trecho meu livro O Brasil Genial

 

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BRASILIDADES

(cap. 6 do meu livro O Brasil Genial da Oficina de Agosto )

    Na estação de Tiradentes, lá pelos anos 40, tinha uma inesquecível empadinha de galinha. Quando o trem ia chegando, os meninos de calças curtas, lá do colégio interno em São João del Rei, se embolavam na plataforma para comprar. Um dia um homem enorme se agarrou na escadinha, fechou a passagem e quis levar todas as empadas do tabuleiro. A vendedora, magrinha, viu a cara dos meninos e numa única frase fez a justiça: “Num vendo não. Todo mundo tem direito, uai”.

Quem contava essa era o escritor Paulo Mendes Campos, belo-horizontino, autor das melhores definições de mineiros que existem. “Todo mineiro é uma ilha”, dizia Paulo. Ilhas mais ou menos desconfiadas, de poucas falas, sempre bem-humoradas e implacavelmente justas. Mestres na dissimulação. Como outro conterrâneo ilustre, Otto Lara Resende, que quando perguntado se deixaria o Rio de Janeiro, onde morava, para voltar a viver em Minas, respondeu escorregando: “Meu filho, eu não mereço”.

Mendes Campos, Otto, Hélio Pellegrino e Fernando Sabino formavam o quarteto irreverente de cronistas inseparáveis. Em comum, tinham a identidade mineira na certidão de nascimento e muito mais na graça sinuosa, de dizer como quem não quer nada a palavra certa no instante da história em que essa palavra se faz imprescindível. Ídolo deles era Carlos Drummond de Andrade, de Itabira, e próximo ainda havia Pedro Nava, de Juiz de Fora. Outras gerações de mineiros correriam atrás das letras e da promessa de vida no coração que era o Rio de Janeiro, onde boa parte dos escritores – e desenhistas, como o genial Ziraldo, de Caratinga – se fixariam para sempre. Murilo Rubião, Fernando Morais, Fernando Gabeira, Affonso Romano de Sant’Anna, Ivan Ângelo… A lista dos que se mandaram das montanhas para o Rio ou dobraram a estrada até os salários mais gordos de São Paulo é gigantesca. E, claro, é de Minas aquele que, ao lado de Machado de Assis, é considerado o maior de todos os autores brasileiros: Guimarães Rosa.

Tão mineira quanto uma goiabada com queijo é a habilidade para contar histórias. O causo da mulher da empadinha caberia muito bem numa conversa distraída em Bichinho, lá no bar do Mauro, entre um gole e outro, mas sem alarde. O que vale é o poder de síntese. Ou poderia ter inspirado o estilista Ronaldo Fraga, que como bom belo-horizontino observa minuciosamente clientes, amigos, parentes… E depois traduz esse amor pelas histórias alheias em roupas que parecem ter vida própria. Seus desfiles são crônicas com enredo e personagens, quase sempre do folclore familiar. Para se ter uma idéia, no desfile Álbum de Família, Ronaldo homenageou nos vestidos, sem dizer palavra, sua Tia Maria, que se arrumava toda quando alguém morria e ia ao velório, mesmo que o morto fosse desconhecido. E ali ela chorava, se descabelava, e como era gaga, conseguia os melhores lugares, porque o pessoal achava que estava emocionadíssima. Aproveitava, então, para arrumar namorados.

Se a gente for ver bem, as roupas de Ronaldo, muito modernas, mas com um bordado, um não-sei-quê da vovó, são mais ou menos como as peças da Oficina de Agosto: fazem da memória afetiva o seu playground. Não é aquele humor do Rio de Janeiro, da beira-mar, ensolarado e sem juízo. É a verve mineira, enxuta, de uma longa linhagem contadora de histórias. Num quadro, numa escultura, num vestido, num papo quase monossilábico, brota a fina flor do varejo da vida.

 

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