JALAPÃO

 

Por Cristina Ramalho Fotos Iara Venanzi

 

É quando se anda pelo Jalapão que se descobre que o Brasil pode ser outro. Uma pitada de Irlanda, nas formações rochosas que parecem desenhar um castelo perfeito no meio do nada. Muito do Arizona nas planícies a perder de vista, quilômetros de paisagens daqueles faroestes de John Ford em que os cowboys procuram o sentido da vida. Um quê de savana africana no cerrado dourado que você percorre, embasbacado, sacolejando horas e horas no jipe aberto sem ver absolutamente ninguém por perto. Não, nenhum brasileiro tem a mínima noção do que pode ser esse pedaço do país até chegar aqui, no meio do Tocantins.

É então que se revela um outro mundo, onde as rochas, as dunas de areia fininha e até o capim parecem feitos de ouro. Quando o sol brilha, a natureza desatina e tinge tudo em tons fluorescentes como se tivesse acabado de cair do céu uma chuva de purpurina. A areia fica cor de laranja-metálico, as pedras, acobreadas e o capim, amarelo-pepita. É de apertar o coração. As águas também cintilam, esmeraldas, transparentes, na diminuta Cachoeira da Formiga ou no potável e lindo rio Novo, ou ainda no Poço do Fervedouro, nascente que borbulha e impede que o banhista afunde. Uma hidromassagem natural, à sombra das bananeiras, enquanto atrás das pedras o almoço quentinho sai da fogueira. Esse é o roteiro organizado pela equipe do acampamento Korubo, inspirado nos safáris de filmes da África e feito sob medida para destemidos comuns.

Claro, há outras maneiras de conhecer o Jalapão (veja box), mas para se hospedar só existe uma pousada, sem muito luxo, e andar ao deus-dará por essas bandas, acredite, pode acabar com a diversão. Carros que não sejam 4X4 não chegam a lugar nenhum. Celular aqui não pega, não há orelhões, nada de placas de sinalização, não tem nem mesmo um bar do Bigode onde se pode parar para perguntar e tomar umas e outras. Melhor dar uma caprichada no seu roteiro assegurado por uma bela produção nos bastidores. O Korubo funciona em um pacote de sete dias, para um grupo de no máximo 18 pessoas. Você desce do avião em Palmas e os guias vão lhe buscar com um caminhão adaptado, com ar-condicionado e frigobar, pronto para enfrentar as sete, oito horas de viagem pelas estradas de terra de um silêncio de templo.

No acampamento, tendas espaçosas para duas pessoas (com cama de campanha, lençóis, edredon, criado-mudo e, fundamental, gente que arruma tudo) e os mimos básicos necessários. O chuveiro é quente. Os banheiros são sanitários químicos, com cheiro de detergente, iluminação (a bateria) e a suavidade extra de lencinhos umedecidos. O melhor, porém, é mesmo a comida. No café da manhã tem sucos fresquinhos, bolo de mandioca com coco e pão de queijo estalando. Na hora do almoço, saladas coloridas, carne servida na abóbora e banana flambada de sobremesa. Difícil eleger se é melhor que o frango recheado e a pêra com chocolate do jantar.

Aqueles mais durões talvez achem que um lugar inóspito e de lindeza rústica feito o Jalapão não combina com essas perfumarias todas. Bobagem. O camping dá apenas um certo aparato confortável, mas alguns desconfortos se mantêm ecologicamente intactos. Mutucas, por exemplo. Trate de se besuntar com o melhor repelente, várias vezes, porque elas não descansam jamais. Outros bichos vêm e vão, como antas, cobras e… onças. Dá para ver umas pegadas bem ali onde a onça bebe água. A equipe assegura que elas não se aproximam. Será?

Os guias, nativos, dão o charme adicional à coisa porque não têm a incontinência verbal de guias profissionais e se misturam, com sua graça naïf, à natureza. À noite, depois do jantar, eles podem se sentar diante da fogueira e lhe contar histórias, verdadeiras ou não, mas só se você pedir. A ordem no camping, dada pelo dono, o Luciano, é deixar cada turista na sua. Durante o dia eles já nos ocupam o suficiente, na escalada do Morro do Fumo (900 metrosde altura de onde se descortina o horizonte que parece não ter fim), na descida em bóias pelas águas espertas do rio, nas caminhadas pelas dunas, no passeio à Cachoeira da Velha (tão volumosa que é chamada de Pequena Iguaçu). Ou nos longos caminhos de olho no céu azul de soneto e nas delicadas flores ao redor, as jalapas, que batizam esse deserto que já foi mar.

Dizem que o deserto muda a vida de quem o conhece. Se, por acaso, você estiver em dúvida sobre o efeito que pode ter na sua vida, apenas pense que as inquietações, de repente, desaparecem nessa imensidão. É aquele momento em que se fica mais distraído. É não ter nada em volta e mesmo assim não sentir falta de coisa alguma. É a liberdade absoluta.

BOX CAPIM DOURADO

Tesouro nacional

 

As moças de Mumbuca tecem o capim dourado em bolsas, cestos, sousplats que cintilam como moedas

Povoado poeirento que parece cidadezinha do Velho-Oeste, Mumbuca nem existe no mapa. Menos de trezentos habitantes, casas de barro cobertas com palha de buriti, calmaria de poema de Drummond e gente de vocabulário curioso como num conto de Guimarães Rosa. Os mumbucas vieram para cá à procura das águas, fugindo dos quilombos secos da Bahia e do Piauí. Chegaram no início do século 20 e no final dele descobriram uma vocação: seu artesanato singelo, feito com capim dourado, é mais do que lindo. Mudou a vida de cada um que vive aqui.

As valentes moças do povoado aprenderam a tecer o capim, dourado por natureza, com as avós e as avós das avós, que aprenderam com um índio xerente que tinha sobrado na área. Há poucos anos, com o apoio do Sebrae e umas aulas de design de Renato Imbroisi, entenderam que as peças, de acabamento primoroso (não têm um fio fora do lugar), podiam render dinheiro e melhorias no lugar. Montaram uma cooperativa, coordenada pela matriarca D. Miúda, e vivem disso. Uma bolsinha custa R$ 30. No aeroporto de Palmas, você vai pagar R$ 90 por ela. Nas boutiques de São Paulo, onde o capim-dourado é coqueluche, R$ 200. Compre aqui. Além de ajudar os locais, vai ter uma aula de Brasil.

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6 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Betth Oliveira
    abr 02, 2012 @ 13:27:42

    Esse e muito bonito! parabéns!

    Responder

  2. Betth Oliveira
    abr 02, 2012 @ 13:29:20

    Esse trabalho e muito bonito! parabéns!

    Responder

  3. Cláudia Vicenzo
    set 12, 2016 @ 14:11:44

    Olá! Cristina adorei esta postagem. Como amo loucamente artesanato eu gostaria de saber como consigo comprar alguns artesanato de capim dourado. Você poderia por gentileza me passar o contato da cooperativa dos artesões do Jalapão. Agradeço a atenção.

    Responder

    • crisramalho
      set 13, 2016 @ 00:36:10

      Olá Claudia, obrigada. Essa matéria é muito antiga, não tenho mais os contatos, infelizmente. Uma ideia, acho, é você entrar em contato com o Sebrae do Tocantins. bj e boa sorte

      Responder

  4. Pascal Charnal
    out 10, 2017 @ 11:03:48

    Hello, i’m Pascal from France. I’m loonking for panama made with capim dourado. Do you know how i could get it?

    Thanks a lot

    Pascal

    Responder

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