NINA PANDOLFO

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As cores da delicadeza – revista Florense

Por Cristina Ramalho

Nelson Rodrigues escreveu um dia que o diretor de teatro Zé Celso Martinez Corrêa, sempre querendo ser maldito, botou o elenco pelado no palco, xingou a burguesada toda e, para sua surpresa, a plateia achou uma graça. Ele foi aplaudido de pé. Nelson deitou veneno na sua coluna no jornal: “Zé Celso foi visto tentando pular do Viaduto do Chá, gritando ‘eu fracassei, eu fracassei’ “.

Lembrei dessa história quando a artista Nina Pandolfo me contou que pintou em Munique, em 2005, um grafite sombrio, agressivo, denunciando os abusos na guerra do Iraque, e mal botou o pincel no chão a primeira coisa que ouviu foi: “Oh, so cute!”(Que fofo!). Nina amuou. Ninguém entendeu. Fracassou, fracassou. Bom, a semelhança com a piada sobre o Zé Celso acaba aqui. Nina de fato deu seu recado na pintura. Os que acharam uma fofura é porque simplesmente não prestaram atenção.

Sim, aquelas na parede alemã eram suas meninas de olhos grandes, lindas, ar de doçura, um quê de sonho. Mas bastava chegar mais perto só para ver: uma tinha o braço amputado. A outra, um roxo no lugar do olho. O menino, sem perna, se equilibrava na muleta. Estavam cercados por arame farpado. Lá no fundo, tanques de guerra em chamas. Colados no chão, soldadinhos de chumbo. E, o que é mais uma marca das artes de Nina, dentro dos olhos era possível enxergar outras cenas: máscaras de Mickeys como máscaras de terroristas armados. “Eu estava mesmo com muita raiva das guerras, dos abusos de poder, da incompreensão”, fala Nina nessa conversa em seu ateliê. Sossegou quando um amigo lhe disse que era claro que o grafite estava muito bom, forte, e os rostinhos de boneca acentuavam o tom chocante da coisa.

Talvez os espectadores tenham enxergado apenas a beleza porque as pinturas de Nina despertam o nosso lado mais suave. A cara da autora, no sentido literal: aqueles olhos imensos das suas personagens não são, como muita gente pensa, inspirados nos mangás japoneses. São os olhões da própria Nina. Os gatos que sempre aparecem nas telas e grafites são seus gatos Rakim (que se aboleta nos ombros da dona como se fosse uma estola de pele e fica ali por horas, enquanto ela pinta e depois se dá conta das dores nas costas) e Monalisa, a tímida. Em breve, a nova cachorra Mia, uma jack russell branca e marrom que corre animada pelo ateliê, vai brilhar em quadro.

E os jardins, as flores, as joaninhas, os longos cabelos, detalhes cheios de cor que se esparramam pelas obras e fazem a gente abrir um sorriso são também os traços da sua personalidade. A pronta sensibilidade para as coisas do afeto.

É o jeito de ver a vida de Carina Arsenio, 37 anos, voz de menina, tipo mignon, que assina Nina (Pandolfo é o sobrenome do ex-marido Otávio, um dos geniais grafiteiros de Os Gêmeos), e pinta todos os dias, como quem cozinha diariamente no capricho para as pessoas que ama. “Se eu estou mal, ou triste, eu não pinto de jeito nenhum. Quando a minha avó morreu, eu nem conseguia pegar no pincel, e tinha três dias para finalizar as telas para uma exposição. Aí foquei no lado bom: ela estava com 102 anos, não sofreu, foi parando, morreu de velhice. Só assim pintei”. Nina não teoriza.

Ela é sorridente, gentil, parece tão espontânea. Fala da avó, das telas, dos bichos, das irmãs do mesmo jeito – e com a mesma importância – que conta sobre suas exposições em galerias na Inglaterra, Alemanha, Suécia, França, Grécia, Índia, Estados Unidos, os elogios de curadores e críticos internacionais, os dias em que pintou com Os Gêmeos e mais o grafiteiro Nunca um castelo na Escócia, o jantar em que o cineasta Win Wenders comentou sobre os grafites dela em Wuppertal. Ou que vai de ônibus para a rua 25 de março, no centro, comprar o material de trabalho (“ Pra quê ir de carro e pagar estacionamento?”) e volta de táxi. “Ah, venho carregada de sacolas”.

Caçula de cinco irmãs, Nina nasceu em Tupã, interior de São Paulo, e aos cinco meses veio com a família para a capital, bairro Vila Gustavo, zona norte da cidade. Cresceu numa casa com um jardim que ela achava enorme (“E não era tão grande, né, o jardim da mãe?”, ela pergunta agora para a irmã, Sibeli, dez anos mais velha, sua assessora/ secretária/ faz-tudo), brincava escondida com as bonecas, entre as duas árvores de hibisco. Jogava vôlei na rua com as amigas até a hora da mãe chamar para o jantar. Olhava as válvulas na parte de trás dos televisores que o pai, técnico em eletrônica, consertava na oficina, e enxergava prédios, imaginava cidades inteiras, o pensamento lá no fundo. Quando a irmã mais velha se casou, Nina sonhou ser estilista de vestido de noivas.

Só pensava em desenhar. Teria futuro? A mãe, sábia, lhe disse para seguir o que gostasse que daria certo. “Eu me inscrevi na oficina cultural da Água Fria (bairro de São Paulo) e fazia todos os cursos que apareciam”. Alguém chegou lá para ensinar grafite. “Era a época em que se fazia grafite com estêncil, como os do Vallauri (Alex, precursor dos grafites em São Paulo, espalhava botas e a personagem Rainha do Frango Assado pelas paredes e postes da cidade). Eu fui ampliando os desenhos nos quadradinhos, mas achei que era muito melhor fazer direto na parede. Saí da aula”. Aos 15 anos, matriculou-se para estudar arte no Colégio Técnico Carlos de Campos, no Brás, e conheceu uns meninos que vinham do universo hip-hop e pintavam com spray. Eram Os Gêmeos. Era irresistível. Um deles, o Otávio, deu a ela o primeiro livro sobre grafite, foi chegando mais perto e não demorou a virar marido.

Inaugurou-se um mundo. Nina vestia – como faz até hoje quando sai para grafitar – um macacão “que não marca o corpo”, levava um sanduíche na mochila e esquecia da vida. Única garota entre os marmanjos (Os Gêmeos, Speto, Nunca, Onesto, os grandes nomes do grafite brasileiro), carregava latas, escadas, misturava-se bem com eles, e descobriu que o seu mundo interior, tão rico, fazia todo o sentido no mundo lá fora, na rua, para quem quisesse ver. Suas meninas sensuais, melancólicas, delicadas, se espalharam em paredes da rua 23 de Maio, do Cambuci, do centro, da Vila Mariana. As pessoas adoravam. Os convites não demoraram a aparecer, e no começo dos anos 2000 Nina e Os Gêmeos partiram para colorir o planeta.

Em Cuba, Nina pintava uma parede junto com um muralista local, ele nos pincéis, ela no spray. Emocionou-se com uma mulher que chegou de mãos dadas com a filha, as duas maravilhadas. “Não era só pelo desenho. Elas nunca tinham visto uma lata spray de nada, nem de desodorante, e de repente uma coisa tão banal para a gente era mágico para elas. Isso me tocou demais”. Os cubanos pediam: pinta a minha casa. E a minha. A minha é a da esquina! “Pintei até à noite, as casas da rua inteira, fiquei exausta, e feliz. No Brasil não costumo fazer isso, porque muita gente que pode pagar pelo trabalho de um artista pede a pintura de graça, meio na malandragem, não gosto”. Mas numa favela em São Paulo foi pintando de bom grado, pelo prazer de alegrar o cenário. Uma moradora de um dos barracos achou que ela devia estar cansada, o dia inteiro em pé, tão magrinha, e a convidou para almoçar. Dividiram o único bife.

Num dia de 2007 Nina recebeu o convite de um jovem lorde escocês para pintar o castelo Kelburn, da sua família. Era um projeto cultural bancado por empresas amigas do nobre, e a pintura ficaria exposta por três anos, um acordo feito com o pessoal do patrimônio histórico. O escocês avisou que havia convidado mais dois grafiteiros: a dupla Os Gêmeos e um outro, chamado Nunca. “Achei que os trabalhos de vocês parecem combinar. Você se importaria de dividir o espaço?” Nina ri. “Ele não sabia que eu era casada com o Otávio e que o Nunca é um dos nossos melhores amigos, foi coincidência!”

O trabalho era um conto de fadas. Eles usavam uma espécie de andaime elétrico para alcançar as torres, e lá do alto viram que mais abaixo no terreno havia um laguinho lindo, e o laguinho virou desenho. “Fomos incorporando a paisagem na pintura, mudando o projeto a cada coisa que a gente via, e tudo foi dando certo”. Até que o lorde confessou que seu pai, o conde de Glasgow, odiava grafite e eles tinham de terminar tudo antes dele voltar de viagem. Tarde demais. O conde chegou. Nina e os rapazes mal engoliram o glup!, quando o conde, fascinado, sacou a câmera e saiu registrando cada traço. “Que maravilha! Isso é arte pura!”. Gostou tanto que entrou com o pedido de tombamento da pintura na secretaria local.

Na Alemanha, em Wuppertal, Nina trabalhou em 2006 para um projeto da Red Bull que levou artistas do mundo inteiro para intervenções na cidade, de surpresa, sem autorização. Acompanhada de um morador local, que serviria de intérprete caso a polícia chegasse, ela passeava para escolher onde grafitar. Pulou uma cerca, viu um túnel escuro, úmido, abandonado. “O que era aqui? “ O alemão respondeu: “Um túnel que levava os judeus para os campos de extermínio”. “Então é aqui que eu vou pintar”. Com tochas como única iluminação, ela desenhou pelo túnel inteiro. Lá na saída, Os Gêmeos grafitaram também. Na entrada, uma artista japonesa deixou sua marca. A população da cidade não viu. O túnel continua fechado até hoje.

Tempos depois, num jantar na casa de Leon Cakoff (já falecido, criador da Mostra de Cinema de SP), o cineasta Win Wenders é apresentado para Nina e conta que filmou uma das cenas do seu documentário Pina (sobre a bailarina Pina Bausch, que era de Wuppertal) num túnel abandonado que ele encontrou, todo grafitado. “Tudo lindo”, falou Wenders. Nina sorriu. “Fui eu que pintei”.

Grécia, pouco antes dos Jogos Olímpicos: Nina impressionou-se com o desmatamento no país. Grafitou meninas árvores, cabelos de flores, galhos queimados, uma versão pop/feminina do Frans Krajcberg.

Embora pareça que ela tenha começado no grafite e depois tentado as telas, o que aconteceu foi o contrário. Quando conheceu Os Gêmeos, Nina já pintava quadros – sua primeira exposição em galeria foi numa coletiva, em 1998 –, e aos quadros voltou, já famosa pela street art. Desde 2008 é artista da Galeria Leme, em São Paulo, onde fez há pouco uma exposição muito elogiada, Serendipidade, com telas e esculturas criadas ao acaso que depois de prontas conversavam bem entre si. “Cada exposição eu monto de um jeito. Já fiz inspirada por contrastes dos sentidos, doce/ amargo, ácido/picante. Já fiz telas sequenciais, que de certa forma contavam uma história”.

Diz que leva em média nove meses para fazer um quadro e, aproveitando o clichê da metáfora, encara cada um como se fosse um filho. Tinha tanto ciúme das obras que não deixava seus assistentes (agora está com duas, a Dani e a Fernanda) assistirem em coisa alguma. “Precisei fazer terapia para aprender a delegar. Elas me ajudam, fazem o fundo da tela, por exemplo – só nisso economizo uns 3 meses de trabalho – mas antes, quando ia ensinar, já pegava o pincel e eu mesma fazia. Ficava esgotada”. Quando fez seu livro, Nina, editado pela Masterbooks (a editora da apresentadora de TV Eliana Michaelichen, fã de Nina), ela criou umas cinco versões antes de chegar ao resultado final.

Acaba não guardando os quadros, porque suas exposições vendem tudo, pedidos se acumulam. Está tentando montar o seu acervo. “Não sei dizer não, então quando me pressionam para vender empurro a minha irmã para resolver”. Tem pra já duas exposições: uma na Galeria Leme, outra na Inglaterra, onde é agenciada também. Agora foi convidada para uma grande mostra itinerante num museu brasileiro, mas ainda não pode dizer qual. É disputada por colecionadores e seu valor de mercado só cresce. Ficou rica? Prefere dizer que não mudou. “Ah, sou a mesma, não sou consumista, minha melhor amiga é a mesma desde os meus 15 anos, gosto de ir para a casa dos meus pais nos finais de semana”.

Na mesa do ateliê tem um bolo de cenoura quentinho e café para nós, fotógrafo e repórter. Observo os desenhos pregados num mural – parecem uma versão infantil das telas, e têm dedicatória, a letrinha escorregando: “Para a tia Nina”. Nina sorri. “A minha sobrinha desenha muito bem, é a filha da Sibeli”. E emenda: “Sabia que meus primeiros desenhos na vida eu fiz depois de ler uns poemas da minha irmã?” Sibeli, orgulhosa, corre para abrir o livro de Nina e mostra uma tela da exposição Desafiando Sonhos, de 2010. São quatro meninas juntinhas, coloridas, uma alegria real. “Somos nós, as quatro irmãs, mas a Nina não quis nos dizer qual é qual”. O título da obra: Amores Iguais. Não dá para evitar. O que Nina desperta na gente é a delicadeza.

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