TRIO MOCOTÓ – Ilustrada (FSP)

CAPA DA ILUSTRADA _ PERFIL TRIO MOCOTÓ

 

 

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Eu quero mocotó!
CRISTINA RAMALHO
DA REPORTAGEM LOCAL
Trio formado pelos músicos João Parahyba, Fretiz e Nereu retorna aos palcos e às lojas com o novo disco, “Samba Rock”, primeira gravação desde 75

Jaguar fez a charge: D. Pedro 1º, naquela pose salvadora da pátria com a espada em punho, gritava o bordão fundamental para o Brasil dos anos 70: “Eu também quero mocotó!”.O imperador, o Jaguar, as garotas, a turma que frequentava o Jogral, em São Paulo, os amigos do Pasquim, no Rio _todo mundo só queria o Trio Mocotó, balanço irresistível, açúcar nas palavras.

Agora quem ouvir o novo disco do trio, “Samba Rock”, que será lançado em agosto e foi gravado após 26 anos de separação, ou for ao show, na sexta, no Sesc Pompéia, vai querer mocotó também.

E saber mais sobre esses três músicos que se conheceram nos anos 60 na boate Jogral, rua Avanhandava, 16, e inventaram uma nova levada para o samba do então esquecido Jorge Ben.
Eis o trio: o pandeirista Nereu Gargalo de Ouro (negro tipo exportação, Don Juan, tem ritmo até nas cantadas), o tocador de cuíca Fritz Escovão (cabelão black power, apelido: Angela Davis, era o confessor das mulheres) e o percussionista João Parahyba (falante, amante dos livros, brigou com a família para fazer música).
Em comum, eles tinham um suingue diferente, currículos curiosos _Nereu tocava nas revistas de Carlos Machado, Fritz acompanhava a vedete Virgínia Lane, e Parahyba fazia cover do Zimbo Trio_ e os olhares pidões para Verinha, a Helô Pinheiro do Jogral, onde se reuniam para longas jams de samba e jazz.
Ali os rapazes tocaram ao lado de músicos como Oscar Peterson, Earl Hines, Paulo Vanzolini, Cartola, Duke Ellington (“Ele não se conformava como eu tirava sons da cuíca”, diz Fritz).
Ali também as coxas de Verinha, saltando de uma minissaia desinibida, inspiraram a frase de Nereu que daria o nome ao grupo: “Que mocotó!”.
Ninguém levou Verinha, mas Nereu deu a cara do trio nas expressões assim apetitosas, ditas com boca cheia e voz de malícia, como “Cosmonauta de crioula” e “Eu quero é balançar na sua peneira, crioula!”, que você ouve na faixa “Kriola”, do novo disco.
“Sempre soubemos que íamos voltar”, diz Parahyba, numa entrevista do trio regada a guaraná (os rapazes não bebem) e gargalhadas. Ele foi o responsável pela separação do grupo: largou tudo para trabalhar na empresa de toalhas da família, dona da fábrica de cobertores Parahyba.
“Eu fazia música e me casei com uma desquitada com três filhos, precisava provar que não era um vagabundo”, diz Parahyba. Nesses 26 anos, os outros se viraram na música mesmo: Fritz ficou tocando na noite e em hotéis, e Nereu produziu shows de pagode.
Tempos sem tempero perto da animada carreira do trio, que durou de 68 a 75. Começaram acompanhando Jorge Ben no Festival Internacional da Canção com a música “Charles Anjo 45”, vaiadíssima pela platéia que queria mais ideologia e menos balanço.
Tudo bem: eles só queriam tocar, rir e apanhar mulheres. As que apareciam às vezes traziam problemas. “Um dia, estávamos em Copacabana quando vimos uma negra linda, jovenzinha. Nereu já começou a jogar o charme”, conta Fritz. A mocinha, mãos nos quadris febris, perguntou: “Você não é o Nereu, do Trio Mocotó?”. E ele, orgulhoso: “Sou, você está me reconhecendo?”. Ela retrucou: “Claro, você é meu pai”.
Nereu engoliu em seco: tinha tantos filhos por aí que desconhecia as mais crescidinhas. Bem, ele inventava qualquer coisa para conseguir uma garota _chegou a se anunciar como professor de dança, usando o amigo Fritz como “músico das aulas”.
Tamanha era a farra que ninguém acreditava que o trio fosse careta. Garantem que nunca usaram drogas _”Nereu caiu no barril quando era pequeno, que nem o Obelix”, diz Parahyba_, não bebem e são pontualmente britânicos nos shows e ensaios.
“Um monte de gente vivia pedindo cocaína para mim”, diz Nereu. Ele obedecia: comprava Son- risal, partia, fazia fileirinhas e dava para quem quisesse cheirar. “Os caras chegavam a chorar e falavam ‘essa é da boa, nossa!'”, conta ele, rindo. Tim Maia caiu nessa diversas vezes.
A vida deles era um cabaré. Com Jorge Ben, rodaram o mundo _fizeram o maior sucesso no festival Midem, em Cannes, bisando seis vezes_ e o Brasil também. Contratados para tocar nos desfiles da Casa Rhodia, eles viviam no avião.
No Japão, Nereu (sempre ele), sem falar nenhuma palavra de inglês, acabou num bordel de Tóquio, pediu um refrigerante e deixou que as japonesinhas se esbaldassem. Na hora da conta, sem saber trocar dinheiro, tirou uma nota do bolso, coisa de R$ 5 hoje, e pagou só a sua bebida. Veio a polícia, depois o vice-cônsul brasileiro e a bronca federal.
A volta foi igualmente atribulada. Eles deveriam ir com Jorge Ben para os Estados Unidos, onde gravariam um disco com todo o creme dos anos 70: Bob Dylan, Joan Baez, Simon & Garfunkel etc.. Jorge Ben, no aeroporto de Tóquio, resolveu pegar o avião para o Brasil. “Não posso trair a Salgueiro”, justificou aos amigos. Queria desfilar, era Carnaval.
Único que falava inglês, João Parahyba acabou escalado para ir a Nova York apresentar uma carta de um médico, explicando que Ben estava com faringite. “Uma das diretoras da gravadora me recebeu, leu a carta e me pediu, em inglês, para aguardar”, diz.
Ele viu, com horror, ela conversar em bom português no telefone e repetir: “Ah, o Jorge desfilou na Salgueiro? Que bom”. Parahyba se encolheu na cadeira. A moça lhe contou, então, que já havia namorado Ben e conhecia dezenas de cartas como aquela. Acrescentou que nem Jorge Ben nem o trio nunca mais pisariam ali.
Era hora de inventar uma nova história. Jorge Ben logo sairia dessa, um caso mal explicado. Nunca mais se falaram. O trio, ressentido, já andou declarando em entrevistas que Ben não reconheceu que eles criaram o samba rock, tampouco lhes deu importância. Desta vez foram diplomáticos. “Não temos nenhum problema com o Jorge”, diz Parahyba.
A carreira solo do trio rendeu um compacto, “Coqueiro Verde”, dos amigos Roberto e Erasmo Carlos, e dois discos: “Muita Zorra!”, de 71, e “Trio Mocotó”, em 73, com arranjo de Rogério Duprat e uma versão na cuíca de “Raindrops Keep Falling on My Head”, de Burt Bacharach.
Teve também turnês com Toquinho e Vinicius e um disco em 75, gravado na Itália, sem Parahyba no trio. Ele só toca em “Não Adianta”, atual hit na Europa.
Por aqui, Fritz aprimorou seus toques no piano, e Parahyba conheceu o produtor Suba, morto em 99, e embrenhou-se na música eletrônica. Os DJs se derramam pelos sons do trio, e Parahyba, Fritz e Nereu foram tendo mais e melhores idéias. A volta era inevitável: todo mundo quer mocotó.

2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Maria Lígia Pagenotto
    fev 15, 2012 @ 23:14:13

    Eu lembro desta matéria. E do título, claro.

    Responder

  2. Maria Lígia Pagenotto
    fev 15, 2012 @ 23:14:50

    Marcou! Bjs

    Responder

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