CAPADÓCIA

DE BALÃO NA CAPADÓCIA

 

 

 

Por Cristina Ramalho

Vista assim do alto, mais parece a Lua no chão. Sei lá, na Capadócia a poesia fez outro céu, se alastrou. Lá embaixo, parece que as nuvens resolveram descer para a terra e ali ficaram, como costumam fazer: branquinhas, nuns formatos gozados, esperando para a gente adivinhar o que sejam. Tem umas chaminés de fadas; outras lembram casinhas dos hobbits do Senhor dos Anéis, ou uns castelos de merengue. Outras, ainda, têm formato de obeliscos, fálicos, desafiadores, espalhados numa área batizada, com sutileza, de Vale do Amor. Na real, nada disso são nuvens: são formações vulcânicas, esculpidas por camadas de lava e anos e anos de erosão. E o céu de verdade, esse está clareando com o sol – são cinco da manhã – quando um enxame de balões vermelhos, amarelos, azuis, bi, tri e quadricolores, sobem, muitos e alegres, tingindo o dia que começa. É assim do alto, dentro da cestinha de um balão, numa manhã de primavera em technicolor, que eu e minha amiga Luciana estamos vendo a Capadócia.

A beleza desse lugar, para se entender, é como no samba de Paulinho da Viola: “tem que se achar/ que a vida não é só isso que se vê”. Agora que o sol brilha, a natureza cintila em tons fluorescentes, como se tivesse acabado de cair uma chuva de purpurina. É então que se revela um outro mundo, onde as rochas, a areia, tudo reluz feito prata, e dá para notar que os pequenos orifícios dessa incrível paisagem lunar escondem misteriosas cavernas. O balão dança no vai-da-valsa do vento, as montanhas pequenas avolumam-se, sobem, descem, engraçadas, as árvores ficam bem pertinho, então subimos de novo. Nosso balão é dos grandes: somos uns 20 homens e mulheres, turistas de quase todas as idades e vários idiomas. Somos iguais na sensação doce do frio na barriga, nos olhares embasbacados com a paisagem que aperta o coração, no estado de espírito. Frágeis numa cestinha no ar, como um daqueles grupos que viajam, poeira ao redor, nas diligências dos filmes de faroeste.

A cestinha virou de lado e lá no fundo, não é que o cenário é mesmo igualzinho ao de algum filme do John Ford? Reconheço aquelas tabletop mountains como as do Monument Valley, no Arizona que eu via na TV, onde os cowboys vagavam, mitologicamente, à procura do sentido da vida. Aliás, foi por essa geografia incomum que a Capadócia sempre convidou à filosofia. Ao longo da história, suas cavernas abrigaram monges e freiras (cada um para o seu lado, nos diz o guia, com um sorrisinho) que ali se enfurnaram para professar a nova fé cristã. Temposem que São Jorge da Capadócia (aquele, do dragão e da música de Jorge Benjor), o apóstolo São Paulo e Santo Basílio, entre outros católicos ilustres, angariavam irmãos. Peregrinos circulavam pelas mesmas trilhas de formas abracadabrantes, e hoje ainda perambulam no pedaço pequenos grupos de ufologia ou de outras crenças mais contemporâneas.

Numa licença póetica, vamos fazer de conta que o balão é um satélite e focar, em zoom, uma dessas cavernas lá embaixo. Minha preferida é a Dark Church, a mais impressionante do Vale Görême, onde viviam os cristãos. Da pequena entrada ao altar, e às laterais organizadas para que os fiéis se sentassem, essa capelinha escavada no morro está coberta de afrescos lindamente desenhados e preservados. Imagens bíblicas tão perfeitas da traição de Judas que quando a Luciana e eu mostrarmos as fotos, qualquer um vai pensar que é de uma igreja européia bacana. A maioria dos santos, porém, tem os olhos arrancados: nessa capela escondida, até que nem tanto, mas nas outras centenas de igrejas das cavernas (são muitas, como a Apple Church, a Serpent Church, em vários outros vales também), quase nenhum santo permaneceu de olhos visíveis. Obra dos romanos e, depois, dos muçulmanos que chegaram mais tarde e ainda aplicaram uns desenhos islâmicos por cima.

Aqui cabe explicação: mais do que a vocação espiritual, a Capadócia servia como ponto de passagem entre o Ocidente e o Oriente. Desde a pré-história, começando com os autóctones, a região foi uma espécie de passarela de inúmeros povos. Vieram os hititas, os lídios, e os romanos bizantinos, o que incluiu até Alexandre, o Grande. Riqueza, mesmo, não havia nenhuma, mas por aqui passavam as rotas do algodão, dos tecidos, dos figos, dos melões – e dominar as estradas significava dominar quem circulasse, negociantes ou religiosos. Às cavernas, então, coube papel fundamental na história.

Foram nelas que os cristãos, feito os gauleses dos quadrinhos de Asterix, resistiram aos romanos, graças à sua astúcia. Construíram cidades subterrâneas de até 90 metrosde profundidade, como a Kaymakli, com seus onze andares abaixo da terra, onde se escondiam milhares de pessoas por vários meses. A cidade na caverna também merece outro zoom, aliás, um salto no tempo nesta narrativa: só fui visitá-la depois do meu passeio de balão, mas isso não vem ao caso. Importante é lhe contar como é lá dentro: a gente entra quase agachado pelos corredores, e quanto mais se desce, mais baixas são as salas e corredores. Só temos permissão para descer até o sexto nível. Tudo foi pensado com a habilidade de um conjunto habitacional. Para não serem descobertos, os cristãos cuidaram de cada detalhe. As pedras da cozinha, por exemplo, absorviam a fumaça, que seguia em zigue-zague até sair, mas lá fora ninguém percebia. Em salas menores, guardavam-se as uvas. Numa outra, eram espremidas por pés de delicadas moças para fazer o vinho. A cozinha tinha buracos nas paredes que conservavam os alimentos, e a vida corria, mais ou menos mansa, bem abaixo das preocupações romanas.

Já lá no alto, de volta ao balão, vou olhando em 360 graus um pouco de cada cena e imaginando quanta história já rolou por essas bandas. Alguns dos lugares que enxergamos daqui de cima têm sete mil anos. Jarry, nosso piloto, aponta as atrações e explica, no seu inglês britânico, o que está fazendo e onde imagina que vamos parar. Porque bailamos com o vento, não existe exatamente um ponto de chegada – e Mr. Jarry vai se comunicando via walkie-talkie com a equipe de balonistas que irá nos buscar. Balões vizinhos dançam, somem no horizonte, reaparecem detrás de uma montanha, num animado jogo de esconde-esconde. Calmarias nos levam para baixo, e o piloto inglês, bochechas rosas do esforço de inflar o balão, vai gastando os tanques de gás para fazê-lo subir. A temperatura, que estava fria de madrugada, antes da gente embarcar, com o sol voltou ao calorão habitual – uns 35 graus nesta época do ano, começo de junho. No balão, com o fogo, a coisa esquenta que eu vou te contar.

Estamos no meio de duas rochas gigantes, e nada do balão se mexer. Um senhor alemão me diz, meio sem graça: “Estou com um pouco de medo”. Mais tarde um outro piloto, o turco Ercü, me contaria no café do Murat, ponto de encontro dos balonistas na cidade de Urgup, que não há o que temer, nem ventos abusados. E quando algum turista treme, ele faz piadas para descontrair o ambiente. São dez empresas que voam na Capadócia, com pilotos de várias partes do globo, acostumados a passeios do gênero no Quênia ou na Nova Zelândia, e craques em usar de psicologia. No nosso balão nem foi preciso: logo subimos para um pouco mais de deslumbre aéreo.

Tudo é de uma beleza de fazer chorar: os vales Red e Rose, com suas areias meio rosadas, onde todo mundo faz trekking. Lá longe, o Ihlara Valley, com seus cânions impressionantes e, daqui não dá para ver, riozinhos de águas espertas; também não dá para enxergar os 300 degraus de Selime, que George Lucas visitou e quase escolheu como locação da sua trilogia Guerra nas Estrelas. Estamos nos ares há uma hora e meia e já é hora de botar os pés na terra. Aterrissamos numa pedra baixa. Jarry dá as coordenadas, e em minutos, um trator com enorme container se aproxima. A cestinha, com todos nós dentro dela, é colocada no container, e sacudimos uns dez minutos até chegarmos em solo mais adequado. Na parada, pulam do trator uns dez homens uniformizados, eficiência de pit-stop de Fórmula 1, que já se ajeitam para pegar a gente. Sou a primeira, carregada no colo por um turco cheio de energia.

O sol está tinindo, sorrimos sossegados com o fim do vôo, de alma leve, felizes pelos instantes de excitações e descobertas. Jarry abre o champanhe, brindamos ao vôo, a nós, a um novo modo da gente se ver. Fora o nosso grupo, não há ninguém por perto. De repente, quando se está mais distraído, as inquietações desaparecem nessa imensidão. E me bate uma felicidade, que não é de algo especial, é de tudo. Sei lá, não sei: a beleza aqui é tão grande que nem cabe explicação.

BOX:

Como é o vôo de balão

São várias as empresas que voam na Capadócia. Luciana e eu voamos pela Goreme, uma das mais famosas. Se quiser saber mais sobre ela, confira no site www.goremeballoons.com

O procedimento, porém, é mais ou menos padrão: você pode reservar o vôo direto com as companhias, mas o mais comum é agendar pela agência que fez seu pacote para a Capadócia ou pelo hotel onde você está hospedado. No dia do vôo, uma van da companhia vai lhe buscar no seu hotel (às 4h30 da manhã, prepare-se) e lhe trará de volta no final. O embarque acontece quase simultâneo em todas, mas em geral cada uma sai de um ponto diferente para não dar bagunça. No nosso ponto saíram dois balões ao mesmo tempo, ambos da Goreme. Antes, vemos os preparativos, tomamos café e comemos bolo enquanto conversamos com os outros turistas. O preço médio varia, mas fica em torno de150 a200 euros por pessoa. Vale a pena. No final, brinde com champanhe (ritual de todos os balonistas do mundo, porque a tradição começou na França, me disseram) e um diploma com seu nome, certificando que você voou, sim.

* Para chegar à Capadócia, o ideal é comprar um pacote (nós compramos o nosso em Istambul, na véspera) que inclui vôo até Kayseri, transfer, hotel, almoço e guia para os passeios mais importantes. Normalmente não viajo de pacotes, mas lá é bacana, porque tudo é longe, é preciso transporte, saber rodar nas estradas poeirentas e pouco sinalizadas, e é bom ter um guia que explique as cavernas, as histórias etc. Todos os turcos, dos guias aos vendedores, balonistas, garçons, etc são extremamente gentis – comentário de todos os turistas que passam por aqui.

Além do balão, na Capadócia existem várias opções de passeios e/ou esportes radicais: cavalgada, tours de bicicleta (puxados), hiking, trekking, tours geológicos para ver os vulcões (inativos). Para se hospedar, prefira ficar nas duas cidadezinhas principais: Goreme (mais charmosa e preferida dos mochileiros também) e Urgup (com mais estrutura hoteleira e de serviços). Dá para ir a pé de uma para outra.

  • Tanto uma quanto a outra tem bares, restaurantes, nada muito chique, mas tudo simpático, com comida boa e ótimo atendimento. Se quiser conhecer os balonistas e papear com um turco gente fina, experimente o Café Fuzzy, que pertence ao Murat, em Urgup, bem no centrinho. Todo mundo conhece.

4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Trackback: Enfim, poesias e viagem de balão! | Fast Fashion Blogs
  2. Bárbara Romeiro
    out 19, 2012 @ 23:37:41

    Incrível! Suas palavras me colocaram dentro desse balão! É emocionante… obrigada por compartilhar esses sentimentos com desconhecidos! Porque assim, somos mesmo, todos iguais, dentro desse enorme balão!

    Responder

  3. leopoldo
    abr 24, 2013 @ 01:25:48

    Cris vc é fera!

    Responder

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