JOÃO DONATO – Ilustrada (FSP)

CONTRA-CAPA DA ILUSTRADA _ PERFIL JOÃO DONATO

 

Donato muito à vontade

CRISTINA RAMALHO
DA REPORTAGEM LOCAL
Cena 1: anos 50, Rio. Numa festa podre de chique, depois de tomar umas e outras, o pianista João Donato e o trombonista Edson Maciel se sentaram no chão e ali ficaram, curtindo o pilequinho. Lá pelas 3h, Donato disse: “Maciel, vou escrever um arranjo para você tocar”. Por volta das 5h, Maciel respondeu: “Que arranjo?”. Às 7h, Donato devolveu: “Decidi que não vou escrever mais”.
Cena 2: seis anos atrás, Rio. Donato liga para Janio de Freitas (colunista da Folha), com quem teve um grupo vocal na década de 50, Os Modernistas, que se apresentava na rádio Guanabara. Eles não se falavam há tempos, mas Donato andava atormentado e queria uma opinião. “Janio, minha musa (a namorada de então) acha que eu estou mal. Você acha que preciso de tratamento psicológico?”
Cena 3: mês passado, Nova York. Donato pega um táxi e sai perguntando para os motoristas, imigrantes de países que a gente só viu no atlas, como se falam palavras em paquistanês ou iraquiano. Desce feliz, repetindo o que aprendeu para o próximo taxista.
A vida passa e você vê que o Donato aéreo e gozador não muda. Ainda é capaz de sair com um grupo e desaparecer assim que os outros se distraírem. Inútil procurar: quando quiser, ele volta.
“Donato vive em outra dimensão, um mundo romântico, sem ambição, mas pagou um certo preço por isso”, diz o baterista Cláudio Slon, amigo do pianista há mais de 30 anos.
Slon, que só tocou com gente finíssima, como Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Tom Jobim, sabe bem que Donato _um dos criadores da bossa nova, ao lado de Tom e João Gilberto_ poderia ser tão famoso quanto eles, não fosse a mania de pisar nas nuvens.
“Tom Jobim sabia se promover muito mais, Donato nunca prestou atenção nisso”, conta Slon. Só que uma mãozinha divina está tratando de acertar essa falha da história. Donato nunca esteve tão na moda: acabou de tocar no Free Jazz, foi convidado por Chucho Valdés para um festival em Cuba, em dezembro _mesmo mês em que receberá o Prêmio Shell pelo conjunto de sua obra_, e gravou três discos: “Amazonas”, um outro com a Orquestra Jazz Sinfônica e mais um ainda sem nome, com seu trio, pelo selo americano Elephant Records (leia ao lado).
O Donato do século 21 vai seguir em turnê por várias partes do globo, de Rússia e Japão a Europa e América. Em São Paulo nesta semana, ele gravou seu disco no estúdio Midas, autografou o CD “Amazonas” ontem no shopping Anália Franco e amanhã faz show no Sesc Pompéia.
Donato não leva nada disso muito a sério. Só quer saber de tocar e, desde dezembro passado _quando um ataque no coração lhe avisou do mundo dos mortais_, cuidar mais do corpo e do espírito. Virou batista, diz que mudou o jeito de pensar e parou de dar importância a muitas coisas (entre elas, a algumas moças que lhe tiraram o sono um bocado de vezes). No Free Jazz, tocou com a Bíblia ao lado do piano.
Mas o toque celestial é do pianista, mesmo. Os dedos deslizam com aquele suingue, cada nota enfatizada de um jeito pessoal, o mesmo que João Gilberto já confessou imitar no violão. O piano é seu lugar. No domingo, no estúdio Midas, em SP, Donato estava saindo com os músicos, mas fez meia-volta e se enfurnou na sala, sozinho, para gravar mais uma.
Vendo-o tocar, a coisa parece tão simples _como simples são suas músicas mais belas, caso de “Brisa do Mar” ou “Minha Saudade”, que misturam a sofisticação de acordes e harmonias com uma beleza de fazer chorar.
O mestre Donato está sempre muito à vontade, nome, aliás, de um de seus maiores discos, gravado em 63, época em que estava no Rio em lua-de-mel com Patricia, a americana com quem se casou em 60 nos EUA.
Naqueles tempos, nem todo mundo entendia sua elegância. Ele tentava tocar nos lugares mais bacanas do Rio, como o Vogue e o Sacha’s, a rota de Copacabana frequentada pelo “grand monde” carioca. Mas, quando começava a dedilhar com seu estilo meio cubano, era convidado a tocar noutra freguesia. Moderno demais.
A saída foi o aeroporto: Donato acompanhou Nanai e Elizeth Cardoso numa turnê e acabou ficando pelos EUA. Diz ele que, como tudo em sua vida, o piano foi uma opção acidental. “Esqueci meu acordeão no carro do Nanai. O carro foi roubado, achei melhor mudar de instrumento de vez.”

 

 

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Bia Saldanha
    dez 23, 2011 @ 05:15:26

    só esqueceram de dizer que Donato é acreano…o que na verdade, explica TUDO!

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: