LONDRES

UM OUTRO OLHAR

Por trás dos cenários esfumaçados, dos séculos de império e da fleuma, essa cidade sempre soube combinar, como nenhuma outra, o charme antigo com os braços abertos para tudo o que pode acontecer

Por Cristina Ramalho

Pode ser o clima quase sempre meio cinza, de usar casaco, que faz poupar os modos e a alma. Ou o calor reconfortante das xícaras de chá e dos bolinhos macios que enchem a boca e dispensam comentários. Fato é que os ingleses não parecem gostar de falar muito. Têm sempre respostas polidas a qualquer pergunta, com aquele humor de síntese, onde palavra demais é elegância de menos. A cidade também não é de fazer alarde. Nas casinhas grudadas de tijolos aparentes, nos parques de verde intenso, nos austeros black cabs e na luz avessa a contornos nítidos, tudo é de uma beleza classuda, como a de certas mulheres maduras que mais sugerem do que exibem.

E essa, my dear, é só a primeiríssima impressão.

Como toda dama que carrega um passado de glórias, Londres é orgulhosa. E como toda experiente, aprendeu a não se levar muito a sério. Os próprios ingleses dizem que seu ar sisudo deve-se ao fato que depois do breakfast as coisas só tendem a piorar. Assim se divertem engrossando a neblina que encobre Londres de clichês:

1-      Que os britânicos são frios e esnobes — até nos quadrinhos de Asterix, o rival francês, eles nunca fazem mais do que erguer as sobrancelhas.

2-      Que aqui come-se muito mal.

É tudo verdade e ao mesmo tempo, não. A pose, por exemplo, acaba no pub da esquina, e ganhar a simpatia de um inglês é fácil: basta saber rir (principalmente de si mesmo) ou, melhor ainda, saber beber. Depois de dois pints (copões de meio litro) de cerveja todo mundo se entende e é capaz de sair cantando Satisfaction. Quanto à comida, era ruim mesmo, mas hoje tudo mudou. Ainda estão lá os fish and chips gordurosos, a torta de rim e outros pratos nem um pouco sedutores, só que de uns anos para cá os ingleses resolveram aprender a cozinhar e se apaixonaram por novos ingredientes e pelas misturas saborosas (veja Box). E como Londres é o lugar onde cabem todos os países do mundo (nem em Berlim ou Nova York se vê tantas raças vestidas a caráter), encontra-se aqui o melhor de qualquer culinária.

E é aí que a gente começa a entender o charme encantador desta cidade: entre os milhões de indianos de sári, árabes de turbante, africanos zulus, bares de rumba e petiscos vietnamitas, os fleumáticos e bem-humorados londrinos nos dão verdadeira aula de convivência. Desde a sua fundação, pelos romanos, há mais de dois mil anos, Londres sempre foi uma cidade de imigrantes – tanto que no século 18, no auge do período vitoriano e da formação do caráter tão definido dessa gente, ela era chamada de “a cidade das nações”. Espie só o mapa, com seus bairros bem divididos, cada um com suas histórias, suas culturas. Os ingleses, que já mandaram em metade da Terra, aprenderam a se colonizar às avessas. E a gritar, a seu modo, outros jeitos de ser e pensar. Não se esqueça que da teoria da evolução de Darwin à minissaia da Mary Quant, do rock dos Beatles ao punk dos Sex Pistols, do James Bond aos cabelos verdes, quase todas as transgressões nasceram aqui. Lembre-se que até a Madonna, que pode tudo, trocou Nova York por Londres porque se sentiu mais em casa.

Sim, você também vai se sentir em casa nesta Londres que às vezes pode ser tão familiar. Ver o Big Ben, assistir a troca da guarda no Palácio de Buckingham, olhar os pratos cafonas com fotos da Rainha, atravessar a Ponte de Waterloo como naquele filme da Vivien Leigh, visitar a London Tower e se espantar com os corvos, cruzar a Abbey Road assoviando uns hits de Lennon e McCartney, caminhar atento às livrarias da Charing Cross, pegar o ônibus de dois andares, entrar na Abadia de Westminster, conferir a esquina de Picadilly Circus, ir ao Museu de Cera da Madame Tussaud…Então telefonar para casa de uma cabine vermelha só para contar que os bonecos de cera são horrendos e esses ingleses, sei não, comem feijão no café da manhã.

Percorrer os lugares comuns vai lhe divertir, e eles são muitos. Como também é imprescindível tomar o chá das 5, quem sabe na The Orangery, uma deslumbrante estufa da rainha Vitória, encravada no meio dos lindos bosques de Kensington Gardens, junto ao Hyde Park. Ou dar um pulo na Harrod’s, a loja podre de chique do ex-sogro da Lady Di. E ainda não se pode deixar de ver no British Museum as riquezas egípcias roubadas pelos piratas no tempo em que os ingleses eram os americanos do mundo.

O lado leste da vida

Acontece que o melhor de Londres é sua eterna abertura para o que pintar. Pode ser a cultura black das músicas dançantes, suingadas, que se ouve nos bailões do distante bairro negro de Brixton, ou então nas centenas de clubs espalhados por todo o canto, do Rumba, no central SoHo, ao Notting Hill Arts Club, no pedaço oeste que Hugh Grant fez encarecer depois do filme. Notting Hill, hoje, é o centro para quem pode esbanjar verbaem charme. Temo tradicionalíssimo mercado de Portobello Road, com suas lojinhas de antiguidades e incríveis sebos de discos, e tem também as boutiques muito chiques de Westbourne Grove. Prove um chá gelado na Nicole Fahri e veja seus vestidos de sonho. Ou se esbalde na loja de lingerie muuuuito sexy, a Agent Provocateur.

Londres, porém, se voltou mesmo para o lado leste da vida. Antes conhecido apenas como a zona em que Jacko Estripador zanzava atrás da próxima vítima, o East End é agora o point mais bacana da cidade. O lado de lá do rio virou centro de restaurantes cheios de bossa, galerias, lojinhas, mercados de rua, museus bacanas e clubes para se acabar de dançar. Começa pela London Eye, a mais alta roda-gigante do planeta, de onde os londrinos podem matar as saudades da época em que enxergavam tudo de cima. A vista, às margens do Tâmisa, é abracadabrante. Para mais glamour, combine o passeio com um pequeno cruzeiro de 40 minutos a bordo de um catamarã – se você desejar, tem brinde com champanhe, estilo life is beautiful.

Depois saia para caminhar pelo Bankside, beirando o Tâmisa num dia de sol, uma das melhores coisas da vida. Dá para tomar um café no amplo e movimentado café do National Film Theatre, visitar as modernidades da Saatchi Gallery (lá que estão as coisas criadas pelas cabeças mais alucinantes de Londres, como os artistas Damien Hirst e Tracey Emin) e, mais adiante, olhar as bonitas lojinhas do pequeno mercado Gabriel’s Wharf, onde você também pode alugar uma bicicleta para entrar no clima londrino. Na seqüência, imperdível é uma visita à Tate Modern, museu com obras da arte moderna e café com vista para o Tâmisa e decoração colorida de Philippe Starck. Só o prédio, combinação de antigo e novo, já é maravilhoso – logo na entrada, uma imensa aranha de Louise Bourgeois recepciona os visitantes. Ali do lado é o Shakespeare Globe Theatre, recriado exatamente como nos tempos elizabetanos. E você pode aproveitar para bebericar na chique Oxo Tower Wharf, prédio com lojinhas de bijouteria e design e restaurante para abonados na cobertura.

À noite, é hora de se mandar para a Hoxton Square, no coração de Shoreditch, antiga zona industrial do leste que é a cara da Vila Madalena em São Pauloou do Baixo Leblon no Rio: muita gente linda na rua no verão, saindo de um bar para outro, como o Medicine, e o Cargo, um dos melhores lugares para dançar. Ou então deixe os roteiros para lá e entre simplesmente num pub – qualquer um. Peça uma legítima cerveja ale (e não a Guiness, que é dos irlandeses) e puxe conversa. Aí você vai conhecer a verdadeira alma inglesa: ela é saborosa e densa como a cerveja, e, embora talvez não pareça, pode ser risonha e franca como um pilequinho. Bom, se sua primeira impressão foi outra, who cares?

 

 

BOX 1: Enjoy your meal

 

Comida não era, definitivamente, o forte dos ingleses, e só servia para mantê-los em pé e como tema de piadas sobre a cultura britânica. Isso já era. Ligue a TV a cabo: os grandes programas de culinária, hoje, são feitos por ingleses, chefs-celebridades como o Naked Chef Jamie Oliver, ou a curvilínea Nigella Lawson. Afora os espanhóis, os cozinheiros do momento, os ingleses estão com tudo na arte da cozinha. Se você quiser gastar muuuito e arrasar, vá ao melhor: o restaurante do chef Gordon Ramsay, ex-jogador de futebol, durão, macho à beça. Experimente sua filial no Claridge’s, deslumbrante, e reserve: 020 7499 0099. Dica mais simples e acessível ao bolso é o delicioso Fish!, de peixes e frutos do mar, junto ao Bankside. O lugar é lindo e a comida, ótima, com ostras e peixes fresquinhos do mercado em frente, o maravilhoso Borough Market. E não perca o Hoxton Apprentice, na Hoxton Square, que é coordenado pela chef Prue Leith. Comida excelente, feita por ex-homeless e desempregados, assim como o atendimento amigo.

Já para comer rapidinho, bom e barato, entre compras e museus, prove o Café Emm, no SoHo (17 Frith St W1D). Ou se esbalde nos baratos é ótimos indianos da rua Bricklane, como o Alladin e o Café Naz.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Manolo Oliveira
    ago 31, 2011 @ 08:31:27

    mutio bom, muito bom. Parabéns.

    Responder

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