Quem tem mãe não tem medo

 

                

“Quem tem mãe não tem medo, a não ser da própria” – a frase é do Henfil, e usei essa como epígrafe na história que escrevi sobre a minha mãe, Gladys, para o meu livro Aprendi com minha mãe (que traz 52 histórias de mães de famosos de A a Z, de Arnaldo Jabor a Ziraldo, e tem Ronaldo Fraga, irmãos Campana, Suplicy, Costanza Pascolato…). Republico aqui abaixo porque hoje, 25 de agosto, minha mãe faria 72 anos. Queria que muita gente a tivesse conhecido — e quem conheceu que se lembre dela hoje também.

Por Cris Ramalho

  Aconteceu numa noite de autógrafos de um livro do Teotônio Vilella. Na fila, bem na nossa frente, estava o Henfil. Minha mãe sorriu para ele, encantada – era sua fã – e mostrou o pé dela. “Olha só o meu pé, Henfil. Não é pé de mãe?” Ele, maravilhado diante daquele pé gordinho, tão confiável, acolhedor, veio com essa: “É pé de supermãe”. Henfil, além de cartunista genial, era famoso por classificar as pessoas de acordo com os pés de cada um. E minha mãe… Bom, era e é A Supermãe. Não apenas de mim – embora eu seja filha única –, mas dos irmãos dela, do meu pai, dos meus amigos, de todos que iam chegando e, depois do nascimento da minha filha, ainda aprimorou o estilo no papel de superavó.

Talvez os pés gordinhos tenham dado a base genética para tamanha vocação. Ou, mais provavelmente, o talento tenha brotado, dolorido, com a ausência da mãe dela. Minha avó morreu jovem, quando mamãe tinha 18 anos, e mesmo antes disso, doente, internada durante anos num hospital, não houve muito tempo para as duas. Sem saber o que era ter mãe, a minha resolveu ser mãe. No sentido literal, cuidando da comida, da casa, das roupas sempre impecáveis, passando noites acordada porque eu tinha febre, ou não chegava, abrindo mão de qualquer coisa sua por mim. No sentido figurado, ouvindo atenta às histórias de cada um, sempre pronta a atender os desejos alheios e a acreditar em todo mundo, tanto faz se é conhecido ou não. Minha mãe, quando quer, consegue ser ingênua como a D. Nenê, da Grande Família, para citar uma bem típica. De olhar doce, lágrimas fáceis e mãos capazes de um purê de batata que eu vou te contar.

 Como nem tudo é o que parece, ela também pode ser o oposto do clichê maternal. Bonita, cabelão, de roupas coloridas, blush e batom em qualquer tempo, sou testemunha do seu sucesso desde quando ela ia me pegar, sempre de sapato de saltinho, na porta do jardim da infância. Até hoje, pode estar de cabelo molhado e ar distraído, faz bonito em cena. Um amigo meu diz que, com aqueles olhos verdes, ela é uma mistura de Liz Taylor com Maysa. Na adolescência, aliás, meus amigos logo se tornavam amigos dela. Como o Sérgio Crusco, da faculdade, que um dia telefonou lá em casa à minha procura e, como eu não estava, ficou de papo com ela. Comentou que estava triste, estávamos todos combinando de viajar para Cabo Frio, mas o pai dele o proibiu de ir e não lhe deu dinheiro. Conselho da minha mãe: “Vou lhe dizer uma coisa, Sergio: Todas as vezes que obedeci meu pai eu me ferrei. Vai viajar. Se você quiser, passa aqui que eu lhe dou o dinheiro”. Ele foi, claro, e repete essa história até hoje…

 Comigo, nem preciso falar. Minha mãe faz tudo para me ver feliz. Ela sempre achou que ninguém se compara ao bebê aqui, e me deu e dá tanto amor que ficou meio difícil para eu encarar o restante do mundo. Já de pequena, no Pré, foi duro entender que nem todos me achavam essa gracinha. De lá para cá, a coisa só piorou. Cada vez que noto que não estou agradando, me pergunto: “Como assim? Minha mãe diz que eu sou incrível”. Mas aí é só voltar para o colo dela, ganhar um monte de beijos e ouvir que o mundo é assim mesmo, que tudo bem. Um ritual que repito com minha filha, Nina, embora com menos freqüência, já que ela é bem mais resolvida do que eu. Amar a filha acima de tudo e se derreter de tanto amor: taí uma coisa que aprendi com minha mãe. Herdei ainda a mania do exagero.

 Como toda boa história de amor, essa é recíproca: também acho que mãe como a minha não existe igual. Como alguém com uma vida tão sofrida pode ser capaz de tanta generosidade? Quando a minha avó adoeceu, meu avô até tentou cuidar dos quatro filhos (minha mãe é a terceira), mas precisava trabalhar à noite, como contador. Enquanto os irmãos ficaram um tempinho no colégio interno, ela morou uns meses com o pai num hotel em frente à Estação da Luz e foi lá da janela do quarto que ela, seis anos e de mãozinhas grudadas nas dele, assistiu ao incêndio da estação, viu cair o relógio e guardou na memória um momento de afeto. Ele acabaria distribuindo as crianças entre a parentada, e sobrou para a minha mãe uma tia terrível. Depois que ficou viúvo, meu avô se casou de novo, reuniu os filhos e foram todos morarem Ribeirão Preto. Mas havia uma madrasta, e não era uma madrasta qualquer. Minha mãe viveu dias de Gata Borralheira, limpando a casa, trabalhando fora, cuidando dos irmãos e ouvindo coisas injustas.

 Nos dias que a situação apertava demais, ela pulava a janela e ia dançar um bolero nos bailes à tarde. Logo seria um broto de cintura fina, medidas de miss (“93 de busto, 59 de cintura e 93 de quadris, eu tinha um corpinho, só achava minha cara meio redonda”, ela me diz, sempre) e um sorriso que lhe garantia bombons e elogios no balcão da farmácia onde foi trabalhar. Só que uma cidade de interior nos anos 50 estava bem distante da Copacabana dourada que a gente vê nas canções bossa-nova. Ali, na real, não se podia nada, nenhuma risada mais soltinha, que logo se ficava “falada”. E minha mãe, que queria morrer diante de tanta mediocridade, teve de se contentar em exercer o espírito livre nos sonhos, nos livros, e numa ou outra resposta irônica para segurar o muito que dizer. Com 20 anos voltou para São Paulo, acabou morando com os irmãos, casou-se em seguida e, por uma dessas coisas da vida que não se explica, acabou optando por ser livre só no espírito. Continuou limpando a casa, cuidando dos irmãos que a toda hora pintavam na área, segurando barras bem pesadas de família, salvando os outros de encrencas e ouvindo coisas injustas.

 Mas aí eu já estava na história. Única filha, única mulher diante de um mundo masculino (mamãe não teve irmãs, só homens ao redor) para ela partilhar, desde pequena, suas ideias e umas pequenas fugas da chatice diária. Minha mãe pode ter parado de trabalhar fora, pode ter deixado de realizar uns desejos só dela, mas a alma continuou independente como uma Isadora Duncan. Ela me incentivou a seguir o rumo das minhas venetas, e até quando fiquei grávida, estudante desligada, achou ótimo e nem pensou se eu deveria me casar – assim aprendi a liberdade. (mas me casei mesmo assim). Ela me fazia confidências e sempre soube me ouvir – assim aprendi a confiança absoluta. E se no meio do caminho surgiram histórias trágicas, nós nos segurávamos uma na outra. E saíamos – como fazemos até hoje – para um almoço glamouroso num dia cinzento ou para um passeio leve, comprando bobagens, dando risadas e tomando um Chicabon.

 Foi para ela que contei quando descobri o amor. Ela que sabia das minhas coisas, enquanto minhas amigas se espantavam, não contavam nada para as mães. Posso estar em Bangcoc ou no sertão do Ceará, mas é com ela que falo todos os dias pelo telefone.

Se não falar, fica faltando alguma coisa em mim.

 Eu gosto de pensar que também é bom ficarmos juntas sem dizer nada. Talvez sossegadas numa cadeira de praia, olhando o mar, num dia de sol bom. Então uma hora ela vai comentar comigo sobre o que está lendo – quem sabe algo do Rubem Braga, ou do Jabor, que ela adora – vamos rir ou chorar um pouquinho juntas e de repente vai bater uma felicidade, que é de tudo, de um instante bom, da nossa eterna sintonia. E vou pensar que também sou mãe, quero que a minha filha possa sempre escolher ser feliz, e a história se repete.

 Só não sei se dá para eu ser uma mãe tão especial quanto ela – e isso até minha filha, desde pequenina, já anteviu. Quando ela estava com uns quatro anos, fez um desenho que, de tão simbólico da família, preguei na porta de entrada do nosso apartamento. Num lado da folha, o desenho grande de uma menininha de mãos dadas com uma mulher, cena de segurança e conforto total. “Quem são essas, Nina?”, perguntei. “Eu e a vovó”. “E essa outra aqui, sozinha no canto?” “É você, mamãe”. A do canto, lá longe, era uma magrela dançando. Essa arte de ser mãe, definitivamente, é difícil de aprender.

 

Minha mãe

 Gladys Giovannetti Ramalho nasceu em São Paulo, no dia 25 de agosto de 1939, quase junto com a Segunda Guerra Mundial. Aos cinco anos, ficava na fila do pão nas madrugadas durante a Guerra. “Na minha vez, o pão sempre acabava e baixavam a porta do forno na minha cara”, contava, rindo. Na adolescência, morou em Serra Negra e em Ribeirão Preto e, aos 20 anos, mudou-se de volta para São Paulo. Ela e meu pai, Tarcisio, se conheceram na praia, em 1962, de maiôs e cabelos molhados. Marcaram encontro em São Paulo, na porta do cinema, e não se reconheceram, bem-vestidos e penteados. Quase que ali acaba uma história que seria longa… Casaram-se em novembro de 63. Sempre estiveram juntos em tudo, pais incríveis e, como avós, adoráveis.

Ela faleceu em 22 de outubro de 2010. Meu pai, agora, está ainda mais juntinho de mim e da minha filha – acho que a Gladys curte isso.