ISTAMBUL

A ponte das turquesas

 

 

Istambul é fácil de amar porque é aberta e doce, e capaz de ligar dois lados do mundo na mesma cidade. Única cortada pelo mar, ela se divide entre a Ásia e a Europa e revela, no novo e no antigo, histórias que cintilam lá na alma de todos nós

Cristina Ramalho   Fotos Luciana Cury

Ah, se fosse só pela história já seria fácil amar Istambul. Todo mundo aprendeu na escola que Istambul era chamada de Constantinopla, a cidade que pertencia ao Império Romano e era o centro do planeta entre Oriente e Ocidente, por onde passavam as rotas das especiarias, dos tecidos, e dos homens que atravessavam oceanos carregando a incerteza, a saudade de casa e aquela coragem de ver que mundo era esse, afinal.

A gente aprendeu também que, quando os otomanos tomaram a cidade, a mudança foi tão importante que nossa civilização pulou da Idade Média para a Moderna. E o passo a passo da humanidade é bem visível, particularmente na área de Sultanahmet, o bairro histórico que é, claro, o mais turístico: tem o hipódromo romano com quase 2 mil anos, ao lado da Basílica de Santa Sofia (hoje museu), que tem 1400 anos, a cisterna da Basílica, do século 6 (o passeio mais impressionante), e a famosíssima Mesquita Azul, herança otomana de 1615. Tudo ainda lindo, conservado, como um cenário de um filme desses em que se come pistache e as mulheres têm segredos e dão risadinhas por trás dos véus. Na real, é aqui mesmo onde circularam Alexandre, O Grande, os bizantinos, as Cruzadas, uns bons sujeitos, vários sanguinários, e mais metade dos nossos livros de história.

Ah, mas se fosse só pela geografia, seria ainda mais fácil amar Istambul. Isso porque ela é translumbrante e cortada ao meio pelo mar – no caso, o estreito de Bósforo, que liga o Mar de Marmara ao sul e o Mar Negro ao norte, e o Chifre de Ouro, braço de mar que forma um porto natural – e não por um simples rio, como Londres ou Paris. Com o mar turquesão no meio, metade de Istambul fica na Europa, a outra metade na Ásia. É a mesma cidade, de 15 milhões de habitantes que cruzam o Bósforo pela ponte ou pela balsa, todos os dias, e misturam, no seu jeito de ser, um pouco de cada continente. Os turistas costumam ficar no lado europeu, mas um dos melhores programas é comer peixe fresco no lado asiático. E olhar. E se maravilhar com o cenário desse lugar de coração escancarado para o mundo. Mar esse que tem a ver, de certa forma, com o Brasil: quando Constantinopla foi tomada, os descobridores tiveram de ir atrás de outros caminhos para a Ásia, e vai daí Cabral deu com os navios na Bahia.

Agora, Istambul é muito fácil de amar porque é aberta e doce, como uma dessas pessoas que se acha uma simpatia e se fica amigo logo. Há um quê de hospitalidade baiana nos turcos que são os maiores vendedores do planeta, que adoram puxar papo, uma turminha que sabe viver. Nas noites quentes, a população circula franca e risonha pelas ruas, em especial na Istiklal Caddesi, a principal de Beyoglu, ou passeando pelos bares cheios de bossa, coloridos do pedaço. Talvez só Londres, no momento, seja mais cosmopolita do que Istambul. Com tanta gente se expressando em roupas, jeitos, cores, raças, como tem de ser.

A cena musical que mistura alaúdes e música tradicional turca com grooves eletrônicos, batidas black e jazz do bom, os bares e galerias de Ortakoy, a decoração dos lugares, as vielas que abrigam cafés de narguilés misturado com música eletrônica e sotaques de todas as nações, a moda com novos designers aplaudidosem Nova Yorke Berlim, tudo é contemporâneo, vibrante, inesperado. Aquela Constantinopla por onde o mundo todo cruzava se encheu de graça novamente, continua linda e continua sendo a ponte entre o lado ocidental e o pedaço oriental da vida.

Becos com saídas

 

Você entra num predinho bem antigo, sem placa, desses de cinco ou seis andares, residencial, do início do século 19, pega o elevador velho, tudo simplório, vai até o último andar e…Lá em cima vai encontrar um restaurante bacanérrimo, decorado com peças de design, o terraço debruçado sobre o mar. Assim é um dos mais bacanas de Istambul, o Leb-i Derya, com vista maravilhosa e comida otomana. Assim também é o 5. Kat (5° floor), colorido, de visão estonteante. Outros tantos barzinhos escondem-se em becos com saídas inusitadas, com a vantagem que todo mundo aqui é sorridente, atencioso, mesmo os raros que falam mal o inglês.

Nos becos, você descobre saídas como a escondida Cicek Pasaji, que foi um mercado de flores e hoje é repleto de restaurantes. Ou a Fransiz Sokagi (French Street), totalmente restaurada, com cafés e restaurantes incríveis como o Cezayir (um lindo casarão art nouveau, que dentro tem paredes coloridas, móveis de design, cadeiras prateadas e comida deliciosa, contemporânea). Ou a Italianate passageway, um caminho estreitinho nos fundos da Istiklal Caddesi, com dezenas de cafés acolhedores, mesinhas na rua, onde se ouve jazz ao vivo. No deslumbrante Anjelique, em Ortakoy, o DJ é bem bacana e cerejas frescas e damascos estão em vidros, para serem apanhados no terraço do bar que se debruça sobre o Bósforo. O vento beija seus cabelos, navios passam tão perto.

A população reza para Alá, e embora o atual governo turco seja bem reacionário, o islamismo (ao menos em Istambul) é light, e aceita, docemente, moças ocidentais de decotes (bom, não abuse), turmas de gringos, outras paisagens humanas. Turcos, comerciantes que são, itinerantes que foram, cintilam diante de gente com moedas novas. Em qualquer loja, em qualquer banca do super turístico Grand Bazaar, ou qualquer biboca de especiarias do Spicy Bazaar, o vendedor vai lhe oferecer um chá de maçã ou um café turco, em copinhos lindos, acinturados, e vai perguntar sobre o seu país. Talvez ele saiba umas palavras em português (os vendedores decoram frases nuns 10 idiomas, além de falarem um inglês bem razoável), cite uns jogadores de futebol (Alex de Souza, que joga no Galatasaray, é ídolo), diga obrigado com um sorrisão. Para falar a verdade, nem é preciso comprar nada – um bom turco já se delicia em exercitar a sedução da venda.

Quando o turista é “ela”, e com predicados, a sedução triplica. Turcos flertam o tempo todo, mas não invadem o terreno. Sorriem, oferecem os chás, depois jantares, e mesmo que você, moça desacompanhada, não aceite, pode continuar tranquila, na maior. Eles só querem derreter as garotas. Deleite-se. Não vão lhe presentear com pedras preciosas, mas os homens aqui, ao menos no bate-papo, sabem encantar. Talvez herança dos sultões que cobriam de jóias as favoritas do harém – veja só no harém do Palácio Topkapi as façanhas de Roxelana, eleita do sultão Suleiman, mulher da pá virada de ruim. Bem, talvez o encanto dos turcos chegue com a brisa que sopra do mar e assopra histórias cheias de mistérios. A vida em Istambul é celebrar a alegria dos sentidos. Cheiros, sons e…Sabores, muitos.

Num dia de sol bom você sai, em clima bossa-nova, no doce balanço a caminho do mar. Sobe o aroma dos narguilés, fumados em cada café, às vezes por velhinhos diante de tabuleiros de gamão. Pelas calçadas, o cheiro bom dos mexilhões ou dos pães finos, vendidos em carrinhos (veja Box de culinária). No Spicy (ou Egyptian) Bazaar, o cheiro do açafrão, a hortelã estalando de fresca, os marsalas, o mel que exala sobre os doces. O sol está bom. O mar cintila. O canto alto e profundo vem das mesquitas, convocando a reza. Passam garotas cobertas com véu e outras tantas de minissaia e maquiagem. Algumas a caminho do Hamam, a casa de banhos, de preferência a Cagaloglu, em que as mulheres e os homens, em entradas separadas, serão massageados em salas de mármore de três séculos, histórias que escorrem pelas paredes, onde reis, rainhas e astros de cinema se deixaram exfoliar, usando, como única peça de vestuário, um tamanquinho de madeira para não deixar a peteca cair. Você sai do hamam quase em carne viva, mas revigorado, pronto para ver muito mais.

Então experimente enxergar a cidade inteira do lindíssimo bar 360°, no oitavo andar de um predinho histórico. Ah, e é de cima que se pode amar ainda mais Istambul. Sótãos de residências de charme misturam-se às varandas dos bares, o mar embaixo – nenhum prédio é muito alto, as mesquitas imponentes ao longe, as torres da católica Santa Sofia, a Ásia, a Europa, a memória, tudo ali. Vista assim do alto, Istambul nem cabe explicação. A brisa espalha histórias dessa que já foi Constantinopla, Bizâncio, Konstantinyye, e entre tantos nomes, Asitâne-i As’ adet, que, em turco do bom, significa lugar da felicidade. É impossível não se apaixonar por Istambul.

Box 1: Prazeres da mesa

Comer aqui é uma experiência maravilhosa. Pratos leves, saborosos, em que você reconhece, delicadamente, um pouco da Grécia, um pouco da Arábia, um quê Mediterrâneo nos temperos, na hortelã, na coalhada. Kebab é o clássico, uma carne grelhada (pode ser vermelha, frango ou peixe), deliciosa, servida com molhos à parte, pão, saladas estalando de frescas. Muito pepino (também no café da manhã). Muito azeite,em tudo. Asrefeições começam com os mezés, entradinhas, várias, irrecusáveis. Os doces também são incríveis, feitos de pistache, marzipan, frutas secas de todo tipo – em particular figos – e pudins com cara de mãe, como um doce de leite e frango (!), que é bom. Agora, para entender o que é estar em Istambul, é preciso provar a comida de rua. E sucumbir.

Tem os pães simit, algo como um bagel, vendido em carrinhos que parecem de pipoca, em todo lugar; tem os divinos midye dolmasi, que é um mexilhão grande, recheado com arroz, vendido em carrinhos ou na entrada de restaurantes populares. Você abre, pinga limão siciliano e recita um poema, de tão bom. Nos bares e cafés onde se fuma o narguilé, você pode pedir o gozleme (espécie de panqueca feita com pão de folhas finas, que uma mulher vai assando e enrolando na hora – um ritual rápido e preciso – com recheios variados). Ou o lahmacun, um pão do tipo sírio, muito fino, coberto com um molhinho à base de carne. Às vezes você coloca tomate ou pepino por cima, enrola e come, como uma fatia de pizza muuuito fina, quase transparente. No verão, tem milho verde em toda esquina, nos carrinhos. No inverno, é a vez das castanhas assadas. Para beber, sempre, ayran, algo como um suco de iogurte, levíssimo, muito bom, mais popular do que Coca-cola por aqui. Até o Mc Donald’s vende ayran. Ou então chupe um dondurma – o sorvete deles. E, claro, tem o Spicy Bazaar, para se perder entre especiarias, doces, maravilhas…

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10 Comentários (+adicionar seu?)

  1. karine rossi
    jun 07, 2011 @ 02:31:34

    … q vontade de estar lá!

    Seu texto me fez ver sentir várias coisas… e tb deu vontade ver. Posta fotos, Cris!

    Responder

  2. Beto Lofer
    jan 17, 2012 @ 11:49:13

    Um perfeita definição (ou seriam “definições”?) de Istambul… Uma sempre muito encantadora cidade – por vezes misteriosa, as vezes exibida – que merece ser visitada várias e várias vezes. Deu saudades de lá…
    Parabéns pelo belo artigo, Cris.

    Responder

  3. Miriam Gama Teixeira
    fev 19, 2012 @ 19:16:13

    Adorei a forma como você descrevei Istambul em seu texto! Dá vontade de ir para lá agora mesmo!

    Responder

  4. Lissa
    mar 10, 2012 @ 04:21:08

    Muito obrigada pelas dicas maravilhosas… estou indo em maio pra Stambul… me ajudou muito.

    Responder

  5. Júlio
    maio 26, 2012 @ 06:28:57

    Belo texto, sou fascinado em conhecer esta região, incluíndo a capadócia que parece ser um lugar de outro mundo. Tenho vontade de ir a Turquia (Istambul ) e na Terra Santa( Jerusalem) também Quantos dias acha suficiente para ficar em Istambul?

    Responder

  6. neza cesar
    jun 29, 2012 @ 21:37:06

    Cris querida, seu texto é fabuloso…. passa a magia de Istamul e me da a certeza que ainda preciso voltar lá muitas vezes mais… thx, Neza

    Responder

  7. Neza Cezar
    jun 29, 2012 @ 21:58:09

    AMEI AMEI AMEI !

    Responder

  8. crisramalho
    jul 03, 2012 @ 01:58:24

    Obrigada, Neza querida.

    Responder

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