FELIPE HIRSCH

O menino do dedo verde

Aos 13 anos, o premiado diretor Felipe Hirsch montou Esperando Godot. Dos 20 em diante, em todos os textos que toca, ele faz brotar espetáculos lindos, que misturam rock, quadrinhos, angústias, e falam da memória afetiva de todos nós

Por Cristina Ramalho  Foto Ana Ottoni

Um dia de sol na década de 80. Ipanema ferve. Os garotos de corpinhos morenos e cabeças castanhas pegam jacaré, riem, espiam as meninas, comem biscoitos Globo. No calçadão, um outro menino, pele branquinha, está de pé na praia, olhando o mar, o pensamento lá no fundo. Ele está feliz e usa meias escocesas.

É uma cena na memória de Felipe Hirsch, 33, um dos diretores de teatro mais premiados do Brasil nos últimos dez anos por suas montagens densas, irônicas, de uma angústia que veio de mares frios. Peças de sua autoria ou escritas por jovens dramaturgos ingleses e americanos, rapazes que têm na memória uns instantes de chuva, bandas de garagem, tardes de casaco e uísque. São textos tão urbanos sobre os muitos tempos da vida, personagens que contam sonhos, frustrações, inseguranças, fazem graça de si mesmos. Que contam seus prazeres em listas, como o Rob Fleming de A Vida é Cheia de Som e Fúria, com suas listas das cinco músicas preferidas ou dos cinco amores deixados para trás. Foi a peça que em 2000 catapultou Felipe para bilheterias sempre lotadas, tremendo sucesso com sua linguagem pop, ágil, cortante.

Antes e depois disso, Felipe tem sido descoberto – e disputado – por grandes atores. Nomes como Marco Nanini, Marieta Severo, Eliane Giardini, Andréa Beltrão, se derretem em elogios ao serem dirigidos por ele. Como alguém tão jovem pode entender tão bem de emoções perdidas? Bem, o carioca Felipe, filho de médico pneumologista e mãe engenheira de alimentos, mudou-se aos 11 anos para Curitiba. Fazia muito frio. Então aos 13 anos, entediado, ele fuçou na biblioteca dos pais, descobriu Samuel Beckett e montou, com os amigos, a dificílima Esperando Godot. Depois teve uma banda de rock e leu Leminski, John Fante, Dostoievski, quadrinhos. “O (Marco) Nanini diz que eu sou marciano: sou verde e fico trancado lendo”, ele conta, rindo.

A próxima do marciano é um filme, Insolação, rodado agora em maio, com Paulo Autran, Caio Blat, Eliane Giardini e Simone Spoladore no elenco e que se passa numa cidade fictícia. “É uma história de amor com clima de um conto eslavo”, ele explica, nesta bem-humorada entrevista a Diálogo Médico, concedida na sua sala de ensaio,em Curitiba. Como algum dos seus personagens, Felipe falou de rock, juventude, memórias mais ou menos felizes. Fazia um sol danado no dia.

DM – Você disse que vai começar a trabalhar nesta sala a partir de hoje. Como começa o seu trabalho numa peça?

Felipe Hirsch – Desde o começo do meu trabalho em teatro, o meu maior interesse sempre foi dramaturgia, bem mais do que a direção. O que me interessa é o texto, porquê montar aquilo, qual o cerne daquela questão, o que a peça está dizendo. Então vou pensando em como quero montar, o que eu vou filtrar do texto. É, num primeiro momento, tudo muito racional. Aí reunimos o grupo (a Sutil Companhia de Teatro, que existe há 13 anos, com sede em Curitiba) e fazemos um segundo estágio, que a gente chama de trabalho de mesa. É fazer pesquisa, buscar referências, discutir, e só depois vamos ao ensaio das cenas mesmo.

DM – Vocês ensaiam aqui nesta sala tão asséptica (uma ampla sala de reuniões, alugada num flat em Curitiba)?

FH – Aqui mesmo. Antes a gente ensaiava no teatro Guaíra, mas aqui tá bacana, gosto de sala, de um espaço branco em que você pode contar uma história em cima. Na Europase ensaia em salas. Detestoensaiar em teatro, a não ser que seja o teatro em que eu vou estrear o espetáculo, senão você começa a corrigir os erros daquele palco, e quando muda para outro, atrapalha tudo. Agora estamos preparando uma criação coletiva, que vai ficar totalmente pronta em 2007: Os Desgraçados, uma peça bem dark, que se passa num circo gótico.

DM – Suas peças, tanto as que você escreve quanto as de autores estrangeiros, têm essa angústia, esse retrato tão urbano, tão dark. É uma existência do frio…

FH – Curitiba é muito européia, não apenas pela colonização, mas pelo clima, o frio. E a juventude aqui é muito criativa. Nos anos 80, na minha juventude, todo mundo tinha banda de rock, eu tive, a cena de rock de Curitiba é a mais forte do país, pouca gente conhece. É uma turma que lia e lê muito, eu lia Dostoievski, John Fante, todos os clássicos, quadrinhos, Paulo Leminski. Que curtia sambas antigos, de Wilson Batista, Geraldo Pereira. Adoro ver os jovens daqui. Saio sempre à noite, vou aos bares, fico observando. Mas Curitiba mudou muito, ficou provinciana. Era para ser Manchester, virou uma cidadezinha, virou Cascavel.

DM – Você é carioca, veio para Curitiba menino. Como era você criança, adolescente? Era do sol?

FH – Eu era de Ipanema, morava na Joaquim Nabuco, a duas quadras da praia. Adoro o mar, mas só de olhar. Criança, eu nunca pegava jacaré, eu andava no calçadão de meia escocesa. Em Curitiba encontrei uma turma como eu, que gostava de ler, de ouvir rock. Então não me senti deslocado. Aí com 13 anos descobri um texto incrível, era Esperando Godot, do Beckett, e montei com meus amigos.

DM – Você sempre monta autores inéditos no Brasil. Como é que você descobre esses textos, já que alguns nunca tinham sido montados nem no exterior?

FH – Eu pesquiso muito, leio muito, aqui e lá fora. Nunca morei fora, mas passo temporadas longas em Londres, de dois, três, quatro meses. Vou lendo em bibliotecas, Internet, assisto espetáculos em teatros pequenos. Mas geralmente escolho os textos lendo, não costumo gostar das montagens. Posso dizer que não vejo nada realmente novo em linguagem teatral. Nem em Londres, que eles têm um domínio técnico, os ingleses são atores maravilhosos, nem em Nova York, nos teatros mais off off off Broadway que existem, vi nada de inovador. É tudo muito convencional. Aqui no Brasil vejo trabalhos muito mais interessantes, de busca de linguagem nova.

DM – Mas de brasileiros você só montou peças suas e da companhia…

FH – É, por enquanto prefiro assim. A Sutil é muito mais uma companhia de criadores do que de atores. O Guilherme Weber (ator principal dos seus espetáculos), por exemplo, é um criador, escreve muito comigo. Tem o Léo Medeiros, a Fernanda Farah. Tem cenas inteiras em Avenida Dropsie (peça de Will Eisner que está em cartaz novamente) criadas pelo elenco. No Dropsie teve muita improvisação, não teve mesa.

DM – Quando você tem atores convidados, como eles aparecem? Pensoem Eliane Giardiniou Marco Nanini, por exemplo.

FH – Em geral a gente convida. A primeira atriz conhecida, global, que trabalhou conosco, foi a Eliane Giardini. Nós estávamos montando Por um novo incêndio romântico. O Guilherme achou que ela seria ideal, nós sabíamos que ela tem uma história incrível no teatro, foi do Pessoal do Vitor, da Casa da Gávea, montou o núcleo de teatro da Unicamp. Então mandei o texto para ela ler. E ela topou na hora. Eu perguntei: “Você não quer referência, o Luiz Mello pode falar de mim, a Denise Stoklos também, porque meu teatro só é conhecido em Curitiba”. Ela respondeu: “Quem escreve um texto desses não precisa de referência. Eu vou fazer”. É maravilhosa a Eliane, uma atriz inteligente, generosa, corajosa. Depois eu estava estudando memória, achei o texto A Memória da Água, que nunca havia sido montado, e a Eliane aceitou entrar de novo. Aí a Andréa Beltrão viu Som e Fúria e também quis participar. Já o Nanini queria fazer algo com a gente, o Guilherme propôs A Morte de Um Caixeiro Viajante, mas antes de um texto tão clássico achei melhor fazer algo mais radical, visceral, aí mostrei os textos de Os Solitários e o Nanini e a Marieta embarcaram.

DM – Como você é como diretor de atores?

FH – Eu tenho uma relação muito profunda com os atores, consigo realizar uma divisão de características de cada ator, de explorar o que eles têm. Quando algumas características os prejudicam, eu tento tirar especificamente. Não sou bravo, mas não tenho o menor pudor de falar o que eu acho. Nanini e Marieta, por exemplo, são generosos, profundos, não se deixaram levar pela vaidade. A Renata Sorrah é outro exemplo maravilhoso. Outros já não são tão legais. Mas o meu processo de trabalho mudou nos últimos anos. Eu era muito racional, sabia exatamente o que eu queria, agora estou deixando mais a intuição me levar, mas para isso eu preciso já estar seguro, já ter raciocinado muito a respeito. Mesmo assim, mudei muito.

DM – O que aconteceu?

FH – Eu conheci uma mulher: Daniela Thomas (cenógrafa e diretora). Ela mudou minha cabeça completamente. Entrei em outra fase, meu trabalho se divide entre antes e depois da Daniela. Ela chegou olhando tudo e me dizendo: “Tá tudo muito bonito, muito bom, mas cadê o caos? Cadê a insegurança? Onde você erra?”

DM – E você não respondeu: “Escondi, não quero mostrar”?

FH – Não, eu entrei num processo de construção gigantesco. Desde 2002 tenho sofrido, estou digerindo, ela também, trocamos muito, graças à Daniela entendo melhor arte. Esse processo começou em Os Solitários, a minha peça mais importante, em que a Daniela fazia a cenografia. A Marieta (Severo) diz que essa peça mudou a história do teatro. Os últimos anos têm sido transformadores, tive uma crise profunda. Decidi montar só textos inéditos, pelo menos por uma fase vou fazer isso.

DM – Por quê? Você se decepcionou com alguma peça?

FH – Em 2003 eu quebrei, física e psicologicamente. Estava trabalhando demais. Fiz quatro espetáculos em um ano, teve o Alice (com Simone Spoladore), que é uma peça que eu adoro, a companhia estava completando 10 anos, então lançamos o livro, o site, foi uma extensa comemoração. Teve A Morte de um Caixeiro Viajante (com Marco Nanini e Juliana Carneiro da Cunha), estreamos no Rio num teatro errado, o João Caetano, que era grande demais, e a montagem era muito delicada. Antes disso ainda fiz um espetáculo no Rio que eu não deveria ter feito, Como Eu Aprendi a Dirigir um Carro. Eu me arrastava no teatro, fiquei quatro meses morando no hotel Glória, e contava quantos dias faltavam para acabar a peça. Um mês antes de terminar fechei minhas malas e a cada banho que tomava, contava quantos banhos faltavam…

DM – Mas você ainda conseguiu fazer, no mesmo ano, Temporada de Gripe.

FH – Pois é, voltei para Curitiba, estava cinco graus abaixo de zero quando cheguei. E fiz um espetáculo que eu amo, Temporada de Gripe, do Will Eno, autor genial, candidato ao prêmio Pulitzer. É o melhor da minha vida. E depois o Will acabou colaborando tanto com a gente, ele é quase parte da companhia. No filme que estou fazendo, Insolação, o Will é co-autor do roteiro, comigo, com o Sam Lipsyte, outro dramaturgo americano bacana, e com a Daniela Thomas.

DM – Sobre o que é o filme?

FH – O filme se passa numa cidade tropical, utópica, esquecida, vai ser filmada nos fundos de Brasília, aquela imagem do lugar onde não tem nada e lá no final tem uma caixa d’ água. É a presentificação do futuro.Tem um baixo funcionário do aparato socialista, que não existe mais, e esse cara foi esquecido neste lugar. Ele freqüenta uma biblioteca, que ele não pode mais freqüentar, ele entra num café e pede um café que não existe e quatro personagens começam a viver histórias de amor, perdidas, a insolação do título é o amor.

DM – Por quê você resolveu fazer cinema?

FH – Eu tinha sido convidado pelo Flávio Tambellini (diretor de Bufo & Spallanzani) para escrever um roteiro, mas estava sem tempo, uma loucura. Aí um dia apareceu uma oportunidade de fazer um filme com a Duetto, produtora da Monique Gardenberg, e com a Nósoutros, do Beto Amaral. Então, conversando com o Will Eno, contei minha idéia, disse que queria um filme que justificasse meu trabalho no cinema, que não fosse só um punhado de imagens, que tivesse algo a dizer. Queria um tipo de relação emocional de um conto do Pushkin, do Tchecov, e o Will topou escrever e propôs chamar também o Sam, que, como ele, é um dramaturgo nova-iorquino que faz muito mais sucessoem Londres. E eu chamei a Daniela. Estamos trabalhando no roteiro desde 2003,e fica pronto neste semestre.

DM – Você já fez até desfile de moda, né?

FH – Gosto de moda como linguagem, tenho uma relação com isso. Bom, minha namorada é produtora de moda. Aí no ano passado me chamaram para fazer o desfile da Raia de Goye. Aceitei na hora, falei para o Guilherme: você pode fazer novelas na Globo (Guilherme Weber está em Belíssima), mas eu vou descer mais baixo ainda. Eu vou trabalhar com moda (risos). No fim, quis fazer uma coisa diferente, quebrar a estrutura do desfile, mas acho que não deu certo. Não gostei.

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