À mesa com Willem Dafoe

 

176139434__884476c

Por Cristina Ramalho

 

Uma vez o diretor grego Theo Angelopoulos estava instruindo o ator americano Willem Dafoe como queria que ele fizesse uma cena. Angelopoulos não falava inglês, mas os dois se entendiam em italiano. Era a filmagem da Trilogia II: A poeira do tempo, 2008.

O grego sério, um tipo careca, de óculos, nariz talhado, caminhava de lá para cá, explicando:

_ Você vem por aqui, e daí faz assim, e cosí… Então sentou-se, olhou firme para o ator e soltou, enérgico, uma única frase em inglês:

_ And then … You cry!

Chorar? Dafoe não achava que era preciso, mas tudo bem, se era a vontade do diretor, assim seria. O grego insistia nisso.

Então veio o pior. Angelopoulos bateu palmas e gritou para a equipe:

_ Saiam todos! Dez minutos para o ator se concentrar!

Dafoe gelou. Já se sentia pronto para rodar, era o momento certo, que fizessem a cena logo. E agora?

_ Theo, volta aqui, volta todo mundo!

O ator contou essa história, imitando os gestos e o sotacão grego do homem, num encontro com estudantes de cinema da The Modern School Film, em Nova Iorque. “Aquilo me botou uma pressão, eu não queria nada, só queria filmar”, falou, expressão perplexa. Para quê complicar?

Repetiu tudo isso, rindo, nesta conversa com o Valor, a pedidos da repórter. Estávamos jantando no restaurante Skye, no hotel Unique, em São Paulo, na véspera de sua entrevista coletiva para apresentar Meu amigo hindu, que estreou ontem, 3 de março, filme estrelado por ele e dirigido por Hector Babenco.

Tanto para os alunos lá em Nova Iorque quanto diante do couvert, agora, Dafoe quis demonstrar que atuar, para ele, é simplesmente mergulhar na cena e seguir em frente. Porque Willem Dafoe, 60 anos, mais de 40 de carreira nos palcos, 108 filmes, papéis que vão do Duende Verde do Homem Aranha ao inesquecível sargento Elias de Platoon, do psicanalista no tenso Anticristo de Lars von Triers ao próprio Cristo de Scorsese e o Pasolini de Abel Ferrara, gosta mesmo de desaparecer. Livrar-se da tentação de analisar. Ser como uma tela em branco, e que o diretor tire dele o melhor.

_ Não fico pensando se meu estilo é esse ou aquele, é preciso fazer e pronto, a coisa tem de acontecer de um jeito ou de outro.

Dafoe não teoriza.

_ Não lembro qual escritor noir disse isso, mas é mais ou menos assim: quando você está desorientado, sem saber como continuar, tenha um cara com uma arma na mão abrindo a porta.

A frase real é de Raymond Chandler (“When in doubt, have a man come through a door with a gun in his hand”).

As histórias, o jeito despachado que ele conta, sua adesão natural ao momento. Uma simplicidade que em Willem Dafoe parece ser sua forma de enxergar a vida. O diretor quis desse jeito? Ok, o filme é dele. É para dar entrevista? Então o ator chega na hora, é gentil, aceita sentar mais para lá para o fotógrafo acertar a luz. Fãs no restaurante querem fotos? Pois não. Trata todo mundo bem, faz piada com sua pouca altura – sim, Dafoe é baixinho – e volta rápido para a mesa, focado para a conversa. Só pede, com delicadeza, para trocar de lugar por causa do forte ar condicionado. A hostess do Skye propõe desligar o aparelho. Tudo certo.

Ele está um pouco gripado e quer apenas água sem gás e, por enquanto, uma sopa de legumes de entrada. A assessora de imprensa, Claudia Sabbagk, também vai de sopa e escolhe um refrigerante. Mais águas, ceviche e polvo provençal como entradas para repórter e fotógrafo. De vez em quando, o garçom passa com uma cesta de pãezinhos quentes para abastecer o couvert. Dafoe pega um pãozinho multigrãos. Faz um barulho danado no restaurante, já está cheio, então estamos sentados bem pertinho um do outro para podermos conversar.

Antes da primeira pergunta, ele quer saber o que esta repórter achou do filme. Resposta: “A brincadeira é assim: quem faz as perguntas sou eu, você responde”. Ele ri.

O filme conta uma história inspirada no próprio Babenco: a do cineasta Diego Fairman, homem que descobre um linfoma e tem de lidar com a morte à espreita e a vida depois disso. Dafoe foi compondo sua atuação como muitas vezes costuma fazer: a partir da transformação física do personagem. Ele, que já é magro, vegetariano, e pratica yoga ashtanga há anos, teve de virar quase um faquir para perder 9 quilos.

_ Reduzi muito as porções, cortei o álcool, raspei a cabeça, as cenas foram em boa parte num hospital. Tudo isso vai ajudando a entrar no personagem, ele vai tomando conta.

_ Achou mais difícil interpretar um personagem inspirado em alguém que não apenas é real e está vivo, mas aqui, no caso, foi o seu chefe?

_ Não, isso não influenciou. Babenco tinha muito claro o que pretendia, mas de vez em quando queria que eu criasse o “meu” Diego. Na verdade palpitei muito pouco, e nem sempre acertava (risos). Por exemplo, nas provas de roupas. Ele nunca concordava com o que eu escolhia, dizia “Jamais eu usaria isso se fosse o Diego”. E escolhia outra. Tudo bem, não sou ligado em roupas, o Babenco entende, é todo elegante, presta atenção no que a gente veste — fala, meio gozador, sobre o cineasta, de quem é amigo há anos.

Já o cenário o ator conhecia bem: de pequeno, meio a contragosto, Dafoe ia seguindo o pai médico no trabalho pelos corredores do hospital e assistindo suturas, vendo injeções, observando pacientes. O que não estava previsto é que, uma semana depois de começar as filmagens aqui no Brasil, o ator receberia a notícia que seu pai havia morrido. _Ele estava bem velho, 97 anos, era natural que isso fosse acontecer logo. Mas realmente me afetou, e de alguma forma influenciou no meu trabalho. Meu pai era um homem muito esforçado e foi ficando mais doce com o tempo, sabe? Nossa relação foi ficando outra.

Três anos antes, sua mãe tinha falecido aos 90. Estavam morando na Flórida.

Os Dafoe eram uma típica família da pequena Appleton, Wisconsin, na América dourada dos anos 1950, com jantar farto à mesa, filhos educados, a felicidade tinindo nos eletrodomésticos, móveis de pés palito e firmes valores de vida. Quer dizer, sua biografia era para ter sido assim. Só que o pai, William, e a mãe, Muriel, enfermeira, trabalhavam juntos e nunca estavam em casa.

_Éramos oito filhos, cada um tinha um horário, a gente não conseguia jantar todos juntos e aquele roteiro idealizado pelo meu pai não deu muito certo.

Ele teve sorte: foi o sétimo da prole, quando Dr. Dafoe já não tinha tempo e paciência para ser rígido como foi com o primogênito, que não escapou de ser médico também. O pequeno Willem cresceu mimado por cinco irmãs, e elas lhe ensinaram umas coisas fundamentais da vida: corriam pela casa com um pênis desenhado em papelão pregado na calcinha e contavam piadas sujas.

Família classe média, trabalhadora, liberal, falava-se de tudo, e de política (“Wisconsin era um estado engajado, Milwaukee tinha sindicatos fortes, era bem socialista”, diz), mas para arrumar sua própria turma Dafoe começou a fazer teatro aos 17 anos. Gostou, e aos 18 entrou na faculdade de teatro Wisconsin, em Milwaukee. “Nem escreve isso, porque ninguém nunca ouviu falar”, ele brinca. Não terminou. Foi para a Europa em turnê com o grupo de vanguarda Theatre X, de Milwaukee. Na volta, se mandou para Nova Iorque.

Chegou numa cidade em ebulição, meados da década de 1970, quando era só dar uma voltinha no quarteirão e esbarrar com o Scorsese dirigindo De Niro e Harvey Keitel em Caminhos Perigosos, ou caminhar até a Factory de Andy Warhol para espiar a turma que circulava por lá: Truman Capote, Nico, Velvet Underground. Era uma Nova Iorque violenta, mas falava-se sobre arte conceitual, Philip Glass, John Cage, dança contemporânea, os aluguéis eram possíveis, bastava raspar o reboco de algum armazém para brotar um estúdio. Qualquer tema servia de estímulo para se fazer o que desse na telha. E o que aquela galera colorida que chegava de todos os lugares do país e do mundo menos precisava era de estímulo.

_ Eu tinha uma visão romântica de Nova Iorque, não gostei logo de cara. Fiquei sacudido com o que vi, era muita energia, as pessoas viviam cada dia como se fosse o último da vida delas. Aprendi um bocado.

Mais tarde sofreria com a perda de vários amigos que morreriam de Aids durante os anos 1980 e 90.

Mas com 20 anos, em 1975, um Dafoe cheio de ideias frescas era o mais jovem dos fundadores do The Wooster Group, dirigido por Elizabeth LeCompte, com quem ele acabaria se casando. O grupo, que ocupou um antigo armazém no SoHo também usado pelo pessoal do Fluxus (famoso movimento de arte que teve nomes como Yoko Ono, Joseph Buys e Nam June Paik), existe até hoje, e atualmente usa bastante tecnologia na linguagem. “É interessante, mas não é muito meu estilo”. Dafoe saiu de lá em 2005, mesmo ano em que conheceu, em Roma, sua atual mulher, a cineasta italiana Giada Colagrande.

_ Trabalhar numa companhia de teatro tão experimental e por 30 anos foi incrível, mas também limitador porque a gente tem de se dedicar tanto a ela que não há tempo para fazer outros espetáculos.

O fato de atuar nesse esquema explica seu jeito topa-tudo. Companhia teatral é sinônimo de trabalho artesanal, coletivo, ou seja, botar a mão na massa, de um toquezinho na iluminação à martelada no prego. Até Jack, seu único filho, hoje com 32 anos, cresceu nas coxias mas também entrou no palco, fez de tudo ao lado de pai e mãe.

_Acho que ele ficou cheio disso, porque virou advogado.

_ Como você é como pai?

_ Como uma mãe, hahaha! Sabe o que é, a mãe dele sempre foi workaholic demais.

As performances do Wooster sempre se misturaram com dança, e os atores se relacionavam com grandes mestres da dança contemporânea, como Merce Cunningham, Martha Graham, Pina Bausch. Dafoe se considera um dançarino, um pouco pelas piruetas no palco, e muito pelo conceito de atuação quase orgânico, de se colocar no próprio espaço e não refletir mais. Apenas seguir no ritmo.

_ Quando faço um espetáculo, termino a sessão com a sensação boa, aquele cansaço do dever cumprido. É como arar a terra, um trabalho físico, concreto, que se completa ali, na hora.

Surge o garçom, discreto, cardápio nas mãos. Quer saber o que vamos pedir como pratos. Decidimos repetir as entradas. Willem pede o polvo provençal com batata rústica, todos (com exceção da assessora, que pede um prato principal, o filet mignon ao molho de foie gras) acompanham, o garçom sugere uma porção dupla para cada um, os pratos são pequeninos. Que venham os polvos duplos.

No cinema ele começou no desastre de crítica e bilheteria que foi o filme O Portal do Paraíso (1981), de Michael Cimino. Desastre pessoal para Dafoe também, porque ele riu alto de uma piada durante o ajuste de iluminação, Cimino não achou a menor graça e lascou um “está demitido”. Cinco anos e uns filmes depois, ele se tornaria um astro ao fazer o sensível Sgto. Elias de Platoon (1986), de Oliver Stone. Não parou mais.

_ Faço grandes filmes, desses que dão bilheteria, para chamar a atenção para meus filmes pequenos.

Com aquela voz grave, o rosto fora do padrão hollywoodiano e o gosto por se atirar sem olhar, logo ganhou o coração dos cineastas mais autorais, mais doidos, mais intensos. Abel Ferrara (“Pasolini foi um filme sem script, intenso, criativo”), Lars von Triers (“Adoro o Lars, a gente se entende muito bem, e ele gosta de mudar constantemente”), Martin Scorsese, Wes Anderson, Spike Lee…

No teatro, fez espetáculos com outro gênio denso, Bob Wilson (“Já o Bob mantém sempre o mesmo estilo”), como a ópera experimental Vida e Morte de Marina Abramovic, em que ele, maquiado e de cabelos vermelhos, canta e faz diversos papéis ao lado da artista rainha da performance, numa visão poética sobre a vida dela. Ou a peça A Velha, ao lado de Mikhail Baryshinikov, montada em São Paulo em 2014. Foi durante essa turnê paulistana que sentou com Babenco, checou a agenda e topou fazer Meu amigo hindu.

Dafoe trabalha muito. Tem cinco filmes prontos para estrear em breve. Está fazendo mais um – projeto ainda em segredo – com sua mulher. Conheceram-se na rua, em Roma, apresentados por amigos comuns. Um dia, no impulso, ele a pediu em casamento durante o almoço, ela disse sim, ligaram para a Prefeitura e ouviram que, se chegassem em até duas horas, poderiam marcar o casório para o dia seguinte. Correram para lá e estão há quase 11 anos juntos. Escreveram o filme Before it had a name (Antes tinha um nome), drama romântico que Giada dirigiu e ambos atuaram sobre uma jovem italiana que vai a Nova Iorque. O filme abriu o Festival de Veneza de 2005 e foi relançado em DVD com o título The Black Widow (A viúva negra). “Ajudei no roteiro porque na época minha mulher não escrevia bem em inglês, mas não gosto de escrever. Não tenho o que dizer, porque quando penso uma história ela já se completa na minha cabeça, não vejo porquê contar”.

Giada é 20 anos mais jovem que ele e adora o Brasil (para onde já vieram algumas vezes) – mas não pôde vir dessa vez. Quando pequena, sua casa vivia cheia de artistas, amigos da mãe dela, que tocavam e cantavam bossa nova, uma alegria com cara de verão que ficou na sua memória. A italiana ainda busca patrocínio para um filme que pretende rodar em breve no Brasil, chamado Trópico.

O casal passou o réveillon retrasado no Rio com Seu Jorge, amigo chegado de Dafoe desde que eles fizeram o filme A vida marinha com Steve Zissou (2004). “Adoro a sogra dele, a mãe da Mariana, ela é cool, você conhece? “

O garçom retira os pratos. Sobremesa? Dafoe dispensa. “Não sou de doces”. Pede um chá, acompanhando a assessora. Creme brulée de milho com pipoca com chocolate e cheese cake de limão siciliano com sorvete de tangerina para repórter e fotógrafo. Falamos de comida, sabores preferidos, ele diz que gosta de cozinhar de vez em quando, de cuidar da casa, lavar a louça.

_ Gosto de fazer essas coisas simples, acho que ajudam a gente a meditar.

Hoje, vivendo mais em Roma do que em Nova Iorque, sai a pé para comprar umas coisas nas mercearias ao redor do seu pedaço, a Piazza Vittorio. Adora caminhar pelas cidades. Já Los Angeles não é a sua praia.

_ Vou, vejo meus amigos, é legal, mas Hollywood não tem a ver comigo. Em Nova Iorque posso ligar para um amigo e falar “vamos tomar um drinque” e ele vai. Em Los Angeles tenho de marcar com antecedência, o cara vai checar a agenda com os assessores, tudo é complicado.

O jantar está chegando ao fim, pedimos a conta. Dafoe confessa que às vezes acha que devia se calar e nunca mais dar entrevistas. Por quê? “Não me acho tão articulado, e também já me senti traído às vezes”. Será que tem recado aí, terá a repórter perguntado algo que não devia? “Não, não, é um receio meu. Acho melhor as pessoas não saberem de tudo. Assistir a um filme sem saber se aquele ator é rico, ou pobre, ou hetero ou gay. Se eu ler numa entrevista, por exemplo, que um ator gosta do Donald Trump, não quero mais ver nenhum filme dele”. E dá risada.

_ Mas você se expressa de tantas formas, não pensa em dirigir um filme?

_ De jeito nenhum. Quero estar no meio da brincadeira, não quero ficar olhando como os outros estão brincando. A verdade é que no fim das contas não importa a carreira que a gente escolhe, o mais importante são as pessoas para mim. Trabalhar com gente, é disso que eu mais gosto.

Ele se despede com um abraço afetuoso. Chegou há um dia, na manhã seguinte tem coletiva, fotos, todo o ritual de astro que parece não combinar com esse sujeito que diz, de alma sossegada, “Nunca sou a primeira escolha para os papéis, e tudo bem”. Mas o ator vai encarar papel real inédito agora: acaba de ser avô. “O bebê se chama Tom”, conta, e abre um sorriso de quem está num momento certo da vida. É só seguir em frente. Para quê complicar?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios