PERFIL ADRIANA CARRANCA

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Por Cristina Ramalho

 

Ela devia ter uns quatro anos e passeava feliz da vida de sainha curta e mãos dadas com os pais pelas ruas de Santos, onde nasceu, quando viu, do outro lado da calçada, uma mulher careca em surto, faca na mão, berrando do terraço de casa. Uma pequena multidão se acotovelava para ver, dava para ouvir os gritos dos passantes: “Louca! Pega! Mata!” Então a polícia chegou. Bateram muito nela.

Quarenta anos depois, ao contar agora essa história, Adriana Carranca não se lembra dos detalhes, mas não esqueceu as expressões nos rostos das pessoas. Muito menos a expressão no rosto da mulher.

“Cheguei em casa chorando, eu era muito pequena, e perguntava porque eu não era como ela, porque não tinha aquela raiva, porque falavam dela assim, porque batiam nela”. Poderia ter um caminhão de hipóteses para tantos porquês, mas não demorou muito até intuir que o jeito de chegar nas respostas era um só: ir atrás dos outros. Escutar. E, quem sabe, entender. A menina que fugia para espiar como viviam as crianças do orfanato lá da rua de trás virou jornalista e escritora premiada, menção honrosa no Prêmio Esso, duas vezes vencedora do Líbero Badaró, colunista dos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo.

Jogou um pano legal por cima dos cabelos e correu pelos países muçulmanos, foi à faixa de Gaza, à Síria, à África, ao Irã, ao Paquistão. Escreveu reportagens e livros sobre o cotidiano dos refugiados, tolerância religiosa, a vida no Afeganistão ou o tanto que a gente desconhece a respeito das mulheres muçulmanas. Um dia falou de Ronaldo e Kaká e conseguiu rasgar um sorriso na cara fechada do Mulá Abdul, um líder do Talibã, e ele acabou lhe dando uma entrevista.

Agora, fama de dar autógrafos, ser reconhecida na praia por crianças de sorvete na mão, entrevistada na TV, convidada para debater na Flipinha (versão infantil da Flip) com alunos das escolas de Paraty, Adriana ganhou ao escrever sobre uma outra menina inconformada e cheia de porquês. Malala Yousafzai, a paquistanesa de etnia pashtun que aos 11 anos começou a escrever um blog sobre a invasão de guerrilheiros talibãs na sua região, aos 14 sofreu um atentado por lutar pelo direito de toda garota de ir para a escola, e aos 17, em 2014, se tornou a mais jovem ganhadora do Prêmio Nobel da Paz. Não por acaso, Adriana fez questão de contar sua história em livro infantil, o lindo Malala, a menina que queria ir para a escola (Ed. Companhia das Letrinhas).

“Se a gente tem de mudar algo no mundo, a gente vai mudar pelas crianças, porque os adultos já têm muitas cascas, muitos preconceitos, passaram por várias coisas. A criança é aberta. Se desde pequena ela não enxergar a diferença, ela vai ter outro olhar para a menina de rua, vai crescer com outro olhar para o mundo”, ela me diz no camarim do MuBE (Museu da Escultura, em São Paulo), onde participou de um debate do canal GNT sobre igualdade.

Quando escreve para a garotada, faz de um jeito tão claro e sensível como é sua conversa: franca, voz doce, olhar firme. Mas escolhe temas de arrepiar os cabelos daqueles pais que ainda teimam em falar com os filhos no diminutivo. Em Malala tocou na intolerância, explicou o que é o Talibã, descreveu de um jeito tão descomplicado o atentado a bala.

No próximo livro, para crianças bem pequenas que ainda não lêem sozinhas, vai tratar da igualdade de gêneros. É sua primeira ficção: O menino e o espelho mágico, para uma coleção de livros digitais do Itaú Cultural. Fala de um principezinho entediado no reino azul que acaba escapando dali e conhecendo uma menina do reino rosa, e dali para frente as cores se misturam e bacana mesmo é viver todos os tons do arco-íris.

Mal botou o ponto final nessa história, só deu tempo de conversar comigo, correr para arrumar a mala e enfiar o passaporte na bolsa. Adriana foi passar uma temporada entrevistando crianças refugiadas de vários países, e também velhos que foram crianças durante o Holocausto ( “Quero juntar as gerações porque uma tem muito o que ensinar para a outra”) para outro livro, uma grande reportagem para leitores na faixa dos 12, 13 anos.

Foi com Malala que ela inaugurou esse estilo reportagem infanto-juvenil. Traz um punhado de detalhes e muita informação, tudo descrito com tanta leveza e um quê de contos de fada, porque o cenário onde a garota nasceu e cresceu, o Vale do Swat, encravado nas montanhas entre o Paquistão e o Afeganistão, não parece coisa desse mundo. Um lugar de reis, rainhas, príncipes e princesas de verdade, vilões com nomes exóticos, guerreiros herdeiros de Gengis Khan que até hoje mantêm tradições milenares, como sentar de cócoras – eles não acreditam em cadeiras – e esconder as mulheres como parte valiosa do seu patrimônio.

Em outubro de 2012, dias depois do atentado contra Malala, Adriana atravessara mar e montanhas para entender essa região bombardeada, sem eletricidade (só algumas horas de gerador por dia), sem água encanada, de onde brotou aquela menina luminosa. Espiou a casa simples de Malala. O seu quarto. Conheceu as amigas, como a Kainat e a Shazia, garotas espertas, fãs do Harry Potter e da série Crepúsculo, igualmente corajosas e baleadas no mesmo ataque. Foi à escola, fez umas compras no mercadinho, conversou com um príncipe e com o médico. Hospedou-se na casa do tradutor Sana e sua amável família pashtun, tomou o café da manhã com leite tirado de uma cabra delivery e o pão feito na hora no forno a lenha. À noite, todo mundo se sentava ao redor do fogareiro para ouvir as histórias do avô.

Tirando o detalhe da cabra, e de um ou outro hábito dessa turma que vive quase da mesma forma há dois mil anos, não era uma casa tão diferente do chalé de madeira onde morava a sua própria família em Santos. Avô, avó, tio, tia-avó, dois primos, todo mundo morando junto. Mezzo italiana, mezzo portuguesa, uma gente trabalhadeira, afetuosa. Dinheiro, quase nenhum. O avô de Adriana gostava de se sentar no primeiro degrau da escada, ela no terceiro, e ele perguntava: “Para onde a senhora quer viajar?” Ela respondia qualquer coisa e embarcavam num ônibus imaginário. Passava as tardes fazendo macarrão com a avó italiana ou jogando tômbola na casa da avó portuguesa que mal sabia escrever e pedia para a neta caprichar numas cartas para os artistas de rádio.

Adriana entrevistou Malala ao vivo e em cores na Europa, e conheceu seu pai, Ziauddin Yousafzai, dono da escola no Swat que insistia que as meninas continuassem estudando. Ziauddin se orgulhava do interesse da filha primogênita pelos livros, ensinava quatro idiomas às alunas, ainda que respeitasse as normas dos pashtuns – escola, só até a primeira menstruação, quando as moças têm de ajustar o foco da existência para o casamento. Quando Malala era pequena, ele lia poesias para ela antes de dormir.

A vida vem em ondas como o mar e, na hora, Adriana lembrou-se do Norberto, seu pai, que do lado de cá do oceano lia com ela nas noites quentes um fascículo por semana de uma enciclopédia de capa vermelha e repetia, com ênfase: “Antes de tudo, estude. É o que importa. Só pense em se casar depois”.

De algum jeito, ela e Malala pertenciam ao mesmo território.

Na verdade, nem precisava ter saído de Santos para aprender que do Paquistão ao Oiapoque, de Nova Iorque a Nova Iguaçu, somos todos muito mais iguais do que acreditamos. Quando ela era aluna bolsista do colégio Objetivo, encantou-se com um professor de artes, Renato Di Renzo, e se ofereceu para ser voluntária no famoso projeto de inclusão social criado por ele na cidade, o Tamtam, que começou como intervenção no então hospital psiquiátrico Anchieta e cresceu, transformando a vida dos pacientes e de quem mais chegasse. Renato lhe revelou algo muito maior e fundamental do que a importância de aceitar as diferenças. Mostrou que não era nem para se enxergar as diferenças (“Ele me perguntava: você se acha muito normal? Conhece gente normal? Gente normal toma remédio? Bebe?”) .

Ele fazia teatro com o improvável, como uma bailarina que dançava com os braços porque não tinha as pernas e um Romeu que esquecia as falas para sua Julieta. “Ele dizia: lidem com isso. Meu melhor ator tem amnésia”. A solução do grupo veio rápido: Romeu montava um cavalo falante que servia de ponto – falas garantidas, sucesso total. “Nunca comentei sobre isso, acho que o Renato nem sabe, mas ele foi responsável por muito do que eu sou”.

Inevitável que, como jornalista, Adriana sempre se engajasse na cobertura dos assuntos ligados aos direitos humanos. PCC, favelas, Fundação Casa eram o seu cotidiano no Estadão. Acabou fazendo mestrado em Políticas Sociais e Desenvolvimento em Londres, na London School of Economics, e foi correspondente na ONU, em Nova York, pesquisadora na Universidade de Oxford e integrou um projeto de reportagem internacional da Universidade Johns Hopkins de Washington. É do tipo aplicada: pesquisa muito, se prepara demais, tenta se proteger ao máximo contra os muitos riscos – seja o de escapar de uma zona de ataque ou do vexame de não fazer algo nos trinques. Para escrever Malala, por exemplo, entrou num curso de literatura infantil.

Mas no que interessa, o coração da matéria, está sua imensa capacidade de chegar junto. Adriana não julga. Desaparece, se veste como os locais, se esconde numa burca quando é preciso, fica morando nas casas de famílias, mais observa do que pergunta. A resposta dos entrevistados também volta – quase sempre – limpa, direta, no tom. E traz belezas inesperadas.

No Irã, ela mal desembarcou no país viu passar um táxi com o letreiro Women`s taxi. Anotou o telefone. A motorista que foi pegá-la contou, orgulhosa: casou-se obrigada aos 15, teve dois filhos, odiava o marido e queria o divórcio. Como no Irã só homens podem pedir o divórcio, a moça infernizou o sujeito até ele sucumbir e separar-se dela. Filhos ficaram com ele – é a lei. Ela uniu-se a outras moças, aprendeu a dirigir, montou a cooperativa que tem 900 táxis, juntou dinheiro, comprou os filhos de volta e dirigia toda pimpona, ganhando seu sustento. Essa e outras mulheres de fibra, donas dos seus narizes e muito politizadas, estão no livro O Irã sob o Chador (ed. Globo) que Adriana escreveu com a amiga Márcia Camargos. Foi finalista do Prêmio Jabuti de 2011.

Na faixa de Gaza Adriana quis conhecer uma deputada do Hamas, uma mulher pequena, jovem, 34 anos, que simplesmente comanda 100 homens. Foi recebida no escritório, a mulher era uma mocinha de calça jeans e camiseta, sem véu. Adriana conseguiu ir até sua casa. Viu mulheres comuns, sofridas, gente como a gente, um bairro muito pobre. No quintal apertado, filhos brincando com foguetes e armas de brinquedo. Ganhava o jogo quem matasse mais israelenses.

Surpreendeu-se muito, no Afeganistão, como o povo era amável, ingênuo, mais de 80% de analfabetos, um país que enfrentou ao longo da história sucessivas guerras e no meio daquela secura do deserto os homens cultivam rosas, muitas rosas, lindas. Escreveu 11 perfis de personagens contando a guerra do ponto de vista dos afegãos, 10 anos depois do 11/9 e da consequente invasão americana no país – formam o seu livro O Afeganistão depois do Talibã (ed. Civilização Brasileira).

E apuros, não teve? Ôpa! Na Síria, viu um carro estacionado na frente de um prédio oficial e sentiu o coração disparar. Insistiu para entrar logo no prédio, e assim que passou a porta, como previra, o furgão explodiu, matando, entre outros, seu tradutor curdo que tinha ficado do lado de fora. No Afeganistão foi assistir a um jogo, uma espécie de polo medieval, o tradutor saiu uns minutos e homens com fuzis Kalashnikov começaram a cutucá-la. Adriana, de burca, sem saber falar uma palavra, congelou de pavor. “Pensei: fui sequestrada”. Dali a pouco reaparece o tradutor esbaforido, que tomou uma dura dos sujeitos armados: que tipo de cavalheiro era ele que não arrumou uma cadeira para a estrangeira se sentar? “Eles só estavam me tratando bem”, ela ri. No Vale do Swat, descobriu só na noite em que chegou que o irmão do seu tradutor era um guerrilheiro talibã. Felizmente, já estava preso.

O marido, Jacyr (conheceram-se nos Estados Unidos, em 1995, ele estava lá estudando engenharia, e estão casados há 10 anos), diz que o coração aperta, mas entendeu que o melhor jeito de segurar Adriana é deixa-la ir. Já dona Terezinha, a mãe, ainda não dorme enquanto a filha não telefona.

Mas como ela própria escreve na abertura do seu Malala, “os jornalistas, como as crianças, adoram fazer tudo o que é proibido”. E é esse seu olhar de criança que vai atrás dos porquês de cada um. “Eu imagino sempre as pessoas como bebês, não sei explicar. As pessoas não nascem vilões, um talibã já foi um bebê. Não quer dizer que eu aceito quem ele seja, mas me ajuda a saber de onde vem a maldade, ou os valores que ele tem. Em algum momento aquele bebê deixou de ser como os outros. O que aconteceu? A gente precisa conhecer sua história. Até para nos proteger”.

Os guerrilheiros talibãs, ela explica, foram meninos tirados, na década de 1980 – ou doados – , ainda bem pequenos, das famílias afegãs muito pobres para estudar nas escolas religiosas, as madrassas. Continuaram analfabetos, mas foram treinados para guerrear contra os soviéticos, e decoraram o Alcorão em árabe (“eles não sabem falar árabe, decoram aquilo e repetem, não sabem o que está escrito”). Criados longe das mães e de qualquer garota. Só demonstram afeto entre homens. Fazem sexo com os meninos. Mulheres, só para a reprodução. “Como queremos que eles respeitem as mulheres?“, Adriana se pergunta.

“Por isso que eu sempre digo: o amor tem de vir antes. Temos de começar desde pequenos a aceitar os outros. Durante muito tempo eu sonhei em ter uma ONG de amizades, porque quando a amizade vem antes da guerra, o sentimento ajuda a relevar o conflito. Depois não adianta”.

Bem que ela tenta. Numa tarde quente como o diabo, conversando com rapazes do Hamas na faixa de Gaza, meninos armados de 17 anos, Adriana comentou: “Vocês têm tanto em comum com os meninos do outro lado. Acho que se aceitassem sentar numa mesa e tomar umas cervejas juntos ia ficar tudo resolvido”. Eles fecharam as caras: “Não podemos beber”.

Malala já declarou, num conhecido discurso na ONU, que sua vozinha lá do Paquistão foi capaz de subverter as coisas: “Uma criança, um professor, um livro, uma caneta, podem mudar o mundo”. A santista Adriana sugere a versão praiana: o bate-papo de cervejinha na mão, uma alegria real. Como deve ser a vida. Se algum dia o mistério do entendimento vai se resolver, nem os deuses sabem. Mas umas meninas como essas, felizmente, sempre hão de pintar por aí.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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KENGO KUMA VALOR

 

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Por Cristina Ramalho

A primeira ideia de Brasil do arquiteto japonês Kengo Kuma veio, como acontece com tantos estrangeiros, da música. Domingo, cinco da tarde, hora de tomar um chá e sintonizar a rádio J Wave para ouvir o programa Saúde Saudade, do DJ e produtor Jin Nakahara, que sabe tudo de MPB e suingue e toca, há muitos anos, o fino da bossa para os ouvintes em Tóquio. “Quem me falou sobre o programa do Nakahara foi meu velho amigo Sakamoto”, conta Kuma de Tóquio, por telefone, ao Valor. O arquiteto se deliciou com a leveza da música brasileira. Adorou Tom Jobim.

Kengo Kuma, 62, está entre os grandes arquitetos do mundo, hoje. Ryuichi Sakamoto, 64, você já sabe, mas não custa repetir: músico, ator, compositor, é um dos maiores artistas japoneses vivos. O encontro desses dois amigos que são a cara do Japão contemporâneo deu samba também no sentido figurado: Kuma e Sakamoto lançaram, em 2015, uma versão de um antigo jogo japonês de montar, o tsumiki, espécie de Lego em madeira. O arquiteto desenhou um bloco em formato de V, com aberturas nas pontas, e mil e uma possibilidades de criação: pássaros, casas, bonecos, um avião, o universo. Sakamoto, que tem uma ONG que atua em reflorestamento, a More Trees, colaborou fornecendo a madeira certificada.

Meses antes de lançar o jogo no mercado, Kuma e sua equipe montaram um pavilhão temporário de tsumikis gigantes na Tokyo Design Week, e crianças e adultos se esbaldaram. Mostrou que assim como os budistas acreditam que há um Deus no interior de todo ser humano, Kuma aposta que dentro de cada um de nós – por que não? — mora um arquiteto.

O tsumiki é um sambinha feito numa nota só da qual dá para se compor o que quiser. É também uma consequência do que Kuma mais gosta de fazer: juntar tradição e inovação. Pegar como base o lado mais clássico do Japão (o jogo original tinha ainda formas circulares, cúbicas, mas ele optou por usar só as triangulares) para enxugar as ideias e propor um jeito novo, lúdico, de construir a vida. Economia de espaço, materiais naturais, lirismo matemático. A beleza que é a simplicidade.

Tudo se encaixa.

Nos projetos arquitetônicos de Kuma, a madeira é tramada por experimentados artesãos, como um grande jogo de montar, formando estruturas de desenhos delicados, belos, que embalam os prédios, escondem/revelam a luz, deixam espaços vazios, proporcionam imagens poéticas como nuvens no céu. Caso da Sunny Hills, uma loja de bolos que Kuma projetou em Tóquio, casa pequena, que se tornou ponto turístico: as réguas finas de madeira, encaixadas em ângulo de 30 graus, dão um efeito de três dimensões. Um quê de conto de fadas.

É com essa filosofia tsumiki de enxergar o mundo que o arquiteto está chegando ao Brasil. Ele assina o projeto da Japan House, em São Paulo, um espaço previsto para inaugurar em 2017 e que pretende aprofundar as relações dos dois países nas artes, no business, e apresentar a contemporaneidade do Japão que nós, ocidentais, ainda pouco conhecemos (veja box). “O projeto tem de mostrar na sua arquitetura a essência da cultura japonesa e dialogar com a cultura brasileira”, Kuma explica. Criou uma estrutura de réguas de madeira trabalhadas por artesãos japoneses que conversa com uma parede de cobogós, os típicos elementos vazados da arquitetura brasileira modernista. A luz entra pelos espaços, formando desenhos, calma de templo em plena avenida Paulista.

“Vamos ter um jardim zen, com muito bambu, que é uma madeira tão japonesa e também tão brasileira”. Dentro do prédio de três andares, painéis deslizantes – chamados de fusumas – podem funcionar como paredes que se recolhem, abrindo espaços, ou fecham, dependendo da necessidade do momento. Afinal, esse é um projeto que nasce para celebrar a convivência.

Para acompanhar o andamento da obra, Kuma veio a São Paulo “umas seis, sete vezes”. Achou a cidade excitante, aberta a novas culturas, impressionou-se com o tamanho da imigração japonesa por aqui. Ele e sua equipe ensinaram artesãos brasileiros a trançar a madeira e, como sempre, Kuma se empolgou com a possibilidade de abrir o compasso, aprender algo novo. “Os brasileiros não têm uma cultura forte da hierarquia como nós, japoneses, e penso que evitar a hierarquia é muito importante, tento fazer isso no meu cotidiano”, ele diz. Trabalha com muitos jovens no seu escritório em Tóquio, o Kengo Kuma & Associates, uma equipe de mais de 40 pessoas. “Gente mais jovem me estimula demais”.

Ele criou um método de trabalho que chama de “humble method” (método da humildade). É o comedimento em ouvir o outro, trocar ideias, a cortesia oriental. Mas sobretudo é o comedimento na própria arquitetura – que ela deixe que a natureza fale. “A arquitetura deve ser uma moldura da natureza”, diz Kuma, que aprofundou mais ainda esse conceito depois de grandes acidentes naturais, como o tsunami e o terremoto no Japão. Não apenas usa os materiais naturais – argila, bambu, pedra, madeira – como busca integrar seus projetos aos lugares onde eles estão. Um estilo muito influenciado pelo amor ao seu ídolo de menino, o modernista Frank Lloyd Wright ( da arquitetura limpa integrada à natureza), e apurado pelo sentido de espaços vazios da arquitetura japonesa tradicional.

Quando criança, década de 1960, Kuma morava numa casa japonesa dos anos 1920, de madeira, com janelas e portas de papel, e morria de vergonha. “Meus amigos moravam em prédios de concreto, iguais aos americanos. Eu detestava a minha casa. Mas com o tempo fui percebendo que me sentia muito mais acolhido lá, que o concreto não me fazia sentir bem”. Quis trabalhar com isso, fazer casas, talvez. Mas o que definiu mesmo sua carreira foi entrar no Estádio Nacional de mãos dadas com o pai, nas Olimpíadas de Tóquio, em 1964. Tinha dez anos. E ficou de queixo caído com aquela imensa estrutura de concreto. Gostou mais ainda quando viu o arquiteto do estádio, Kenzo Tange, falando na TV. A Ásia vivia o boom da modernidade do concreto, grandes construções.

A vida vem em ondas como o mar e não é que Kuma foi escalado para projetar o estádio da segunda Olimpíada de Tóquio, em 2020? “Resolvi que vou criar o oposto: um estádio com muita madeira. Quero falar de harmonia, e a Ásia está voltada para a sustentabilidade, a criatividade, é outro momento”. Ele veio com a delegação japonesa assistir as Olimpíadas do Rio. “Achei tudo bonito”.

Como bom japonês, Kuma faz poesia ao mesmo tempo tão zen e tão high tech. No pavilhão do Buda, um templo em Touyoura, usou a mais moderna tecnologia do aço e o cobriu com barro, um deslumbre de leveza. Numa casa em Nagano, cortou as pedras externas em fatias finíssimas e criou ilusões com as luzes, um tipo diferente de transparência. Inventou uma casa de chá inflável no Museu de Artes Aplicadas de Frankfurt, tecnologia quase espacial combinada com ritual japonês. Fez prédios, museus na China, Inglaterra, França, está criando o projeto do museu V&A na cidade de Dundee, na Escócia, ganhou um sem número de prêmios. Tem um laboratório de pesquisas, o Kuma Lab, onde estuda sustentabilidade e novo uso de materiais.

A cada dia, diz, ele quer ser mais simples. “O arquiteto tem de ser um sushiman: fazer o máximo com o mínimo de elementos”. Tanto faz se em obras grandes ou pequenas, como ele cita num texto que escreveu comparando a arquitetura à literatura e citando seu escritor favorito, Haruki Murakami: “Murakami diz que escrever um conto ajuda a sintetizar e a buscar por algo que ele pode desenvolver num romance. Para mim, fazer uma casa de chá é como escrever um pequeno conto”. É ter aquele poder de síntese como numa canção bossa nova.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A falsa Marilyn Monroe e o verdadeiro Manhattan

Por Cristina Ramalho

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Em Quanto Mais Quente Melhor (1959), Marilyn Monroe improvisa um Manhattan durante a viagem de trem, com a bolsa de água quente como coqueteleira

O trabalho parecia moleza: botar uma peruca loira, fazer a pinta perto da boca, se apertar no vestido justo. Fani só precisava caprichar na vozinha rouca, tímida-sexy, levar o bolo até a casa do aniversariante, tocar a campainha e, quando ele abrisse a porta, a cereja do presente seria ela cantar, como a verdadeira Marilyn Monroe para John Kennedy, um sussurrante Happy birthday to you. Cachê: duzentos reais.

Quem teve a ideia foi a Adelita, namorada do aniversariante. Tinha essa fantasia: celebrar o aniversário do amado com uma surpresa hollywoodiana. Mas não se atreveria a ser a estrela – sempre de bege ou preto e branco, sempre a eficiente do escritório, com aquele rosto redondo, nariz de ursinho, não ia colar. Adelita achou o telefone de uma agência de telegramas animados. Ligou. Pediu uma Marilyn e um saxofonista.

– Então, além da Marilyn, eu quero um moço tocando o parabéns no sax. Uma cena de filme mesmo.

– Claro, querida. O sonho é seu, a gente realiza, respondeu a moça da agência.

Tudo certo. Manhã de sábado, Fani, apertada no vestido e tentando não entortar o salto do sapato um número menor, já se aprumava perto da porta. O moço do sax, terninho barato, ao lado. A namorada não se aguentava de ansiedade.

– Olha, eu vou me esconder atrás daquela árvore, ai, quero só espiar a cara de surpresa dele.

Fani achou graça. Queria ganhar prêmios no teatro, sabia de cor as peças do Antunes Filho, mas trabalho é trabalho. E bem que gostava da ideia de ser a Marilyn por 15 minutos. Era uma romântica. Achava da maior ternura fazer os telegramas animados e ver a reação das pessoas.

Tocou a campainha. Nada. Tocou de novo. Nada. Tensão no ar. A namorada começou a roer as unhas. “Toca outra vez”, sussurrou lá da árvore. Pééé. Péééé. Um sujeito meio gordo, descalço e só de cuecas, atendeu a porta. A cara dele não era boa. Fani arranhou a garganta, esticou o bolo em que se lia “Meu amor, my love, mon chéri”, e começou, sibilante: “Happy birthday to you…” O sax acompanhava.

– Mas que merda é essa? – disse o sujeito amassado de sono.  “Happy birthday, Mr. Taborda”, cantou a Marilyn, açúcar na voz. Então surgiram, por cima dos ombros do Taborda, as mãos de longas unhas vermelhas. Uma moça só de calcinha estava atrás dele. – O que foi, meu bem? , perguntou a das unhas.

– Te-le-gra-ma a-ni-ma-do da Adelita! – entoou a Marilyn a toda velocidade. O moço do sax, antevendo a tragédia, foi saindo, pé ante pé, a música soando cada vez mais longe. Adelita saiu chorando detrás da árvore.

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Marilyn, the real one, cantando Happy Birthday para o presidente americano John F. Kennedy em 1962

– Que que é isso, Adelita? gritou o Taborda. Fani deixou o bolo no chão e abriu caminho. Adelita avançou: “Seu canalha! Preparo a maior surpresa para você e você tá com outra”!

Fani pensou rápido e esticou as mãos: – São duzentos reais. O Taborda gritava cada vez mais alto. Adelita tentou pegar a só-de-calcinha pelos cabelos. Não se ouvia mais a música. O sujeito do sax já tinha desaparecido.

– São duzentos reais, insistia a Marilyn, que a essa altura já tinha arrancado os sapatos e só pensava em correr dali. Mas não ia perder os duzentinhos. Um gritava daqui, outra berrava mais alto, Adelita soluçava, Fani aproveitou o momento de fraqueza, ajudou a coitada da namorada abrir a bolsa, pegou seus duzentos, mais cem para o cara do sax, e se mandou.

Já que estava de Marilyn, que terminasse o dia com elegância cinematográfica. Calçou os sapatos de novo, foi até o bar de um hotel bacana ali perto, realizou um desejo: pediu um Manhattan. Era a bebida que a Marilyn Monroe, no papel de Sugar, improvisou no trem em Quanto Mais Quente Melhor, na cena em que o Jack Lemmon vestido de mulher aparecia com uma garrafa de bourbon. Fani não era Marilyn, Jack não era mulher, o Taborda não era o homem que Adelita imaginava. Mas o Manhattan, bem real, estava uma delícia.

Picapau e o Bombeirinho

Por Cris Ramalho

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– Mas por que eu?

– Meu bem, você é a única que cabe nessa roupa. E adora crianças.

Clara olhava desolada para a fantasia de Picapau sobre a cadeira. O inferno era a cabeça – um imenso cabeção de feltro, pesado, quente como o diabo, com penas vermelhas, medonho de feio. Os olhos eram também de feltro, grudados na cara. Para enxergar lá de dentro Clara tinha de olhar pelo bico. O restante do figurino não colaborava: um macacãozinho bem curto, azulão, com rabo de penas, meia calça e sapatilhas no mesmo tom.

Essa história aconteceu há um tempo. No tempo em que existia o videocassete e, consequentemente, as videolocadoras. O dono de uma delas achou que seria legal ter o Picapau na porta da loja, acenando para a garotada. Sobrou para a Clara: pequenininha, tipo mignon, ela era de fato a única adulta que entraria naquela fantasia. Também era verdade que adorava crianças. E foi pensando em ganhar um troco para ajudar a pagar a faculdade de Pedagogia que topou pagar esse mico. Três horas em pé, num calor de rachar a moringa, sustentando o peso do mundo no cabeção de feltro e dando tchauzinho.

O lado bom era o anonimato da coisa: ninguém a reconheceria por baixo do bico. Foi o que ela pensou enquanto acenava com a luva azul. A maioria das crianças nem respondia. Uns puxavam as penas da cauda. Os menorzinhos choravam alto, mães dizendo: “Não, querido, é só um pássaro bobo”.

A única que prestou atenção apontou para uma mancha na barriga do boneco, e berrou: — Mãeeee, a barriga do Picapau tá suja!

Firme, Clara. Já houve dias piores: aquele aniversário que a mãe de três meninos largou o menorzinho no seu colo, a fralda imunda, e sobrou para você trocar o cagão. E a viagem de Kombi até Campinas? Você e os rapazes vestidos de Jaspion e Changeman prontos para animar a festa num condomínio. A Kombi quebrou na estrada e vocês começaram a empurrá-la, na chuva, enquanto os caminhoneiros que passavam, gritavam, rindo: “Aí, Jaspion, força! Vai nessa, Changeman!”. Esse Picapau tava moleza.

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Mico: um dia vai chegar a sua vez de pagar

Assim meditando sobre as escolhas da vida, Clara aproveitou um momento de pouco movimento e sentou-se na muretinha em frente à loja. Cruzou as pernas azuis. Passou uma caminhonete de onde um sujeito suado, camiseta regata, anunciou em altos brados: “Ééé, Picapau, eu te conheço. Você é gostosinha”.

Pelo amor de Deus! Quanto tempo faltava para acabar aquela tortura? Que calor. Clara se recompôs, acenou, posou para fotos com crianças. Sentou de novo. Não conseguia saber as horas, mas devia faltar pouco. Foi então que um garoto de bicicleta, carregando uma sacola de laranjas, parou bem na frente dela. Enfiou duas laranjas com força bico adentro: “Come, Picapau, come!” – e se mandou.

Nem deu tempo de entender. Clara sentiu o golpe das duas laranjas bem nos olhos. Começou a chorar baixinho dentro do cabeção de feltro.  (“Nunca mais! Nunca mais!”)

Quando a tardinha caiu, o amigo foi buscá-la, como o combinado. Clara entrou no carro, arrancou o cabeção, espiou no espelho: dois roxos ao redor dos olhos. Ele quis saber o que tinha acontecido, ela só falou enfurecida, entre dentes: “Eu quero ir para um bar. Quero beber até cair”. Ela sempre tão certinha, que novidade era aquela?

Nem aceitou passar em casa para trocar de roupa. Quis parar num boteco de esquina, bem fuleiro. Sentou junto do balcão, vestida com o macacãozinho azul e com o cabeção nas mãos, como se fosse um capacete de motoqueiro. Viu um homem pedir uma pinga, e o moço do balcão completar com groselha. “É isso que eu quero”.
O amigo advertiu: “Isso aí é Bombeirinho, Clara, é forte para caramba”.  “Mais uma razão. Manda um, moço!”.Tomou um. Arrgh! Mas a groselha tinha um docinho bom. Tomou outro. “Vê lá, hein, Clara”.  E um terceiro. Ficou incontrolável.
A raiva pela humilhação, o calor, a dor do soco das laranjas, Clara ia se lembrando e bebendo mais. Vestiu o cabeção de Picapau, saiu trançando as pernas, e dava para ouvir debaixo de todo aquele feltro as gargalhadas abafadas dela. Clara agora era um Picapau bêbado, rindo sem parar e sambando na frente do bar.
Um bebum que assistia à cena pediu no balcão: “Eu quero aquela água que o passarinho bebeu, hahaha!”. Outro bêbado apoiado na parede, bem quieto, olhava fixo para aquele Picapau dançarino até concluir, muito sério, mas traído pela voz pastosa: “Eu acho isso normal”.

À mesa com Willem Dafoe

 

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Por Cristina Ramalho

 

Uma vez o diretor grego Theo Angelopoulos estava instruindo o ator americano Willem Dafoe como queria que ele fizesse uma cena. Angelopoulos não falava inglês, mas os dois se entendiam em italiano. Era a filmagem da Trilogia II: A poeira do tempo, 2008.

O grego sério, um tipo careca, de óculos, nariz talhado, caminhava de lá para cá, explicando:

_ Você vem por aqui, e daí faz assim, e cosí… Então sentou-se, olhou firme para o ator e soltou, enérgico, uma única frase em inglês:

_ And then … You cry!

Chorar? Dafoe não achava que era preciso, mas tudo bem, se era a vontade do diretor, assim seria. O grego insistia nisso.

Então veio o pior. Angelopoulos bateu palmas e gritou para a equipe:

_ Saiam todos! Dez minutos para o ator se concentrar!

Dafoe gelou. Já se sentia pronto para rodar, era o momento certo, que fizessem a cena logo. E agora?

_ Theo, volta aqui, volta todo mundo!

O ator contou essa história, imitando os gestos e o sotacão grego do homem, num encontro com estudantes de cinema da The Modern School Film, em Nova Iorque. “Aquilo me botou uma pressão, eu não queria nada, só queria filmar”, falou, expressão perplexa. Para quê complicar?

Repetiu tudo isso, rindo, nesta conversa com o Valor, a pedidos da repórter. Estávamos jantando no restaurante Skye, no hotel Unique, em São Paulo, na véspera de sua entrevista coletiva para apresentar Meu amigo hindu, que estreou ontem, 3 de março, filme estrelado por ele e dirigido por Hector Babenco.

Tanto para os alunos lá em Nova Iorque quanto diante do couvert, agora, Dafoe quis demonstrar que atuar, para ele, é simplesmente mergulhar na cena e seguir em frente. Porque Willem Dafoe, 60 anos, mais de 40 de carreira nos palcos, 108 filmes, papéis que vão do Duende Verde do Homem Aranha ao inesquecível sargento Elias de Platoon, do psicanalista no tenso Anticristo de Lars von Triers ao próprio Cristo de Scorsese e o Pasolini de Abel Ferrara, gosta mesmo de desaparecer. Livrar-se da tentação de analisar. Ser como uma tela em branco, e que o diretor tire dele o melhor.

_ Não fico pensando se meu estilo é esse ou aquele, é preciso fazer e pronto, a coisa tem de acontecer de um jeito ou de outro.

Dafoe não teoriza.

_ Não lembro qual escritor noir disse isso, mas é mais ou menos assim: quando você está desorientado, sem saber como continuar, tenha um cara com uma arma na mão abrindo a porta.

A frase real é de Raymond Chandler (“When in doubt, have a man come through a door with a gun in his hand”).

As histórias, o jeito despachado que ele conta, sua adesão natural ao momento. Uma simplicidade que em Willem Dafoe parece ser sua forma de enxergar a vida. O diretor quis desse jeito? Ok, o filme é dele. É para dar entrevista? Então o ator chega na hora, é gentil, aceita sentar mais para lá para o fotógrafo acertar a luz. Fãs no restaurante querem fotos? Pois não. Trata todo mundo bem, faz piada com sua pouca altura – sim, Dafoe é baixinho – e volta rápido para a mesa, focado para a conversa. Só pede, com delicadeza, para trocar de lugar por causa do forte ar condicionado. A hostess do Skye propõe desligar o aparelho. Tudo certo.

Ele está um pouco gripado e quer apenas água sem gás e, por enquanto, uma sopa de legumes de entrada. A assessora de imprensa, Claudia Sabbagk, também vai de sopa e escolhe um refrigerante. Mais águas, ceviche e polvo provençal como entradas para repórter e fotógrafo. De vez em quando, o garçom passa com uma cesta de pãezinhos quentes para abastecer o couvert. Dafoe pega um pãozinho multigrãos. Faz um barulho danado no restaurante, já está cheio, então estamos sentados bem pertinho um do outro para podermos conversar.

Antes da primeira pergunta, ele quer saber o que esta repórter achou do filme. Resposta: “A brincadeira é assim: quem faz as perguntas sou eu, você responde”. Ele ri.

O filme conta uma história inspirada no próprio Babenco: a do cineasta Diego Fairman, homem que descobre um linfoma e tem de lidar com a morte à espreita e a vida depois disso. Dafoe foi compondo sua atuação como muitas vezes costuma fazer: a partir da transformação física do personagem. Ele, que já é magro, vegetariano, e pratica yoga ashtanga há anos, teve de virar quase um faquir para perder 9 quilos.

_ Reduzi muito as porções, cortei o álcool, raspei a cabeça, as cenas foram em boa parte num hospital. Tudo isso vai ajudando a entrar no personagem, ele vai tomando conta.

_ Achou mais difícil interpretar um personagem inspirado em alguém que não apenas é real e está vivo, mas aqui, no caso, foi o seu chefe?

_ Não, isso não influenciou. Babenco tinha muito claro o que pretendia, mas de vez em quando queria que eu criasse o “meu” Diego. Na verdade palpitei muito pouco, e nem sempre acertava (risos). Por exemplo, nas provas de roupas. Ele nunca concordava com o que eu escolhia, dizia “Jamais eu usaria isso se fosse o Diego”. E escolhia outra. Tudo bem, não sou ligado em roupas, o Babenco entende, é todo elegante, presta atenção no que a gente veste — fala, meio gozador, sobre o cineasta, de quem é amigo há anos.

Já o cenário o ator conhecia bem: de pequeno, meio a contragosto, Dafoe ia seguindo o pai médico no trabalho pelos corredores do hospital e assistindo suturas, vendo injeções, observando pacientes. O que não estava previsto é que, uma semana depois de começar as filmagens aqui no Brasil, o ator receberia a notícia que seu pai havia morrido. _Ele estava bem velho, 97 anos, era natural que isso fosse acontecer logo. Mas realmente me afetou, e de alguma forma influenciou no meu trabalho. Meu pai era um homem muito esforçado e foi ficando mais doce com o tempo, sabe? Nossa relação foi ficando outra.

Três anos antes, sua mãe tinha falecido aos 90. Estavam morando na Flórida.

Os Dafoe eram uma típica família da pequena Appleton, Wisconsin, na América dourada dos anos 1950, com jantar farto à mesa, filhos educados, a felicidade tinindo nos eletrodomésticos, móveis de pés palito e firmes valores de vida. Quer dizer, sua biografia era para ter sido assim. Só que o pai, William, e a mãe, Muriel, enfermeira, trabalhavam juntos e nunca estavam em casa.

_Éramos oito filhos, cada um tinha um horário, a gente não conseguia jantar todos juntos e aquele roteiro idealizado pelo meu pai não deu muito certo.

Ele teve sorte: foi o sétimo da prole, quando Dr. Dafoe já não tinha tempo e paciência para ser rígido como foi com o primogênito, que não escapou de ser médico também. O pequeno Willem cresceu mimado por cinco irmãs, e elas lhe ensinaram umas coisas fundamentais da vida: corriam pela casa com um pênis desenhado em papelão pregado na calcinha e contavam piadas sujas.

Família classe média, trabalhadora, liberal, falava-se de tudo, e de política (“Wisconsin era um estado engajado, Milwaukee tinha sindicatos fortes, era bem socialista”, diz), mas para arrumar sua própria turma Dafoe começou a fazer teatro aos 17 anos. Gostou, e aos 18 entrou na faculdade de teatro Wisconsin, em Milwaukee. “Nem escreve isso, porque ninguém nunca ouviu falar”, ele brinca. Não terminou. Foi para a Europa em turnê com o grupo de vanguarda Theatre X, de Milwaukee. Na volta, se mandou para Nova Iorque.

Chegou numa cidade em ebulição, meados da década de 1970, quando era só dar uma voltinha no quarteirão e esbarrar com o Scorsese dirigindo De Niro e Harvey Keitel em Caminhos Perigosos, ou caminhar até a Factory de Andy Warhol para espiar a turma que circulava por lá: Truman Capote, Nico, Velvet Underground. Era uma Nova Iorque violenta, mas falava-se sobre arte conceitual, Philip Glass, John Cage, dança contemporânea, os aluguéis eram possíveis, bastava raspar o reboco de algum armazém para brotar um estúdio. Qualquer tema servia de estímulo para se fazer o que desse na telha. E o que aquela galera colorida que chegava de todos os lugares do país e do mundo menos precisava era de estímulo.

_ Eu tinha uma visão romântica de Nova Iorque, não gostei logo de cara. Fiquei sacudido com o que vi, era muita energia, as pessoas viviam cada dia como se fosse o último da vida delas. Aprendi um bocado.

Mais tarde sofreria com a perda de vários amigos que morreriam de Aids durante os anos 1980 e 90.

Mas com 20 anos, em 1975, um Dafoe cheio de ideias frescas era o mais jovem dos fundadores do The Wooster Group, dirigido por Elizabeth LeCompte, com quem ele acabaria se casando. O grupo, que ocupou um antigo armazém no SoHo também usado pelo pessoal do Fluxus (famoso movimento de arte que teve nomes como Yoko Ono, Joseph Buys e Nam June Paik), existe até hoje, e atualmente usa bastante tecnologia na linguagem. “É interessante, mas não é muito meu estilo”. Dafoe saiu de lá em 2005, mesmo ano em que conheceu, em Roma, sua atual mulher, a cineasta italiana Giada Colagrande.

_ Trabalhar numa companhia de teatro tão experimental e por 30 anos foi incrível, mas também limitador porque a gente tem de se dedicar tanto a ela que não há tempo para fazer outros espetáculos.

O fato de atuar nesse esquema explica seu jeito topa-tudo. Companhia teatral é sinônimo de trabalho artesanal, coletivo, ou seja, botar a mão na massa, de um toquezinho na iluminação à martelada no prego. Até Jack, seu único filho, hoje com 32 anos, cresceu nas coxias mas também entrou no palco, fez de tudo ao lado de pai e mãe.

_Acho que ele ficou cheio disso, porque virou advogado.

_ Como você é como pai?

_ Como uma mãe, hahaha! Sabe o que é, a mãe dele sempre foi workaholic demais.

As performances do Wooster sempre se misturaram com dança, e os atores se relacionavam com grandes mestres da dança contemporânea, como Merce Cunningham, Martha Graham, Pina Bausch. Dafoe se considera um dançarino, um pouco pelas piruetas no palco, e muito pelo conceito de atuação quase orgânico, de se colocar no próprio espaço e não refletir mais. Apenas seguir no ritmo.

_ Quando faço um espetáculo, termino a sessão com a sensação boa, aquele cansaço do dever cumprido. É como arar a terra, um trabalho físico, concreto, que se completa ali, na hora.

Surge o garçom, discreto, cardápio nas mãos. Quer saber o que vamos pedir como pratos. Decidimos repetir as entradas. Willem pede o polvo provençal com batata rústica, todos (com exceção da assessora, que pede um prato principal, o filet mignon ao molho de foie gras) acompanham, o garçom sugere uma porção dupla para cada um, os pratos são pequeninos. Que venham os polvos duplos.

No cinema ele começou no desastre de crítica e bilheteria que foi o filme O Portal do Paraíso (1981), de Michael Cimino. Desastre pessoal para Dafoe também, porque ele riu alto de uma piada durante o ajuste de iluminação, Cimino não achou a menor graça e lascou um “está demitido”. Cinco anos e uns filmes depois, ele se tornaria um astro ao fazer o sensível Sgto. Elias de Platoon (1986), de Oliver Stone. Não parou mais.

_ Faço grandes filmes, desses que dão bilheteria, para chamar a atenção para meus filmes pequenos.

Com aquela voz grave, o rosto fora do padrão hollywoodiano e o gosto por se atirar sem olhar, logo ganhou o coração dos cineastas mais autorais, mais doidos, mais intensos. Abel Ferrara (“Pasolini foi um filme sem script, intenso, criativo”), Lars von Triers (“Adoro o Lars, a gente se entende muito bem, e ele gosta de mudar constantemente”), Martin Scorsese, Wes Anderson, Spike Lee…

No teatro, fez espetáculos com outro gênio denso, Bob Wilson (“Já o Bob mantém sempre o mesmo estilo”), como a ópera experimental Vida e Morte de Marina Abramovic, em que ele, maquiado e de cabelos vermelhos, canta e faz diversos papéis ao lado da artista rainha da performance, numa visão poética sobre a vida dela. Ou a peça A Velha, ao lado de Mikhail Baryshinikov, montada em São Paulo em 2014. Foi durante essa turnê paulistana que sentou com Babenco, checou a agenda e topou fazer Meu amigo hindu.

Dafoe trabalha muito. Tem cinco filmes prontos para estrear em breve. Está fazendo mais um – projeto ainda em segredo – com sua mulher. Conheceram-se na rua, em Roma, apresentados por amigos comuns. Um dia, no impulso, ele a pediu em casamento durante o almoço, ela disse sim, ligaram para a Prefeitura e ouviram que, se chegassem em até duas horas, poderiam marcar o casório para o dia seguinte. Correram para lá e estão há quase 11 anos juntos. Escreveram o filme Before it had a name (Antes tinha um nome), drama romântico que Giada dirigiu e ambos atuaram sobre uma jovem italiana que vai a Nova Iorque. O filme abriu o Festival de Veneza de 2005 e foi relançado em DVD com o título The Black Widow (A viúva negra). “Ajudei no roteiro porque na época minha mulher não escrevia bem em inglês, mas não gosto de escrever. Não tenho o que dizer, porque quando penso uma história ela já se completa na minha cabeça, não vejo porquê contar”.

Giada é 20 anos mais jovem que ele e adora o Brasil (para onde já vieram algumas vezes) – mas não pôde vir dessa vez. Quando pequena, sua casa vivia cheia de artistas, amigos da mãe dela, que tocavam e cantavam bossa nova, uma alegria com cara de verão que ficou na sua memória. A italiana ainda busca patrocínio para um filme que pretende rodar em breve no Brasil, chamado Trópico.

O casal passou o réveillon retrasado no Rio com Seu Jorge, amigo chegado de Dafoe desde que eles fizeram o filme A vida marinha com Steve Zissou (2004). “Adoro a sogra dele, a mãe da Mariana, ela é cool, você conhece? “

O garçom retira os pratos. Sobremesa? Dafoe dispensa. “Não sou de doces”. Pede um chá, acompanhando a assessora. Creme brulée de milho com pipoca com chocolate e cheese cake de limão siciliano com sorvete de tangerina para repórter e fotógrafo. Falamos de comida, sabores preferidos, ele diz que gosta de cozinhar de vez em quando, de cuidar da casa, lavar a louça.

_ Gosto de fazer essas coisas simples, acho que ajudam a gente a meditar.

Hoje, vivendo mais em Roma do que em Nova Iorque, sai a pé para comprar umas coisas nas mercearias ao redor do seu pedaço, a Piazza Vittorio. Adora caminhar pelas cidades. Já Los Angeles não é a sua praia.

_ Vou, vejo meus amigos, é legal, mas Hollywood não tem a ver comigo. Em Nova Iorque posso ligar para um amigo e falar “vamos tomar um drinque” e ele vai. Em Los Angeles tenho de marcar com antecedência, o cara vai checar a agenda com os assessores, tudo é complicado.

O jantar está chegando ao fim, pedimos a conta. Dafoe confessa que às vezes acha que devia se calar e nunca mais dar entrevistas. Por quê? “Não me acho tão articulado, e também já me senti traído às vezes”. Será que tem recado aí, terá a repórter perguntado algo que não devia? “Não, não, é um receio meu. Acho melhor as pessoas não saberem de tudo. Assistir a um filme sem saber se aquele ator é rico, ou pobre, ou hetero ou gay. Se eu ler numa entrevista, por exemplo, que um ator gosta do Donald Trump, não quero mais ver nenhum filme dele”. E dá risada.

_ Mas você se expressa de tantas formas, não pensa em dirigir um filme?

_ De jeito nenhum. Quero estar no meio da brincadeira, não quero ficar olhando como os outros estão brincando. A verdade é que no fim das contas não importa a carreira que a gente escolhe, o mais importante são as pessoas para mim. Trabalhar com gente, é disso que eu mais gosto.

Ele se despede com um abraço afetuoso. Chegou há um dia, na manhã seguinte tem coletiva, fotos, todo o ritual de astro que parece não combinar com esse sujeito que diz, de alma sossegada, “Nunca sou a primeira escolha para os papéis, e tudo bem”. Mas o ator vai encarar papel real inédito agora: acaba de ser avô. “O bebê se chama Tom”, conta, e abre um sorriso de quem está num momento certo da vida. É só seguir em frente. Para quê complicar?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A falsa Marilyn Monroe e o verdadeiro Manhattan

Por Cristina Ramalho

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Em Quanto Mais Quente Melhor (1959), Marilyn Monroe improvisa um Manhattan durante a viagem de trem, com a bolsa de água quente como coqueteleira

O trabalho parecia moleza: botar uma peruca loira, fazer a pinta perto da boca, se apertar no vestido justo. Fani só precisava caprichar na vozinha rouca, tímida-sexy, levar o bolo até a casa do aniversariante, tocar a campainha e, quando ele abrisse a porta, a cereja do presente seria ela cantar, como a verdadeira Marilyn Monroe para John Kennedy, um sussurrante Happy birthday to you. Cachê: duzentos reais.

Quem teve a ideia foi a Adelita, namorada do aniversariante. Tinha essa fantasia: celebrar o aniversário do amado com uma surpresa hollywoodiana. Mas não se atreveria a ser a estrela – sempre de bege ou preto e branco, sempre a eficiente do escritório, com aquele rosto redondo, nariz de ursinho, não ia colar. Adelita achou o telefone de uma agência de telegramas animados. Ligou. Pediu uma Marilyn e um saxofonista.

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O Manhattan servido no restaurante português A Bela Sintra, em São Paulo

– Então, além da Marilyn, eu quero um moço tocando o parabéns no sax. Uma cena de filme mesmo.

– Claro, querida. O sonho é seu, a gente realiza, respondeu a moça da agência.

Tudo certo. Manhã de sábado, Fani, apertada no vestido e tentando não entortar o salto do sapato um número menor, já se aprumava perto da porta. O moço do sax, terninho barato, ao lado. A namorada não se aguentava de ansiedade.

– Olha, eu vou me esconder atrás daquela árvore, ai, quero só espiar a cara de surpresa dele.

Fani achou graça. Queria ganhar prêmios no teatro, sabia de cor as peças do Antunes Filho, mas trabalho é trabalho. E bem que gostava da ideia de ser a Marilyn por 15 minutos. Era uma romântica. Achava da maior ternura fazer os telegramas animados e ver a reação das pessoas.

Tocou a campainha. Nada. Tocou de novo. Nada. Tensão no ar. A namorada começou a roer as unhas. “Toca outra vez”, sussurrou lá da árvore. Pééé. Péééé. Um sujeito meio gordo, descalço e só de cuecas, atendeu a porta. A cara dele não era boa. Fani arranhou a garganta, esticou o bolo em que se lia “Meu amor, my love, mon chéri”, e começou, sibilante: “Happy birthday to you…” O sax acompanhava.

– Mas que merda é essa? – disse o sujeito amassado de sono.  “Happy birthday, Mr. Taborda”, cantou a Marilyn, açúcar na voz. Então surgiram, por cima dos ombros do Taborda, as mãos de longas unhas vermelhas. Uma moça só de calcinha estava atrás dele. – O que foi, meu bem? , perguntou a das unhas.

– Te-le-gra-ma a-ni-ma-do da Adelita! – entoou a Marilyn a toda velocidade. O moço do sax, antevendo a tragédia, foi saindo, pé ante pé, a música soando cada vez mais longe. Adelita saiu chorando detrás da árvore.

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Marilyn, the real one, cantando Happy Birthday para o presidente americano John F. Kennedy em 1962

– Que que é isso, Adelita? gritou o Taborda. Fani deixou o bolo no chão e abriu caminho. Adelita avançou: “Seu canalha! Preparo a maior surpresa para você e você tá com outra”!

Fani pensou rápido e esticou as mãos: – São duzentos reais. O Taborda gritava cada vez mais alto. Adelita tentou pegar a só-de-calcinha pelos cabelos. Não se ouvia mais a música. O sujeito do sax já tinha desaparecido.

– São duzentos reais, insistia a Marilyn, que a essa altura já tinha arrancado os sapatos e só pensava em correr dali. Mas não ia perder os duzentinhos. Um gritava daqui, outra berrava mais alto, Adelita soluçava, Fani aproveitou o momento de fraqueza, ajudou a coitada da namorada abrir a bolsa, pegou seus duzentos, mais cem para o cara do sax, e se mandou.

Já que estava de Marilyn, que terminasse o dia com elegância cinematográfica. Calçou os sapatos de novo, foi até o bar de um hotel bacana ali perto, realizou um desejo: pediu um Manhattan. Era a bebida que a Marilyn Monroe, no papel de Sugar, improvisou no trem em Quanto Mais Quente Melhor, na cena em que o Jack Lemmon vestido de mulher aparecia com uma garrafa de bourbon. Fani não era Marilyn, Jack não era mulher, o Taborda não era o homem que Adelita imaginava. Mas o Manhattan, bem real, estava uma delícia.

O WIT DE ARACY DE ALMEIDA

A genial Aracy de Almeida voltou às bocas com o livro de Eduardo Logullo, contando suas melhores histórias. Quase todas vividas diante de uma cervejinha preta. Ou de muitas outras bebidas…

Por Cristina Ramalho

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“Vai levar 10 mangos pela cara de pau”

Os que já passaram dos 40 lembram dela como a jurada implacável do Programa de Calouros do Silvio Santos, roupas absurdas, óculos gigantes de mãe complexa. Sujeito que desafinasse ela não perdoava. E tinha cacife para isso: a cantora Aracy nunca desafinou nos inúmeros sambas que gravou, um repertório repleto de Noel Rosa, claro, e de tantos outros grandes: Ary Barroso, Custódio Mesquita, Ismael Silva, Ciro de Souza. Paulinho da Viola diz que ela era a melhor cantora do Brasil.
Quando o calouro não escorregava nas notas, e sim na imagem, a jurada também não perdoava, mesmo que desse boa nota: “Esse rapaz, um rapaz bonito! Canta bem. Meu filho, eu vou te pedir um favor: troca de calças, tá bom? Tão largas demais. Tá tudo badalando”. Diante de uma candidata que não acertava uma e era dona de uma bunda descomunal, soltou essa: “Tu não canta nada, minha filha. Mas vai levar 500 pratas pelo calibre da jaca”.

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Propaganda de 1940 da cerveja Cascatinha, a preferida de Noel Rosa, parceiro de Aracy em muitas esbórnias pelas tabernas do Rio

Ela própria tinha outro trunfo além da voz afinadíssima: os peitos mais bonitos do Rio, eleitos nos dourados anos 1950, segundo relatos verídicos. Mas Aracy nem precisava levantar a blusa para embasbacar qualquer pessoa: bastava falar com aquela voz anasalada, as gírias inacreditáveis (“O mingau anda grosso”; “Eu tô nas bocas”), as tiradas certeiras, uma Dorothy Parker tropical. Enquanto Dorothy soltava o wit lá na mesa redonda do hotel Algonquin, cercada pela fina flor dos escritores, nossa Aracy fazia o mesmo, com mais verve ainda e em companhias desse naipe para cima: Noel, Ary, Mario de Andrade, Antônio Maria, Sergio Porto, Ataulfo Alves. Papo regado a cervejas pretas. De preferência na mesa da Taberna da Glória, que tinha um contrafilé com fritas sensacional. Ela e Noel também amavam a cerveja Cascatinha, um clássico dos anos 1930. Logo se entenderam: ele amou sua voz e compôs sambas divinos para ela; ela sacou de cara a personalidade do amigo: “Ele não era um monstro, mas o queixo dele era meio fajuto, sabe?, então era tímido”.

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Aracy jovenzinha, ensaiando os sambas de Noel

Era uma vida animada. Para Wilson Batista, ela contou a história de Amélia, uma mulher que existiu de fato, Ataulfo Alves ouviu, e nasceu assim “Amélia é que era mulher de verdade”, de Mario Lago e Ataulfo; um dia Kid Pepe encostou uma faca enorme na barriga de Aracy para ela gravar sua música “O que tem Iaiá”. “Eu gravei, compadre, com a faca na barriga e tudo”. Na boate Vogue, Aracy saiu no tapa com a amiga Linda Batista (“A gente entornava um pouco. E aquilo de bêbado não tem dono, sabe?”). Carmen Miranda, assim que chegava ao Rio, telefonava para Aracy para aprender gírias novas. Várias dessas histórias estão compiladas no delicioso livro Aracy de Almeida Não Tem Tradução, de Eduardo Logullo. Outras tantas, bem, basta citar o nome dela que alguém lembra de alguma ainda não contada.

Hoje “a madrugada não tá dando pedal”, e Aracy não está mais nas bocas. Morreu em 1988, aos 73 anos. Já mais velha, quando deixou de tomar a “bomba” (cachaça com limão), esqueceu o passado e deixou a sábia lição que registramos aqui para os amantes do Dringue: “Eu tinha uma coisa: eu bebia, mas o fino. Só tomava uísque escocês, vinho estrangeiro, aquelas coisas… e champanhe. Foi no tempo do Ibrahim Sued, que inventou aquele negócio de champanhota. Fui muito grã-fina”.

 

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