ALEXANDRE HERCHCOVITCH – Valor Econômico

À Mesa com Alexandre Herchcovitch

Entrevista a Cristina Ramalho  Foto Ana Paula Paiva

Diz que o Hitchcock acreditava que um filme deveria ser planejado igual a uma montanha-russa. Para o espectador se descabelar de medo, sair rindo de nervoso e com vontade de sentir tudo outra vez. Além do sobrenome cheio de agás, e de um olhar irônico sobre o mundo, o estilista Alexandre Herchcovitch tem mais essa em comum com o cineasta britânico: ele adora montanha-russa, a ansiedade da subida, a descida que tira a razão, a surpresa depois da curva. Já gritou nas mais vertiginosas do planeta, faz parte de uma confraria gringa de entusiastas do tema, não vê a hora do sobrinho David, 2, crescer para lhe acompanhar. Mas a graça maior é que no fim do brinquedo dá tudo certo e até o frio na barriga é milimetricamente calculado. “Não há risco”, Herchcovitch diz. A vida bem podia ser assim.

Herchcovitch, porém, já se arriscou um bocado. Quem mais – isso quinze anos atrás, quando quase ninguém o conhecia — estrearia na passarela botando um sujeito de imagem totalmente fora do padrão, vestindo calças largas cobertas por um “tutu” (aquela saia rodada de bailarina), sem medo de levar uma vaia fenomenal? E assim construiu uma carreira misturando o Mickey com caveira, personagens de Disney com calças glamourosas, roupas de recortes inesperados, um dia brincava com Chanel, no outro inventava coleção de ursinhos, ousadias de tirar o fôlego dos espectadores. Tudo embalado em raciocínio e poder de síntese: sua alfaiataria é primorosa, o que lhe rendeu elogios aqui e além fronteiras como um dos melhores criadores de moda do Brasil.

De tanto dominar a técnica já deu-se ao luxo de fazer piada dela. Numa de suas coleções mostrou roupas sem acabamento que, de tão bem-feitas, ninguém nem percebeu aquilo que os bem-pensantes da moda chamam de “desconstrutivismo”.

No último SP Fashion Week ele debochou, elegante, da feminilidade com açúcar de vestidinhos rodados, clima de anos 1950, cores de papel de bala. Nem todo mundo entendeu a ironia, e daí? As roupas eram um deslumbre. Entre seus modelos cabem todos os gêneros e belezas – a última foi a transexual Lea T, filha do jogador Toninho Cerezo que é top model. E, francamente, com tanta coisa para impactar na passarela, quem iria reparar nele? Herchcovitch, que no fundo é um tímido, aproveita então para sumir no meio das alegorias. É o único estilista que entra no final do desfile misturado aos modelos. Não pega um pela mão e sai na frente, nem caminha solitário para receber os aplausos, como os outros.

Bom, de vez em quando a vida tem de ter umas vertigens. Ele também já se divertiu muito saindo por aí de salto alto e maquiagem, anunciando que colecionava esqueletos desde guri, vestindo-se de super herói para filmar um curta-metragem com os amigos (Os Superpoderosos).  Antes dos 30 anos olhou no espelho e enxergou sua geração, a turma da cena underground paulistana, achou que sua vida daria um livro e lançou uma luxuosa autobiografia, um catatau de 550 páginas editado pela Cosac Naify. Grudaram no estilista a etiqueta “anticonvencional”.

Então ele deu um looping e mostrou seu avesso matemático, o tino empresarial que nenhum outro da sua estirpe alcançou. A marca Alexandre Herchcovitch se espalhou por meias, óculos, roupas de ginástica, roupa de cama da popular loja Zelo, copo de requeijão, camiseta para a MacDonald’s, uma linha de jeans que é um tremendo sucesso de vendas e mais um montão de licenciamentos e licenças poéticas sem nunca alterar sua imagem de grande criador da moda. Faz desfiles em Paris e Nova York. Exporta para um punhado de países. Tem loja própria no Japão.

“Roupa é produto, tem de ser comercialmente viável. Digo para os estilistas que trabalham comigo que todas as decisões devem ser comerciais, não do coração. Vai fazer uma camiseta? Faz nas cores que vendem mais”, Herchcovitch conta neste almoço numa calma tarde de verão, no bistrô italiano Tappo, nos Jardins.

Sempre foi assim?

“Sempre tive esse lado, mas eu era mais equilibrado antes, agora tô pendendo mais para o empresário”, ele fala, enquanto pensa se vale a pena correr o risco de uns quilos extras pedindo um risoto. Já comeu uma saladinha com queijo na entrada. Escolhe meia porção de um linguine com lagosta, e vai contabilizando o quanto pode ingerir para a sobremesa caber na consciência. Não come mais frango nem carne vermelha, tem pena dos animais. Mas não abre a boca para discurso. “Seria hipócrita, tem coisas que ainda faço, como usar couro nas minhas coleções. Não fico falando sobre o uso de peles, ou comer carnes. Couro é animal do mesmo jeito, então fico na minha”.

Somos quatro na mesa do canto deste bistrozinho tão discreto que quase passa despercebido – tanto quanto nosso entrevistado que, no dia a dia, não faz alarde. Veste-se de camisa polo, jeans, cores neutras, fala baixo, é um doce, só emite opinião se ela for pedida (que fique o aviso: se pedir ele responde mesmo, e o comentário vem na mosca). “Ele nunca dá chiliques, mas por email…”, cutuca Tânia Otranto, sua assessora de imprensa há 14 anos.

“Ah, meus e-mails já foram muito mais bombásticos. Agora, explodir mesmo só com pouquíssimas pessoas, minha mãe, o Fabio, a Tania”.

Alexandre Herchcovitch cresceu. Mais diplomático. Completou 40 anos no dia 21 de julho e, casado por união estável com Fábio, um especialista em móveis de design antigos, não vê a hora de adotar um filho. “Eu tô pronto, o Fabio é que demora a tomar decisões, tô respeitando o ritmo dele”.

Pelo casório, mudou-se de um casarão no Pacaembu para um apartamento em Higienópolis, trancou no armário as coleções de caveiras, sapatos de salto e ursinhos de pelúcia, e deixou que Fabio decorasse tudo. “Minha casa atual é o oposto do que era a outra”, ele comenta, rindo. “Sou adaptável. Posso mudar de casa, de cidade, levo na boa”.

Assim, quase caindo do galho de tão amadurecido, ele optou por ser o mentor dos 12 estilistas candidatos no programa Projeto Fashion que estreou no dia 17 na TV Bandeirantes, comandado por Adriane Galisteu. É um reality show, espécie de American Idol das passarelas, versão brasileira do Project Runaway estrelado lá fora pela top Heidi Klum.
Queriam que Herchcovitch fosse um dos jurados, quem sabe o tipo que faz candidatos chorarem. Ele preferiu ser o orientador da moçada. “Gosto de ensinar. Acho importante mostrar para a pessoa o que ela pode fazer e o que nem deveria tentar”. Quando dava aulas na FMU, espantava-se com os colegas professores que antes de avaliar um aluno já davam um desconto (“A mãe dessa aluna está no hospital, sabe como é”). Herchcovitch não se abalava.

“Não me interessa, estou vendo o trabalho, não quero saber quem é a pessoa, eu dizia. Pode ser duro, mas isso ajuda”, ele explica.

Economia de palavras, ações objetivas, limpidez de pensamento. Tudo se reduz a uma simplicidade cartesiana. O menino muito bom em exatas, que na escola judaica ortodoxa escrevia no caderno com cores distintas para cada assunto, cresceu focado. “Acho que eu faria bem um trabalho de metodologia em qualquer área. Por exemplo, se alguém nesse restaurante precisasse de uma consultoria eu já falaria: qual o problema? Como começa o processo do dia? Sei organizar, criar métodos”, ele diz. Toma decisões num zás-trás. “Eu ligo antes das reuniões e já digo sobre que assunto vamos falar, o que é preciso ser feito. Em 30 segundos escolho o tecido, vejo todos os sapatos, o que for preciso”.

Gosta da linguagem dos números. Sobre moda brasileira: “Se fôssemos tirar uma média matemática da moda brasileira hoje, qualidade por quantidade, a nota seria menor do que há dez anos. Em valores individuais, estamos melhores, mas tem confecções demais, estilistas demais”. Ou sobre responsabilidade social: “De zero a 10 no tema de projetos sociais, minha empresa ainda está no 1. Quero fazer mais coisas nessa área no futuro”.

Como é de praxe em gente assim prática e bem sucedida, ele tem memória de elefante. É o terror dos empregados. Anos atrás redigiu uma série de manuais de procedimentos dentro do ateliê, com descrições precisas do que cada um devia fazer. “Não admito nada mal feito”. Eram 40 funcionários, que ele conhecia pelos nomes, e administrados com carinho pela Regina, a mãe de Herchcovitch. Há três anos e meio, a empresa em crise, Herchcovitch decidiu vende-la. Quase sucumbiu a uma negociação com o grupo da Zoomp, acabou num acordo com o grupo InBrands.  Compraram 70% da empresa, ele ficou com 30%. Regina chiou. “Ela queria que eu vendesse tudo de uma vez”. Isso aconteceria de fato: há nove meses, Alexandre Herchcovitch vendeu tudo e virou funcionário da própria marca. Não é mais dono nem do seu nome.

“Tenho contrato como diretor de criação até 2015. Se eu não trabalhar mais na empresa nunca mais vou poder criar nenhum produto com o meu nome. Isso não me desanima. Minha mão não foi vendida, não compraram o meu cérebro, só compraram a minha assinatura. Vou continuar me expressando sempre”.

Adaptou-se à nova realidade. O que mudou?

“Ainda não perdi a mania de achar que a empresa é minha”, ele ri. “Quando tenho reuniões, sou um funcionário com alma de dono. Algumas coisas eu faria diferente, interfiro quando pedem minha opinião, mas só mando no meu departamento. Hoje tenho o peso de dirigir uma equipe de estilistas que vão fazer produtos que vão gerar receitas. Como dono eu não tinha cobrança, não existia isso de ter de fazer para vender mais”.

Os novos donos não quiseram mais Regina, nem Artur, o irmão caçula de Alexandre. A família sempre fez tudo junto, desde quando seus pais anteviram, bidus, o toque de gênio nas maluquices do filho. Seu primeiro ateliê foi na sala de casa. O pai, Benjamin, patrocinou a coleção com tecidos comprados em Nova York. Regina, que já tinha uma pequena confecção de lingeries lá no Bom Retiro, foi a primeira modelo. A avó cedeu colchas de piquê para as primeiras roupas.

“Esse modelo familiar funcionava muito bem. Funcionário meu não largava a caneta às 5 da tarde, como hoje, as pessoas foram se distanciando. Minha mãe tinha o papel aglutinador, pacificador, isso se perdeu”.

Regina e Artur abriram uma empresa de moda, a Le Look, que faz roupas para mães e bebês e estende o estilo para pets, agora. Vão indo bem. “Às vezes me pedem palpites, eu dou, mas é o trabalho deles, eles são muito bons, estão felizes”.

Ele está animado com a mudança da fábrica e de tudo o mais para a sede da InBrands, no Largo 13 de maio, em Santo Amaro. Vai voltar a fazer uma das coisas que mais gosta: acompanhar o trabalho das costureiras, ter todo mundo por perto, coisa que andava difícil ultimamente. Por conta das transformações da empresa, elas estavam num galpão na Vila Prudente, ele ficava no escritório nos Jardins.

O telefone toca, ele pede a sobremesa – um semifreddo de chocolate – sugere para a repórter um sorbet de limão divino. Tem de sair correndo para outra reunião.

Que os leitores não se enganem com todo esse papo empresarial aqui: Herchcovitch não virou um sujeito riscado à régua, sem poesia. Se o nome não mais lhe pertence, a identidade vai continuar carimbando seu estilo único, o frescor de fazer o que ninguém pensou, a beleza das roupas esculpidas com delicadeza e precisão. Ou quem sabe ele resolva se expressar em coisa completamente diferente, como fez no primeiro emprego, aos 16 anos, quando foi fotógrafo do Caderno de Sábado (o caderno de literatura) do Jornal da Tarde. Fez uma série de retratos em preto e branco de escritores como Mário Quintana, Rachel de Queiroz, João Cabral de Mello Neto (“Esse ficou ótimo, eu nem sabia usar flash, fiz no escuro e parece efeito plástico”), Jorge Amado.

Ele não faz previsões para o futuro. “Sei que hoje posso trabalhar de qualquer lugar do mundo, estou aberto para tudo, estou tranquilo”. Chegou naquela fase privilegiada de optar por não fazer mais certas coisas. “Não trabalho mais depois das 18h, nem nos finais de semana, não sou mais tão impulsivo, quero ficar na minha”. Está vivendo descobertas opostas às do seu pai. Seu Benjamin, aos 66 anos, decidiu ser ator de propagandas. “Até o levei para o estúdio do Bob Wolfenson para tirar umas fotos, fazer um book. Quero retribuir para os meus pais tudo o que eles fizeram por mim, e meu pai descobriu agora, olha só, que o que ele gosta, mesmo, é de aparecer”.  A vida não é uma montanha russa?

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