CYNTHIA HOWLETT

 

por Cristina Ramalho foto Jorge Bispo

Podia ser um ritual de menino, como uma iniciação de cowboy: o garotinho que segue o pai no mar. Vão no barco, num dia de sol bom, nem precisam falar para sentir aquela intimidade, como se pensassem em voz alta suas coisas mais simples. Noutro dia o pai ensina a mergulhar lá da pedra do Arpoador, os dois vão cada vez mais longe, o medo de repente desaparece, e vem o sorrisão e a dádiva: sentir o mar como o habitat natural. Mas essa história é de menina – faz parte da biografia de Cynthia Howlett, 34, hoje apresentadora de TV do programa Perdas & Ganhos (no canal GNT), famosa pelo corpo impecável, o marido global, o ator Eduardo Moscovis, e o estilo intrépido, de se atirar em qualquer esporte.

Lá mesmo da pedra do Arpoador que ela, barrigão de nove meses da filha Manoela (hoje uma fofura de quatro anos e olhos azuis), pulava diariamente para nadar até o Posto 9, em Ipanema – voltava a pé com o maiô pingando, aquela felicidade ao sol, um jeito bossa nova de começar o dia. “As pessoas me diziam: ‘Cynthia, você é doida, a bolsa pode estourar, você pode ter uma cãibra’, mas eu sabia que nada ia me acontecer, o mar me reenergiza sempre”, ela diz à V num almoço tipicamente carioca, o prato cheio de saladas coloridas e grãos. Ela comenta sobre a comida, pede sobremesa sem açúcar (“Nunca como açúcar refinado nem farinha branca, vou ter de comer carne vermelha agora pelo bebê”). Está grávida de novo, de 3 meses, mal se nota.

Cynthia, verbete de saúde, está sempre magrinha, elástica, dando piruetas rasgada em sorriso, aquela barriga riscada na régua, que – ah, inveja – não precisa ser encolhida nem quando bate a luz. Com esse perfil não demorou a ser eleita Musa do Verão pelo Jornal do Brasil, em 1997, tempo em que as musas ainda brotavam espontâneas nas areias cariocas, tão distantes dos reality shows. Com ela, dizem, foi até o contrário: recusou-se a posar, tiraram as fotos e a botaram na capa. Só muito mais tarde que iria parar na TV, quando o pessoal do Sport TV enxergou naquelas curvas a melhor definição de esportista radical e a convidou para fazer o programa Pé no Chão, e depois o Qual É a Boa?, ao lado de uma fornada de cariocas igualmente atléticas, bundas empinadas e coxas prontas para a glória. “Foi ótimo, dois anos viajando com as meninas, fazendo todo tipo de esporte, mas depois não queria mais esse formato. Queria aprender coisas novas”.

Nas fotos sempre de biquíni não dá para ver, mas Cynthia fez – e faz – muitas outras coisas. Formou-se em Direito. Quando foi para a rádio escrever boletins sobre qualidade de vida, achou que estava na hora de aprender mais e cursou jornalismo. Sempre atenta à natureza, fez um MBA em meio ambiente na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), foi do conselho consultivo da WWF (World Wild Foundation, uma das mais respeitadas ONGs ambientais do planeta), fez documentários para TV francesa, escreveu um livro sobre sua primeira gestação (Gravidez Saudável), apresentou um quadro no programa Alternativa Saúde, com Patrycia Travassos. Escreve artigos sobre natureza e direito ambiental, fala das políticas públicas na área, discorre sobre o Código Florestal. “O Du (Moscovis) me fala que eu preciso ser mais focada numa coisa só, mas sou assim, aberta para tudo”. Agora, por exemplo, que apresenta o reality Perdas & Ganhos (ela acompanha candidatos com problemas de peso nos cuidados com a saúde e a dieta), Cynthia resolveu estudar nutrição. Está no quinto período da Estácio de Sá.

Nas horas vagas, foi campeã de ginástica olímpica, rodopiou por dez anos na capoeira, surfou um bocado, e hoje limita-se a correr, nadar, praticar pilates e dança. Mal sobra tempo de botar um vestidinho para a aula de pintura, no Parque Lage, que faz ao lado da filha. Ser mãe, além de aumentar sua preocupação com o universo, lhe apresentou mais uma atividade: ela é dona de uma casa de festas infantis, Jardim Secreto, que como tudo em sua vida tem de ser muito natural. “Fazemos festas com aquelas brincadeiras de antigamente, sem videogame, os salgadinhos são mais saudáveis, cachorro quente, pipoca, nada de frituras, as músicas são boas”.

Tanta saúde até atrapalhou na hora de apresentar seu atual programa. No início Cynthia fazia os exercícios junto com os participantes. Não foi uma boa. Sujeitos gorduchos, sem fôlego, só podiam se sentir intimidados quando pingavam de suor já no primeiro passo enquanto aquela sílfide ainda nem tinha se aquecido. “Mudamos o formato, não vou mais junto, a ideia é estimular as pessoas, não inibi-las”, ela me diz. Mudou a visão de mundo conhecer gente com vida tão diferente da sua? “Ah, o que me impressiona é ver as pessoas abrirem mão da vida. Acho que todo mundo precisa se priorizar, não no sentido egoísta, de abandonar o outro, mas do cuidar de si, do seu corpo, ficar saudável, fazer coisas boas, tentar ser feliz”. Ela quase se constrange ao confessar que não se lembra de um momento muito doído na sua vida pessoal – chorou mesmo com a morte do Rafael, filho da sua grande amiga Cissa Guimarães.

Penso em Ziraldo, de quem alguém disse uma vez que escrevia muito bem, mas faltava drama na vida para ele ser romancista. Cynthia é assim alegre, despretensiosa, grata à vida. Um pouco vem pelo DNA: ela é filha de uma família viajada, que a ensinou o amor aos esportes e ao espírito livre. O pai é um diplomata francês e aventureiro (Patrick Howlett-Martin, que a levava ao mar desde pequenina, é mergulhador, fotógrafo de golfinhos, escreveu um livro sobre as grutas do mar de Capri, rodou o mundo). Quando Cynthia tinha cinco anos, ele alugou um conversível e viajaram só os dois pelas curvas da Riviera Francesa. Também se divertem em cenários de inverno: fazem snowboard em Courchevel, Aspen… A mãe é uma brasileira cosmopolita (Maria Luiza, formou-se na Sorbonne, onde conheceu o marido, depois trabalhou por 25 anos com Ivo Pitanguy, casou-se de novo com um cirurgião plástico e adotava crianças, recebia quem pintasse em sua casa).

Outro tanto vem do cenário. O Arpoador, nessa história, é muito mais do que um pano de fundo. É um personagem ativo, com enredo, psicologia, aventura. Cynthia nasceu no apartamento onde foram feitas as fotos que você vê aqui, e hoje ali moram o pai dela, sua segunda mulher, a argentina Micaela, e o bebê Micael, 1 ano, irmão caçula da nossa entrevistada.  Ela cresceu olhando a vida sem fronteiras, mar e céu de soneto à disposição na janela do quarto, e era só sair do elevador para brincar na areia de talco com os filhos de Roberto Marinho, e namorar o filho do porteiro do prédio. Cynthia é uma versão moderna de uma longa e linda linhagem feminina do Arpoador, garotas independentes, quase todas filhas de europeus, que cresceram mergulhando no mar, braço a braço com os rapazes, podiam beijar o rapaz da barraca de praia, um dia liam filósofos franceses e no outro escolhiam o biquíni preferido. Eram Tonia Carrero, a escritora Marina Colasanti, a musa da bossa nova Ira Etz. A primeira a usar um duas peças no Brasil foi a alemã Miriam Etz, em 1936, ali no Arpoador. A primeira a dançar naquelas areias, diz a lenda que nua, foi Isadora Duncan.

E foi numa festa nesse apartamento do Arpoador – quando ela morava sozinha ali, enquanto o pai viajava pelo globo e a então única irmã, dois anos mais nova, morava com a mãe – que Cynthia conheceu Eduardo Moscovis, recém-separado, levado pelo amigo Marcelo Serrado. “Ele tinha duas filhas pequenas, achei uma roubada”, diz ela, fugindo do esporte radical que é o casamento. Acabou sucumbindo, casou na primeira gravidez. É uma moça de família. Para esta matéria, chamou a irmã, a filha, as fotos feitas enquanto o pai e a madrasta brincavam com o bebê Micael, todo mundo na sala, descalço, a vista abracadabrante do mar, uma calma de verão. Fazia um dia lindo lá fora.

 

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