O tango, o vinho e uma carreira amorosa

Uma taça de vinho, o sujeito enlaça a moça e começa a deslizar – o tango é uma aula de relacionamento

Por Cristina Ramalho

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A mão do sujeito se estendeu à minha frente. Ele estava me chamando para dançar. Engulo a taça de vinho e me aprumo. Ele, um braço esticado, o outro dando a volta na minha cintura, a perna já em movimento. Cintilei. Olha só, eu na pista de uma legítima milonga em Buenos Aires. Nos braços de um legítimo portenho.

— Não sei bem os passos, você me ensina?

— No sabes bailar el tango?

— Sou brasileira, mas adoro dançar, aprendo rápido. Me ensina uns passos básicos que eu pego – falei toda sorridente, aquele clichê tropical de achar que uma boa lábia é capaz de quebrar o gelo.

— No. Así no se puede.

E o portenho, na faixa dos 30 anos, bonito mesmo com o cabelão juba penteado para trás, foi me levando de volta para a minha cadeira. Estávamos no meio do salão, todo mundo olhando, e aquele homem de camisa aberta no peito ia me devolver para a cadeira. Que que é isso? De jeito nenhum, Gardelón.

Pedi primeiro na base da clemência, enquanto ele ia saindo da pista comigo, a mão que estava na minha cintura tinha subido para o meio das costas, sutilmente me empurrando: — Não vai nem tentar me ensinar? Só para eu ver como é. Ah, vai. Por favor.

— No se puede ensinar así.

Apelei para a força. Agarrei no braço dele e disse, entredentes: “Não vou ser mercadoria devolvida”.

— No. Tango es un tema serio. Por favor – e apontou a cadeira.

— Tem nada a ver isso aí. Eu pago. Te pago 20 pesos, mas não volto para a cadeira. Essa humilhação, não. O tempo passando e nós naquela situação ridícula. Ele continuava me empurrando, eu empurrava de volta. Quase enterrei as unhas no braço dele.— Eu não volto!

E ele dançou comigo. Na sua testa estava escrito “mujer loca”, mas uma música, ao menos, ele dançou.

Cinco anos depois

Lá estou eu na terra de Gardel de novo, apartamento arejado, na Recoleta. Bem perto tem uma escola famosa de tango. Corri para a aula. Vexame igual da outra vez não vou passar.

“La coreografia es como una lucha silenciosa”, ensina a professora argentina, cinturinha de 58 centímetros, bailando pelo piso de madeira como se rodopiar em oito mentalizando “dos por quatro, dos por quatro” fosse a coisa mais natural do mundo. Não é. Observo mais uma vez o passo a passo. Não vou aprender nunca. Foi então que me iluminei: finalmente entendi porque demorei tantos anos para acertar o ritmo com um homem. Sim, é metáfora: me refiro a aprender a lidar com o sexo masculino.

Tivesse sabido essa coreografia antes, eu teria conduzido minha carreira amorosa com muito mais esperteza – e quem sabe enriquecido depois de escrever tudo num livro de autoajuda. No tango a mulher não segue o homem (embora ela finja), nem se deixa levar pendurada nele. Não tem essa de somos um só. Ele puxa, ela segura de volta. A graça toda está na resistência. Nem forte, nem fraca. Firme. É pura física: do jeito que vai, volta. O tango é uma aula de relacionamento.

Hay que tener autoestima, claro. Para entrar em cena com aquela cara seríssima, o corpo ereto, é preciso acreditar. E convencer. Já eu, que sempre achei legal ser levinha e capaz de seguir qualquer par no samba carioca, no forró de Jericoacoara, até no bolero da festa de casamento, sempre rindo, de boa, deixando a personalidade de lado para o sujeito agarrado em mim me levar adiante, bem, eu não podia esperar muito sucesso. Tá explicado.

Mas vamos a uma aula prática. Estamos no La Viruta, calle Armenia, 1366. Pista lotada, loiras em vários tons da química riscam o chão com sapatos de salto altíssimo, abraçadas a senhores altivos. Alguns usam perucas. Obedecem a um curioso código de trânsito, onde abre-se caminho para o casal que rodopia melhor, e ninguém leva esbarrão. É um acordo tácito, como se o jeito de avançar na vida fosse esse mesmo, alternando a vez de quem domina a cena.

Hora de entrar na roda e cavar nosso espaço no ecossistema. Engulo outra taça de vinho. Dois professores – a cinturinha de vespa e um homem de terno e bigodes – dão os comandos iniciais. Mulheres de um lado, homens de outro. Iguais na insegurança da primeira vez. A orquestra vai no clássico, La Cumparsita. “Los pares, formem los pares”. Somos nós. Os homens vêm em nossa direção, mulheres enfileiradas, e cada um vai pegando quem aparece. Mentalizo para vir o melhor (“O vesgo não, vai me dar nervoso”. “O loiro anão não dá, não tô pagando para passar vergonha”).

O que me escolhe é bem apessoado, dei sorte. Só que dá a mão mole. Paciência. Resistência. Tudo que vai, volta. Amoleço um pouco a mão. Professores batem palmas. “Cambien los pares”. Meu próximo é um tipo grande, confiante, me segura, é com esse que eu vou. “Cambien!”. Vem um alto, um baixo, o loiro anão, um rápido, outro incerto, vamos cambiando, rodopiando, eu tentando me adaptar a cada um, sem perder a postura.

Até que chega o par perfeito. Faço o ocho, dos, quatro, esqueço a conta, paro de olhar para o chão para não pisar no pé do homem, estamos sincronizadíssimos. Se eu já não fosse casada, acharia que ele é minha alma gêmea.

Dia seguinte, o marido que não dança nem por decreto quer saber como foi. Conto tudo, quase eufórica. Ah, por que você não dança? Ia ser tão bom. Aí ele diz a frase no tom: “Fico feliz que você dançou, adoro te ver tão feliz”. Tudo que vai, volta. Estamos no mesmo passo. Como deve ser a vida.

À mesa com Arnaldo Antunes

Arnaldo Antunes – Valor Econômico

Por Cristina Ramalho                                        Foto divulgação/ site Arnaldo Antunes

 

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Paulo Mendes Campos já escreveu em crônica que ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba. E, quando a gente vai ver, não é que ele parece mesmo um pincel de barba?

É com esse frescor que Arnaldo Antunes parece enxergar o mundo. Das situações mais comuns, do varejo da vida, ele aponta o inesperado. Faz a gente ver o que não via. Tudo pode ser um pincel de barba. As letras das suas canções tão elaboradas e talvez por isso mesmo tão simples, com olhar de criança (“Saiba: todo mundo foi neném/ Einstein, Freud e Platão também…quem tem grana e quem não tem / Saiba: todo mundo teve medo/ mesmo que seja segredo”, em Saiba). As que subvertem a ordem das coisas (“Cinema assiste, cena vê, cor enxerga” em Imagem). E, claro, as frases de criança mesmo, como as do seu caçula, o Tomé, anotadas pelo Arnaldo pai quando o filho tinha 3 anos (“Só mais um outro último, tá? Eu quero muitos últimos”) e compiladas no livro As frases de Tomé ao 3 anos.

 Arnaldo tem aquela rara capacidade de olhar as coisas como se fosse pela primeira vez. Nas horas de folga das turnês, enquanto os músicos cochilavam no hotel, ou em São Paulo, fazendo algo que adora – caminhar pela rua –, ele pegava a câmera e saía por aí fotografando placas de rua, cartazes, dizeres curiosos. Voltava para casa com um arsenal de “mega”, “here”, “horário” “selfservice”, em inglês, português, anúncios espalhados por São Paulo e pelas cidades que já conheceu. Foi juntando tudo por mais de 20 anos, depois trabalhou um bocado no computador, digitalizando imagens, usando animação em stopmotion, e criou mosaicos em caixas com dizeres, formando jogos gráficos, explorando a semântica. O resultado (e mais telas, cartazes com palavras em redemoinhos, ou sobrepostas, formando desenhos e multiplicando significados) pode ser visto na exposição Palavra em Movimento, em cartaz no Centro Cultural Correios, em São Paulo, até o final de agosto.

Caminhar, para ele, é o melhor modo de ajeitar as ideias. Quando não tira foto, sai com um bloquinho e caneta, ou um gravador pequeno (“Hoje em dia tem o celular, né, que facilitou isso”, diz) e vai acumulando anotações esparsas, flashes que podem render um poema ou uma letra e é bom não esquecer. Guarda no bolso, chega em casa e bota na gaveta, dali a pouco revê, ajeita, afina, vai dando forma. Reescreve, reescreve, corta, enxuga, corta só mais um pouquinho, até chegar no mistério da simplicidade. Há poucos meses deu uma olhada nos últimos textos, viu que tinha uns fios condutores ali, temas como morte, tempo, relógio, achou que daria mais um livro (já publicou mais de 20 e ganhou dois Jabutis, em 1993 pelo livro As Coisas – desenhado por sua filha Rosa aos 3 anos —, e em 2004 pelo livro Et Eu Tu). Acabou de lançar Agora aqui ninguém precisa de si, pela Companhia das Letras.

“Sou obsessivo com o processo, faço muitos rascunhos, é disso que sai o resultado. Mas criação, para mim, é sempre algo prazeroso, mesmo se falar de dor. O prazer de criar é tanto que até redime a dor”, diz um Arnaldo sorridente logo no começo dessa conversa com o Valor, um almoço sem pressa, domingo de sol bom.

Foi caminhando que ele veio nos encontrar, a rua cheia de gente colorida, famílias com crianças, ele sozinho no passo firme, vestido com jeans, camisa, um paletó que lhe dá um ar de homem sério. Mas, com aquele corte de cabelo Joãozinho e a cara curiosa, se estivesse de calças curtas ficaria igual a menino de foto de Cartier-Bresson.

Arnaldo escolheu um dos restaurantes que mais gosta – o Nou, em Pinheiros – porque, diz, é legal, comida boa, fica bem perto da sua casa e tem um dos melhores sucos de tomate da cidade (“Eu e o Braz, meu filho, temos mania de fazer ranking de suco de tomate, saímos pela cidade atrás dos melhores “). É um lugar agradável, jardinzinho no fundo, onde sentamos na mesa lá no canto. Ele pede, claro, o suco de tomate, água com gás para ele, sem gás para a repórter.

Além da exposição e do livro, Arnaldo prepara novo disco pelo seu selo, Rosa Celeste, agora em fase de mixagem e com lançamento previsto para setembro, primeiro show já marcado em Brasília. A produção é assinada por Kassin, terá convidados (como de hábito nos seus discos) e boa parte das canções inéditas foi composta numa viagem recente. Tirou o semestre passado para um período sabático, foi a Nova York, Itália e Índia. Inaugurou-se um mundo. “Na Índia é tudo tão intenso, as cores, os cheiros, a espiritualidade”. É ligado nas coisas do espírito? “Olha, não acredito nem desacredito, mas acho legal. Às vezes vou a uma mãe de santo, ela já jogou búzios para mim”.

A Índia foi muito inspiradora. “Escrevi umas seis canções do disco. Nas férias é quando mais componho”. Música é seu ganha-pão, como ele respondeu um dia, entrevistado por crianças, para uma menina que queria saber como ele tinha tantos empregos.

O brinquedo essencial desse homem de 53 anos, torcedor do Santos, é a palavra. É como uma bola. Arnaldo toca a palavra com intimidade, vira pra cá, manda pra lá, passa para mais alguém que está no jogo. Chuta a sintaxe para o alto e faz seus poemas gráficos, a limpidez de pensamento, a arquitetura precisa, e umas curvas não previstas pela geometria. Às vezes chama os amigos, aquela alegria de montar um time, músicas brotam quase tão espontâneas quanto as risadas, e subir no palco para um show é uma sensação indescritível. Como entrar em campo e levantar a torcida.

“Adoro fazer show, acho que só faço disco para poder fazer show, me dá uma energia aquela troca com o público”, ele se empolga. “Sempre é divertido, na época dos Titãs a gente também ria muito, teve fases que convivi mais com eles do que com a minha família”.

Família. Quarto filho de uma prole de sete, Arnaldo se acostumou desde cedo a viver em grupo. “Adoro casa cheia. Minha casa sempre foi assim, meus irmãos, os amigos deles, eu dormia no quarto com meu irmão, adorava aquela bagunça. Minha casa hoje é assim também. Meus quatro filhos (Rosa, 26; Celeste, 21; Braz, 18, e Tomé, 13, todos do casamento com Zaba Moureau), o filho da minha mulher (Marcia Xavier – os dois são casados, mas vivem em casas separadas), quando nos juntamos é uma delícia”. Acha muito bom ser pai. “Cada filho é de um jeito, tem um que você tem de empurrar um pouco, outro deixar mais solto. Aprendo até mais com eles do que eles comigo”.

Vamos a um flashback da sua infância e adolescência, na hora do almoço todo mundo passando o pãozinho no molho da travessa, e um repertório musical para tudo que é gosto. A mãe de Arnaldo curtia Caymmi. Um dos irmãos aumentava o volume para escutar Yes, Emerson, Lake & Palmer, o fino do rock progressivo. Beatles, sambas, Jovem Guarda, Lamartine Babo, os irmãos trocavam discos, havia um piano na sala, cabiam todos os sons. Na hora do passeio, a trilha do carro tinha de ser música erudita, o pai só ouvia a rádio Cultura. Arnaldo via aquilo e tirava as muitas lições possíveis. Aprendeu violão. Lembra-se de assistir fascinado, pela TV, os grandes festivais de música. “Mutantes, Macalé, Maria Alcina, Gil”. Entrou em Letras, na USP, mudou-se para o Rio, fez um ano de PUC, voltou para São Paulo, foi fazer parte da Banda Performática do artista plástico Aguilar, acabou largando a faculdade. Reencontrou amigos do Colégio Equipe, como o Paulo Miklos, e em 1982 fizeram uma banda, os Titãs do Iê-iê. Quando viu, já era pop.

A garçonete interrompe o papo trazendo duas entradas da casa: bolinhos de arroz, bem saborosos, e uma bela porção de bruschettas. “Acho que não é aqui, não pedimos”. “Mandaram para vocês”. Ôpa, claro! Ao ouvir que Luiz, o fotógrafo, costuma pedir o mesmo que o entrevistado, para fazer a foto do prato, Arnaldo, gentil, já vai perguntando antes de escolher algo do cardápio: “Hummm… Você tem alguma restrição alimentar?”. Risos. Ele pede uma truta ao molho de alcaparras, amêndoas e passas. Robalo ao molho de açafrão com saladinha e risoto de grãos para a repórter.

“Nunca entendi gente que fala ‘só gosto de samba’, ou que só gosta de rock”, ele comenta, enquanto saboreia uma bruscheta de cogumelos. Há pouco tempo, quando participou de dois episódios do ótimo documentário André Midani—Do Vinil ao Download, sobre a vida e a obra do grande produtor André Midani, Arnaldo se emocionou demais por estar na roda de violão com Gilberto Gil e Jorge Benjor, lembrando e cantando ao vivo, ali, as faixas do disco Gil e Jorge (1975), um dos seus favoritos de todos os tempos. “Quase furei esse disco de tanto ouvir, e sempre que ouço de novo fico contente”. Em cena, Arnaldo aparece derretido, cara de fã, ouvindo e às vezes cantando junto, Marisa Monte acompanhando, a faixa Filhos de Gandhi. Dali a pouco emendam, felizes, com O Homem da Gravata Florida, de Jorge Benjor, depois Xica da Silva.

“O Jorge é o cara que introduziu a poesia modernista na música popular brasileira. É o verso livre, ele faz caber tudo, qualquer palavra cabe na música dele”, fala Arnaldo no documentário. Tiveram direção durante a gravação ou aquilo foi mesmo um papo espontâneo? “O Andrucha (Waddington) era o diretor, mas nos deixou soltos, lembrando histórias, o papo foi fluindo, gente interessada e interessante, aquele clima que você vê na tela”.

O primeiro disco que ele comprou, adolescente que juntava dinheiro por um mês e corria até a loja Hi-fi, no Shopping Iguatemi, foi Transa, de Caetano Veloso. Depois Chuck Berry, Rolling Stones… Voltava para casa andando devagar, abraçado aos LPs, a música dizendo as coisas que ele não sabia dizer. “Toda canção popular é um eu coletivo, a gente pega para a gente aquele sentimento, principalmente na adolescência”.

“Sou de uma geração aberta, que cresceu embalada pelo Tropicalismo”. Quando morava em frente à PUC, assistia de graça os shows no Tuca, e foi lá que viu, de queixo caído, Rosa dos Ventos, de Maria Bethânia. Saía nas ruas nas passeatas políticas, todos de mãos dadas (“Era muito emocionante, a gente tomava umas bombas de gás lacrimogêneo, o povo das janelas jogava papel picado”), mas nunca se engajou em grupo nenhum. Não era a dele.

Chegam os pratos. São bonitos, coloridos. Arnaldo vai cortar o peixe, para um pouco, começa a falar sobre a política atual .“A gente vive uma época de muita intolerância (no seu novo livro há um verso que chama a atenção pela imagem da indiferença e da diferença social: “Do hall do seu palácio humilha o moço/ e gargantilha o sol no seu pescoço”). Eu cresci durante a Guerra Fria e, quando teve a queda do muro de Berlim, achei que ia ser algo libertário”, diz ele. “E não foi. Hoje ainda vemos esse reacionarismo assustador, seja do estado islâmico, da volta da Ku Klux Klan, seja aqui no Brasil, com a bancada evangélica se juntando com a bancada da bala, e o Collor também”. Votou na Marina, no segundo turno não votou em ninguém.

“Achei as campanhas da Dilma e do Aécio muito truculentas, tudo horrível, preferi anular o meu voto. Agora, a Dilma foi eleita, vamos deixar a mulher governar. Respeito todas as opiniões, todas as religiões, mas fico muito chocado com essa maneira velha de se fazer política. Ninguém tá pensando no bem comum, no que é bom para a nação, e é para isso que os políticos são eleitos. Mas todos só pensam no poder, partidos fazem alianças sem o mínimo de coerência com a sua postura”.

Dá outra garfada no peixe. Esse artista que domina a palavra acredita que o mais importante é mudar a linguagem política. “Vejo pouca gente com um discurso renovador, só alguns oásis, não só de honestidade, mas na forma de pensar, na linguagem, como o Marcelo Freixo e a Marina”, fala Arnaldo.

Como se sabe, ele é versado em mudanças. Depois de dez anos de Titãs, por que não uma carreira solo? Em 1993 fez Nome, disco e show tão diferentes do rock dançante de Sonífera Ilha e tantos hits. Nem todo mundo entendeu aquele moço fazendo onomatopeias com as palavras, virando tudo de ponta cabeça, de mãos dadas com a matemática do concretismo. Moderno demais. “Foi quase um começar do zero, plateias pequenas, tudo diferente, um aprendizado. Mas eu não queria ser hermético. Sempre quis ser pop”.

Bom, suas composições acabaram ganhando o coração de muitos cantores brasileiros e internacionais, da italiana Ornella Vanoni à baiana Daniela Mercury, e foi de discos infantis à música para edição do Bhagavad Gita, trilhas para filmes, para o grupo Corpo, para o programa Um Pé de Quê da Regina Casé, para o Castelo Rá-Tim-Bum. Em 2002, 2003, ele conheceu o sucesso estrondoso com o projeto Tribalistas (com Carlinhos Brown e Marisa Monte). Naquela época, difícil quem não soubesse as letras do disco. Crianças de dois aninhos tiravam a chupeta para cantar Já sei namorar. E ele foi parar em Portugal, na Áustria, na China, no Mali. “O Edgar Scandurra e eu fomos tocar com o Toumani Diabaté, em Bamako, foi uma experiência sensacional, emocionante, duas músicas tão diferentes, duas culturas tão diferentes”.

A cada disco ele chama artistas novos, que depois vão voar também: Marcelo Jeneci, o baterista Curumim, o Ortinho, tanta gente. Arnaldo vai esculpindo, refinando, o poder de síntese embalando o trabalho de artesão paciente. Como se fosse um Niemeyer que deita poesia com traços levíssimos, dois rabiscos mostram uma cidade inteira.

Esse enorme à vontade com todos os sons, todas as letras, ganhou do músico David Byrne um belo texto, prefácio do livro Doblo/ Duplo, de 1999: “Um dicionário não julga quem o consulta… Arnaldo tem um pouco daquela qualidade característica do dicionário. A qualidade de uma criança muito sofisticada, que nos pede para prestar atenção em expressões vocais, imagens, sons, textos às vezes simples e às vezes complexos… e pede que recebamos essas coisas com profunda inocência, porque aquela inocência é muito mais ameaçadora do que qualquer sofisticação. E também dá mais prazer”.

Pedimos a conta. “Legal aqui, né? Você gostou?, ele pergunta sobre o restaurante. Quer dividir a despesa e, quando ouve que é convidado pelo jornal, propõe: “Então quero te levar para tomar um café e comer a sobremesa, um mil folhas numa doceria ótima, aqui nessa rua mesmo. Por minha conta”. Topado. Caminhamos um pouco, atravessamos a rua, a doceria, Confeitaria Dama, está cheia. Ele pede o mil folhas, eu escolho outro doce, ele parte um pedaço do dele e bota no meu prato. “Não é uma delícia?” Segue para o caixa. Volta sorrindo. “A moça do caixa foi uma fofa, não quis cobrar, disse que é minha fã”, fala espantado. Nos despedimos, ele agradece com gentileza (“Adorei conversar”). O sol está bom.

Pouco antes de ir embora, ao explicar porque gosta tanto do raciocínio das crianças, Arnaldo havia citado um verso do Oswald de Andrade: “Aprendi com meu filho de dez anos que a poesia é ver as coisas que eu nunca vi”. Tudo pode ser um pincel de barba.