PERFIL ADRIANA CARRANCA

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Por Cristina Ramalho

 

Ela devia ter uns quatro anos e passeava feliz da vida de sainha curta e mãos dadas com os pais pelas ruas de Santos, onde nasceu, quando viu, do outro lado da calçada, uma mulher careca em surto, faca na mão, berrando do terraço de casa. Uma pequena multidão se acotovelava para ver, dava para ouvir os gritos dos passantes: “Louca! Pega! Mata!” Então a polícia chegou. Bateram muito nela.

Quarenta anos depois, ao contar agora essa história, Adriana Carranca não se lembra dos detalhes, mas não esqueceu as expressões nos rostos das pessoas. Muito menos a expressão no rosto da mulher.

“Cheguei em casa chorando, eu era muito pequena, e perguntava porque eu não era como ela, porque não tinha aquela raiva, porque falavam dela assim, porque batiam nela”. Poderia ter um caminhão de hipóteses para tantos porquês, mas não demorou muito até intuir que o jeito de chegar nas respostas era um só: ir atrás dos outros. Escutar. E, quem sabe, entender. A menina que fugia para espiar como viviam as crianças do orfanato lá da rua de trás virou jornalista e escritora premiada, menção honrosa no Prêmio Esso, duas vezes vencedora do Líbero Badaró, colunista dos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo.

Jogou um pano legal por cima dos cabelos e correu pelos países muçulmanos, foi à faixa de Gaza, à Síria, à África, ao Irã, ao Paquistão. Escreveu reportagens e livros sobre o cotidiano dos refugiados, tolerância religiosa, a vida no Afeganistão ou o tanto que a gente desconhece a respeito das mulheres muçulmanas. Um dia falou de Ronaldo e Kaká e conseguiu rasgar um sorriso na cara fechada do Mulá Abdul, um líder do Talibã, e ele acabou lhe dando uma entrevista.

Agora, fama de dar autógrafos, ser reconhecida na praia por crianças de sorvete na mão, entrevistada na TV, convidada para debater na Flipinha (versão infantil da Flip) com alunos das escolas de Paraty, Adriana ganhou ao escrever sobre uma outra menina inconformada e cheia de porquês. Malala Yousafzai, a paquistanesa de etnia pashtun que aos 11 anos começou a escrever um blog sobre a invasão de guerrilheiros talibãs na sua região, aos 14 sofreu um atentado por lutar pelo direito de toda garota de ir para a escola, e aos 17, em 2014, se tornou a mais jovem ganhadora do Prêmio Nobel da Paz. Não por acaso, Adriana fez questão de contar sua história em livro infantil, o lindo Malala, a menina que queria ir para a escola (Ed. Companhia das Letrinhas).

“Se a gente tem de mudar algo no mundo, a gente vai mudar pelas crianças, porque os adultos já têm muitas cascas, muitos preconceitos, passaram por várias coisas. A criança é aberta. Se desde pequena ela não enxergar a diferença, ela vai ter outro olhar para a menina de rua, vai crescer com outro olhar para o mundo”, ela me diz no camarim do MuBE (Museu da Escultura, em São Paulo), onde participou de um debate do canal GNT sobre igualdade.

Quando escreve para a garotada, faz de um jeito tão claro e sensível como é sua conversa: franca, voz doce, olhar firme. Mas escolhe temas de arrepiar os cabelos daqueles pais que ainda teimam em falar com os filhos no diminutivo. Em Malala tocou na intolerância, explicou o que é o Talibã, descreveu de um jeito tão descomplicado o atentado a bala.

No próximo livro, para crianças bem pequenas que ainda não lêem sozinhas, vai tratar da igualdade de gêneros. É sua primeira ficção: O menino e o espelho mágico, para uma coleção de livros digitais do Itaú Cultural. Fala de um principezinho entediado no reino azul que acaba escapando dali e conhecendo uma menina do reino rosa, e dali para frente as cores se misturam e bacana mesmo é viver todos os tons do arco-íris.

Mal botou o ponto final nessa história, só deu tempo de conversar comigo, correr para arrumar a mala e enfiar o passaporte na bolsa. Adriana foi passar uma temporada entrevistando crianças refugiadas de vários países, e também velhos que foram crianças durante o Holocausto ( “Quero juntar as gerações porque uma tem muito o que ensinar para a outra”) para outro livro, uma grande reportagem para leitores na faixa dos 12, 13 anos.

Foi com Malala que ela inaugurou esse estilo reportagem infanto-juvenil. Traz um punhado de detalhes e muita informação, tudo descrito com tanta leveza e um quê de contos de fada, porque o cenário onde a garota nasceu e cresceu, o Vale do Swat, encravado nas montanhas entre o Paquistão e o Afeganistão, não parece coisa desse mundo. Um lugar de reis, rainhas, príncipes e princesas de verdade, vilões com nomes exóticos, guerreiros herdeiros de Gengis Khan que até hoje mantêm tradições milenares, como sentar de cócoras – eles não acreditam em cadeiras – e esconder as mulheres como parte valiosa do seu patrimônio.

Em outubro de 2012, dias depois do atentado contra Malala, Adriana atravessara mar e montanhas para entender essa região bombardeada, sem eletricidade (só algumas horas de gerador por dia), sem água encanada, de onde brotou aquela menina luminosa. Espiou a casa simples de Malala. O seu quarto. Conheceu as amigas, como a Kainat e a Shazia, garotas espertas, fãs do Harry Potter e da série Crepúsculo, igualmente corajosas e baleadas no mesmo ataque. Foi à escola, fez umas compras no mercadinho, conversou com um príncipe e com o médico. Hospedou-se na casa do tradutor Sana e sua amável família pashtun, tomou o café da manhã com leite tirado de uma cabra delivery e o pão feito na hora no forno a lenha. À noite, todo mundo se sentava ao redor do fogareiro para ouvir as histórias do avô.

Tirando o detalhe da cabra, e de um ou outro hábito dessa turma que vive quase da mesma forma há dois mil anos, não era uma casa tão diferente do chalé de madeira onde morava a sua própria família em Santos. Avô, avó, tio, tia-avó, dois primos, todo mundo morando junto. Mezzo italiana, mezzo portuguesa, uma gente trabalhadeira, afetuosa. Dinheiro, quase nenhum. O avô de Adriana gostava de se sentar no primeiro degrau da escada, ela no terceiro, e ele perguntava: “Para onde a senhora quer viajar?” Ela respondia qualquer coisa e embarcavam num ônibus imaginário. Passava as tardes fazendo macarrão com a avó italiana ou jogando tômbola na casa da avó portuguesa que mal sabia escrever e pedia para a neta caprichar numas cartas para os artistas de rádio.

Adriana entrevistou Malala ao vivo e em cores na Europa, e conheceu seu pai, Ziauddin Yousafzai, dono da escola no Swat que insistia que as meninas continuassem estudando. Ziauddin se orgulhava do interesse da filha primogênita pelos livros, ensinava quatro idiomas às alunas, ainda que respeitasse as normas dos pashtuns – escola, só até a primeira menstruação, quando as moças têm de ajustar o foco da existência para o casamento. Quando Malala era pequena, ele lia poesias para ela antes de dormir.

A vida vem em ondas como o mar e, na hora, Adriana lembrou-se do Norberto, seu pai, que do lado de cá do oceano lia com ela nas noites quentes um fascículo por semana de uma enciclopédia de capa vermelha e repetia, com ênfase: “Antes de tudo, estude. É o que importa. Só pense em se casar depois”.

De algum jeito, ela e Malala pertenciam ao mesmo território.

Na verdade, nem precisava ter saído de Santos para aprender que do Paquistão ao Oiapoque, de Nova Iorque a Nova Iguaçu, somos todos muito mais iguais do que acreditamos. Quando ela era aluna bolsista do colégio Objetivo, encantou-se com um professor de artes, Renato Di Renzo, e se ofereceu para ser voluntária no famoso projeto de inclusão social criado por ele na cidade, o Tamtam, que começou como intervenção no então hospital psiquiátrico Anchieta e cresceu, transformando a vida dos pacientes e de quem mais chegasse. Renato lhe revelou algo muito maior e fundamental do que a importância de aceitar as diferenças. Mostrou que não era nem para se enxergar as diferenças (“Ele me perguntava: você se acha muito normal? Conhece gente normal? Gente normal toma remédio? Bebe?”) .

Ele fazia teatro com o improvável, como uma bailarina que dançava com os braços porque não tinha as pernas e um Romeu que esquecia as falas para sua Julieta. “Ele dizia: lidem com isso. Meu melhor ator tem amnésia”. A solução do grupo veio rápido: Romeu montava um cavalo falante que servia de ponto – falas garantidas, sucesso total. “Nunca comentei sobre isso, acho que o Renato nem sabe, mas ele foi responsável por muito do que eu sou”.

Inevitável que, como jornalista, Adriana sempre se engajasse na cobertura dos assuntos ligados aos direitos humanos. PCC, favelas, Fundação Casa eram o seu cotidiano no Estadão. Acabou fazendo mestrado em Políticas Sociais e Desenvolvimento em Londres, na London School of Economics, e foi correspondente na ONU, em Nova York, pesquisadora na Universidade de Oxford e integrou um projeto de reportagem internacional da Universidade Johns Hopkins de Washington. É do tipo aplicada: pesquisa muito, se prepara demais, tenta se proteger ao máximo contra os muitos riscos – seja o de escapar de uma zona de ataque ou do vexame de não fazer algo nos trinques. Para escrever Malala, por exemplo, entrou num curso de literatura infantil.

Mas no que interessa, o coração da matéria, está sua imensa capacidade de chegar junto. Adriana não julga. Desaparece, se veste como os locais, se esconde numa burca quando é preciso, fica morando nas casas de famílias, mais observa do que pergunta. A resposta dos entrevistados também volta – quase sempre – limpa, direta, no tom. E traz belezas inesperadas.

No Irã, ela mal desembarcou no país viu passar um táxi com o letreiro Women`s taxi. Anotou o telefone. A motorista que foi pegá-la contou, orgulhosa: casou-se obrigada aos 15, teve dois filhos, odiava o marido e queria o divórcio. Como no Irã só homens podem pedir o divórcio, a moça infernizou o sujeito até ele sucumbir e separar-se dela. Filhos ficaram com ele – é a lei. Ela uniu-se a outras moças, aprendeu a dirigir, montou a cooperativa que tem 900 táxis, juntou dinheiro, comprou os filhos de volta e dirigia toda pimpona, ganhando seu sustento. Essa e outras mulheres de fibra, donas dos seus narizes e muito politizadas, estão no livro O Irã sob o Chador (ed. Globo) que Adriana escreveu com a amiga Márcia Camargos. Foi finalista do Prêmio Jabuti de 2011.

Na faixa de Gaza Adriana quis conhecer uma deputada do Hamas, uma mulher pequena, jovem, 34 anos, que simplesmente comanda 100 homens. Foi recebida no escritório, a mulher era uma mocinha de calça jeans e camiseta, sem véu. Adriana conseguiu ir até sua casa. Viu mulheres comuns, sofridas, gente como a gente, um bairro muito pobre. No quintal apertado, filhos brincando com foguetes e armas de brinquedo. Ganhava o jogo quem matasse mais israelenses.

Surpreendeu-se muito, no Afeganistão, como o povo era amável, ingênuo, mais de 80% de analfabetos, um país que enfrentou ao longo da história sucessivas guerras e no meio daquela secura do deserto os homens cultivam rosas, muitas rosas, lindas. Escreveu 11 perfis de personagens contando a guerra do ponto de vista dos afegãos, 10 anos depois do 11/9 e da consequente invasão americana no país – formam o seu livro O Afeganistão depois do Talibã (ed. Civilização Brasileira).

E apuros, não teve? Ôpa! Na Síria, viu um carro estacionado na frente de um prédio oficial e sentiu o coração disparar. Insistiu para entrar logo no prédio, e assim que passou a porta, como previra, o furgão explodiu, matando, entre outros, seu tradutor curdo que tinha ficado do lado de fora. No Afeganistão foi assistir a um jogo, uma espécie de polo medieval, o tradutor saiu uns minutos e homens com fuzis Kalashnikov começaram a cutucá-la. Adriana, de burca, sem saber falar uma palavra, congelou de pavor. “Pensei: fui sequestrada”. Dali a pouco reaparece o tradutor esbaforido, que tomou uma dura dos sujeitos armados: que tipo de cavalheiro era ele que não arrumou uma cadeira para a estrangeira se sentar? “Eles só estavam me tratando bem”, ela ri. No Vale do Swat, descobriu só na noite em que chegou que o irmão do seu tradutor era um guerrilheiro talibã. Felizmente, já estava preso.

O marido, Jacyr (conheceram-se nos Estados Unidos, em 1995, ele estava lá estudando engenharia, e estão casados há 10 anos), diz que o coração aperta, mas entendeu que o melhor jeito de segurar Adriana é deixa-la ir. Já dona Terezinha, a mãe, ainda não dorme enquanto a filha não telefona.

Mas como ela própria escreve na abertura do seu Malala, “os jornalistas, como as crianças, adoram fazer tudo o que é proibido”. E é esse seu olhar de criança que vai atrás dos porquês de cada um. “Eu imagino sempre as pessoas como bebês, não sei explicar. As pessoas não nascem vilões, um talibã já foi um bebê. Não quer dizer que eu aceito quem ele seja, mas me ajuda a saber de onde vem a maldade, ou os valores que ele tem. Em algum momento aquele bebê deixou de ser como os outros. O que aconteceu? A gente precisa conhecer sua história. Até para nos proteger”.

Os guerrilheiros talibãs, ela explica, foram meninos tirados, na década de 1980 – ou doados – , ainda bem pequenos, das famílias afegãs muito pobres para estudar nas escolas religiosas, as madrassas. Continuaram analfabetos, mas foram treinados para guerrear contra os soviéticos, e decoraram o Alcorão em árabe (“eles não sabem falar árabe, decoram aquilo e repetem, não sabem o que está escrito”). Criados longe das mães e de qualquer garota. Só demonstram afeto entre homens. Fazem sexo com os meninos. Mulheres, só para a reprodução. “Como queremos que eles respeitem as mulheres?“, Adriana se pergunta.

“Por isso que eu sempre digo: o amor tem de vir antes. Temos de começar desde pequenos a aceitar os outros. Durante muito tempo eu sonhei em ter uma ONG de amizades, porque quando a amizade vem antes da guerra, o sentimento ajuda a relevar o conflito. Depois não adianta”.

Bem que ela tenta. Numa tarde quente como o diabo, conversando com rapazes do Hamas na faixa de Gaza, meninos armados de 17 anos, Adriana comentou: “Vocês têm tanto em comum com os meninos do outro lado. Acho que se aceitassem sentar numa mesa e tomar umas cervejas juntos ia ficar tudo resolvido”. Eles fecharam as caras: “Não podemos beber”.

Malala já declarou, num conhecido discurso na ONU, que sua vozinha lá do Paquistão foi capaz de subverter as coisas: “Uma criança, um professor, um livro, uma caneta, podem mudar o mundo”. A santista Adriana sugere a versão praiana: o bate-papo de cervejinha na mão, uma alegria real. Como deve ser a vida. Se algum dia o mistério do entendimento vai se resolver, nem os deuses sabem. Mas umas meninas como essas, felizmente, sempre hão de pintar por aí.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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