RUTH ROCHA – revista Mais

Por Cristina Ramalho

Ruth Rocha é fácil de amar. Você também iria gostar dela, um sorriso vasto assim que abre a porta de casa. Um sorriso descomplicado, como se dissesse para a gente “vale a pena”.  Resultado de uma equação lógica: Ruth, perto de completar 80 anos, foi igualmente amada desde sempre, e quase tudo cabe em seu amor. Fala da família como uma turma animada, em que os problemas foram driblados por aquela raríssima capacidade de uns abrirem os braços para os outros. Dona Esther, a mãe de Ruth, exercia a democracia doméstica distribuindo doçura entre os cinco filhos, casa de mesa grande, todo mundo junto no domingo passando o pãozinho no molho das travessas, e o pai, o médico Álvaro, sempre presente. A ponto de até hoje, com pai e mãe já falecidos, Ruth e os irmãos continuarem celebrando uma festança digna de Natal todo 28 de junho, data do casamento de Esther e Álvaro. “Fazemos tudo que meus pais gostavam, aquelas comidas juninas, juntamos a família, festejamos a vida”, ela me diz.

Essa filosofia em clima de chega mais, de janelas abertas, se estendeu ao casamento da própria Ruth com Eduardo, seu primeiro namorado sério, lá pelos 20 anos. E que ainda está de mãos dadas com ela e ganhando beijos no sofá da sala de casa, na hora desta entrevista, 54 anos depois de dizerem sim numa manhã ensolarada na igreja de São José, em São Paulo. Ruth casou-se de vestido curto e chapéu. A igreja? Um detalhe só para festejar com ritual. Garota moderna, ela estudava sociologia e política na USP, era leitora de Eça de Queirós desde os 13 anos e, claro, feminista. Ao seu estilo, sem rancor, sem ranger os dentes para os rapazes: Ruth apenas acreditava, e acredita que somos todos cidadãos merecedores de direitos e afetos iguais. Fez disso mais do que uma bandeira. É sua missão, espalhada em mais de 130 livros para crianças, títulos inesquecíveis como Marcelo, Martelo, Marmelo (seu maior sucesso, ultrapassou um milhão de exemplares vendidos), ou O Reizinho Mandão, traduzidos em 25 idiomas. Aos pequenos de todos os sotaques ela falou sobre os absurdos do poder, do racismo, do olhar para o próprio umbigo. Ensinou a fazer pronta justiça.

Não é à toa que começou a escrever histórias para crianças quando sua filha única, Mariana, lhe pedia para inventar causos, e um dia, como todas as crianças, veio com pergunta desconcertante. “Todo preto é pobre?” Ruth sapecou na hora um conto sobre o amor de duas borboletas que não podiam ficar juntas porque uma era azul, a outra, amarela. “Elas se casavam no final e tinham como filho uma borboleta verde. Aí fui falando mais sobre racismo, sobre temas assim”, diz Ruth, que para explicar a pobreza precisou esperar a menina crescer um pouquinho e lhe contar os fatos na real. Orientadora educacional durante anos no tradicional colégio Rio Branco, Ruth aprendeu rápido a equilibrar pontos de vista de alunos, pais e professores, o que como a gente sabe é uma das formas mais generosas de amar. “Eu gostava de ser orientadora. É o reinado do relativo”, diz ela, com poesia.

Acabaria intimada a escrever suas histórias na revista Recreio (revistinha amada por todo mundo que foi criança nos anos 70). E faria livros deslumbrantes. Ganhou os prêmios mais cobiçados, cinco Jabutis, um deles como grande prêmio do ano de 2002, com o livro Escrever e Criar, em situação semelhante à que agora Chico Buarque e Edney Silvestre enfrentaram. Edney levou o prêmio de melhor romance. Chico ficou com o Jabuti do ano com Leite Derramado. Teve berreiro de editores. “Eu ganhei do Celso Furtado, imagine, mas como eu não sou o Chico, então ficou tudo bem, ninguém falou nada”. No pódio das melhores escritoras infantis do Brasil, ela concorre com sua cunhada, Ana Maria Machado, de quem é a melhor amiga, assim como outra colega de ofício, Tatiana Belinky. “Nunca fui competitiva”, Ruth esclarece.  Os amigos a admiram.

“A Ruth é um Nobel de texto e de pessoa. Ser amigo dela é como um prêmio incessante. É uma mulher valente e alegre. Dessas que a gente leva pela vida afora como uma provisão de alma. Seus reis, sapos, meninos curiosos, meninas desassombradas, inundaram gerações de sonho e sabedoria”, descreve para mim o escritor Carlos Moraes, autor de Agora Deus Vai Te Pegar Lá Fora, e amigo de Ruth há uns 40 anos.

Ah, Ruth Rocha fez mesmo coisa à beça. Lançou versão infantil da Declaração dos Direitos Humanos lá no prédio da ONU em Nova York, em 1988. Dois anos depois, voltaria à sede das Nações Unidas para lançar o amor pela natureza, com o livro Azul e Lindo – Planeta Terra Nossa Casa. Entre um e outro, ela arranjou tempo para criticar a política brasileira no delicioso Uma História de Rabos Presos, apresentado no Congresso Nacional em 1989. Passada na Egolândia, uma cidade para lá do fiofó do mundo, a história vai descrevendo como políticos estranhos tinham seus rabos crescidos, entrelaçados, e, quanto mais mentiam, mais se enroscavam.

Tudo isso é parte do seu imenso amor ao próximo, e a política entrava nas conversas com a filha, nas rodas de amigos, e mais tarde até na televisão, onde Ruth trabalhou como debatedora do programa Gazeta Meio Dia. Sempre sorrindo, sempre atenciosa, nunca deixou de emitir opinião, como fez há pouco, por escrito, quando viu seu nome numa lista de apoio à candidatura da Dilma Rousseff. “Eu não a apoio. Incluir meu nome naquele manifesto foi um desaforo, e mesmo que apoiasse, não fui consultada. Esse tipo de descuido revela duas coisas: falta de educação e a porção autoritária do PT”, escreveu ela numa carta aberta divulgada pela imprensa. Tampouco se acanha em criticar um pedaço da atual literatura infantil. “Três coisas horrorosas estão destruindo os livros para crianças: 1- a mania de auto-ajuda. 2- O bom mocismo. 3- O politicamente correto. Tudo isso está minando nossa produção para as crianças”.

Mas falávamos de amores, e nossa especialista em coração aberto conta que sempre foi romântica, só não é de choradeira. Apaixonou-se por Eduardo Rocha num zás-trás, e ele, de natureza contida, soltou o verbo ao conhecê-la: “Estou fascinado”. Tiveram um script bem charmoso: acamparam, compraram veleiro, namoraram por vários portos. Tomavam lanche na Yara, casa de chá da rua Augusta. Nunca dormiram brigados. “Uma vez tivemos uma discussão feia, até que o Eduardo veio bravo me perguntar: Como é,vamos fazer as pazes antes ou depois do jantar?”

Quando nasceu sua Mariana, Ruth descobriu infinita quantidade de amor, e maior ainda na vinda dos netos, Pedro e Miguel. A filha não foi tão fácil: se mandou para a ilha de Marajó num dia, pintou os cabelos de roxo no outro, teve banda de rock. Aos 15 quis ir morar com um namorado no Rio Grande do Norte, e Ruth, depois de horas na base do diálogo, encerrou o assunto com sinceridade. “Não deixo você ir porque não aguento”. A filha obedeceu. Ruth deixava fazer muita coisa, como sua mãe Esther deixou, embora reforce que um não bem dado possa ser a maior prova de carinho. “Hoje muita gente confunde liberdade com amor. Tem de ensinar também respeito, autoridade. A escola perdeu isso, chamam todo mundo de tia. Ora, pai é pai, mãe é mãe, professora é professora”, acredita.

Fato é que a criançada sempre se derreteu por ela. “Qualquer um, seja criança, jovem ou adulto, seja uma samambaia, um papagaio ou uma estátua, sabe que é grande privilégio poder crescer com Ruth como tia. O que poucos sabem é que se Ruth Rocha é uma excelente Ruth Rocha em seus livros ela é ainda mais Ruth Rocha fora deles. Em algumas tardes preguiçosas de sábado eu me encarapitava sobre o encosto de um sofá preto da sala dela, tal como um Snoopy deitado no telhado da casinha, e escutava gostosamente suas histórias, suas risadas e até uma eventual cantoria, porque além de tudo ela canta e bem”, fala seu sobrinho, o jornalista e editor Cassiano Elek Machado, que aos oito anos destituiu seus padrinhos e adivinha quem elegeu como madrinha honorária. E sim, Ruth canta, cantou jazz, standards de Cole Porter, Gershwin, canções de embalar romances. Por anos se apresentou no Café Piu-Piu, no Bixiga, na banda do irmão caçula, Alexandre (o pai de Cassiano). A voz sumiu, ela deixou para lá.

Sua adesão natural ao momento faz agora Ruth cuidar da casa, da família, e do amado com todo o prazer. “É um amor jurássico, da vida toda”, ela ri. Eduardo, o marido, confirma que só teve olhos para ela. “Outra alternativa seria muito chata”, ele diz para mim, conciso, o tremendo elogio ao seu amor eterno. Eduardo está frágil de saúde, toma remédios fortes, fala baixinho, não escuta tão bem. Ela o cobre de beijos, repete as frases para ele. Quando ele se afasta, pergunto o quanto é difícil ver o amor de uma vida inteira em situação mais delicada. Ruth, que havia dito no começo do papo que não chora mais, não tem lágrimas, enrubesce um pouco, meio que engasga. Então se abre em sorriso e corre para dar outros beijos nele, porque a vida passa depressa e um pouco mais de amor só vai fazer bem.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. ELAINE DE LOURDES PEREIRA OLIVEIRA
    jun 08, 2014 @ 11:23:27

    Estou amando ler e adentrar no mundo de Ruth Rocha.

    Responder

  2. karen cristina alves assis
    nov 17, 2015 @ 12:05:16

    Muto bom usei para fazer meu trabalho kkk colando

    Responder

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