FÁTIMA BERNARDES – Valor Econômico

À mesa com Fátima Bernardes

 

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Por Cristina Ramalho – jornal Valor Econômico

O Brasil fervia com a proximidade da eleição de 2002 – Lula seria mesmo presidente? – mas na hora do Jornal Nacional o foco do país era outro: Fátima Bernardes tinha alisado o cabelo. No telefone da Globo, na imprensa, no boteco da esquina, choviam comentários inconformados. Como assim? Ela acabara de ser eleita a musa da Copa do Japão, tinha derretido até o Felipão, e mal pisou aqui de volta, quis japonesar o cabelo? Fátima entendeu. Não era a única dona das suas madeixas. O público é que ainda não tinha sacado. Que aquela moça tão certinha, discreta, era chegada em mudanças.

E não ia parar por aí.

Espie só os cabelos dela agora: se livraram da escova, da chapinha, e escapam, sensuais, da contenção do JN. O astral também está mais solto, com um quê de brisa boa, de janela aberta. Fátima Bernardes se encontrou. Desde que partiu para a carreira solo, a mulher de William Bonner emagreceu, botou uns vestidos legais, de vez em quando dança um rock ou encara um sambinha no programa que comanda todas as manhãs. Tá com aquele brilho igual a de mulher que separou do marido e começou história nova.

Até o cantor – e mulherólogo experimentado – Reginaldo Rossi não resistiu ao ser convidado do Encontro com Fátima Bernardes e contemplar o corpo inteiro da apresentadora. O autor de Mon amour, meu bem, ma femme escaneou Fátima, pigarreou e lascou essa: “Estou tão feliz de ver que você não é só um tronco”.

Ela achou a maior graça. “É verdade, as pessoas me dizem que estou mais bonita, sem aquela liturgia do cargo do Jornal Nacional tudo ficou mais leve”, Fátima fala, rindo, enquanto bebe uma água sem gás no pequenino café da livraria Argumento, no shopping Barradesign, no Rio, onde ela escolheu sentar-se `a mesa com o Valor.

Sim, Fátima continua bem casadíssima, boa jornalista, no programa também faz debate sério, mas o que todo mundo nota primeiro ao ligar a TV é como ela parece deslizar de tão levinha. E que bonita! Nem ao vivo dá pinta dos seus 51 anos. É a dieta sem glúten, o Botox básico, marido & três filhos bacanas e, sobretudo, é chegar naquela invejável altura da vida de fazer o que quer. É sua hora da estrela. “Quando fiz 45 anos, comecei a pensar onde eu queria estar dali a dez anos. Eu não estava infeliz, mas depois do JN para onde eu iria se resolvesse dar uma virada?”, ela conta. Não sabia. Só tinha certeza de uma coisa: ela queria plateia.

Por essa o público também não esperava. É, fazia tempo que Fátima aguardava um palco. A biografia explica. Dos sete aos vinte e poucos anos ela viveu sobre sapatilhas de ponta, até o dia em que a diretora da escola a colocou para dar aulas de pliés. Fátima olhou no espelho e enxergou o óbvio. Não dava para ser a Ana Botafogo. Tinha crescido demais. O jeito era seguir os elogios para as suas redações e uma frase profética dos parentes que lhe dava arrepios: “Ah, mas você deve ser tão criativa”.

O jornalismo sempre fez parte dos seus planos, foi sua opção no vestibular, mas não ser a escolhida para cintilar no Lago dos Cisnes depois de doze horas diárias de ensaios foi a primeira grande cambalhota da sua vida. Dançar determinava as amigas (“Uma delas seguiu carreira, abriu escola de sapateado e foi ao meu programa”), as descobertas do mundo, e até o amor. E se um namorado choramingasse que ela só tinha tempo para o balé, quem dançava era ele. Enfim, a dedicada Fátima bem que merecia um palco.

O balé, além de um par de pernas prontas para a glória, aprimorou outra qualidade do DNA de Fátima: a disciplina. Como repórter, e depois apresentadora, ela seguiu um script nota 10. Começou no impresso, nos suplementos de bairro do jornal O Globo, logo fez capa para o Segundo Caderno, cobriu uma eleição, e então viu um anúncio para um curso de telejornalismo. Pediu com jeitinho para o chefe, era super aplicada, teve permissão para fazer as aulas.

“Eu queria aprender, nem sabia se queria trabalhar na TV”, ela diz, se bem que no íntimo já lhe devia bater uma vontade de ir ao ar, tanto que tinha feito um teste para dubladora da Herbert Ritchers. Se poderia ter sido a voz da sua ídola Audrey Hepburn ou de uma ronronante Jessica Rabbit, ela nunca voltou lá para saber.

Porque no dia em que falou pela primeira vez para a câmera inaugurou-se o mundo para Fátima Gomes Bernardes (ela ainda não era Bonemer). “Eu falei: não quero mais sair daqui. Adorei a agilidade, o imediatismo, você vai para a rua, entrevista, edita, aquilo já vai ao ar”. Desde o início ela não escrevia os textos das matérias, falava tudo na hora, como não usa teleprompter hoje.

O curso era na verdade um concurso. E em janeiro de 1987 foi contratada como repórter do RJTV. Seguiram-se Jornal da Globo, Fantástico, Jornal Hoje, 14 anos só de Jornal Nacional – 26 anos de uma carreira que virou verbete de jornalista respeitada.

Em todas as redações, em todas as reuniões, ela continuou sendo a garota do Méier, filha mais velha do sargento da aeronáutica Amâncio e da dona de casa Eunice, que nunca faltou na aula. Sempre pontual. Sempre de bloquinho e caneta na mão. “Anoto tudo, tudo, tudo, isso me ajuda, me organiza”.

É uma vida no controle. Fátima chegou cinco minutos antes do horário combinado para nossa entrevista, marcada para as 15h30. Em vez de um almoço, preferiu um café com bolo à tarde porque almoça no Projac mesmo, correndo, às 12h20. Ela acorda às 6h, às 7h está na Globo, e cronometra até o cafezinho: é às 9h. Abre a porta da reunião de pauta às 9h30. “O pessoal reclama que não deixo atrasar nem um minuto, mas tenho de entrar no ar às 10h10. A reunião dura uns 20 minutos, e ainda preciso ir ao banheiro, retocar a maquiagem, se não for assim não dá tempo”.

O bloquinho pauta inclusive o clã Bonemer. É Fátima quem marca o horário da depilação e da unha das meninas, manda o Vinícius e o William para o barbeiro, agenda a programação de todos-os-dias-das-férias, e se no caminho do Projac para casa uma filha liga – “Mãe, traz sorvete? – anota o sabor favorito e não decepciona. Sorvete na mesa.

Fátima não desliga. “Sou muito, muito ansiosa”. Quer ler todos os livros, saber todas as notícias, não perder os almoços com os pais, acompanhar o placar do Vasco, fazer aula de jazz, conversar com os filhos, cuidar das muitas orquídeas do jardim, ajeitar o fim de semana na casa lá de Itaipava, olhar os cachorros e escutar todo mundo. Tem os convidados do programa, os fãs, os amigos, a equipe. “Eu tô sempre devendo alguma coisa”, diz.

No programa trabalham umas 100 pessoas (incluindo cenografia, técnicos etc). Só na produção do conteúdo, 60. São 70 minutos diários no ar. O diretor Boninho comanda o barco, mas Fátima sabe de tudo. No início ela quis algo mais ousado: anônimos e famosos misturados na plateia, dando opinião sem ordem de importância. Deu bagunça. Crítica e espectadores não entenderam a democracia da coisa. “Dava mesmo um ruído em cena essa mistura, foi preciso colocar na frente os famosos, aos poucos fomos ajustando o formato, eu vou e volto na plateia, ficou mais dinâmico”, diz ela, enquanto bebe mais um copo d’água.

Antes de anunciar que sairia de vez do Jornal Nacional, Fátima ficou seis meses fora do ar para o Brasil ir se acostumando com a ideia. Surpresas, mesmo as menores como um alisamento no cabelo, nem sempre são aceitas de cara, certo? “A gente não podia chocar o público, tudo tinha de ser feito com muito cuidado”.

Se a nova carreira não desse certo, ela não tinha um plano B, tipo fugir para o Taiti até todo mundo esquecer. “Sou tinhosa, sou virginiana. Pensei: vou fazer até dar certo. Eu acreditava muito no programa, sou uma pessoa super positiva”.

O resultado? Depois de um ano no ar (comemorado no dia 25 de junho, dia do aniversário do pai dela), além dos elogios, Fátima Bernardes ganhou o prêmio de apresentadora com mais credibilidade da TV no momento, uma pesquisa da revista Seleções. Tem aquela imagem da jornalista que sabe equilibrar todos os pontos de vista, mas de um jeito assim tão acessível como uma vizinha bacana para quem a gente abre a casa e o coração.

_ Onde a gente podia conversar?

_ No banheiro. Ninguém nunca me entrevistou no banheiro.

_ Então vamos pro banheiro.

Dercy Gonçalves (e que outra escolheria essa locação?), se ajeitou no vaso sanitário – fechado, claro – e Fátima sentou-se na banheira da casa da atriz. A matéria foi ao ar no Fantástico, em 1989, Dercy mostrando os perfumes, os cremes, abrindo gavetas, as duas papeando no show da vida como velhas amigas.

O detalhe do banheiro é bem Dercy, mas a cara confiável de Fátima convida qualquer um de nós, brasileiros, a chamá-la para um café lá em casa e a ficar amigo logo. Somos íntimos, afinal. A cada novidade, quando engravidou, ou quando ela pegou o avião para ver futebol na Copa enquanto o marido ficou em casa cuidando dos trigêmeos, estávamos de olho. E dando palpites. “As pessoas na rua são carinhosas comigo, perguntam da Laura, da Beatriz, do Vinícius, comentam meu figurino, mandam beijo para o William”.

Na mesa ao nosso lado duas meninas lhe sorriem, ela sorri de volta. Abre outro sorriso para as garçonetes do café, manda um “Tudo bem?” Não esquece a cara de ninguém. Ao ser apresentada `a fotógrafa Luciana: “Ficou ótima aquela foto que você tirou de mim da outra vez”. Vai a um restaurante, reconhece o garçom que é uma flor de sujeito e já a serviu antes em outro lugar. “Às vezes eu falo: você não trabalhava naquela pizzaria? Os garçons não acreditam”.

Esse imenso `a vontade com qualquer pessoa, não importa a hierarquia, lhe rendeu uma das mais tocantes entrevistas da sua vida. Foi com Rosa Cristina Fernandes, a mãe do menino João Helio, 6 anos, que em 2007 foi arrastado para fora de um carro, assassinado por assaltantes, um dos crimes mais chocantes da nossa história. Fátima foi escalada para falar com ela, declinou, não conseguiria entrevistar uma mãe com tamanho sofrimento, o que ia perguntar? Até que lhe disseram que foi a própria Rosa quem fez questão do seu nome. “Antes dessa tragédia com o filho, ela e a família estavam um dia almoçando no Outback na mesa ao lado da que eu estava com o William e as crianças. E ela comentou com o marido: eles são tão simples, são uma família como a nossa. Por isso ela quis falar comigo.”

Fátima gravou com Rosa e chorou durante a entrevista inteira – embora isso quase não apareça no vídeo. De outra vez, o Fantástico a mandou para o enterro do Senna, dia das mães. Queriam que ela entrevistasse Dona Neide, mãe do piloto. Não teve coragem. “Disse que podiam até me demitir, mas eu não ia conversar com ela, seria muita insensibilidade naquele momento”.

Dez anos depois, o repórter Ernesto Rodrigues, autor de uma biografia do piloto, convidou Fátima para um Globo Repórter sobre o Instituto Ayrton Senna. Ela reencontrou Dona Neide, contou o que tinha acontecido e propôs, açúcar nas palavras: “A senhora aceita me dar uma entrevista? Se não se sentir confortável, tudo bem”. Dona Neide topou. “Foi muito emocionante, ela estava cerzindo umas luvas do Senna, me mostrou, eu não aguentei e chorei”.

Depois dessas histórias, melhor comer uma coisinha. Fátima pede um chá e um bolo de maçã com nozes (“Será que é melhor do que o da minha sogra? O dela é sensacional”, fala para a garçonete), dá uma garfada no bolo de laranja da repórter, solta um “humm, que ótimo”. Somos quatro mulheres na mesa – além de entrevistada, repórter e fotógrafa, tem a Marcela, assessora de imprensa da TV Globo. O papo de mães, filhos, bolos, empolga. O assunto é dieta, beleza, medo de envelhecer, a vida aos 50. Fátima adorou o livro Meu pescoço é um horror, da roteirista e cineasta Nora Ephron, que faz graça inteligente desse momento de toda mulher. “Eu sou vaidosa, sei que um dia vou querer fazer uma plástica. Pelo William não faria nunca”.

Ah, o William. 24 anos juntos. Ela reforça que nunca quiseram ser grudados, o casal telejornal. Torcem um pelo outro. São românticos. Todas as quintas saem para jantar, só os dois. São caseiros – mas ela conseguiu a proeza de fazer William dançar –, no máximo saem para visitar casais amigos, pais de amigos dos seus filhos, como o ator Luigi Baricelli e a mulher.

Fátima é, sim, bem família. Menina, levava amigos e namoradinhos para conhecer os pais, porque gostava, gostava de tomar lanche na casa, a conversa esticando, sempre chegava mais um. Hoje os pais moram na frente da sua casa.

Família portuguesa, conservadora, trabalhadeira, que criou as duas filhas para serem estudiosas e independentes – a irmã dela é cientista, mora na França – e bem educadas. Nada de subir nas tamancas. Educação na base do exemplo. Fátima repete o estilo com os próprios filhos. Adora um diálogo. Quer que seus filhos possam ser apaixonados pela profissão, como ouviu encantada o amor pelo ofício da boca das atrizes Laura Cardoso e Fernanda Montenegro.

Ou como ela própria. Que a cada dia tem o privilégio de ouvir histórias novas no seu programa, e reconhece qualquer coisa dela em pessoas tão diferentes. O carteiro que resolveu escrever cartas para velhinhos de um asilo para que eles não se sentissem tão sós – e os temas das cartas ele aprende com crianças, porque também lê para crianças nos hospitais. Ou o pai juiz que não tinha tempo de ler à noite para a filha porque chegava tarde em casa, então escrevia histórias para ela ler de manhã e melhorar o desempenho na escola.

Há pouco tempo Fátima recebeu a atriz Lília Cabral no programa e mostrou a gravação da primeira entrevista que tinha feito com ela, no Fantástico, em 1988. “Foi o ano que Lília despontou na TV, em Tieta, e ela dizia na entrevista que tinha sonhado a vida inteira em ser atriz e como era agradecida por estar ali. Eu nunca esqueci desse olhar dela, um olhar de respeito pelo que ela estava construindo”, Fátima diz, e é como se falasse com discreto orgulho do seu próprio momento de vida.

William manda um torpedo. Tinha feito uma pequena cirurgia, estava avisando que já voltava para casa. Fátima tem de sair – não sem antes nos perguntar se tudo bem, se faltava alguma coisa, se podia mesmo ir embora. É essa a Fátima, que nesses anos todos, atenta em cada gesto, vem nos ensinando a delicadeza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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