tsumiki é um sambinha feito numa nota só da qual dá para se compor o que quiser. É também uma consequência do que Kuma mais gosta de fazer: juntar tradição e inovação. Pegar como base o lado mais clássico do Japão (o jogo original tinha ainda formas circulares, cúbicas, mas ele optou por usar só as triangulares) para enxugar as ideias e propor um jeito novo, lúdico, de construir a vida. Economia de espaço, materiais naturais, lirismo matemático. A beleza que é a simplicidade.

Tudo se encaixa.

Nos projetos arquitetônicos de Kuma, a madeira é tramada por experimentados artesãos, como um grande jogo de montar, formando estruturas de desenhos delicados, belos, que embalam os prédios, escondem/revelam a luz, deixam espaços vazios, proporcionam imagens poéticas como nuvens no céu. Caso da Sunny Hills, uma loja de bolos que Kuma projetou em Tóquio, casa pequena, que se tornou ponto turístico: as réguas finas de madeira, encaixadas em ângulo de 30 graus, dão um efeito de três dimensões. Um quê de conto de fadas.

É com essa filosofia tsumiki de enxergar o mundo que o arquiteto está chegando ao Brasil. Ele assina o projeto da Japan House, em São Paulo, um espaço previsto para inaugurar em 2017 e que pretende aprofundar as relações dos dois países nas artes, no business, e apresentar a contemporaneidade do Japão que nós, ocidentais, ainda pouco conhecemos (veja box). “O projeto tem de mostrar na sua arquitetura a essência da cultura japonesa e dialogar com a cultura brasileira”, Kuma explica. Criou uma estrutura de réguas de madeira trabalhadas por artesãos japoneses que conversa com uma parede de cobogós, os típicos elementos vazados da arquitetura brasileira modernista. A luz entra pelos espaços, formando desenhos, calma de templo em plena avenida Paulista.

“Vamos ter um jardim zen, com muito bambu, que é uma madeira tão japonesa e também tão brasileira”. Dentro do prédio de três andares, painéis deslizantes – chamados de fusumas – podem funcionar como paredes que se recolhem, abrindo espaços, ou fecham, dependendo da necessidade do momento. Afinal, esse é um projeto que nasce para celebrar a convivência.

Para acompanhar o andamento da obra, Kuma veio a São Paulo “umas seis, sete vezes”. Achou a cidade excitante, aberta a novas culturas, impressionou-se com o tamanho da imigração japonesa por aqui. Ele e sua equipe ensinaram artesãos brasileiros a trançar a madeira e, como sempre, Kuma se empolgou com a possibilidade de abrir o compasso, aprender algo novo. “Os brasileiros não têm uma cultura forte da hierarquia como nós, japoneses, e penso que evitar a hierarquia é muito importante, tento fazer isso no meu cotidiano”, ele diz. Trabalha com muitos jovens no seu escritório em Tóquio, o Kengo Kuma & Associates, uma equipe de mais de 40 pessoas. “Gente mais jovem me estimula demais”.

Ele criou um método de trabalho que chama de “humble method” (método da humildade). É o comedimento em ouvir o outro, trocar ideias, a cortesia oriental. Mas sobretudo é o comedimento na própria arquitetura – que ela deixe que a natureza fale. “A arquitetura deve ser uma moldura da natureza”, diz Kuma, que aprofundou mais ainda esse conceito depois de grandes acidentes naturais, como o tsunami e o terremoto no Japão. Não apenas usa os materiais naturais – argila, bambu, pedra, madeira – como busca integrar seus projetos aos lugares onde eles estão. Um estilo muito influenciado pelo amor ao seu ídolo de menino, o modernista Frank Lloyd Wright ( da arquitetura limpa integrada à natureza), e apurado pelo sentido de espaços vazios da arquitetura japonesa tradicional.

Quando criança, década de 1960, Kuma morava numa casa japonesa dos anos 1920, de madeira, com janelas e portas de papel, e morria de vergonha. “Meus amigos moravam em prédios de concreto, iguais aos americanos. Eu detestava a minha casa. Mas com o tempo fui percebendo que me sentia muito mais acolhido lá, que o concreto não me fazia sentir bem”. Quis trabalhar com isso, fazer casas, talvez. Mas o que definiu mesmo sua carreira foi entrar no Estádio Nacional de mãos dadas com o pai, nas Olimpíadas de Tóquio, em 1964. Tinha dez anos. E ficou de queixo caído com aquela imensa estrutura de concreto. Gostou mais ainda quando viu o arquiteto do estádio, Kenzo Tange, falando na TV. A Ásia vivia o boom da modernidade do concreto, grandes construções.

A vida vem em ondas como o mar e não é que Kuma foi escalado para projetar o estádio da segunda Olimpíada de Tóquio, em 2020? “Resolvi que vou criar o oposto: um estádio com muita madeira. Quero falar de harmonia, e a Ásia está voltada para a sustentabilidade, a criatividade, é outro momento”. Ele veio com a delegação japonesa assistir as Olimpíadas do Rio. “Achei tudo bonito”.

Como bom japonês, Kuma faz poesia ao mesmo tempo tão zen e tão high tech. No pavilhão do Buda, um templo em Touyoura, usou a mais moderna tecnologia do aço e o cobriu com barro, um deslumbre de leveza. Numa casa em Nagano, cortou as pedras externas em fatias finíssimas e criou ilusões com as luzes, um tipo diferente de transparência. Inventou uma casa de chá inflável no Museu de Artes Aplicadas de Frankfurt, tecnologia quase espacial combinada com ritual japonês. Fez prédios, museus na China, Inglaterra, França, está criando o projeto do museu V&A na cidade de Dundee, na Escócia, ganhou um sem número de prêmios. Tem um laboratório de pesquisas, o Kuma Lab, onde estuda sustentabilidade e novo uso de materiais.

A cada dia, diz, ele quer ser mais simples. “O arquiteto tem de ser um sushiman: fazer o máximo com o mínimo de elementos”. Tanto faz se em obras grandes ou pequenas, como ele cita num texto que escreveu comparando a arquitetura à literatura e citando seu escritor favorito, Haruki Murakami: “Murakami diz que escrever um conto ajuda a sintetizar e a buscar por algo que ele pode desenvolver num romance. Para mim, fazer uma casa de chá é como escrever um pequeno conto”. É ter aquele poder de síntese como numa canção bossa nova.