trecho meu livro De Traços Abertos

capa_Baba_Vacaro

 

PRONTA PARA TUDO

(cap. 1 do meu livro De Traços Abertos, a história de Baba Vacaro e do design brasileiro no século 20)

 

A sua volta abre-se um Nordeste em minha sala, lembrança de vaqueiros, cangaço, Lampião e Graciliano. Ele me re-liga com uma natureza sem exuberâncias, sem românticas esperanças ecológicas, mas uma natureza viril, discreta, me trazendo um sentimento de coragem. E eu não estou mais sozinho. (O Mandacaru na sala de jantar, de Arnaldo Jabor, O Estado de S. Paulo, 2004).

 

Como é que um cacto que não precisa de água, nunca, nem de sol, tem esses braços abertos para o mundo, generosos, que convidam a gente a uma vã filosofia? A pergunta brotava na crônica escrita por Arnaldo Jabor, que escreveu sobre o mandacaru, uma flor-cacto que ele levou para a sala de casa e, forte como boa sertaneja, ficava ali elegante, imóvel, sem pedir nada, só esperando. E fazendo o autor pensar com profundidade sobre a natureza das coisas.

Baba Vacaro, que sempre gostou de pensar sobre a natureza de todas as coisas, leu a crônica no jornal e abriu um sorriso. Ficou com o mandacaru na cabeça. Nunca tinha visto a flor, mas achou da maior ternura a ideia de uma planta de braços abertos para a vida, simplicidade absoluta, capaz de adaptar-se a qualquer situação.

Então, um dia, Baba imaginou uma poltrona que dispensasse percinta, madeira e se mantivesse em pé, sem a estrutura básica, meio sem a água e o sol que dão estabilidade à existência. Desenhou apenas um miolo essencial. Dele saíam pétalas – na forma de seis almofadas que, dependendo de como eram apoiadas, convidavam a sentar, deitar, recostar-se para ler. Seis almofadas que podiam se abrir em leque, 180 graus ao gosto do freguês, e se deixar levar com certa poesia. Uma poltrona-flor, tão brasileira no jeito “fique-à-vontade”, quase prima da Mole de Sergio Rodrigues, ou da rede que cabe em qualquer canto e embala o corpo. Uma poltrona democrática, sem frescuras, capaz de encaixar-se naturalmente no cenário. Baba lembrou-se da flor do mandacaru. E do Jabor. E batizou sua criação.

A poltrona Mandacaru foi criada em 2005, para a coleção Dpot de mobiliário brasileiro. Recebeu menção honrosa no 19º Prêmio Design, no Museu da Casa Brasileira, no mesmo ano — e foi parar, logo depois, na capa do livro Design Brasil, 101 anos. A Mandacaru acabou se tornando a criação mais famosa de Baba Vacaro – que, nos seus quase 20 anos de carreira, criou poucas peças e sempre se esquecia de inscrevê-las em concursos –, talvez, porque a sua forma, se a gente for ver bem, revela espontaneamente o conteúdo da designer.

Baba sempre foi assim, 180 graus de curiosidade sobre o mundo, disposta a mudar de posição e, tal qual uma flor do sertão, brasileiríssima na capacidade de adaptar-se ao momento. Não que ela seja da turma conceitual que extrai mobília do improvável, fazendo mesa e cadeira com o que está à mão, de pneus a ripas de madeira e ursos de brinquedo, tirando um sorriso encantado de quem vê e reconhece o momento doce da vida.

Baba é de outra cepa, a do amor à lógica: seus desenhos são enxutos, precisos, inspirados no racionalismo da Bauhaus, e naquela filosofia “o-chique-é-simples” que vemos nos móveis escandinavos. Peças para serem usadas. Como as que ela viu, ainda no primeiro ano da faculdade, quando passava pela Avenida Brigadeiro Faria Lima, com um ar vagaroso, abraçada aos livros, de olho nas vitrinas da extinta Probjeto. Ali estava o que Baba queria fazer um dia: móveis funcionais, aparentemente tão fáceis, mas cheios de beleza, movimento, inteligência. Ela sentou-se no sofá Maralunga – o sofá mais feliz da sua vida – e se deslumbrou pelo estilo do italiano Vico Magistretti: “Ele era um racionalista mais humano, tinha um lado lúdico”, refere.

Deu nela a sensação da beleza inesperada, que é a simplicidade, igual à que experimentou quando, criança, leu as crônicas da coleção Para Gostar de Ler. Quem passou dos 40 vai se lembrar: crônicas de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga – autores geniais que escreviam de um jeito leve, arejado, como um bate-papo de chope na mão e nenhuma palavra fora de lugar: “Descobrir que era possível escrever como se fala foi algo incrível para mim”.

Sim, era possível ser prática e alegrar a vida. À sua maneira, Baba também embrulha a memória afetiva em soluções concisas. A crônica do Jabor que deu em poltrona, a gelatina colorida da avó (que inspiraria sua mesa Gelatina, também, criada para uma coleção da Dpot), as roupas dos japoneses Rei Kawakubo e Issey Miyake (que serviriam de impulso para os lustres de tecido da Dominici). Moda, pedaços de vidro colorido, literatura, a conversa na mesa vizinha, a cantoria com a amiga Márcia, o instante bom naquela viagem. Todos os assuntos cabem no imenso repertório dela – mas não importa muito se vão render peças com a sua assinatura.

Baba entendeu sua verdadeira vocação: editar tudo o que lê, vê, ouve e sente. Botar começo, meio e fim na história. Com tanto no mundo para prestar atenção, ela não se contentava em ficar só rabiscando o que desse na cachola. Queria avançar numa escala industrial, calcular os custos, dar realidade aos produtos. Queria entender desejos e facilitar a vida das pessoas.

“Nunca quis ser a designer autoral, inventar do nada uma cadeira. Sempre pensei em fazer o que faço: criar para uma empresa, a partir de um briefing, entender e traduzir as necessidades de uma marca”.

Desde os 16 anos, quando entrou no curso de design industrial na FAAP, ela sonhava em ser contratada para desenhar para o patrão (tudo bem, desde que ele a deixasse fazer o que quisesse) e resolver problemas. A menina que havia estudado em colégio só de garotas e se enfurnava numa oficina na edícula de casa para desmontar o motor da moto do irmão, cresceu respondendo aos porquês. Se fosse menino e jogasse futebol, Baba seria o Dadá Maravilha do campinho – era só lhe dar a problemática que ela viria com a solucionática. Adolescente, tempo de sobra, em vez de ficar rabiscando pendurada no telefone até a hora do jantar, ela pedia para passar as tardes na fábrica de papelão do pai e organizar as notas, toda a papelada. Mais tarde, recém-casada, faria o mesmo na empresa do marido – chegou a inventar um completo sistema operacional para agilizar o funcionamento do negócio.

Fazia tudo isso por puro amor ao raciocínio – e pela falta de um lugar para exercer seu ofício. Afinal, quando se viu com o diploma na mão, meados dos anos 80, não havia porta para bater e pedir trabalho. Lojas de design eram pouquíssimas, nomes como a Forma, Design Store, Interdesign, Teperman, com o fino do mobiliário europeu e quase nada de novo no front nacional.

O Brasil andava em mais uma fase de complexo de vira-lata. Com exceção do rock coloridíssimo da Blitz, Ultraje a Rigor, Titãs, não nos orgulhávamos muito de nossas produções – e design era, no máximo, coisa de casa e camisa dos yuppies, aquilo que a gente via em Nove e Meia Semanas de Amor. O jeito era riscar em outras superfícies. Baba, ao sair da faculdade, topou por um tempo pintar tecidos e fazer umas roupas cheias de bossa com a amiga Sonia, num ateliê que as duas dividiam: O Canteiro de Obras. Divertia-se. A dupla chegou a vender para a C&A. Mas roupa não era a praia de Baba.

Até que, em 1996, um amigo, dono de uma fábrica de réplicas de móveis ingleses, pediu-lhe uma mãozinha para modernizar o negócio. “É para já”. Em 40 dias, desenhou uma linha inteira com onze jogos de móveis, a Básica Design. E inventou uma profissão: diretora de marca. Dali em diante, sua missão seria botar ordem em outras casas: primeiro, na Dominici, onde foi contratada, em 1999, para dar uma cara mais competitiva à empresa de luminárias. Baba resgatou, nas caixas do passado, lustres sensacionais das décadas de 50, 60 e 70, puxando um fio condutor na história da iluminação brasileira. Também achou que estava na hora da Dominici entrar na moda, e mesmo sem conhecer ninguém do ramo, pegou o telefone atrás da nata dos estilistas e convidou uma turma boa para criar uma coleção especial. Um deles, Ronaldo Fraga, botou na cúpula da luminária versos do Drummond que ele leu quando criança. Ora, tinha tudo a ver – Drummond, como Ronaldo, como a própria Baba, sempre refletiu o mundo à sua volta.

Baba cintilou. Então, estava no caminho certo. Logo depois, ela foi cuidar também da direção da Dpot e novamente lançou um olhar carinhoso no passado para dar futuro à loja: organizou o acervo, trouxe de volta à glória nomes como John Graz, Fulvio Nanni, Geraldo de Barros e inventou coleções que traduzem, com apuro e poesia, um jeito de ser brasileiro nos móveis. Seu papel de curadora foi se estendendo: a cada ano, ela vem propondo novos temas de coleções, chamando designers célebres, ou jovens transbordando talento. “O grande patrimônio são as pessoas que a gente reúne ali”. Assim, ela ajudou a definir o caráter da Dpot: o de narradora da história do Brasil em mobília.

Outras empresas esticariam o olho para o trabalho dela, e lá foi Baba cuidar da tradicional prataria Saint-James – ali propôs a coleção Pequenos Luxos Cotidianos, na cabeça a frase de Frank Lloyd Wright (“Jantar é, e sempre foi, uma grande oportunidade artística”), e entre seus convidados a desenhar, estava até o sushiman Jun Sakamoto. Fez tapetes lindos para a Avanti. E já que ela curte uma geometria, por que não inventar tecidos com os mosaicos daquela viagem a Veneza?

Surgiu, então, a coleção para a Casa Rima. Alguém percebeu que ela falava tão bem quanto pensava e convidou Baba para soltar a voz na rádio Eldorado, spots curtinhos sobre o design que passa despercebido no nosso dia a dia e pode ser tão essencial.

O que Baba projetou, sobretudo, foi a importância do design. Em seu escritório, Design Mix, que fica no mesmo pedaço da casa onde era a edícula em que desmontava geringonças, elabora peças novas, alinha identidade de marcas, prepara as aulas para cursos específicos, as palestras, os textos deliciosos, matérias para revistas sobre tudo um pouco: as viagens, os livros, as pessoas formidáveis com as quais esbarra, os designers que busca pelo mundo inteiro atrás de uma ousadia, um sujeito lá da Nova Zelândia que faz luminária em madeira, nada lhe escapa. Quando anda na rua, ela espia pelas janelas e imagina a vida que acontece dentro das casas que não pode visitar.

Ah, as casas. Por ideia do amigo Alberto Renault, com quem trabalhou nas cenografias para as exposições da Dpot, Baba topou fazer uma série de televisão, Casa Brasileira, no GNT. “Nunca tinha feito nada disso, mas não tenho medo de aprender”. Encaixou o quesito “roteirista de televisão” no currículo. Com Alberto e o patrocínio da Dpot, ela viaja por São Paulo, Rio e Bahia, visitando as moradias de grandes arquitetos, artistas, ou de desconhecidos que conversam de porta aberta e cafezinho na mesa. Como um mandacaru em salas de jantar, salas de estar, quartos, cozinhas, Baba testemunha o espírito da casa brasileira. “É o conforto prático da vida moderna com o conforto emocional, a mistura do popular e do erudito, passado e presente, as sensações do café com pão de queijo, a memória do quintal”, escreveu uma vez.

Planeja fazer um programa de rádio da Dpot, que traduza a alma da marca, quem sabe além-fronteiras pela internet, o celular, todas as mídias. Seu caminho está mais para a comunicação do que para o desenho. Mandacaruzando-se, Baba quer se abrir em 180 graus para o mundo inteiro, mostrando que o design, mesmo nas coisas menos importantes, pode trazer um momento de aconchego, uma sensação boa, qualquer coisa de inesperado – e a vida fica até mais fácil.

Porque a verdadeira função de Baba Vacaro é essa: a de alegrar, informar, informar o que funciona, a beleza, ou uns momentos de afeto.

 

 

 

 

 

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