falar de mãe dá uma proximidade, né?

Fiz um livro, Aprendi com Minha Mãe, com 52 histórias de gente famosa — de Arnaldo Jabor a Ziraldo — falando de suas mães. Falei da minha, que aliás foi quem mais vibrou com a ideia do livro. Gladys, minha mãe, faleceu no final de outubro, e este é meu primeiro dia das mães sem ela. Achei que seria bacana estrear a data com um post de uma história de mãe, que escrevi em homenagem à Valéria, minha amiga, mas que poderia ser a minha, a sua, qualquer mãe.

ACALANTO

   Faz muito tempo essa história. É de quando as moças se casavam sem saber muito bem com quem, criavam os filhos – geralmente, muitos – e cuidavam da casa sem saber muito bem se podiam falar nisso, se havia outra possibilidade para viver. Às vezes dava certo, muitas vezes, não. Tantas vezes a doçura dos pequenos afazeres de todo dia, dos cuidados com a comida, a roupa, a puxada de orelha nos meninos, valia por toda uma vida sonhada que não acontecia. Então a moça que casou menina, com um moço meio desconhecido, podia ser infeliz no romance, mas lá no íntimo sentia uma discreta vaidade de dar seu amor para fazer brotar alegrias. Nas crianças, nas plantas do quintal, em quem provasse seu macarrão ou cheirasse a roupa limpinha no varal. Um amor espalhado, assim, em tarefas para os outros.

  Faz muito tempo, uma dessas moças que já não estava tão moça, amamentava seu quinto filho, bebezinho, quando viu o marido voltar meio esquisito de uma viagem. Trazia outro bebê, recém-nascido, e poucas palavras para aquilo. Ela entendeu que havia outra mulher, outra história, outro filho que não era o dela. O marido limitou-se a pedir que ela cuidasse do filho da misteriosa, que havia sumido, e não fizesse perguntas. Ela engoliu a tristeza quando viu o sorriso do novo bebê. Seu coração disparou. Cuidaria dele como se fosse dela, e assim seria.

  O bebê mamou no seu peito, ouviu as mesmas canções de ninar e brincou com os meio-irmãos, cresceu feito patinho feio na família de cisnes. Não porque não fosse lindo – era outro, de outra mãe, de outra cor. Vizinhos cochichavam que o bebê negro só podia ser “da outra”, mas faz muito tempo essa história, e as palavras não precisavam ser ditas. Logo o bebê que veio de longe virou um menino esperto, e como se agradecesse a acolhida tão amorosa da mãe que não era sua mãe, desmanchava-se em carinhos por ela. O marido – pai dele – um dia sumiu, e de novo nem se deu ao trabalho de explicar. Dois anos depois voltou, querendo levar o menino. E a mãe que não era a mãe verdadeira se transformou na mais leoa de todas as mães do mundo. Também não gastou palavras. Expulsou o homem, o homem que um dia foi seu marido, a vassouradas.

   Faz muito tempo, essa mãe adoeceu. Nem precisou falar nada para ser cuidada justo por esse menino, aquele da cegonha dos segredos. Ele já não era tão menino, era um homem forte, não tinha nem a pele branquinha nem os olhos clarinhos dos irmãos e da mãe. Mas era o que mais parecia com ela num jeito de dizer as coisas de amor só com o olhar.