RONALDO FRAGA – revista Icaro

 

Por Cristina Ramalho Foto Iara Venanzi

 

Naquele dia a cantora Elza Soares estava mais impossível do que nunca _ como se já tivesse sido possível. Queria uma roupa, assim, explosiva. Achou um vestido de canutilhos, escolheu o modelo, apertadinho… Mas queria mais. Percorria o ateliê do estilista Ronaldo Fraga,em Belo Horizonte, à procura de uma pimenta no visual, quando ele teve um clique. Sacou do cabideiro um terninho estampado com nuvens e propôs, sorriso vendedor: “Elza, que tal roupa de aeroporto?”. Ela cintilou. “Ah, era isso o que eu queria: amo roupa de aeroporto!” E, feliz, ela vestiu o terninho e acabou incorporando o teatro por brincadeira. Pediu até passagem, fingindo estar numa sala de embarque.

Não foi a primeira e, claro, não será a última vez que Ronaldo Fraga percebe (e provoca) o personagem que está para aflorar em cada um de nós. Ele mesmo um sujeito teatral, repete essa cena de Elza (de quem é fã) com gestos e falas, como se estivesse no palco. Tão mineiro quanto uma goiabada com queijo, Ronaldo observa minuciosamente clientes, amigos, parentes… E depois traduz esse amor pelas histórias alheias em roupas que parecem ter vida própria.Um estilo muito particular, que não dá para ser comparado ao de nenhum outro estilista. Seus desfiles, que a cada ano ganham mais platéia e elogios, vêm com enredo e personagens _ a ponto de vários deles terem provocado lágrimas na audiência.

Foi assim quando ele estreou no São Paulo Fashion Week com sua coleção de inverno 2001, “Rute e Salomão”, em que descrevia o amor proibido de uma cristã com um judeu ortodoxo. Botou o muro de lamentações como pano de fundo, pãezinhos numa simbologia bíblica, músicas judaicas, marcas de tiros e sangue nas camisas que lembravam roupas de campos de concentração _ os espectadores choraram. No desfile seguinte, de verão, a jornalista Hildegard Angel caiu em prantos diante da coleção que homenageava sua mãe, a também estilista Zuzu Angel, assassinada pela ditadura. Fraga colocou anjos, nuvens (daí que veio o “terninho de aeroporto”) e paus de arara na passarela. A turma fashion fungou nos lenços.

Em “Cordeiro de Deus”, no começo do ano, o estilista voltou ao tema do amor sofrido: criou um personagem, Jesus da Silva Santos, um presidiário que escreve cartas à amada e arruma a cela para a visita de domingo. Na passarela, vestidos para mulheres sereias, diáfanas, idealizadas por quem enxerga o mundo atrás das grades. E, na vida real, ama garotas não muito lindas. Ronaldo teve essa idéia numa visita ao presídio de Contagem, onde ele faz um trabalho voluntário que ensina aos presos como bordar roupas _ com isso eles ganham um dinheirinho, desconto de dias na pena e uma profissão. “Um dos presos descrevia a mulher dele como linda, uma deusa, e quando eu a vi, ela era fora de todos os padrões, cheia de celulite, pés mal tratados. Achei aquilo encantador, o amor embelezando, trazendo poesia”, lembra Ronaldo.

A preocupação com os presos, a situação política, a intolerância, o consumo desenfreado (em “Carne Crua” ele usou uma máquina em vez de modelos e, quando a máquina quebrou, as passadeiras e costureiras carregaram as roupas na passarela), vem embalada em lirismo e muito, muito humor. Ronaldo não é do tipo politicamente correto. Sempre que vai contar um caso (e ele tem sempre um caso a contar) morre de rir, como no da Elza Soares citado acima. Bom, já na sua estréia, em 1996, no extinto Phytoervas Fashion, mostrou a que veio com um desfile chamado “Eu Amo Coração de Galinha”, sobre uma galinha que mudava de vida. Ela deixava o galinheiro no interior para virar a descolada na cidade grande. Era uma profusão de cores, de alegria.

“Desde cedo aprendi que tragédia e comédia trocam de roupa no mesmo lugar”, diz Ronaldo. Sua mãe morreu de câncer quando ele tinha sete anos, e o pai faleceu quatro anos depois, de cirrose _ os dois no mesmo dia 2 de novembro, dia de finados. Os cinco irmãos decidiram tocar a vida juntos, só eles, sem adultos. “A gente não tinha dinheiro, mas se divertia”. Ele sempre gostou de ouvir os relatos do resto da família _ como o tio Agenor, que desenhava divinamente (“aprendi a desenhar com ele”), usava tatuagem, tocava músicas com os pés e dizia que namorou Carmen Miranda. Ou a tia Maria, gaga, fascinada por velórios.

“A tia Maria se arrumava toda quando alguém morria e ia para o velório, mesmo sem nunca ter visto o morto na vida”. Tia Maria, cercada pela audiência ao redor do defunto, chorava, se descabelava e, entre os risos que sempre acontecem nos intervalos das lágrimas, arrumava namorados. “Hoje, velhinha, ela gosta de velar gente famosa e, como gagueja, parece que está emocionadíssima. O pessoal fica com pena e arranja os melhores lugares do velório para ela”. Essa parentada tão peculiar rendeu, óbvio, um desfile, batizado de “Álbum de Família” (96/97). É o mais teatral de todos, muito comparado a Nelson Rodrigues. “Com a família que eu tenho, nem precisava me inspirar no Nelson, mas ninguém acreditaria”, brinca.

Se tudo isso é a cara do Brasil, para Ronaldo é secundário. Embora seja o estilista “oficial” da cantora e amiga mineira Fernanda Takai (da banda Pato Fu) e tenha assinado o figurino do mais recente espetáculo do também mineiro grupo Corpo, Ronaldo não busca essa embalagem. Fã dos estilistas de outrora Denner e Zuzu Angel, e de Walter Rodrigues, hoje, Ronaldo Fraga parece tão brasileiro porque faz da memória afetiva o seu playground. Seu ateliê, em BH, está repleto de brinquedos antigos e ele adora álbuns de figurinhas, como sabe de cor as novelas da tevê dos anos 70. Nas paredes, o diploma de escola do pai, o xerox da carteira profissional do avô, retratos _ está tudo emoldurado. Tudo pronto para aflorar histórias em cada um de nós. “O que eu persigo mesmo é a delicadeza”, diz ele.

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