OS NOVOS DA MODA – revista Icaro

Cristina Ramalho

Pode já começar a treinar a grafia: Karlla Girotto, em São Paulo, e Wendell Braulio, no Rio, prometem sacudir a moda brasileira com figurinos tão longe da mesmice quanto seus nomes de batismo. Ela cria vestidos e saias que mais parecem esculturas, tramadas em cores que cantam como se acompanhassem uma orquestra. Ele subverteu a elegância masculina com calças e camisas de bolsões gigantes, recortes inesperados, cintos presos nos braços. Cada um no seu estilo faz a roupa gritar outros jeitos de ser e pensar, tudo tão moderno que nem os brasileiros se acostumaram ainda. Karlla tem mais peças nas lojas de Londres do que nas araras paulistanas. Já Wendell, que começou a carreira no ano passado, viu seus modelos e um texto elogiando sua visão contemporânea das coisas na revista italiana Collezioni, uma das favoritas de quem quer saber o que é vestir-se bem.

Há algo em comum nesses dois estilistas, embora nunca tenham se visto. É a tradução, nas roupas, de um universo muito urbano, que bem poderia ser assinado por qualquer japonês de vanguarda. Acontece que os cosmopolitas Karlla e Wendell, vindos do lado leste da vida, brotaram de árvores genealógicas quase medievais no ganha-pão de cada dia. Karlla, 28, nascida e criada na zona Leste de São Paulo, é neta de costureira e sapateiro, filha de dona de casa e açougueiro. Wendell, 30, da esquecida zona Leste carioca, trabalhava matando frangos no abatedouro do pai, no mesmo terreno de casa. Dinheiro não tinha para ninguém, lógico. Sobrava, então, além de uma vontade louca de sair dos trilhos, a criatividade para botar a boca no trombone. Ou melhor, nos tecidos. E olha só do que eles são capazes.

Karlla, a conceitual

O mais recente desfile de Karlla Girotto aconteceu na fina galeria Vermelho,em São Paulo, projeto assinado pelo arquiteto modernista Paulo Mendes da Rocha. Como a própria moda da autora, o desfile invertia tudo: espectadores circulavam pela galeria, observando as modelos paradas feito obras de arte. Moda conceitual, definiram os bem-pensantes e bem-vestidos que passavam por ali. “Imaginei essa coleção como uma orquestra, com as cores no papel de tons musicais: do preto, o mais grave, ao amarelo, o agudíssimo”, explica Karlla. Ela fala bem, é econômica nos gestos, usa óculos gigantes e escarpins de bico finíssimo. Por trás do look de garota antenada, porém, está uma menina criada como nos contos de fada. Nada a ver com as princesas bem-nascidas: Karlla e suas três irmãs, todas durangas, aprenderam com a mãe, Marluce, que tudo pode ser embelezado na vida. “Quando a gente ia para algum aniversário, a minha mãe falava assim: ‘vamos fazer o presente, vamos inventar o pacote, é muito mais bacana’, e nossos presentes, mesmo sem dinheiro, eram sempre os mais legais”, lembra a estilista.

Marluce sabia desenhar e passou o gosto para as filhas. As duas mais velhas, Keila e Karlla, também apreciavam sentar ao lado da avó enquanto ela pedalava a Singer, produzindo as roupas para a vizinhança. Na escola pública, as irmãs com K vestiam camisetas e mochilas que só elas tinham, muito antes do termo “customizada” entrar na moda. Também vendiam estojos confeccionados pela mãe. Coube ao pai a trilha sonora da educação: em casa, ele gostava de escutar a rádio Cultura, clássicos e músicas do folclore popular. Karlla tentou ser secretária (“era péssima”) e um dia seu chefe lhe indicou a faculdade de moda Santa Marcelina. “No curso, eu mudei meu olhar com as aulas da história da arte”, diz ela. Uma passagem rápida pela Ellus lhe deu certa noção do mercado, mas foi quando entrou no evento Casa dos Criadores (que dá espaço a novos estilistas talentosos) que estourou de vez.

No primeiro desfile, a mãe ao lado ajudando no corte e costura, inventou meninas aéreas como móbiles. No segundo, fez moda com mulheres glaciais (roupas meio espaciais) e magmas (“era uma imagem vulcânica”). No terceiro, já adorada pelos críticos, criou um clone de si, um duplo. Elogiada pelas revistas inglesas, como a i-D e a Vogue, ela não vê similares da sua moda no Brasil. “Admiro Rei Kawakubo, Alexander McQueen e Hussein Chalayan”. Se parece pouco brasileira nos gostos (aprecia Ingmar Bergman, Erik Satie e Francis Bacon) e nos croquis (seus desenhos são expressionistas como uma tela de Munch), ela ensina nas aulas que dá na FAAP o que aprendeu em casa com a mãe e o avô, um nordestino repentista: “A beleza está ao redor, temos que criar com o que está à mão”.

Wendell, o corajoso

O ano de 2003 vai ficar grudado na memória de Wendell Bráulio. Ganhou o prêmio de estilista revelação do Rio, fez seu primeiro desfile, foi elogiado pelos gringos, viajou para a Europa pela primeira vez, deu entrevistas, mudou de São Gonçalo para Niterói. A trajetória até 2003, porém, renderia uma novela do Gilberto Braga. Wendell nasceu no miolo do Jardim Catarina, periferia carioca, onde o Rio nunca foi bossa-nova. “Tinha droga, gente morta na rua, era punk. Ninguém acredita que vai sair de lá”. Aos oito anos ele começou a ajudar o pai no abatedouro, matando frangos. Para matar o tempo, mais angustiante, aprendeu a desenhar com o amigo Gilson. Tempos depois, o irmão caçula, Rafael, arrumou um emprego numa farmácia (hoje é o dono dela) e com seu primeiro salário comprou para Wendell um jogo de canetas. “Foi demais, minha vida começou ali”. Wendell já sabia pintar camisetas, aprimorou o estilo streetwear, desenhos que se vê entre surfistas e skatistas. “Eu adorava surfe, mas era ruim, e nunca andei de skate, sempre fui medroso”. Publicou um anúncio oferecendo seu trabalho e logo virou arte-finalista de uma agência.

Ao mesmo tempo, ele montou um negocinho com R$ 1 mil, comprando quilos de malha e criando camisas. Casou-se com a namorada Cíntia e foi tocando a vida, até que um dia, expondo numa feira, alguém lhe convidou  para estampar uma coleção da Osklen, conhecida grife esportiva do Rio. Foi a primeira vez que assistiu a um desfile. “Quando vi um monte de gente famosa aplaudindo roupas que eu tinha estampado, chorei”. Queria ser estilista. “Paguei a faculdade, a Cândido Mendes, com o dinheiro da venda de camisetas, era tudo muito sacrificado”.

Um professor virou seu guru e o incentivou. Wendell Braulio venceu o concurso Moda Mundi (eram 383 estilistas), ganhou uma passagem para Milão e só. “Não tinha dinheiro, mas inventei um flyer que dizia: compre uma gaivota (avião de papel) e mande um Wendell Braulio para Milão. Deu certo”. Na volta, foi chamado para o Fashion Rio e, com a ajuda da costureira Ermenegilda (que não é Zegna), fez todas as roupas do primeiro desfile em duas semanas, numa casinha de dois cômodos lá na Marambaia. Ele admira Alexander McQueen, Issey Miyake e Ronaldo Fraga e descobriu que sua inquietação criativa está na cabeça de muita gente boa das artes, de Keith Haring (em cujos grafites se inspirou nesta coleção) a Michelangelo (adorou a Capela Sistina). Simples, ama o Brasil e não faz pose. “Quem saiu do Jardim Catarina para onde eu cheguei sabe que tudo é possível. Não quero gringos comprando minha moda para as lojas deles, quero abrir minhas lojas lá fora. Eu quero colonizar”.

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