O cinema e a praia

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Cinco dias de cinema à beira-mar – matéria para o VALOR

Por Cristina Ramalho

Sábado, terceiro dia da mostra de cinema em São Miguel do Gostoso. A tela fica ao ar livre, plateia de pé na areia, bem diante do mar. Durante a projeção de Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, o público está acompanhando o drama dos personagens que sofrem em Ceilândia, cidade satélite de Brasília, quando estrelas cadentes cortam o céu de soneto de Gostoso. Espectadores olham para cima, um ou outro cutuca o vizinho de cadeira, sorrisos se abrem, como se as estrelas, as de verdade, tivessem um papel na trama. E por um instante São Miguel do Gostoso virou a Macondo mágica do Gabriel Garcia Marquez.

De 13 a 18 de novembro essa encantadora cidadezinha de praias lindas e bons ventos para o kitesurf, a 1h30 de Natal, RN, recebeu a Segunda Mostra de Cinema de Gostoso, criada e organizada pelo diretor Eugenio Puppo e seu assistente Matheus Sundfeld, da Heco Produções, junto com o Coletivo de Direitos Humanos, Ecologia, Cultura e Cidadania da comunidade local. Cinco dias, 62 filmes brasileiros recentíssimos, debates com realizadores e jornalistas de várias cidades, uma programação matinal só para crianças, à noite o cinema com telão impecável, som de primeira e 640 cadeiras, curadoria elogiada pelos convidados, patrocínio da Cosern, toda uma estrutura que surpreendeu os convidados.

Mas o que faz dessa mostra algo tão especial é sua natureza arejada. A praia, aqui, é muito mais do que o cenário. É um personagem ativo, com enredo, humor, psicologia. Pescadores e moradores se misturam aos turistas, entram e saem como se chegassem para tomar um sol, posam com a família para fotos na frente do cartaz da mostra, crianças passam correndo, todo mundo se conhece, a conversa fiada de cervejinha na mão.

Não há ingressos: na entrada, o público recebe cédulas de votação, e dá uma nota de 1 a 5 para cada filme. As cadeiras são de plástico, dessas de praia, e se a sessão lota, basta se esticar na areia. Uns falam alto, dão risada, emitem opinião no meio como se estivessem na sala de casa, vendo TV, e na real é isso mesmo. A grande maioria dessa turma nunca tinha ido ao cinema na vida.

O que não impediu os gostosenses de mergulharem nas histórias. No documentário Abraço de Maré, um curta do potiguar Victor Ciriaco, uma mulher conta como é estar casada com o pescador, a falta de vergonha dele, passando faceiro com moça mais nova diante dela, também a falta de dinheiro de todo dia, a vida nem sempre moleza numa casinha à beira d’água. Na plateia, mulheres reais se reconhecem no ato, riem alto, comentam dos próprios maridos como se conversassem ao vivo com a moça da tela.

Domingo à noite, exibição do longa A História da Eternidade, do pernambucano Camilo Cavalcante, um retrato de um sertão estilizado, clima de fábula, história densa. De repente veio a cena de uma avó ardendo em desejo pelo neto, outra da sobrinha arrancando a roupa para se deitar com o tio, e na plateia um sujeito meio grande levantou-se irado. Aquilo era demais. Anunciou em bom som, o sotaque carregado: “Esse filme é todo er-ra-do!”. Saiu, seguido por mais uma meia dúzia de indignados.

Teve também o silêncio envolvente, quando o script falou direto ao coração da plateia. Como durante a exibição do filme que o público escolheria como o vencedor da mostra, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro. Não se ouvia um “ a “ entre os mais de mil espectadores que se espalharam pela areia, ou em pé lá no fundo. No final, com o gesto revelador da última cena, o público aplaudiu animado, cúmplice. Angelo Ravazi, produtor de cinema de São Paulo que levou os filmes De Castigo (de Helena Ungaretti), Hospedeira (de Rita Carelli), A Era de Ouro (de Miguel Antunes Ramos e Leonardo Mouramateus) e A Revolução do Ano (de Diogo Faggiano), escreveu mais tarde na página do facebook da mostra que esse foi um dos momentos memoráveis do evento. “Me deu um pouco de esperança nesses tempos tão zoados”, disse.

É o povo de Gostoso descobrindo o cinema – e esticando o olho para o mundo além do marzão ali na porta. Taí a intenção principal de Eugenio Puppo. “Estamos formando o olhar do cinema aqui, e mais do que isso, o olhar da cidadania”, diz ele. É também um projeto maior: com verba captada via lei estadual Câmara Cascudo, Puppo e Sundfeld criaram uma turma de alunos de linguagem audiovisual ali em Gostoso. Um curso de três anos, ministrado por professores de São Paulo e de outras cidades, que dão módulos de roteiro, produção, filmagem, edição para 50 alunos recrutados numa seleção entre 270 candidatos.

Quando começaram esse projeto, no ano passado, Puppo e Matheus rodaram as estradinhas de terra da região num carro alugado, convidando os jovens de assentamentos de sem-terra, dos povoados próximos, a aprender o que é e como se faz cinema.

“Eu progredi muito com o curso, quero progredir mais, me passa um monte de ideias na cabeça e agora eu sei que posso escrever, fazer aquelas ideias virarem histórias”, fala o magrinho Leonardo Maximiano, 24 anos, morador do assentamento Novo Horizonte, entusiasmado com tantos outros horizontes que antevê nas aulas. Leonardo e seus colegas de curso estão no coletivo Nós do Audiovisual. Assinam dois curtas exibidos na mostra, o documentário Promessas e o bem feito Nas Lonas, ficção que os meninos filmaram na feira de Gostoso.

“Cinema é o que eu amo fazer. Eu fico na dúvida entre cinema e jornalismo, mas acho que cinema me toca mais, e também penso em ser atriz de teatro”, diz a bonita Rosângela Modesto, 16 anos, sete irmãos, pais que nunca saíram dali. Ério, compenetrado, acredita que foi selecionado porque sempre teve interesse na linguagem audiovisual. Os outros dão risada, sacaneiam, “você nem sabia o que era isso”. Raiane, Mércia, José Edivan, Everton, alguns que nasceram antes da luz elétrica chegar por essas bandas, contam que agora olham tudo de outro jeito – “A gente vê uma cena na TV e já sabe onde está a câmera, como foi filmada, se aquilo tá legal”–, assistem clássicos nas aulas, O Nascimento de Uma Nação, de Griffith, ou o Cidadão Kane, do Welles.

“Existe um mercado de trabalho real para essa moçada. O mercado que mais cresce hoje é o audiovisual, e eles aqui mesmo em Gostoso podem fazer vídeos para pousadas, para a prefeitura, para as empresas, para a companhia de energia eólica”, diz Puppo.

Por enquanto, os garotos assistem o resultado das aulas na tela grande da mostra. Os seus curtas Promessas e Entre Lonas foram exibidos no dia do encerramento. Amigos e parentes apontam no meio da sessão: “Olha lá a Rosangela”. “Olha a Mércia! “ . Clima de euforia. Puppo e Matheus anunciam os vencedores da mostra e chamam realizadores para o palco. Convidados com rostos bronzeados e vestindo bermudas elogiam a curadoria do evento, a beleza da cidade, as peixadas da Maristela, todo mundo deslumbrado com esse festival de astral tão leve, ensolarado.

Joaquim Castro, diretor do documentário Dominguinhos, vencedor como menção honrosa, recebe o prêmio com o filho Ernesto no colo, e agradece no microfone ao seu Chico, o pipoqueiro de Gostoso. “Ele vende pipoca a R$ 1, isso é uma maravilha, isso não existe”. Faz um vento danado. Hora de tomar uma caipirinha.

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