TEATRO COLÓN

Por Cristina Ramalho Fotos Iara Venanzi

Cena 1: A ópera é Lucrécia Bórgia, de Donizetti. A soprano Ester Mazolini, como Lucrécia, agarra a cabeça do filho, papel do cantor Beniamino Gigli, e canta o trecho: “Figlio mio”! Entusiasmada, arranca a peruca de Gigli e cai no chão, sem parar de cantar no tom: “Figlio mio!” Nas mãos firmes, a peruca. A platéia cai na gargalhada.

Cena 2: Mais famosa que a voz de soprano de Cláudia Muccio, a Divina, era a sua mãe, italiana superprotetora. Na véspera da estréia de A Força do Destino, de Verdi, a mamma resolveu jogar água benta na escada do palco, para proteger a atuação da filha. Só que a Divina escorregou e foi parar, cheia de hematomas, lá no fosso da orquestra.

Cena 3: Montagem da Tosca, de Puccini, anos 70. Alguém errou ao retirar a pólvora da bala do revólver que atiraria na cantora. O tiro foi de verdade e ela acabou no hospital. “O público vibrava, que realismo!”, lembra o cenógrafo Evaristo, testemunha ocular do fato, outro entre tantos assoprados pelos corredores do Teatro Colón, o mais amado símbolo de Buenos Aires.

Todo portenho tem um Colón para contar. Aquele teatrão deslumbrante, com seu salão dourado, a memória carregada de Nureyevs, Marias Callas, Carusos, Strauss, a acústica perfeita, é o postal que mora dentro do coração de cada argentino. Muito por causa da sua beleza, vestida em cortinas e tapetes vermelho-carmim, e também por sua história, de braços dados com a história do próprio país, cultura e glamour convivendo, poeticamente, com certa poeira ali, uma rachadura na parede acolá. Mas para entender mesmo de onde vem tanto amor pelo Colón é preciso entrar bem lá dentro. Nos porões, quatro andares de subsolo que avançam por galerias abaixo da avenida, estão os sapateiros, os peruqueiros, as costureiras, os cenógrafos, a gente real que faz a alma do Colón. Dali emerge no palco, a cada dia, a alma da Argentina.

Nesta imensa cidade subterrânea, onde funcionam as oficinas que produzem figurinos e cenários, trabalham boa parte dos quase 1500 funcionários do teatro. Cuidam de 36 mil perucas, 90 mil trajes, 45 mil pares de sapatos, 30 mil chapéus… e a cada espetáculo podem fazer novas peças. Vários da turma estão ali há mais de 30 anos. Seus pais e avós já trabalhavam lá. Sabem de tudo. Que Plácido Domingo é um amor. E que Luciano Pavarotti é um sujeito esquentadíssimo, assim como foi Rudolf Nureyev. Arnaldo Colombaroli, fotógrafo que vem registrando há 35 anos os melhores momentos do teatro, quase apanhou do bailarino quando clicou o seu ensaio. “O Nureyev rasgou todas as fotos porque achou que suas mãos não estavam em boa posição”, lembra, rindo.

O sapateiro José Romero, milongueiro, gozador, cansou de testemunhar chiliques de prima-donnas. Aprendeu a usar de psicologia. Como no caso do cantor do coro que sempre calçou 43 e um dia foi escalado para estrelar uma ópera. Nervoso, não conseguia cantar. Culpa do sapato apertado, ele acusava, aos gritos. Romero nem titubeou. Pegou os sapatos, carimbou o número 44 em cima do antigo 43 e devolveu o mesmo par ao tenor. Crente que estava de sapatos novos, ele subitamente se tornou afinadíssimo.

Se estivesse entoando seus dós na estréia da mais recente montagem de Aída, o tal tenor talvez desmaiasse ao saber que os figurantes, sem outra obrigação a não ser fazer pose de soldado em cena, ouviam, por baixo das perucas egípcias, um clássico do Boca Juniors no fone de ouvido do radinho de pilha, escondido sob a roupa. Quando o Boca fez gol, os soldados bateram com as lanças no chão, celebrando. A seleta platéia, que nem desconfiava do futebol, achou a cena de uma força impressionante.

O cenógrafo Gerardo Pietrapertosa, há 36 anos criando cenários para os espetáculos do Colón, já viu muita coisa. Seu pai trabalhava nas máquinas que faziam subir cenários e descer cortinas; a mãe costurava os vestidos que embrulhavam cantoras e bailarinas; o avô cantava no coro da ópera. Seu filho, começando agora no teatro, logo, logo, vai ter de improvisar soluções como o pai, que criou uma rampa para um tenor roliço ser içado em Lohengrin, de Wagner, e, na véspera da estréia, ela não saía do lugar. Diante do constrangido cantor, toca colar chapa de aço para a rampa não quebrar.

Mirta Dufour, a adorável encarregada do guarda-roupa, sabe de cor a data em que cada figurino foi usado, e por quem. Exibe cheia de si o pesadíssimo manto de Boris Godunov, e explica, didática, as diferenças entre os trajes de Falstaff em montagens de épocas diferentes. Ernesto Ferreiro, que coordena uma equipe de 16 pessoas que fazem perucas, adereços e maquiagem, ensina a difícil arte de implantar, fio a fio, os cabelos das perucas. Há orgulho no ar. A feliz turma do porão sabe que é tão ou mais fundamental do que os egos mais salientes no palco. Acima de tudo, cada um deles tem seu Colón a zelar.

No dia em que você quiser entender o que o Colón representa num coração portenho, agende uma visita guiada. O teatro passa por uma restauração e, como a própria Argentina, quer se modernizar e cativar mais público. Talvez você ouça estas histórias, talvez descubra outras, e logo vai se flagrar contando para alguém como é o seu Colón. Dizem até que, de vez em quando, uns fantasmas aparecem por lá com novos causos. Mas isso a gente não pode afirmar com certeza.

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