Mulher sozinha em férias

Uma cantada regada a um bom Pisco Sauer – e muita história para contar para os amigos

Por Cristina Ramalho (publicado também no Dringue.com )

La Main au Collet TO CATCH A THIEF d'AlfredHitchcock avec Cary Grant, Grace Kelly, 1955

Cary Grant, bom de lábia, passa uma cantada em Grace Kelly em Ladrão de Casaca (1955)

Sempre me lembro da história de uma amiga carioca que aproveitou a folga para passar uns dias na Bahia enquanto o marido, com trabalho acumulado, teve de ficar no Rio. Muito bonitinha, ela caminhava pelas areias baianas quando um sujeito do pedaço, malemolente, sem camisa, foi chegando, o olhar pidão, aquele papinho-gentileza-com-a-turista. Ofereceu-se para ser um guia, falou das maravilhas locais, a natureza,” já viu o pôr do sol daqui?” e coisa e tal, até que abriu o sorriso alvo e tascou a cantada: “Moça tão bonita, sozinha, não pode. Com você eu caso!”

Ela agradeceu, explicou que já era casada. “Ôxi, cadê o marido?” “Não pôde vir”. Ele examinou a carioca de alto a baixo e não conteve a frase, o sotaque arrastado: “Mas é muuuita confiança”.

Viajar sozinha é legal, mas em algum momento vai aparecer aquele sujeito da cidade com o roteiro imperdível na ponta da língua e uns adjetivos acompanhando a oferta. Pode ser ótimo. E pode ser, bem… Pode render no mínimo umas gargalhadas com os amigos, na volta.

Fato é que os conquistadores desse naipe, assim como as comidas globalizadas, se espalham por todos os pontos do planeta. Mudam só uns ingredientes, a receita da conversa é basicamente a mesma. Como aquele no Peru: um rapaz falante, sorridente, chegava junto das turistas sem exemplares masculinos por perto, puxava um fio de assunto, sabia os fatos históricos, citava curiosidades. Às vezes dava sorte com alguma distraída.

“Sabe de onde vem o nome ceviche?”, perguntou para uma gringa loira. Ela não sabia. Ele caprichou nas versões oficiais, depois soltou a anedota: “Tem aquela que um inglês provou o peixe com muita pimenta e gritou: What is this shit?  Entendeu? This-shit, cí-vi-che, hahaha”. A gringa achou uma graça.

No outro dia, avistou um monumento de morena visitando as ruínas. Foi dizendo o papinho habitual. Ao ouvir “Sou brasileira”, ele cintilou. “Bra-si-le-ra”, repetia em portunhol. “Bra-si-le-ra.” A palavra ficou rolando na sua boca como um bombom. “Sabia que temos nossa caipirinha aqui, o Pisco Sauer? Já provou?”

Contou para ela a história do Pisco Sauer: que um americano chamado Victor Morris foi trabalhar no Peru, no começo do século 20, resolveu ficar de vez em Lima e abriu um bar. Um dia lhe pediram um whisky sour, o whisky havia acabado. Morris olhou uma garrafa de pisco e inventou a bebida que, mais tarde um pouco aperfeiçoada, se tornaria um ícone peruano. “Como es la caipirinha en Brasil”, completou, olhar sedutor. Encerrou a explanação convidando a brasileira para tomar um dos melhores Piscos Sour de Lima, o do bar Ayahuasca.

Ela titubeou, ele era um pouco grudento, mas por que não?  Quis tanto viajar sozinha, mudar a percepção das coisas, se abrir para o diferente. Era umas.

O Ayahuasca é lindo, imenso, ocupa um casarão antigo. Ele pediu dois Piscos Sours, o garçom trouxe as bebidas, era preciso pagar na hora. Ele saiu da sala fingindo atender um celular, sobrou para ela a conta. Ela viu que entrou numa fria e decidiu ir ao banheiro para depois sumir dali. Na volta, errou o caminho e flagrou o tipo de conversa com amigos. Nem precisou entender espanhol para perceber que o infame estava anunciando, pimpão, que passaria a noite com ela.

Um garçom observava e botou pimenta na cena: “Señorita, esse homem nem peruano é, ele é chileno, é um canalha”. O garanhão desmascarado ainda tentou consertar: “Mas o Pisco também é chileno, dizem até que nasceu no Chile”.  Ela saiu rapidinho, vermelha de raiva – não sem antes receber um cartão do garçom, muito gentil, um olhar confiável, um olhar meio assim Ricardo Darín. “Meu telefone. Para o caso de precisar de algo, uma informação, conhecer a cidade, o que for”, disse o Darín. Pelo menos esse era um gentleman.

Agora, faltou dizer que o garçom também não era peruano. Era argentino. Quando ela telefonou para uma dica de um bom restaurante, ele propôs: “Por que não viajamos um pouco? Já conhece Buenos Aires?”

 

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