NAS NUVENS

Quando eu saí fora da realidade pilotando (mesmo) esse charmoso aviãozinho. Nas fotos, estou com o meu instrutor, o Faria, e com a fotógrafa Marcela Beltrão.

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Por Cristina Ramalho

Ah, Amelia Earhart pode ter sido mais ousada, mas olha eu pilotando um aviãozinho lindo, vermelho, o céu de brigadeiro, sobrevoando montanhas, o mar, furando nuvens… Vou te contar: visto do alto, com um manche nas mãos, o mundo ganha graça nova.

O convite era para realizar um sonho. A Jazz Side, empresa disposta a realizar os sonhos desde que você pague o tamanho da sua imaginação, já levou um sujeito para surfar na Indonésia com o Kelly Slater, fotografou uma mulher sem problemas de auto-estima para a Playboy ( e o marido espalhou pela casa a sua coelhinha particular em painéis de 1,70m de altura e chamou os amigos para ver) e agora me propunha. Eu, jornalista, aceitaria sonhar para eles?

Dias depois, recebo uma caixa com um papiro dentro, marcando o horário, e um pin de piloto. Me acendi na hora. Na quarta, 8h30 da manhã, Pedro, um dos donos da Jazz Side, e seu motorista, Josildo, vieram buscar a fotógrafa Marcela Beltrão e eu. Na véspera, fizemos as piadinhas habituais: se morrermos é porque a pauta caiu, hahaha, mas no dia, ao menos para mim, o clima era de alegria absoluta. Fomos de carro até Jundiaí, onde fica a escola de pilotagem Air Training, dentro de um aeródromo. Quem nos recebeu foi o dono da escola, o instrutor Faria, e ali, diante do seu physique du role de tio da escola, já senti que a história ia ser ajuizada demais. Faria começou me dando aulas de teoremas, o que significa vento resultante, porque as pequenas asas traseiras são essenciais ao equilíbrio, e soltou uma frase: “Até um macaco aprende a voar. A diferença é que o bom piloto sabe o porquê das coisas”.

Cocei a cabeça.

Hora de conhecer o avião. Um Cirrus SR22, monomotor. Vermelho, tinindo, um chuchu que custa US$ 500 mil e, caso a coisa vire pesadelo, vem com um paraquedas que segura o avião inteiro. Fiz cara de esperta enquanto checávamos, juntos, combustível, asas, entrada e saída de ar.

Veio a primeira dose de realidade: eu não sentaria à esquerda, como comandante. Fui à direita no banco do co-piloto. “Você terá os mesmos comandos que eu, pode pilotar sozinha daí. Mas sentar aqui, só quem tem matrícula e fez exame médico, que a legislação não permite”, falou o tio Faria. Amuei. Desde quando sonho tem lei?

Segunda dose real: aquela história de fugir dos bandidos ligando o avião e dando tchauzinho não rola. As telas são muitas, o computador vem cheio de informações, surgem montes de números, gráficos, pedidos, e Faria tinha de clicar OK em item por item de segurança. Demorou para sair do lugar. Enquanto isso, fui aprendendo sobre mapas, o que significa a barrinha verde na tela ao lado do aviãozinho branco, onde acionar o paraquedas. Então…

“Ecolimaeco pede permissão, rota Jundiái, através de Jari até Ubatuba”. Ôba. Na decolagem pouco enxergamos à frente, o nariz do avião para cima. Dali a pouco, avião no céu, o manche é meu. Não é em U, igual aos jatos. É um joystick, muuuito sensível. Ouvi o comando: “Vire suavemente à direita”. É prá já. Juro, mal mexi o polegar e o avião virou. Ôpa. Ouvi um gemido lá atrás, onde estavam a Marcela e o Pedro, meus bravos passageiros. Toquei para a esquerda. O avião aprumou. Ah, fácil. Mas acho que o Faria me olhou com pena.

Então meu dia cintilou. Um sol danado lá fora, eu estava pilotando sozinha, atravessei uma nuvem fofinha, era como um floco gigante de algodão. Sonho puro. Furar nuvens, lá embaixo o marzão turquesa, eu tão feliz quanto quem devia estar nas lanchas incríveis que avistei de cima. Tio Faria me chamou para a real: “O avião está descendo rápido, sobe mais um pouco. Agora desce mais um pouquinho”. Minha mão escorregou, acho que o avião desceu um pouquinho mais. Deu um salto, acho. Ôpa, desculpem. Marcela soltou um grito, olhei para trás, ela e Pedro estavam brancos. Pedro pediu, educadíssimo: “Por favor, não fale ôpa. Imagine um cirurgião falando ôpa enquanto corta o paciente”. Ah, tá.

Na hora da aterrissagem, Faria assumiu. Descemos na minúscula pista do aeroporto de Ubatuba, fizemos a curva para subir de novo. Voltei ao manche. “Pode subir”. Decolei um avião! E realizei outro sonho de criança: falei no microfone com a torre. Faria mandou repetir: “Ecolimaeco cruzando para o portão 2 Quebec a 4500 pés”. Cruzes, um monte de gente respondeu fazendo perguntas. Faria entrou na linha.

Mais um pouco e aterrissamos firmes, seguros. Marcela continuava bem branca. Um vôo de uma hora e meia, 350 km/hora, 7500 pés de altitude. E tenho história para contar. Não dei loopings, nem caí na selva, cara de perdida e só de camiseta, mas por uns instantes, lá nas nuvens, tive aquela sensação de infância que a vida é de graça. Um sonho bom.

 

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