DE TREM

Isso é que é luxo – Valor Econômico

Por Cristina Ramalho

 

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Jacqueline Bisset, deslumbrante, brinda com Lauren Bacall no vagão do Orient Express que parte de Istambul para Londres – década de 30, mulheres com plumas, champanhe, conversas amenas, grã-finos que passam com suas jóias e suas risadas desinibidas. É o clima de Assassinato no Orient Express, o filme que Sidney Lumet fez do livro de Agatha Christie, botando na tela um elenco sensacional: Sean Connery, Ingrid Bergman, John Gielgud, Albert Finney, Vanessa Redgrave. Mas não falamos aqui do elenco. Falamos do trem, que recebia – e recebe, na real – celebridades desse naipe para cima, gente que dorme em travesseiros de plumas, ganha um Bellini no café da manhã e à noite vai jantar com dress code. Não é obrigatório, mas aqui eles usam black-tie. E elas, vestidos que escorregam pelo corpo e fazem sonhar.

Sim, ainda se viaja assim de trem, e nos vagões que pertencem à empresa Orient Express o tempo ficou – no que há de melhor – ali pela década de Cole Porter. É a grife do luxo que se espalha por rotas encantadoras, desde a tradicional Londres-Veneza, que pode ir ainda a Budapeste e Istambul, até uma surpreendente jornada pelo Peru, de Macchu-Pichu a Cusco. São viagens que despertam sensações: no serviço, impecável, empregados que mimam você do começo ao fim, comida assinada pelos melhores chefs, suítes muito confortáveis. O trabalho mais duro do dia é escolher o figurino para o jantar. E lá fora, paisagens abracadabrantes, vistas sem pressa, no sacolejo suave pelos trilhos, quem sabe com um amor de mãos entrelaçadas nas suas. Enfim, viagem para contar para os netos.

Nem que seja só um passeio, como no Hiram Bingham, trem da Orient Express que atravessa os segredos do Vale Sagrado dos Incas, no Peru, encravado entre Poroy e Machu Picchu Pueblo. A viagem dura 3 horas e meia, beirando o rio Urubamba, mas pode valer por memórias de uma vida – quando você contar que viu as ruínas incas de um ângulo inimaginável enquanto saboreava um finíssimo chá da tarde no vagão azul e dourado, no estilo dos trens Pullman dos anos 1920. O passeio custa 350 dólares e está incluso na rota do Peru operada pela agência AuroraEco, que faz turismo de luxo na América do Sul. “Os trens de luxo são uma tendência no mundo, e aqui no Brasil e na América do Sul tem público e empresas interessadas nas rotas, mas esbarramos na reconstituição dos trilhos, o Governo precisaria investir nisso”, explica Guilherme Padilha, dono da AuroraEco.

Já na Europa, África do Sul e mais ainda na Ásia, as rotas longas sobre os trilhos atraem turistas, dos mais abonados, do mundo todo. Um pouco para sair do comum – essa necessidade humana que faz com que o supérfluo seja essencial –, outro tanto porque viajar de avião anda um perigo com os terroristas à solta e a chatice das revistas em aeroportos, e está explicado o sucesso dos trens entre quem esbanja verba em glamour. E tem o tempo, luxo máximo – você viaja contemplando a vida, o contrário da novo-riquice que se exibe com o pé nos jatos.

Mas o grande charme dessas viagens de trem é que elas são cuidadosamente planejadas para corresponder como nenhuma outra às nossas fantasias. Roteiros míticos, que já vimos em filmes e livros, um clima do Meia Noite em Paris de Woody Allen no charme do passado, serviço de hotéis seis estrelas. Vários pacotes somam aos trens hospedagem em hotéis do gênero, ou oferecem passeios e atrações diferentes de tudo o que os mortais fazem – outro quesito essencial na classificação do luxo.

Na Índia, por exemplo, o pacote da Queensberry para viajar no Maharaja Express, um desbunde com mordomo particular, spa e banheiras em mármore e ouro, traz como extra uma partida de pólo com elefantes. No Rocky Mountaineer, trem que percorre as translumbrantes Montanhas Rochosas do Canadá, há uma parada para ver as belezas de cima – de um passeio de helicóptero.

Pelo Transiberiano, o trem mais mitológico do planeta, a viagem de 15 dias de Moscou a Vladivostok pode incluir, no pacote top, um pulinho à beira do lago Baikal (o mais profundo do mundo). Se o sol estiver bom, churrasco de peixes fresquíssimos, preparados pelo chef, as falésias ao fundo como maravilha de cenário. No dia seguinte, você almoça numa tenda típica na Mongólia. “Vendi essa viagem para um grupo de médicos, eles adoraram, voltaram maravilhados”, fala Tereza Ferrari, dona da agência com seu nome, especializada em viagens exclusivas. Os médicos fizeram segredo das férias até para os seus outros funcionários, e quase nenhum passageiro desse tipo costuma declarar o que faz. Prefere guardar as impressões para outros poucos ouvintes privilegiados.

Exceção é Tatiana Isler, que trabalha com comunicação. Viajou, feliz, a bordo do trem que é o it do momento, o Rovos Rail, que percorre a África do Sul. “Os vagões são do início do século 20, o clima é meio old times, ele não passa de 60 km por hora, fica parado à noite para os passageiros dormirem melhor, não permite uso de celulares, os jantares têm dress code, é bastante interessante”, diz Tatiana. O Rovos tem história, no sentido literal e também no figurado: seu criador, Rohan Vos, era um apaixonado por vagões antigos, acabou unindo-se a um grupo de investidores e bolou essa linha com 75 vagões e seis locomotivas a vapor, mas com todos os frufrus da vida moderna. A viagem de Pretória (onde a Rovos tem uma estação particular) à exuberante Victoria Falls atravessa o Trópico de Capricórnio, 1625 quilômetros com o glamour daquelas antigas expedições de trem pela África. Se você distrair é capaz de achar que viu a Ava Gardner de trench-coat no vagão restaurante.

Cada suíte do Rovos tem uma hostess que está à disposição 24 horas por dia, há um funcionário para cada dois hóspedes, e a coisa toda é tão fina que neste ano o vice-presidente de marketing da linha, David Patrick, veio ao Brasil dar palestra no Atualuxo, evento organizado por Carlos Ferreirinha que reúne quem trabalha com o top do sofistiquês no mundo. Mas há rotas sensacionais em muitos lugares, é só escolher e pagar, claro, preços que podem passar dos 30 mil dólares por pessoa. Ali na própria África do Sul, o Blue Train disputa o título de mais suntuoso do planeta. Azulzinho, chiquérrimo, hospeda reis, presidentes, e ali a vida parece celestial. Na Escócia, chique de cair o queixo é o The Royal Scotsman, também da Orient Express.

De todos, porém, o mais impressionante no quesito alegoria e riqueza é o indiano Maharaja Express, que vai de Delhi a Mumbai. A suíte presidencial tem sala de conferência que à noite vira pista de dança privativa da sua cabine, um mordomo só para você, cama de palácio e banheira de ouro. “Temos todos os confortos, escolhemos as cidades e experiências mais exclusivas, chefs celebridades, personalidades a bordo. Definitivamente o Maharaja é para um público especial”, me fala por email Amit Sankhala, o privilegiado dono do trem.

Sim, serviços e detalhes maravilhosos são a alma da coisa, mas em algum momento num trem desses vai brotar um instante, sublime, de ir para um outro tempo, como se fosse um filme, a sensação familiar de viver algo que está no nosso imaginário. Isso é que é luxo.

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