MARCO NANINI

“A cada dia que passa quero ser uma pessoa mais simples” (Marco Nanini)

Entrevista  por Cristina Ramalho

—Pega nos meus peitos.

—Como?

—Pega, menino!

Bastou apalpar os peitos de Dercy Gonçalves, a dona do deboche no Teatro das Nações, em São Paulo, e o magrelo Marco Nanini, 21 anos, sentiu que alguma coisa ali mudaria seu rumo para sempre. O rosto dele fervia. As risadas jorravam na plateia. Era 1969, o AI-5 tentava calar na marra as bocas célebres de Chico Buarque, Augusto Boal, mas até os “hômi” tinham medo da doidivana Dercy. Pobre de quem dividisse a cena com ela. E era a noite daquele menino, o Nanini.

O pernambucano Marco Antonio Barroso Nanini mal tinha saído da escola de teatro no Rio. Preferia ficar só observando o movimento, se arrastava no palco de vergonha, mas entendeu na hora a claque do destino: ali estava a saída. Em cena ele podia tudo. Podia fazer rir. Podia ser quem bem quisesse. Nem precisava ser engajado para mudar as pessoas por duas horinhas que fossem.

“O teatro foi minha salvação”, diz o Nanini hoje, aos 62 anos, ao Outlook, nesta entrevista no Galpão Gamboa, no Rio. Um espaço que criou para ensaiar e que está abrindo saídas para muito mais gente. Ali ele e seu sócio e amigoFernando Libonati oferecem,de graça, aulas de luta, abrem espaço para a terceira idade e exibem espetáculos para os estivadores, as donas de casa, as crianças do pedaço. Ali ele observa e sente a maior ternura pelos brasileiros simples, que pegam ônibus, batalham, rebolam para caber na vida real e, em casa, abrem uns sorrisões ao se reconheceremnoLineude A Grande Família. Ou se derretem no cinema com o Odorico Paraguassu na versão de O Bem Amado.

Brasileiros de todos os estilos também choraram de rir em O Mistério de Irma Vap, peça que até entrou no Guinness pelos 11 anos consecutivos em cartaz com o mesmo elenco (ele e Ney Latorraca), e foi parar no cinema.Nanini,mais de40anos de novelas, peças e filmes que grudaram na memória do país,virou verbete de artista genial.

Discreto ele continua. Só desatina no palco, como em Pterodátilos, direção de Felipe Hirsch, que estreou ontem no Rio. Nessa violenta crítica ao consumismo, ei–lo na pele curta da Emma, atarantada menina de 15 anos. “Eu estava crente que era uma garotinha em cena, aí vi o vídeo da peça e me achei um velho ridículo, pulando. Não quero mais ver nada que eu faço.” Ainda prefere olhar os outros. Acha que as pessoas o respeitam — até os abusados doPânico ou CQC —porque ele fica na dele. Não palpita. Gosta de aprender. Com os atores jovens. Com o Gerald Thomas, o elenco da TV, o Guel Arraes. Com os riscos. “No palco sou completamente despudorado, nada me constrange”, diz Nanini.

Então vamos fazer pronta justiça. Obrigada, Dercy.

Outlook – Você nunca fez teatro engajado, mas criou este espaço (Galpão Gamboa, na zona portuária do Rio) para a comunidade. Como resolveu botar a mão na massa, no trabalho social?

Nanini – Tudo começou porque eu estava procurando uma sala de ensaio. Aí saímos, o Nando (Fernando Libonati, faz-tudo de Nanini) e eu, procurando espaços grandes, pé direito alto, olhamos tudo, até que nos deparamos com esse prédio maravilhoso. Fomos fazendo aos poucos, um trabalho lento, todo bancado por nós, não tem nenhum patrocínio. Fizemos essa sala, com tudo ótimo, o piso, as cadeiras, a luz, e aos poucos precisávamos ocupar os espaços. Um amigo meu, o figurinista Antonio Guedes, procurava um lugar para um atelier de figurino, criar as roupas, fazer pesquisas, veio e ocupou o segundo andar. E outro amigo, o Alex, que dá aulas de lutas, muay thai, e agora uma luta chamada kali, veio também e dá aulas gratuitas no terceiro andar. A comunidade toda tem aulas de graça. O compromisso é não faltar. Faltou sem justificativa séria, sai. Precisa ter algum tipo de compromisso. E a coisa foi crescendo.

Para ler a entrevista completa, clique no link: OTLK_48_3-SET-2010_p1;26-32

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